As Tapeçarias de Pastrana do 3º Duque de Bragança

>> quinta-feira, 11 de maio de 2017

As Tapeçarias de Pastrana do 3º Duque de Bragança

O Museu Paroquial de Tapeçarias de Pastrana prepara-se para comemorar os 350 anos de posse das quatro grandes tapeçarias de tema português, que, em 1667, lhes oram doadas pelos duques do Infantado Está por averiguar se os Duques tinham obtido as tapeçarias em pagamento de empréstimo, como parte de um dote, ou por qualquer outra razão. O director do Museu, Rev. Padre Emílio Esteben, dirigiu-se-me há pouco, dizendo que gostaria de ter alguma contribuição portuguesa nesta ocasião, e propondo que fosse eu a colaborar nesse sentido. Fora eu quem revelara ser o 3º duque de Bragança, o mandatário das tapeçarias, era certo que lhes dissesse mais alguma coisa. Eu? Impossível. Já não tenho idade para isso. Depois reconsiderei, prometi fazer o que pudesse. O 3º duque de Bragança é uma figura histórica muito interessante, e o homem - fosse ele quem fosse - responsável pela realização das quatro tapeçarias, que hoje admiramos, merece atenção. O duque de Bragança? Não foi D. Afonso V quem as encomendou? Não. Quem o afirmou, errou.
As tapeçarias até ali praticamente desconhecidas dos portugueses foram expostas em Lisboa no MNAA em 2010. O museu deu um nome à Exposição: ‘Invenção da Glória’- D. Afonso V e as Tapeçarias de Pastrana’. O mandatário das tapeçarias teria sido portanto D. Afonso V. A oficina onde haviam sido tecidas fora, segundo o catálogo, a certa oficina de Tournay. Quanto ao desenhador, o Museu hesitava entre dois nomes. A identificação de D. Afonso V como mandatário daquela obra pareceu-me muito duvidosa. O Museu não se apoiava em qualquer documento comprovativo, e D. Afonso V, tanto quanto se sabe dele, não era homem a se glorificar a si mesmo. E, sobretudo, ele não podia ter meios para pagar as somas fabulosas que tapeçarias daquela qualidade e daquele tamanho forçosamente tinham custado. Notoriamente generoso, D. Afonso dera metade do reino aos amigos, e o reino acabara de custear uma empresa militar muito custosa. Em Portugal só dois homens estariam então na condição de custear aquelas peças, o 2ºduque de Bragança, ou seu filho primogénito, D. Fernando, futuro 3º duque de Bragança. O testamento do então duque de Guimarães, prova que a obra foi sua.
Em 1476, em Bejar de Arevalos, em Espanha, durante a campanha que terminaria com a batalha de Toro, o Duque faz o seu testamento, e trata muito particularmente da disposição de quatro tapeçarias.[1] Sendo pouco provável, que, à data, existissem em Portugal, outras quatro grandes tapeçarias, a autoria do Duque está provada. O documento foi revelado por mim durante a Exposição em carta publicada no Expresso. Já não foi a tempo de evitar que se publicasse um dado errado, mas não duvidei que o Museu daria a seu tempo a conhecer a informação correcta.
Vim agora a saber, que isso não sucedeu. Depois da Exposição de Lisboa, as tapeçarias foram restauradas, e, em seguida, expostas em várias grandes cidades na Europa e na América. Quando da sua exposição em Washington, o Washington Post publicou sobre elas um longo artigo de Phillip Kennicott, seu crítico de arte. Este dá tal valor àquela obra, que procura a opinião de Barbara von Berghahn, professora de História de Arte na George Washington University. Obviamente, o MNAA não dera entretanto a conhecer o nome do verdadeiro mandatário. O que é que isso importa? Que diferença faz, se foi D. Afonso V ou o duque de Bragança, quem mandou fazer aquilo? Para estudar a heráldica, as armas, as bandeiras, não faz grande diferença, é verdade, mas para a interpretação daquilo que ali se conta, faz toda a diferença. Aliás a questão que se deve pôr é outra. A questão é esta: a saber-se o MNAA podia dar, sobre as tapeçarias, uma identificação para a qual não tinha documentação, que não podia apoiar com argumentos lógicos, e, finalmente, se era lícito o Museu reforçar a identificação - que sabia não ser correcta - com dados concretos imaginários. Creio que a esta questão só há uma resposta: Um Museu não pode saber tudo sobre todas as obras de Arte que lhe tocam, e, quando assim é, deve dizê-lo. Mas não pode fingir que sabe, dar informações, que pensa serem certas, esperando que o tempo faça o favor de lhe trazer as provas. Um museu nacional tem responsabilidade adicional. A sua opinião é ouvida, em caso de dúvida é dele que se espera a última palavra sobre uma peça de arte nacional da sua especialidade. Quer esta esteja em Portugal, quer mo Estrangeiro.
O director do Museu de Pastrana enviou-me as fotografias que o Museu mandou fazer para esta ocasião. São quatro tiras, de 67 cm de comprimento e 24 cm de altura. Espantou-me o bem que nelas se veêm os mais pequenos detalhes. Distinguem-se as figuras, o riso, ou a seriedade nas caras. Parece uma grande pintura, pensei. Dias depois, contemplando de novo aquelas tiras, digo para comigo: ‘tem graça, parecem iluminuras’. E abre-se-me uma luz. Não ‘parecem iluminuras’, ‘são iluminuras’. Aquilo é obra de um daqueles artistas que desenhavam com a sua pena afiada as cenas da vida religiosa e secular. Só um homem dessa arte poderia ter fixado com tanta perfeição, em detalhe, cenas de com dezenas, talvez centenas, de figuras individuais. O fotógrafo que o Museu de Pastrana encarregou destas novas reproduções, usou naturalmente os novos processos, e conseguiu - não realizando decerto o que estava fazendo, e de forma que só um profissional saberá explicar - esta coisa impensável: que se viesse a conhecer o desenho a partir do qual se partira para os cartões que os tecelões usaram para tecer as tapeçarias que hoje conhecemos, desenhado em pergaminho ou velino, serviu para que em Flandres se tecessem as tapeçarias. O desenho inicial seria gradualmente agigantado até atingirem os 15m de largura e 7m de altura que se pretendia para cada tapeçaria.


