Livros tambem se pomovem II

>> segunda-feira, 19 de janeiro de 2009



21. A Apresentação

A apresentação de livros por um apresentador é uma das mais recentes formas de divulgação da obra literária.
Quando ainda não se apresentavam livros apresentavam-se, por exemplo, as meninas de primeira sociedade ao soberano. Era um dia muito especial, a menina vestia traje que arruinava o orçamento da família para aquele ano, era conduzida ao Paço real, fazia uma vénia bem estudada aos soberanos: era-lhes ‘apresentada’. A monarquia acabou, houve outras apresentações. De artistas nos espectáculos de circo, por exemplo.. No Coliseu dos Recreios havia um senhor François e sua filha, mademoiselle François, que apresentavam os artistas. O palhaço rico, a malabrista, o ginasta entravam em cena, Monsieur François, vestido de casaca, indicava-os ao público com um gesto gracioso, às senhoras artistas pegava na mão, dizia-lhes o nome, umas palavra amáveis de apresentação, o senhor François era “apresentador” de artistas. Hoje apresentam-se livros, há os respectivos apresentadores. Dos quais o mais relevante é o professor Dr. Marcelo Rebelo de Sousa.
A razão pela qual o Professor precede, ou por vezes termina, as interessantíssimas análises políticas que faz aos domingos com uma apresentação de livros totalmente desporvida de interesse, é um mistério. E mistério também, a que critério obedece a escolha dessas obras. È pouco provável que o Professor percorra as livrarias para fazer a sua escolha, são decerto as editoras que lhe mandam as suas ultimas publicações, e será de entre estas que o Professor escolhe aquelas que irá “apresentar”. Que faz de forma simples. Pega, um por um, nos livros empilhados a seu lada, mostra-os ao público, diz de cada qual o título e o nome do autor, e acrescenta umas palavras elucidativas. Amáveis, em geral, e por vezes até entusiásticas. O professor “apresenta” livros.
Em tempos havia um programa no 2º canal em que Carlos Pinto Coelho entrevistava escritores e falava em seus livros. Por vezes também apresentava alguma obra de outro autor.
Eu tive a honra de ver livros meus apresentados pelos dois apresentadores.
A primeira vez foi em 2000. Em carta para a minha filha de 11 de Junho desse ano encontro a menção desse facto insólito: um livro meu, “Os Painéis.... Investigação? ou Adivinhação?” fora apresentado no programa de Carlos Pinto Coelho. “Já falámos várias vezes, escrevi eu então, para nos congratularmos de já lhes terem instalado telefone e para pasmarmos as duas pelo facto do meu livro ter aparecido no ACONTECE como Livro do Dia. Eu fiquei tão estupefacta que nem ouvi bem o que o Carlos Pinto Coelho disse.”
Os meus livros sobre os Painéis eram – e provavelmente ainda são - boicotados no Museu de Arte Antiga, onde a sua venda era proibida, e fiquei naturalmente grata a Carlos Pinto Coelho pela corajosa apresentação.
Seis anos após esse memorável acontecimento vi outro livro meu ser apresentado.
Um domingo de Fevereiro de 2006, nove e trinta da tarde, o professor Marcelo Rebelo de Sousa acaba de apresentar os livros da semana. O telefone toca em minha casa. Não me espanta. O Professor apresentou o meu livro no seu programa. Leu: “Na Rota da Pimenta”, acrescentou “ah, é de D.Manuel”, o telefone fatalmente iria tocar. Duas sobrinhas leitoras telefonaram, uma prima telefonou, de Itália falou-me a minha filha, um amigo participara-lhe de cá, que a mãe dela havia sido mencionada pelo Professor. Esperavam encontrar do outro lado uma tia, prima e mãe orgulhosa, toparam com uma autora pouco entusiasmada. “Falta de humildade, mãe” disse a minha filha. “Não sou futebolista, respondi, humildade é coisa do futebol”. O escritor nunca é humilde, mesmo que finja ser.
Fiquei a meditar sobre o papel dos média, e em particular da televisão, em matéria de livros. Pensei nos cinco anos que levara para contar quinze anos fundamentais dos descobrimentos portugueses, pensei na pesquisa séria das fontes, no esforço em redigir de forma a poder interessar mesmo o leitor menos culto. Será falta de humildade não me ter entusiasmado ao ver o meu livro ser mostrado, - apresentado – e ouvir uma voz, por sinal até de pouco entusiasmo, dizer: “ah é de D. Manuel”? É isso que conta, ser mencionada na televisão? Pergunta parva. É isso que conta. Na televisão fora apresentado um livro e ouvida esta frase “ah, é D.Manuel”, e o facto era tão importante que a autora da obra merecia ser felicitada e devia estar orgulhosa. Pelo que isso implicava quanto à qualidade do livro? Não, porque aquelas poucas palavras, ditas por quem as pronunciara, “promoviam” o livro, eram “comercialmente” importantes.
Comentei naturalmente o caso em carta para a minha filha.
13 de Fevereiro 2006, segunda-feira
“Ainda a apresentação do meu livro pelo Professor. Dá-me vontade de rir a repercussão familiar, mas não mudo de opinião. Foi decerto óptimo o livro ter sido mostrado, para que as pessoas saibam que existe. Até aí concordo que é óptimo, e estou muito grata ao professor. Mas deixe-me falar como autora. Uma escritora que escreveu um livro que é uma novidade no seu género, que sabe que há muitos anos não se publica um livro sobre os Descobrimentos, que sabe que o professor faz por vezes pequenas referencias aos livros que apresenta, essa autora - seja eu, ou fosse outra - não podia deixar de ficar desconsolada pela maneira como o livro foi tratado. Veio a seguir a um romance, e o comentário foi, “ah, este é história. È de D. Manuel. A Rota da Pimenta”. Assim escrito até talvez pareça óptimo, mas a mim a leitura pareceu-me tão desinteressada que me deixou gelada. Talvez eu tenha posto as minhas expectativas altas demais, mas foi o que sucedeu. Pobres autores, que querem sempre mais. No meu caso isso até nem se pode dizer, quando se trata dos meus romances, não tenho grandes aspirações, mas para este livro esperava de facto, ou nada, ou - caso se falasse dele - um pouco mais. .”
Terça-feira, 14 “Insistindo ao magno tema: o Professor sabe tudo de leis, de política, e de futebol, mas é menos sabedor em matéria de literatura, melhor, não tem à literatura o amor que tem ao futebol. É menos ‘profundo’ em literatura do que em futebol. ...... Se eu pudesse dar notas, dava ao Professor: ‘em futeboletura, dezanove, e em literatura, vá lá, catorze’

