De livros. De os roubar, copiar e adoptar

>> segunda-feira, 2 de março de 2009



Livros. De os roubar, copiar e adoptar
Há meses vi roubar livros na FNAC do Chiado. Eu estava em baixo na secção dos livros, vi um homem subindo a escada, reparei como ele olhou para a direita, onde sabia estar um empregado, como pôs um livro no interior da aba do casaco, imagino que em algibeira praticada para o efeito. Subiu mais uns degraus, virou-se de novo para o lado perigoso, sossegou, pôs outro livro em outra algibeira na outra aba do casaco. A curiosidade. feminina sendo o que é, subi a escada um pouco atrás do homem. Vi como ele |à saída abriu o casaco com as duas mãos, como alguém que está com muito calor. Talvez para enganar os sistemas electrónicos? Se era esse o fim, conseguiu, levou os seus livrinhos.
Ignoro de que tipo de ladrão se tratava. Há os que roubam para revender, há os que roubam sem fins lucrativos, para si, para ler, ou estudar, porque gostam de os ter e não os podem comprar. Há outros. E que não actuam nas FNACs. São os amadores de livros raros e preciosos, os bibliófilos que não resistem à tentação de roubar o que não podem obter de outra forma. Talvez a rara primeira edição há muito ambicionada, talvez uma obra prima da impressão, um exemplar saído da oficina de Aldo Manuccio, por exemplo. Raridades tentadoras não faltam.. Houve ladrões bibliófilos que ficaram célebres pelo volume e qualidade dos roubos que cometeram e pela pessoa que eram. Citam-se larápios historiadores, homens de ciência e, o que, como católica lamento, pelo menos dois cardeais, um dos quais veio a ser Papa. Consola-me que se nomeiem também eminentes teólogos protestantes praticando a arte. Houve furtos de colecções completas. Num pequeno livro intitulado “Buchmenschen in Buechern” - em português, “O homem do livro na literatura” - o autor relata o caso do conde Libri, um nobre italiano, professor de física na Universidade de Pisa e no Collège de France, membro da Académie Française, redactor do Journal des Sciences, o qual, eleito para a comissão encarregada de elaborar o catálogo dos manuscritos antigos das bibliotecas franceses, aproveitou o acesso livre que lhes tinha para formar uma das maiores colecções privadas de obras manuscritas do seu tempo. Até ser descoberto.
Comum a todos os ladrões de livros, há, creio eu, a convicção que roubar livro não é grande crime.. É só um livro, não é?
Um tipo especial de roubo de propriedade literária é o plágio. Na Roma antiga designava-se por plágio o roubo de um escravo, de um homem que pertencia a outro. E um dia, não sei quando, passou a ser designado com essa palavra o aproveitamento da escrita de um autor por outro. O que nem sempre foi tido por condenável, note-se. De momento que aquilo ali estava para todos lerem, também ali estava para todos copiarem. Na antiguidade romana não deixou contudo de haver discussões sobre quem copiara de quem. ou quem se inspirava em que obra. Nos tempos dos trovadores, era praticamente impossível saber quem primeiro ideara os contos e as lendas e os romances, levados de terra em terra, de castelo em castelo, pelos contadores de histórias. Com a descoberta da impressão, e o autor começou a assinar as suas obras, já não apreciava que outro se aproveitasse do seu texto, dando-o como seu.
Até que “ sob a pressão das ideias românticas, se começa a desenvolver uma nova atitude em relação à literatura.” Traduzo este trecho de “Le Plagiat” da autoria de Christian Vandenloyse.*
“A estética da imitação que reinara nas letras desde as suas origens, é substituída pela estética da originalidade que levará a uma procura acelerada da novidade. O escritor é visto como pertencendo a uma raça à parte, o seu génio é magnificado e a sua escrita profissionalizada. A crítica literária que também se tornou profissional acelera essa tendência……” Começou a caça ao plágio. Descobrem-se plágios desde Shakespeare a Dickens, desde Corneille a Voltaire e por aí fora.
Voltemos aos dias de hoje.
Júlio Pinto, um jornalista satírico, que durante algum tempo enriqueceu o ‘Independente’ com óptimos pequenos artigos sobre livros e leituras, falava num desses artigos, intitulado “Talento imitativo”, de um grande êxito editorial que seria quase decalcado de outro. Dava exemplos. Assim lia-se no primeiro livro: “…o eco longínquo das vozes que me trespassam”, e no outro: “…trespassava-me o eco de longínquas vozes”. E ainda, no primeiro: ”Minha mãe abraçava-se a meu pai, intimando-o a viver”, e, no segundo: “…e os meus dedos intimavam-na a viver”.