Evocação do Cerco de Arzila









Desembarque







Guerra de Arzila







Rendição de Tânger








As duas primeiras tapeçarias parecem ser um par. Enquadradas de verdura e flores, eram tapeçarias para quarto de senhora, são decerto aquelas que o Duque no seu testamento, destinava a sua mulher. A terceira e quarta destas peças são tapeçarias realistas, de guerra. O assalto a Arzila e a conquista de Tânger são tapeçarias de homem. O Duque tem as consigo durante a campanha de Toro.
A primeira tapeçaria representa, segundo José de Figueiredo, o cerco de Arzila, e não me passou pela cabeça duvidar da classificação. Espantava-me um pouco ver a D. Afonso V e seu filho caracolando nas suas montadas quando estavam no perigoso cerco de Arzila. De facto não estavam. Estavam naqueles ricos trajes em seus grandes cavalos cobertos de mantas doiradas para tomar parte na encenação que seu primo Fernando imaginara para comemorar o cerco e a conquista de Arzila. Na miniatura salta aos olhos que é disso que se trata. Uma barreira de tábua enfeitada com os pendões dos combatentes estende-se a toda a largura da imagem. À direita tem uma porta. No interior da barreira, do redondel - provavelmente aquele onde se realizavam as justas - estão o Rei e o Príncipe e os grandes senhores, o condestável-mor, o alferes-mor. Junto com eles, no mesmo espaço, estão simples soldados com suas picas, estão bombardeiros com os canhões do seu ofício. É o retrato colectivo de companheiros de armas. Numa abertura do espaço central avista-se ao longe uma pequena cidade. É decerto a imagem figurada de Arzila, a cidade cuja conquista se está comemorando. O artista enquadrou a tapeçaria de alguma verdura à direita, e de algumas flores, à esquerda.
A segunda tapeçaria representaria, sempre segundo José de Figueiredo, o desembarque em Arzila. Creio antes que representa o desembarque em Lisboa no regresso de Arzila. Um pouco de água muito azul diz-nos que se está no rio. Vê-se um mastro de nau caído sobre a areia. Em terra há aqui e ali verdura no chão, as bandeiras flutuam ao vento. Não se vêm os grandes senhores. Deixaram o campo livre aos seus homens de armas. Tudo exprime a alegria. Vêem-se casas brancas com telhados encarnados ao fundo. É Lisboa, dizemos, mas se está ali a torre de uma mesquita? Como explicá-lo? Parece-me que nesta tapeçaria se trata como na primeira de uma encenação, da encenação de desembarque. Só se saberá ao certo quando for lida a inscrição que há no topo desta e das outras tapeçarias.
O MNAA deu um nome à Exposição: ‘A Invenção da Glória - D. Afonso V e as tapeçarias de Pastrana’. Ou seja, as tapeçarias teriam sido criadas por D. Afonso V para comemorar a glória por ele alcançada com as empresas de Arzila e Tanger. E, desta forma, ‘inventara a glória’. É demasiado subtil para a minha compreensão. D. Afono V foi sem dúvida o inspirador da conquista de Tânger. Para conquistar glória? Está-se em 1471, o tempo dos cavaleiros, que iam de terra em terra em busca de ‘honra‘ já passou, e não eram os reis que se empenhavam nessas aventuras. Podiam partir em guerra pelos mais variados motivos, alegando as mais variadas razões, não podiam declarar que iam em busca de glória para a sua pessoa. As empresas de Arzila e Tânger tinham como objectivo uma razão muito concreta, conseguir uma ‘base naval’ na costa atlântica de Marrocos para proteger o lucrativo comércio da Guiné. O rei podia alegar mais elevados propósitos, mas a razão inequívoca era sabida, e não se lhe perdoaria se fosse outra. Dos Príncipes exigiam-se empresas de ordem racional, de proveito para o seu reino. Se isso lhes assegurava alguma glória, tanto melhor. Mas não era o fim a que deviam aspirar, e do qual se iriam vangloriar. Os tempos eram realistas. O homem descobrira que a sua vida na terra era importante, que não estava no mundo unicamente para ganhar o céu. Os homens empenhavam-se em negócios produtivos, nasciam grandes casas de comércio. Descobrira-se o valor do dinheiro. Vivia-se no mundo do humanismo, do realismo. A Europa abrira-se a um mundo novo. Discutiam-se novas ideias, descobriam-se as artes greco-romanas e a sua literatura. Em Itália os arquitectos imitavam a vila romana, os pintores esqueciam santos e santas e pintavam homens e mulheres. Em 1450 em Mogúncia, na Alemanha, um homem conseguira imprimir livros com letras móveis. As antigas ideias são reproduzidas por métodos novos. O duque de Bragança é homem do seu tempo, concebe uma coisa absolutamente nova, umas tapeçarias nas quais se contavam feitos reais vividos por ele. As quatro tapeçarias contam em uma espécie de banda desenhada a guerra de Arzila.
O próximo artigo será sobre o Duque e o seu artista.




[1] D. António Caetano De Sousa, Provas da História Genealógica da Casa Real Portuguesa, Tomo III, II Parte, pag. 216 – 228, Coimbra, 1949

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