O que dizem outros
“De fácil compreensão, superficial, com aparência de profundidade, a televisão bate comercialmente todos os outros media. E mesmo o menos humilde dos autores sabe olhar ao lado comercial da questão. O fenómeno que em França foi Bernarda Pivot, deve-se à televisão. ...........”
O próprio Pivot explica-o em “Método de Pire”

Notas à margem
Domingo, dia 11 de Janeiro 2009
Entre as obras literárias apresentadas hoje pelo Prof. Marcelo Rebelo de Sousa estava um romance histórico que, tanto quanto sei, se passa em torno da batalha de Aljubarrota. A capa do livro é ilustrada com cena guerreira tirada de uma das tapeçarias, ditas de Pastorara (porque é lá que se guardam), que representam cenas das guerras de África no século XV. Aquelas tapeçarias, uma das grandes produções artísticas portuguesas no século XV, estão tão esquecidas (ou propositadamente ignoradas, como queiram ), que nem o autor do livro, nem o seu editor, nem o seu apresentador tiveram em conta a incongruidade de ilustrar a batalha de Aljubarrota, que se deu em 1385, com uma “vista” da tomada de Arzila, que se deu em 1471.

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De bibliotecas

>> segunda-feira, 12 de janeiro de 2009





20. A biblioteca de Hartmann Schedel
Os bibliófilos conhecem o nome de Hartmann Schedel pela sua “Crónica Nuerembergensis”, publicada pela primeira vez em 1493. O impressor foi Anton Koberger e os primeiros exemplares sairam a 14 de julho desse ano. Com as suas 1809 gravuras, é a obra mais ilustrada dos primórdios da impressão. Das gravuras têm especial valor as vistas de cidades, sobretudo de alemãs, mas também de algumas das mais importantes cidades da Europa. Entre elas há uma do Porto, talvez um pouco fantasiada, mas curiosa. Vê-se qualquer coisa, que parece grade ou rede atravessando o rio, como que a fechá-lo naquele local. É questão à parte, para especialistas em história do Porto. O que torna Hartmann Schedel atraente para o amador de livros, é a extraordinária biblioteca que ele constituiu, e a forma como o fez.
Cada biblioteca nasceu e cresceu da sua maneira, tanto as públicas como as privadas. É uma verdade de La Palisse, que não deixa de ser pertinente. As bibliotecas particulares são um espelho do seu criador ou da sua criadora, outra verdade conhecida . Que no passado não foram sempre as bibliotecas dos soberanos e dos príncipes as melhores e maiores, é que talvez nem todos saibam. O riquíssimo D. Manuel I, tinha à data da sua morte, em 1521, cerca de 49 livros. Os duques de Borgonha eram mais dados a livros, em 1467 possuíam uma biblioteca de 900 obras. Por esses anos a biblioteca de Hartmann Schedel, modesto médico de Nueremberga, tinha quase tantas.
Schedel herdou algumas obras, comprou muitas aos copistas e depois aos primeiros impressores, encomendou algumas obras em Itália, mas uma parte da sua biblioteca é constituída por livros que ele próprio copiou. Mesmo depois da invenção dessa arte, os livros impressos eram caros, e os impressores nem de longe conseguiam cobrir a procura dos amadores. Estes copiavam então - tal como aliás até ali o tinham feito - os livros que lhes interessavam. Na cidade de Augsburg (Augusta) havia um grupo de homens, que se reunia para escrever para seu próprio uso - provavelmente sob o ditado de um dos membros do grupo - os livros que os outros tinham, e eles não. Um primo de Hartmann Schedel pertencia a esse grupo, e forneceu-lhe algumas cópias de livros do seu grupo. As bibliotecas dos mosteiros eram ricas, os monges eram os grandes depositários da literatura latina e grega. O doutor Hartmann Schedel pedia licença aos abades para copiar, copiava. Livros de poetas e pensadores gregos e latinos, livros de medicina, de ciência, outros. Copiava.
.O médico tinha de ser astrólogo, da astrologia passava-se à astronomia. Em 1469, Hartmann Schedel inicia a cópia e a aquisição de tratados de astronomia e astrologia. No seu catálogo encontram-se umas trinta e cinco obras relacionadas com o assunto.