Surge aqui a minha dúvida: será que o segundo autor copiou na verdade, propositadamente, aqueles trechos do primeiro autor? Não será antes que ele, tendo lido o outro livro, o tenha apreciado tanto que fixara algumas das expressões e instintivamente as usara também? Todo o escritor sabe quantas vezes lhe vêm à pena expressões que não são suas, que lhe ficaram de leituras anteriores, ou de livro em que se exprimia justamente aquilo que ele também queria dizer.
Eu que o diga. Em um dos meus livros de ficção a heroína relembra a viagem que há anos fizera no então chamado Sud Express quando, vinda de França, regressava a Portugal: a travessia das vastas terras de Castela, as paragens nocturnas nas isoladas estações, a sua entrada em Portugal pela madrugada. Eu, que já fizera a mesma viagem, e que lera A Cidade e as Serras, tive de me esforçar para não descrever a viagem da minha Margarida com as palavras com que Eça de Queiroz descrevera a viagem de Jacinto.
Não digo que não haja quem propositadamente alinde os seus textos com a seara alheia, mas há muito plágio involuntário, ou – digamos - de boa fé. Em outro dos meus livros meti a dada altura uma pequena história, que vinha muito a propósito. Tinha-a lido algures, com certeza, mas não fazia ideia onde fora, ou se alguém a contar. Passaram-se anos, não mais pensei nisso, e eis que agora, que estou a escrever sobre plágio, sei finalmente de onde tirei a ideia. Sei finalmente onde a li, e de onde a tirei. Foi no livro “Erdachte Gespraeche” (Conversas ideadas) de Paul Ernst, de uma conversa ideada entre Sócrates e Alcibiades.
Em “As Casas da Celeste”, Ema, uma das suas heroínas, diz:
“—Pois vá, a história da galinha. Não a vou contar toda, porque a Olga rebentava. Mas é uma história que eu aplico muitas vezes e que me dá muito que pensar. Dita depressa, é assim: ‘Uma mulher tem uma galinha. Vem a raposa, leva-lhe a galinha, e come-a. A mulher diz que a raposas é uma ladra e uma assassina. Mas a raposa acha que fez bem, ela vive de galinhas. A galinha, essa, em vida, comia vermes. A mulher achava muito bem que a galinha comesse vermes, que até lhe ficavam os ovos mais gostosos. Mas os vermes, esses, achavam que galinha era uma assassina”. E por aí fora....
Mea culpa,. mea culpa. Ao escrever aquilo, estava a escrever o que tinha na memória de um dialogo entre Sócrates e Alcibíades imaginado por Paul Ernst. Estava a plagiar. Só que não fazia ideia a quem plagiava.
Já me sucedeu ler em algum livro trecho em que reconheço mão alheia. Ainda há pouco me indignei ao reconhecer um ideia de Maupassant em autor (português) moderno. Até que me lembrei do meu próprio crime.
Como autora, ainda não tive a honra de ser plagiada, mas achei graça quando percebi pela leitura de uma autora light da nossa praça, que ela se dera ao trabalho de ler os meus livros. A descoberta do passado da mãe da sua heroína num livrinho de veludo encarnado, não queria dizer nada. O meu livrinho era de veludo azul. Mas quando a autora fala de “linhagem” a propósito de uma “boa” família do Estoril, a coisa já deu para pensar. É que “linhagem” não é expressão comum, e nunca se emprega em relação de famílias de hoje, por muito boas que sejam. Posso estar enganada, mas suspeito que a autora em questão leu um meu romance histórico passado em que se fala em linhagem. Sabia-se então o que isso queria dizer.
Como disse um autor francês, só o primeiro é que não copiou de ninguém: "le plagiat est à la base de toutes les littératures, excepté de la première, qui d'ailleurs est inconnue".
Recentemente surgiu uma nova forma de plágio. Um autor escreve um romance histórico, e publica no fim uma “bibliografia”. Isto feito, imagina que está livre de usar dos livros aí mencionados para seu próprio uso. Mas não está. É evidente que na sua maioria esses autores o fazem por pura ignorância do que seja bibliografia. Como autores de ficção ignoram que o facto de indicarem quaos os autores que leram para escrever o seu livro, não os autoriza automaticamente a usar partes do texto deles, adaptando-o ao seu. Uma bibliografia no fim do livro - coisa pouco usada em ficção - permite que se citem frases de algum dos autores consultados, mas sempre com a menção do seu nome e obra. Adoptar frases de outro autor na nossa obra quando, em ‘bibliografia’ no fim do livro indicamos que lemos essa obra, não deixa de ser plágio.
ªCrhistian Vandenloyse Le Plagiat
wwwletttres.uottava ca/vanden.plagiat.htm

