Os Cavalos Dourados

>> segunda-feira, 9 de abril de 2018

Os Cavaleiros dourados nas tapeçarias do Desembarque e do Cerco parecem uma incongruidade. No entanto, o facto não foi tido como tal pela maioria dos observadores, tanto os leigos, como os conhecedores. Assim, o Dr. José de Figueiredo, que deu o nome às tapeçarias, achou aparentemente muito natural, que durante o cerco a Arzila o Rei e o Príncipe se apresentassem em cavalos com atavios próprios para torneio. Por sua vez, o Dr. Reynaldo dos Santos, que atribuiu as tapeçarias a Nuno Gonçalves, não se espantou, que este, um pintor de obras sacras, soubesse desenhar - e na perfeição - cavalos piafando. Isto, quando o cavalo, é, reconhecidamente, difícil de desenhar, e um pintor quatrocentista de Arte Sacra não podia ter tido ocasião de o ensaiar, já que na imaginária da Bíblia e do Novo Testamento não encontraria muita ocasião de desenhar um cavalo. Hoje, sabendo quem mandou fazer as tapeçarias, e que se conhece também quem foi o seu cartonnier, já se encontra - creio eu - explicação plausível para a figuração do Rei e do Príncipe daquela forma naquelas duas peças. D. Afonso V, o Príncipe D. João figuram em três das quatro tapeçarias, nas do Desembarque do Cerco, e na do Assalto. A presença das duas figuras régias não se impunha. As tapeçarias não teriam perdido nada do seu valor histórico, se os dois senhores nelas não se vissem. A pé ou a cavalo. E decerto não existiriam se o autor da obra fosse outro que D. Fernando, duque de Guimarães. Ele e D. Afonso V eram amigos de infância, a amizade perdurara pela vida fora, e, segundo frei Jerónimo de S. Romão, na sua ‘História da Sereníssima Casa de Bragança’, [i] “El-rei fazia dele tão alto conceito, que nenhuma coisa meditava nem punha em prática pertencente à guerra sem que ele fosse ouvido”. Não seria só a guerra que eles discutiam, a feitura daquelas tapeçarias, obra tão nova em Portugal, foi forçosamente tema de conversa entre os dois amigos, e na gente da Corte em geral, e a presença das duas figuras nas futuras tapeçarias nunca deve ter sido posto em questão. Considerando a amizade entre o Duque e o Rei, e as inúmeras provas dessa amizade que o Duque recebera do Rei, era impossível não incluir a este nas tapeçarias. E havia, para o Duque, razão que fazia muito desejada a presença do Rei. É que esta implicava de imediato que também o Duque, como condestável, nelas figuraria. Há algumas dúvidas quanto ao exercício desse grande cargo. É que também o marquês de Montemor, irmão do Duque de Guimarães, exercia o cargo. Parece, que o marquês o exercia na Corte e em todos os actos civis, enquanto seu irmão o fazia em campanha. ‘Apesar de ser seu irmão, o marquês de Montemor, o condestável do reino, “o Duque servia sempre este posto nas expedições militares, em que com el-rei se achou,…”: O Duque figuraria portanto junto de D. Afonso nas tapeçarias, se o Rei nelas figurasse. Como sucedeu. Uma primeira figuração de D. Afonso V com seu filho e os seus condestáveis aparece na tapeçaria do ‘Assalto’, mas não se pode dizer que a figuração, com quatro caras na margem inferior da imagem, fosse feliz. Talvez que alguém tenha lembrado que aqueles senhores se distinguiriam melhor dos outros homens se estivessem a cavalo. O mais provável, porém, é que a sugestão partisse do mestre dos cartões. Ele tinha prática na matéria, e já fizera outras sugestões, que tinham sido aceites. Uma rápida pesquisa nas imagens da ‘Guerra de Troia’ prova que a suposição é correcta. Cavalos como aqueles das tapeçarias de Arzila figuraram em pelo menos uma das na peças da ‘Guerre de Troye’.

 
 
 
 
Tapeçaria da ‘Guerre de Troye’

 

 
 
  Tapeçaria do Cerco


 
 
 
 
 
 

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