O tópico máximo da época era a terra como esfera, e a possibilidade da sua circum-navegação. Numa das margens do seu exemplar da "Ásia" de Eaneas Sylvius Picolomini (o futuro Papa Pio II), publicado em Veneza em 1477, Schedel escreveu a pergunta que ocupava toda a gente culta do tempo: "An terra circumnavigari posit?" "Poder-se-há circum-navegar a terra?"*
E que instrumentos se necessitariam para o efeito? Vários livros tratam desse apaixonante tema:
--Tractatis de astrolabio et -Spere solide et Turketum.
--Tractatus Spere cum figuris Euclidis;
--Astronomicon Iginii. Alcabicius cum commento. Abraham judeus de nativitatibus. Composicio astrolabii. Repertorium de mutatione aeris.
--Astrolabium Messahali cum figuris quadrans profacii judei, de Turketo. Chilindro etc.
--Descripio Astrolabii. Julius Firmicus. Astrologia Arati. Geometria Euclides per Boethium traducta .etc.
E por fim temos uma obra que Schedel regista como: “Astrolabium planum in tabulis. Algorismos. Computus. Tractatus de Spera Jo(annis) de Sacrobosco. Liber quadrantis. Astrolabium".
Trata-se sem dúvida do livro que veio a ser conhecido em Portugal por "REGIMENTO DO ESTROLÁBIO E DO QUADRANTE. TRACTADO DA SPERA DO MUNDO”, e com o registo desta obra na sua biblioteca, Hartman Schedel passa a ser um dos protagonistas do enigma histórico-literário que podemos designar por “Caso dos Guias Náuticos”.
O caso surgiu em 1865 quando um jornal de Évora publicou o texto da carta de um tal Jerónimo Muenzer, alemão, dirigira a D.João II no ano de 1493. Em 1883 o doutor Luciano Cordeiro dava a conhecer o livro onde vinha a dita carta. Ficou-se a saber que o referido livro - pertencente à biblioteca de Évora - continha, além da carta de Muenster, umas tábuas náuticas, um resumo do “Tratado da Esfera” de Sacrobosco e um “Regimento do Astrolábio e do Quadrante”, tudo em português.
Em 1890 um matemático alemão revelava a existência na Biblioteca Real de Munique de uma obra que parecia idêntica à de Évora. E, em 1914, o doutor Joaquim Bensaúde pegou no assunto e, comparando os dois livros, o de Évora e o de Munique constatou que tanto o exemplar de Évora como o de Munique continham a mesma tradução do “Tratado da Esfera” de Sacrobosco, e que em ambos os livros havia um “Regimento”, uma instrução para o uso do Astrolábio. A diferença era que o exemplar de Munique continha explicações minuciosas, nitidamente destinadas a navegadores novatos “da forma de calcular as latitudes pelo conhecimento da altura do sol” , e que a obra de Évora não continha essas informações, pelo que a última se destinava decerto a navegadores mais experientes. Os dois livros davam as latitudes de pontos já descobertos, mas enquanto o exemplar de Munique abrangia somente locais da costa africana atlântica até ao Equador, o de Évora abrangia já Java e as Molucas. O exemplar de Évora era portanto mais moderno que o de Munique, e era esse, o mais antigo , que devia ser estudado.
Foi o que o Dr. Joaquim Bensaúde fez, tendo publicado os seus estudos em várias obras. Seguiram-se estudos de outros investigadores, e, em 1998, entrei também eu para essa lista com um pequeno estudo sobre a possível proveniência e data do referido livro. Dá-se agora o caso de eu querer corrigir uma das afirmações que fiz no trabalho original - cujas conclusões não se modificam por isso - e acrescentar um novo dado, e lembrei-me de publicar essa versão revista e emendada na Net.
Não sei se haverá entre os possíveis leitores do meu ‘libri.librorum’ alguém que se interesse por um caso de investigação histórica e literária como o dos “Guias Náuticos”. É uma das incógnitas deste novo meio de comunicação. Mas basta haver um leitor interessado para já me considerar compensada. Decidi portanto divulgar aqui em PDF o dito estudo numa segunda ‘edição’.
Primeiro tenho de ver como isso se processa, pode demorar tempo. Avisarei logo que a coisa estiver feita.