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Escrita e leitura ao masculino e ao feminino

>> segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009




Escrita e leitura ao masculino e ao feminino

Homens e mulheres têm gostos diferentes no que escrevem e no que lêem. Acho eu. E tenho mais algumas ideias sobre esta coisa de leitura e escrita no masculino e no feminino. Tenho mesmo tantas ideias e tantas perguntas a esse respeito, que não tinha tenção de me lançar em tão vasto assunto. Uma frase de Patrícia Reis lida no blogue: Click(IN)VERSOS fez com que afinal me aventurasse nele, não na esperança de esclarecer o assunto, só para o abordar. Ao de leve, com os devidos cuidados e as necessárias atenções.
Patrícia Reis, a quem uma entrevistadora perguntava porque é que os relacionamentos amorosos estavam muito presentes nos seus livros, (curiosa pergunta, aliás) respondeu desta forma:
– Ora, porque é um livro de uma mulherzinha. (RISOS) Quando é um homem a escrever uma história de amor, ele está a meditar sobre a condição humana... Ora, escrevo também sobre a condição humana. Há vozes distintas em meus livros e escrevo uma história para cada um dos personagens. Não existe literatura feminina. Estou farta desta questão. As pessoas têm manias dos rótulos e dos gêneros. Por que? Os homens gostam mais de sexo do que a mulher? Isso é o que os homens gostam de pensar... “
A resposta era um pouco confusa, mas permitiu-me concluir que aquilo que a autora pretendia dizer, era que, para ela, não havia distinção entre literatura feminina e literatura masculina.
Confesso que estas declarações peremptórias me espantam. Sucedem-se os estudos sobre a escrita feminina e a leitura feminina, eu acabara de ler um livro sobre a leitura ao feminino*, o livro mostrava, nem que fosse pela sua abundante bibliografia, que a divergência entre leitura ao feminino e ao masculino é assunto de estudos e debates, e aqui tínhamos uma autora de ficção varrendo o assunto para baixo do tapete. Que escrita feminina e escrita masculina são igualmente literatura, ninguém discute, o que me parece incompreensível é que alguém seja da opinião que nada distingue uma da outra.
Parece-me o contrário. Creio que escritoras e escritores, leitoras e leitores se diferenciam na escolha dos temas da sua escrita e da sua leitura, e, que no que diz respeito à leitura, a diferença de gostos se nota-se já na criança.
Na escola que eu frequentava, o colégio alemão, havia de duas em duas semanas uma aula que era dedicada à ida à biblioteva para a escolha de livros por nós alunos. Lembro-me muito bem que, nas raparigas, a tendência era para a escolher de preferência livros, chamados "de rapariga", e que, no caso dos rapazes, a preferência ia para os livros de aventura, de piratas, de tesouros escondidos.
Havia também revistas destinadas a gente nova. Em inglês parece-me que se intitulavam respectivamente “Girls Own” e “Boys Own”, e as correspondentes revistas alemãs chamavam-se “Der gute Kamerad” (O bom Camarada) e “Wir Maedel” (Nós, raparigas). Eram diferentes, porque os editores partiam do princípio que gostos de rapazes e raparigas eram diferentes.
Não me lembra de um dos meus irmãos pegar na minha revista, mas eu lia a minha e a deles, Não era caso único, muitas raparigas leitoras liam também livros de aventura. O que era impensável era que rapaz lesse livro de rapariga. E a coisa não mudou com o passar dos anos. Enquanto uma mulher lê sem hesitar livros mais conotados com o gosto masculino, deve ser raro um homem pegar em livro especificamente feminino.
