Ordenamento das quatro tapeçarias

>> terça-feira, 5 de setembro de 2017

Expostas em Lisboa em 2010, restauradas em seguida por obra da Fundação Carlos de Amberes, expostas em seguida em várias cidades da Europa e dos Estados Unidos, a reacção perante as tapeçarias ditas ‘de Pastrana’ foi em geral esta: admiração pela vida e o colorido, estupefacção perante a enormidade, e.... perplexidade. Como não podia deixar de ser, dado que é obra de inspiração e imaginação pessoal de um mandatário amador, desenhada por um mestre na sua arte, que desenhava o que lhe mandavam desenhar. Aquilo não tinha nada a ver com as clássicas grandes tapeçarias flamengas, das quais há exemplos em palácios, catedrais e museus. Como sucede com obras de imaginação que são de inspiração muito pessoal, a interpretação depende do observador. A que se segue é a minha, outros terão possivelmente outra visão. Creio no entanto que haverá concordância quanto àquilo que me parece ser o ordenamento das quatro tapeçarias. Creio que é ordenação lógica, e aquela que permite a compreensão. As quatro peças foram classificadas por José de Figueiredo na seguinte ordem:

1-Cerco de Arzila
2- Desembarque
3- Assalto a Arzila    
4- Rendição de Tanger

A leitura normal seria de 1 a 4 sem interrupção. Ora lida dessa forma a leitura não faz sentido, há diferenças significativas entre as diferentes  peças. Diferenças que até agora eram inexplicáveis, porque o gigantismos das tapeçarias não permite as necessárias comparações. Hoje, com as bandas fotográficas, temos as tapeçarias nas mãos, e  detecta-se quase de imediato que não se trata de uma tapeçaria corrida de quatro peças, mas, sim, de um conjunto de dois pares: as peças 1 e 2 formam um par, as peças 3 e 4, outro. Os dois pares distinguem-se nitidamente no estilo e no sentido. 3 e 4 são factuais, descritivas, pretendem ilustrar de forma real o assalto à cidade de Arzila e a subsequente rendição de Tanger.  As peças 1 e 2, Cerco e Desembarque, não ilustram de forma real e factual o cerco e o desembarque, evocam antes os dois feitos. Hoje diríamos que 3 e 4 são a reportagem séria de dois feitos, e que 1 e 2 ilustram a alegria dos feitos, são os retratos que se tiram depois da vitória.
As peças do assalto e da rendição foram decerto as primeiras que o artista, o cartonnier, executou quando chegou a Portugal.  Eram provavelmente as duas únicas que o Duque tinha em mente quando se decidiu por aquela obra. Do artista pretendia que rendesse aquilo que a ele, Duque, ainda estava na memória. Habituado a desenhar o que lhe era pedido e indicado, e decerto ainda marcado pelos desenhos para a ‘Guerra de Troia’, os combatentes da primeira peça, o assalto não são gregos e troianos,  são portugueses e árabes, mas a diferença parece-me pequena. As bandeiras e as armas é que são bem reais, o Duque ali estaria em pessoa para dar as necessárias indicações. Nesta tapeçaria temos os primeiros retratos das quatro figuras que dominam as quatro tapeçarias: D. Afonso V, seu filho, o príncipe  D. João, o duque de Guimarães, autor da obra, e seu irmão, marquês de Montemor. Vêem-se nesta tapeçaria em baixo, assistindo ao cerco de Arzila.  A cidade foi tomada, saqueada, apesar de se ter rendido. Era difícil segurar os soldados, porque o saque era a recompensa tacitamente garantida aos soldados, e em particular, aos mercenários que sempre constituíam parte do exército medieval. Neste caso, o saque foi tão terrível, que os habitantes de Tanger, receosos que lhes viesse a suceder o mesmo, começaram a abandonar a cidade. D. Afonso mandou lá o marquês de Montemor com uma pequena força de homens a cavalo, e o marquês, constatando que a cidade estava quase deserta ocupou-a sem problema. A tapeçaria da ‘Rendição’ ilustra esse momento. 

Rendição de Tanger

                  O marquês de Montemor diante da cidade

Vejamos agora as tapeçarias 1 e 2. Na tapeçaria 1, a do Cerco, espanta ver nela a D. Afonso V e a seu filho caracolando despreocupados nas suas montadas cobertas de mantas doiradas em tão perigosa situação. Tudo indica que não estão em verdadeiro cerco, estão participando na encenação que seu primo Fernando imaginara para comemorar o cerco de Arzila. Uma barreira de tábuas enfeitada com os pendões do rei e do duque, estende-se a toda a largura da imagem. Pretende talvez figurar o bordo de uma nau, mas à direita há uma pequena porta, o que desmente essa versão, pode ser a barreira de um redondel. No interior desse círculo estão o Rei e o Príncipe, o Duque condestável-mor está à direita do rei com a espada deste. Junto do Príncipe, o marquês de Montemor, que exercia o cargo de condestável em determinadas situações. No mesmo espaço estão simples soldados com suas picas, estão bombardeiros com os canhões do seu ofício. Numa abertura do espaço central avista-se ao longe uma pequena cidade. É talvez a imagem figurada da cercada cidade de Arzila. Não é o Cerco, é a evocação do Cerco num quadro-vivo, e é, coisa que creio única no imaginário medieval e creio que até da Renascença, um autêntico retrato. O retrato colectivo dos homens que haviam participado em um mesmo feito. O Rei e o Príncipe identificam-se pelo seu traje dourado, as caras estão de prefil. Junto do rei, à sua direita, olhando bem em frente, está como na tapeçaria do assalto, o Duque de Guimarães. 


Tapeçaria do Cerco


Tapeçaria dita ‘do  Cerco’ (canto direito)

No palácio ducal de Vila Viçosa, hoje da Fundação Casa de Bragança, há um número de retratos do 3º Duque, todos obviamente inspirados no retrato 44 do Duque na tapeçaria do Cerco.


D.Fernando II, 3 duque de Bragança

           A tapeçaria do Desembarque, é feita no mesmo espírito da do Cerco. O que se ilustra na imagem é um desembarque, sim, mas não é decerto um desembarque arriscado em terra inimiga. É verdade que, à direita, se avista uma cidade protegida por muro, e, que, diante do muro há um renque de  caras aflitas. Recordam os muitos homens afogados no desembarque. Mas não é para assustar. Os soldados desembarcam alegres, as bandeiras flutuam ao vento, e, em baixo, o Rei e o Príncipe, recém-desembarcados, passeiam nas suas montadas doiradas ao longo da praia. Não é o desembarque, é a evocação do Desembarque. Um desembarque alegre e um Cerco alegre. As tapeçarias 1 e 2 são tão diferentes de 3 e 4 que podiam não pertencer ao mesmo conjunto. O que na realidade era o caso. 3 e 4, de tema marcial realista, são tapeçarias de homem. O Duque tem-nas consigo durante a campanha de Toro. 1 e 2, enquadradas de verdura e flores, são tapeçarias de quarto de senhora, são decerto aquelas que o Duque no seu testamento lega à Duquesa, sua mulher. 

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