*Stauber, Dr. Richard Die Schedelsche Bibliothek Herdersche Verlagsbuchhandlung 1908

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Arrumaçao ideal nao ha

>> segunda-feira, 5 de janeiro de 2009


19. Arrumação ideal não há
A arrumação dos livros é um problema. Há, é verdade, no processo da arrumação, coisas indiscutíveis, como seja a de pôr os livros grandes nas estantes de baixo. Sendo uma delas dedicada aos livros muito grandes, aos in folio, livros de arte, de estampas, de mapas, incómodos hóspedes, que requerem altura adequada. Por cima as prateleiras para os livros de tamanho médio e em seguida outras para livros um pouco mais pequenos e até algum muito pequeno. Que não são muitos, no meu caso. Aprecio pouco os exemplares minúsculos da arte tipográfica. Portanto, livros grandes em baixo, médios no meio e pequenos em cima. Se temos estantes altas de muitas prateleiras, sucede que livros se percam nas alturas, que fiquem anos sem serem consultados, lidos ou relidos, porque os arrumámos onde só com escadote chegamos. Não é que não tenhamos essa ferramenta, mas em geral o escadote tem os degraus cobertos de livros que ali estão para serem arrumados. Com um escadote a servir de estante dificilmente se chega ao topo.
Há evidentemente que dar uma ordenação específica aos livros, ordenar por autores, ou por género, ou pela matéria tratada. História, aqui. Por época ou por países? Junto dela as memórias, as biografias. E ao lado? Talvez os livros sobre como escrever história. E, livros sobre livros. E a filosofia? Os filósofos têm de estar à parte, isso ninguém discute, e os políticos e os historiadores também. O problema, escreve H. von der Meden, à volta com o mesmo problema, é quando Heidegger fala de Nietzsche, ou outros filósofos discorrem sobre política. Onde pô-los? “. E os poetas? Separados por nacionalidade? E se além de poetas são dramaturgos? É o caso de Goethe e de Schiller. Estão na secção de dramaturgia. Tenho-os em colecções completas, edições antigas e bonitas, mas de tamanho médio. Não no topo da estante, mas bastante no alto, mesmo assim. Demasiado alto. O que me incomoda, porque gosto de pegar neles, quase lhes peço desculpa por estarem tão alto. Então porque não os descer, não os pôr mais à mão? Porque se os descer, vão ocupar a prateleira de livros mais altos, que não cabem naquela que eles deixaram. Arranjo ideal não existe.
Bem, e a ficção? Separada por nacionalidades, já se vê. E entre si? Por ordem alfabética dos nomes dos autores? Pela data em que foram escritos? E os livros de criança cuidadosamente conservados?
E livros em duas filas? Se as prateleiras forem fundas e permitirem duas filas, a coisa é fatal, mais tarde ou mais cedo há livros relegados para a fila de trás. Não gostamos, mas tem de ser. Paciência. Nasce a questão se devemos pôr os mais altos atrás e os mais pequenos à frente. Logicamente, assim devia ser. Mas se os gordos e altos em nossa opinião são melhores do que os baixotes? Impossível recuá-los, os baixotes que se arranjem.
Um dia a coisa parece estar feita. Até que outra ideia nos venha, outro argumento nos queira convencer que a arrumação dos poetas ao pé dos dramaturgos está errada, e errada também a destes juntos dos filósofos. A dúvida virá, porque arrumação ideal não existe. E depois, os livros novos que se vão comprando obrigam a mudanças épicas, a experiências complicadas e cansativas. Às vezes decidimos aligeirar as prateleiras, tirando delas livros que em nossa opinião não merecem ser guardados, ou guardados ali. Sucede que nesses arranjos apareçam livros de que já não nos lembrávamos.
E os novos interesses que surgem, e que exigem leituras adequadas. Jardim, pequena quinta, pedem livros da especialidade. Onde encaixá-los? E os livros que ainda não foram lidos? “Não há biblioteca que não contenha uma secção indefinida de livros que não foram lidos, de livros que ainda não foram lidos, e de livros que nunca serão lidos”, lembra Abel Barros Baptista em ‘A Infelicidade pela Bibliografia’**. É verdade.
*Von de Mehden, Heilwig
** Barros Baptista, Abel ‘A Infelicidade pela Bibliografia’

O que dizem outros
Bernard Pivot
Os livros são implacáveis invasores. Sem alarido, com infinita paciência, e cada vez em maior número, tornam-se donos dos locais. Não tardam em transbordar das bibliotecas onde são suposto residir. Tal como as multidões de caracóis nos romances de Patrícia Highsmith, escaladam as paredes até aos tetos, instalam-se sobre mesas e aparadores, fixam-se nos cantos, penetram nos armários, nas cómodas e nas arcas, e quando ficam no chão proliferam sobre os tapetes ou os ladrilhos em pilhas instáveis e arrogantes.*
Bernard Pivot Le métier de lire (tradº de pg. 220)
Anne Fadiman
Quando Anne Fadiman e o marido resolveram juntar as suas duas bibliotecas:
“Após cinco anos de casamento e um filho, Jorge e eu decidimos que estávamos prontos a passar ao mais alto nível da intimidade, que é a fusão de duas bibliotecas. Não tínhamos a certeza se seria possível encontrar um ponto de encontro entre o sistema jardim à inglesa dele e o meu sistema tipo jardim à francesa. De início o meu argumento convenceu, a saber que ele encontraria facilmente os seus livros, se eles estivessem arranjados como os meus, mas que eu nunca encontraria os meus, se estivessem arranjados como os dele. Resolvemos ordená-los por temas: história, psicologia, natureza, viagens etc. A literatura seria dividida por países. Jorge achava o sistema excessivamente minucioso, mas concordava que era superior àquele de que nos tinham falado uns amigos. Que tinham alugado por uns meses a sua casa a um decorador de interiores, e quando regressaram descobriram que toda a biblioteca tinha sido arranjada por cores e tamanho dos livros...............O nosso plano básico estava portanto estabelecido. As complicações começaram quando eu pretendi ordenar a literatura inglesa por ordem cronológica e a literatura americana por ordem alfabética de autor”.*
Seguiu-se acesa discussão, e Jorge conta que foi uma das raras vezes em que pensou seriamente em divorciar. Arrumação ideal não há.
*Fadiman, Ana Ex-Libris