E já lhes deu para pensar nos contos de fada - um género de "ficção" também eles? Se seriam de autoria feminina, ou de autoria masculina? Se seriam destinados a raparigas ou a rapazes?
Ultimamente tem-se escrito muito sobre o simbolismo e o fundo psicológico dos contos de fada. É já um novo ramo da investigação literária, e, no entanto, creio que o assunto não foi ainda abordado sob este aspecto: a saber se os contos que há centenas ou milhares de anos brotaram da imaginação de narradores anónimos, se esses pequenos textos, levados por boca de terra em terra, eram da autoria de mulheres ou de homens e se eram destinados a um mesmo público de ouvintes. Creio que não, creio que alguns dos contos eram destinados a jovens - e até menos jovens - "ouvintes" masculinos, enquanto que outros, se destinavam sem uma dúvida a serem ouvidos por jovens - e até menos jovens - "ouvintes" femininas. Basta pensar no conto do "Capuchinho vermelho". As recomendações que a mãe do Capuchinho lhe faz: nunca se afastar de caminho, nunca dar atenção às palavras do lobo, se ele lhe aparecesse, recomendações mais extensas e explícitas ainda na forma francesa do mesmo conto, são recomendações que qualquer mãe já fez a uma sua filha. O "Capuchinho Vermelho", foi decerto inventado por uma mulher e decerto para ser contado a raparigas. Para as divertir e para as precaver. É um conto puramente feminino. Tal como a "Branca de Neve e os sete anões" é feminino, e tal como é puramente para rapazes e ideado decerto por homem o conto do rapaz que "saiu de casa para aprender a ter medo".
Quem se quiser dar ao trabalho de estudar os contos sob esse aspecto, distinguirá facilmente os contos 'femininos' dos contos 'masculinos’. Tal como - digam o que quiserem - se distingue hoje, a ficção feminina da ficção masculina. Há temas abordados por homens que poucas mulheres escolheriam para tecer uma história em sua volta. E vice versa. Tal como o faziam os narradores ambulantes de contos.
Creio que a mulher escreve e lê de preferência romances baseadas em factos e sentimentos concretos, não escreve ficção muito cerebral, ou muito fantasiosa. E quem diz escritor e escritora, diz leitor e leitora. Na sua leitura e na sua escrita, a mulher prefere normalmente romances com pessoas e coisas que possa visualizar, sentir, que se situem em meios que lhe sejam familiares. Raras vezes entra pelo fabuloso, por onde o homem recentemente tem enveredado com tanto êxito. E, mais uma vez, quem diz escritora, diz leitora.
Pareece-me que, com raras excepções a mulher leitora preferirá, se lhe propuserem a escolha - dando um exemplo concreto tirado da literatura sul-americana - ‘O Tempo e o Vento’ de Erico Veríssimo ao ‘Cem Anos de Solidão’ de Garcia Marques. Porque prefere o realismo verdadeiro ao realismo mágico.
É verdade, como já disse, que a mulher leitora lê, indiferentemente, livros de escritores e livros de escritoras, mas creio que há livros - e grandes - de autores masculinos, que a mulher leitora lê com menos agrado e menos facilidade. Procurando, assim de repente, um desses livros que julgo agradarem pouco às leitoras, lembro-me de ‘Moby Dick’, de Melville. Por mim falo. Forcei-me a lê-lo, mas sei com absoluta certeza que não lhe voltarei a pegar.
Já ‘Guerra e Paz’ de Tolstoy é livro para – em minha opinião - agradar tanto ao leitor masculino como ao feminino. Tem romance, tem retratos de mulher, tem pintura de costumes que bastam para ela, e tem retratos de homem, tem debates filosóficos, tem guerra - e discussão dela - que bastam para ele.
