As tapeçarias do Duque de Bragança - Encomendar uma tapeçaria

>> sexta-feira, 26 de maio de 2017

Quando D. Fernando, futuro 3º duque de Bragança, redigiu o seu testamento, e nele se refere às suas quatro tapeçarias, estava usando o nome francês dos panos de lã com os quais se enfeitavam paredes. O uso da expressão francesa era lógico, já que aquilo a que se designava por tapeçaria era, em fins do século XV, um elemento decorativo praticamente desconhecido em Portugal. Sabe-se que D. Afonso V possuía uma tapeçaria flamenga que tinha por tema a ‘Justiça de Trajano’ segundo uma pintura de van Eyck, peça que fora provavelmemte oferecida ao Rei por sua tia, D. Isabel de Portugal, duquesa de Borgonha. Provavelmente não existia mais nenhuma. Nos séculos XVI e ainda na primeira metade do século XVII mencionam-se frequentemente ‘panos de armar’ e ‘panos de raz’, ou de Arras, nos inventários de bens móveis de casas abastadas. As paredes cobriam-se de tapeçarias de lã no inverno e de bonitos panos de seda no verão. Também essa moda passou. As grandes casas foram abandonando esse elemento decorativo. Queriam pinturas nas suas paredes, não aquelas velhas peças que a traça por vezes comia. O conde Alba de Liste ofereceu quatro panos de tapeçarias da série ‘Guerra de Troia’ à Catedral de Zamora, e, anos mais tarde, os duques do Infantado despacharam generosamente as suas tapeçarias portuguesas para a Collegiada de Pastrana. Mas isto é adiantar sobre o tempo, nos anos 70 do século XV a tapeçaria estava na moda. Não se encontravam feitas, havia que as encomendar.
O cliente interessado na aquisição de uma tapeçaria contactava uma oficina de tecelagem, e combinava com o mestre a feitura da peça que pretendia. Podia trazer uma ideia daquilo que desejava ver reproduzido, podia desejar uma sugestão. Tendo esse primeiro problema resolvido, o mestre calculava as despesas em lã e talvez em seda, que a peça exigiria, e estabelecia o aproximado custo final. Faltava designar o desenhador que se encarregaria dos cartões a partir dos quais se iria tecer. O mestre consultava a sua lista de desenhadores, e sugeria aquele que lhe parecesse mais adequado para a peça projectada. O Duque de Bragança não se deslocou decerto em pessoa a Flandres. Deve ter enviado um emissário com as suas instruções. O homem contactaria decerto alguém de entre a comitiva portuguesa na corte de Borgonha, e sabia o que se dizia quanto aos diferentes ateliers, quanto aos mestres e aos métodos de trabalho, e, naturalmente, quanto às últimas novidades no ramo. Mas por mais bem informado que estivesse, por mais alto que fosse aquele a quem representava, no fim, para a feitura e encomenda das suas tapeçarias, ele teria de percorrer o caminho de qualquer outro cliente. Com uma diferença. D.Fernando sabia que medidas deviam ter as suas tapeçarias, mas ele não pretendia ver reproduzido um quadro ou uma gravura existente, queria ver reproduzido algo que ainda estava na sua imaginação. Precisava antes de tudo de um desenhador. Homem de gostos requintados, não tendo de olhar a custos, o Duque havia de querer o melhor artista que houvesse então a trabalhar naquele ramo. Obteve-o, e talvez nem tenha sido difícil. A casa Pasquier Grenier, já então a mais prestigiada entre os ateliers de tecelagem, acabara de lançar uma série de onze panos nos quais se representavam os episódios marcantes da guerra de Troya. Não faltavam nela os feitos guerreiros, se o senhor duque português pretendia quem lhe desenhasse a sua guerra, ninguém mais apto do que o desenhador que o atelier empregara no desenho e composição da sua ‘Guerra de Troya’.
Os sinais indicam que a proposta foi aceite, e que o homem que desenhou as tapeçarias do Duque, ditas da ‘Conquista de Arzila’ foi o mesmo que terminara pouco tempo antes, os cartões para as tapeçarias, ditas ‘da Guerra de Troya’.
O artista desenhador medieval não assinava a sua obra, é pelas características específicas do seu trabalho que ele era conhecido, e por elas que hoje se pode atribuir determinada obra a determinado artista. O agigantado das tapeçarias da Conquista de Arzila distrai, o espectador perde-se, não consegue encontrar o sentido da imagem. Hoje, fotografias recentes desses panos, reduzindo-os às proporções do primeiro desenho da obra, permitem fácil leitura das imagens. O que salta desde logo à vista, é o facto de praticamente todo o espaço da imagem estar coberto por figuras, por uma imensidade de figuras. Não há céu, horizonte, ao fundo podem surgir umas pequenas casas. É uma das marcas das tapeçarias da Guerra de Tróia. Há outras similitudes, o azul do mar com as suas pequenas ondas, as flores espalhadas pelo chão, a forma de desenhar o cavalo. Tudo é significativo, mas, só por si, não seria o suficiente para permitir a conclusão que se trata do mesmo desenhador. Há porém um detalhe que, esse sim, não permite dúvida: nas duas séries, as tapeçarias têm no topo uma tira de cor de desenho idêntico, com linhas de texto esclarecendo a imagem. A similitude dessas tiras nas duas séries não é coincidência. O homem que havia usado esse processo em obra anterior, sugeriu-o muito naturalmente ao novo patrono para as suas tapeçarias, e a sugestão foi aceite. Não pode haver dúvida que se trata do mesmo desenhador, que o homem que desenhou as tapeçarias da Conquista de Arzila para o duque de Bragança, foi o mesmo que fez os cartões da ‘Guerra de Troya’ para o atelier de Pasquier Grenier



                                    Guerra de Troya
                                                                          Catedral de Zamora





                                                  Conquista de Arzila
                                                                     Guerra de Arzila                                        
         Museu Paroquial de Pastrana


Ainda hoje se discute quem teria sido esse homem, e, ignorava-se que ele desenhara outra grande obra. E que a desenhar in loco, que estivera em Portugal. É óbvio que uma das condições estipulada pelo Duque, quanto ao desenhador que pertencia, era que ele tivesse disposto a vir a Portugal. Veio. Porque era cá que estava o Duque, que podia dizer ao desenhador como as coisas se tinham passado. As extraordinárias tapeçarias da Conquista de Arzila são fruto da colaboração de artista e patrono, e tiveram de ser desenhadas em Portugal. 

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