Das cartas à minha filha
5 de Setembro 2005, segunda-feira
“Como já lhe disse, estou a fazer limpeza de livros, mas não os elimino sem dar uma ultima vista de olhos. Entre os Steinbecks reencontrei agora o “Travels with Charlie”, uma viagem através da América com o cão, Charlie. Tirei-o de junto das obras dele e pu-lo junto da literatura de “viagens pela minha terra”. È um género sereno, um pouco contemplativo, que vou cultivar mais.
Não sei como é que as pessoas que têm livros os conservam sempre na mesma ordem, eu tenho todos os anos ideias geniais para arranjos novos. É verdade que não toco no arranjo inicial, é nos detalhes que faço pequenas inovações com mexidas cautelosas, que têm a grande vantagem de me fazer reler livros que não lia há anos ou que ainda não li. Também disso há na maioria das prateleiras de quem tem muitos livros”.

27 de Outubro 2005, quinta-feira
“de permeio com os meus trabalhos literários, tenho estado a dar uma daquelas voltas aos meus livros que, quando não confundem, têm por vezes resultados inesperados. Desta vez parece-me que a coisa não está a sair mal, e já produziu pelo menos um efeito positivo, o reaparecimento de alguns livros desaparecidos. Um livro que reapareceu foi o Tortilla Flat de Steinbeck. Lembra-se que o procurámos? E que eu me espantava de não o ter? Pois cá está, e vou relê-lo. Tenho ideia que é um dos - raros - livros de Steinbeck que não “data”. Pergunta: como é que se diz de livro que está ultrapassado? Que o livro ”data”, parece-me tradução do francês. Não que a palavra não exista em português, mas parece-me que define mal essa coisa, sempre pessoal, que é a impressão que certo livro, que um dia lemos com gosto, até com entusiasmo, está para nós “ultrapassado”.

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Incunabulos. Sabe o que sao?