Pois nem todos são da minha opinião. Scott Fitzgerald tratava ‘Guerra e Paz’ de livro para homem. Como a filha (que teria então 18 ou 19 anos) não o tivesse conseguido ler até ao fim, ele repreendia-a por ter começado a lê-lo, sem estar preparada para isso: “You shouldn’t have started War and Peace, which is a man’s book and may interest you later”. **
É uma curiosa afirmação, mas muito verdadeira em um dos seus aspectos. Passados aqueles primeiros anos de leitora, em que a mulher lê quase exclusivamente o género “ficção”, surgem gradualmente novos interesses e com eles o gosto por outro tipo de literatura. Assuntos e problemas abordados em ‘.Guerra e Paz’, que não a interessavam aos dezanove anos, já a poderão interessar aos trinta ou quarenta.
Isto quanto à leitura. Na escrita, penso que a diferença entre literatura masculina e feminina não está tanto no estilo, que aí praticamente não há distinção óbvia, que a diferença, está mais nos temas escolhidos por uns e por outras e está na abordagem destes. Assim, por exemplo - a não ser nos romances policiais - as escritoras escolhem prioritariamente uma mulher como centro das suas histórias, enquanto os escritores escolhem prioritariamente homens como heróis, ou centro principal. Não o fazem decerto de propósito, nem um nem outra. Fazem-no instintivamente. Colocam prioritariamente (repito, prioritariamente, não me esqueço das grandes excepções) personagens do seu sexo no centro das suas respectivas ficções, porque são essas as que melhor conhecem.
A propósito. O “Nibelungenlied”, a saga dos Nibelungos, é em geral identificado com a pessoa do herói Siegfried, e portanto como um livro de homem. Foi coisa que nunca questionei. Até que um dia me deu no goto que o anónimo autor daquela saga, falasse tanto de vestuário. Comentei-o com a minha filha numa carta escrita em Setembro 2006: “.a respeito do Nibelungenlied. ......... Uma das coisas que me diverte, é a preocupação do autor com o vestuário das mulheres. Chego a pensar que se tratava de uma autora, porque as heroínas e as suas damas passam a vida a por e tirar vestidos,...”
Curiosa de aprofundar esse aspecto do livro, peguei nele de novo, e constatei com espanto que a primeira pessoa nele mencionada, não é Siegfried, é Krimhilde (Cremilde). Não a segunda, ou a terceira personagem, a primeira. A estória é a estória dela. Na segunda estrofe do poema lê-se:
“Crescia então nas terras de Borgonha uma rapariga de primeira nobreza, mais bela que todas as outras no mundo, chamada Krimhilde. Viria a ser uma linda mulher e muitos guerreiros deixariam a vida por sua causa.”
Por sua causa, é verdade, mas não ‘em sua causa’. A historia é muito mais a história de duas mulheres – Krimhilde e Bruenhilde – que se servem dos homens para as suas vinganças. Talvez não fosse escrita por uma mulher, mas é um livro feminino.
Leitura e escrita ao feminino e ao masculino, o tema é difícil, e é delicado. Não esqueço as grandes poetizas e as grandes romancistas, mas a grande literatura é “ao masculino”. Não tenho duvida a esse respeito, o que ignoro é a razão. Há o argumento da mulher a quem os homens durante séculos não permitiam que ...... Sem dúvida, mas não é só essa a razão. Há o papel de mãe para o qual a natureza a destinou, que rouba à mulher o tempo necessário para se dedicar a coisa tão absorvente como a escrita. E como se pode ela concentrar, como a grande literatura exige, quando vive em constante preocupação com a saúde e a educação dos filhos? O homem consegue abstrair, a mulher, não. Outras razões haverá. Não sei. E, confesso, que pouco me importo. Se o livro é bom, tanto se me dá que o autor tenha sido homem ou mulher.