>> segunda-feira, 29 de dezembro de 2008



18. Incunábulos. Sabe o que são ?
A minha filha, achando, e com razão, que uma bloguista que se estreava com um blog próprio, gostaria de ler das experiências nesse campo de um conhecido critico literário, deu-me pelo Natal o livro de Pierre Assouline, “BRÈVES DE BLOG Le Nouvel Âge de la Conversation”. É uma antologia dos comentários que o autor recebeu desde que iniciou a sua aventura na blogo-esfera: “reunindo 600 comentários, escolhidos entre os melhores e os mais engraçados. Há lado a lado trocas de impressão de alto gabarito, confidências, polémicas, apreciações literárias, e autênticas criticas inéditas.”*
--E o que tem isso a ver com ‘incunábulo’?-perguntarão. Tem a ver com isso, devido a uma frase do autor no seu prefácio. Escreve ele: “Il n’ya a pas eu rupture lorsqu’on est passé de l’incunable à l’imprimerie.......”, ou seja “não houve ruptura quando se passou do incunábulo à impressão”. Subentende-se que Pierra Assouline pensa que o incunábulo é qualquer coisa que antecedeu a impressão, quando o incunábulo é na verdade um produto da impressão. Se entre os leitores do seu livro se encontraram bibliófilos, Assouline deve ter sido inundado por indignados comentários.
“Comentando” eu por minha vez este lapso em conversa com a minha filha e o meu genro, constatei, com grande espanto e alguma indignação, que eles - pessoas cultas e lidas - também não sabiam o que era um incunábulo. É verdade que estão decerto em boa companhia, mas mesmo assim...
“Incunábula é o mistério dos mistérios na bibliofilia”, escreve Bernard J. Farmer em ‘The Gentle Art of Book-Collecting’*, e conta a história do neófito em coleccionar livros que entrou numa livraria e perguntou pelas obras do "Sr. "Incunábulo".
No ano de 1456 publicou-se na Alemanha, na cidade de Mogúncia, uma Bíblia que não fora escrita à mão. Dizia-se que fora "impressa", e o homem que descobrira como produzir um livro sem ser escrito à mão chamava-se Johannes Gutenberg. A Bíblia de Gutenberg seria um dia conhecida como o mais importante e o mais valioso dos incunábulos.
A descoberta de Gutenberg consistia basicamente nisto: compor o texto de um livro por meio de cubos nos quais estava uma letra em relevo. Alinhavam-.se essas letras - formando as requeridas palavras - numa vara do tamanho duma linha e colocava-se depois essa linha de letras dentro duma caixa, ou "forma", e isso, sucessivamente, até formar uma página de texto.
Uma vez o texto composto com aquelas letras "moveis", passava-se tinta nas letras, colocava-se em cima da forma uma folha de papel e, por meio duma prensa, premia-se o papel sobre as letras: Estas ficavam 'impressas' na folha de papel. Dessas folhas podiam se imprimir tantas quanto se quisesse.
Houve vozes que troçaram da nova invenção. Afinal o que era isso? Que vantagem tinha sobre os livros escritos à mão? Gutenberg confessava ter levado cinco anos a compor a sua Bíblia. Era o mesmo que levava um copista a copiá-la. Pois era. Só que o copista copiava um único exemplar, enquanto que, com a "impressora", uma vez a obra composta, se podiam fazer, se podiam "imprimir", inúmeros exemplares da mesma obra.
A arte propagou-se, espalhou-se pela Europa. Imprimiam-se livros de devoção, de ciência, de história, de filosofia, de poesia, de matemática, de astronomia, de navegação.. Acabara a cópia laboriosa de livros à mão, e um exemplar de cada vez. Em fins do século XV já só excepcionalmente se copiavam livros à mão.
De uma publicação da Universidade de Bamberg “Von Buechern und Bibliotheken, libri e biblioteche” copio a seguinte informação:
◦ Incunábulos são livros impressos entre a invenção da impressão com letras móveis em 1445 e o ano de 1500. Dos cerca de 40.000 textos conhecidos, cerca de 10.000 são folhetos e textos de uma só folha, e o número total de exemplares de incunábulos é de mais de meio milhão.
Calcula-se que as edições eram em média de 200 exemplares.
A maioria dos incunábulos conhecidos e identificáveis é de origem alemã, francesa ou italiana. .
A partir de 1457 encontram-se exemplares contendo no final da obra um ‘colophon’ com a indicação de autor, local e ano de impressão, assim como do editor.
Páginas de título aparecem pela primeira vez em 1465 ….
A partir de 1470 aumenta a produção de livros ilustrados com gravuras em madeira, ---- “
.
A arte de imprimir de forma mecânica, a 'arte secreta', a 'irrepressível arte', como alguns lhe chamaram, viera para ficar e revolucionaria o mundo.
Sobre a origem da palavra “incunábulo” para designar esses primeiros livros impressos, lê-se em Wikipedia: “Inkunabel“ é a “designação metafórica significando que se trata de uma obra que ainda está no berço (cuna), ou em fraldas. A expressão encontra-se comprovadamente pela primeira vez entre 1640 e 1657 na bibliografia Antiquarium impressionum a primaeva artis typographicae...de Bernhard van Mallinkrodt...

Observações à margem
Na livraria de D. Manuel I, que não era muito vasta – o rei tinha ao todo 49 livros - distinguiam-se, no inventário feito em 1522 por sua morte, os livros “de pena”, ou seja escritos á mão com pena, e os livros “de letra de forma”, ou seja de letras colocadas em forma, impressos. Por exemplo:
“It. hum livro pequeno encadernado de couro vemelho, o qual livro é de forma, e tem pimturas dos vultos dos emperadores de Roma. e assy escripto de letra de forma. E no princípio começa Leo Papa.....”
It. outro livro de letra de pena emluminado, que se chama Regimento dos Reys darmas....
It. outro livro de pena que se chama marco pólo, cuberto de veludo cramesy com duas brochas de prata anylada”

O que dizem outros
Num engraçado livro intitulado “Le Journal du Monde”* que publica as notícias históricas em forma de notícias de jornal dos nossos dias, lê-se para o ano de 1453
“De notre envoyé spécial a Mayence 1453
Il s’appelle Johann Gutenberg, c’est un artisan de Mayence. Il effectue actuellement des essais d’impression selon un procédé nouveau qui semble promis a um grand avenir. Si ses espoirs ne sont pás décus, toute la technique de la diffusion des écrits pourrait simplement s’en trouver bouleversée... ....... Imagine-t-on l’aspecr sésolant d’une bibliothèque òu tous les livres seraient écrits dans le même caractère?”
* Traduzido de “News of the World” Prentice Hall Inc.

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Sobre este blogue

Libri.librorum pretende ser um blogue de leitura e de escrita, de leitores e escritores. Um blogue de temas literários, não de crítica literaria. De uma leitora e escritora

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