* La lecture au féminin. La lectrice dans la litérature française du Moyen Age au XX siècle”,WBG Darmstadt

** F. Scott Fitzgerald On Writing editred by Larry W.. Phillips

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DAS CARTAS AOS MAILS

>> segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009


Das cartas aos mails
“Você tem correio”
Julgava eu que acabara para sempre a emoção de receber uma carta quando um filme encantador me veio provar o contrário. “You have mail” (o título parece ser este ) mostra como a carta electrónica de hoje pode ser tão emocionante como o era nos tempos passados a carta que o correio trazia. O que talvez tenha acabado para sempre são os livros de cartas de gente que primou na arte epistolar. Ou será que alguém publicará um dia as cartas electrónicas de dois escritores, de dois políticos dos nossos dias? E de dois anónimos que só se conhecem pela Net? Será preciso esperar para ver.
No século XVII um inglês (Lord Chesterfield) indicava ao filho, como exemplos dignos de estudar e de imitar, as cartas de Cícero, do cardeal d'Ossat, de Bussy Rabutin, e as de Madame de Sévigné.
Não conheço a correspondência de Ossat, e provavelmente já ninguém o recomendará pela sua arte epistolar. Os nomes de Cícero e de Madame de Sévigná é que nunca podem faltar quando se trata de arte de escrever cartas. Em princípio, creio que nem um nem outro escreveram para serem lidos por outros que não os destinatários das suas cartas. Em princípio! Porque no caso de madame de Sévigné, não tardou que as suas cartas passassem de mão em mão lidas na roda íntima dos seus conhecidos.
. A escrita de cartas era uma arte cultivada por uma elite culta, além missiva pessoal. a carta era exercício literário. E no seu tempo, reconhecido por todos, nem homem nem mulher excedia Madame de Sévigné.
O preciosismo do século XVII foi passando, esperava-se que uma carta fosse bem escrita, mas não se exigia que brilhasse como obra literária. A 3 de Janeiro de 1801 Jane Austen escrevia a sua irmã Cassandra: “Atingi agora aquilo que nos dizem ser a verdadeira arte de escrever cartas, que é o de exprimir no papel exactamente aquilo que diríamos à mesma pessoa por boca”.
. As pessoas escreviam como falavam, ao correr da pena. Cumpriam, decerto sem pensar, a regra principal da boa comunicação epistolar: transmitir ao correspondente, por escrito, como o faria verbalmente, aquilo que não lhe pode dizer directamente.
Em Portugal foi com certeza no século XIX quando elas descobriram a política, e se lhes abriram outros novos horizontes, que as mulheres se tornaram entusiásticas praticantes da arte epistolar. As senhoras tinham o seu dia de correspondência, em que punham, como elas diziam, "a escrita em dia", cobrindo com a sua letra cuidada, em linhas cruzadas e até contra cruzadas, resmas do melhor papel de carta jamais fabricado.
È em parte devido áqueles pormenores triviais, que raras vezes faltam nas cartas de mulher, que estas despretensiosas correspondentes familiares, transmitem como ninguém o espírito da sua época. E é na convicção do que elas revelam do espírito do século XIX, que eu talvez ainda venha a contribuir para a expistolografia feminina portuguesa com a publicação das cartas familiares da minha bisavó materna e das suas filhas.
Penso que um dos atractivos da leitura de volumes de cartas tem alguma coisa a ver com o seu lado indiscreto. O leitor tem a sensação de estar a olhar para dentro duma casa, de estar ouvindo o que lá se está vivendo, entra na intimidade das pessoas. Estou falando das correspondências familiares. Nada disto tem a ver com correspondência diplomática, ou de escritores, de pensadores.
Numa categoria à parte estão as cartas de amor. Há-as sem duvida lindíssimas, de grande valor sentimental e literário, basta lembrar as cartas de Héloise e Abélard, sempre citadas em primeiro lugar. Não sou grande amadora do género. Expressões de amor saídas das penas de grandes figuras das letras ou da política, expressões que a seu tempo decerto deleitaram amados e amadas, deixam-me frias, quando não incomodada por pueris ou de mau gosto. Acho que as cartas de Napoleão a Josefina podiam muito bem ter ficado no segredo dos arquivos, e as cartas de amor de Fernando Pessoa dão vontade de rir. Aqueles "meu bebezinho querido", com certeza recebidos com encanto pela destinatária, soam ligeiramente ridículos aos nossos ouvidos.
Não aprofundei o caso, mas creio que, ao longo da história, as mulheres talvez tenham sido mais felizes que os homens na expressão epistolar dos seus sentimentos. Veja-se, por exemplo, como se exprimiu uma mulher famosa, escrevendo, nos primeiros anos do séc. XIX a um jovem português por quem estava apaixonada. Mesmo quem não aprecia muito o género, sabe apreciar o que é bonito.
"Os cortesãos de Buonaparte não recolhem mais avidamente as suas palavras do que eu traço as vossas no meu coração", escrevia Germaine Necker, baronesa de Stael a D. Pedro de Sousa e Holstein. Ela tinha 40 anos, ele tinha 24. Fora um conhecimento nascido em Itália, onde D. Pedro ocupava um posto diplomático e madame de Stael estava em viagem cultural. Só aquele encontro entre eles e o seu amor por ele, lhe tinham aberto os olhos para as belezas que vira à sua volta, confessaria a apaixonada baronesa: "Só por si é que me foi dado compreender as delícias daquela estadia, a minha imaginação ainda não tinha povoado o deserto, amei-o e tudo se animou para mim, as belas-artes, a natureza e mesmo as recordações do passado".

O que dizem outros

Johann Wolfgang Goethte Afinidades electivas
"Pomos de parte as cartas, para nunca mais as lermos, depois destruímo-las por discrição, e assim desaparece o mais belo, o mais imediato sopro de vida, perdido para sempre, para nós e para os outros."

Victor Hugo Journal d'un jeune Jacobite de 1819
".... O género epistolar deve mais à natureza do que à arte. As produções desse tipo são, pode-se dizer, como as flores, que crescem por si, enquanto todas as outras composições do espírito humano se assemelham a edifícios que desde os seus fundamentos têm de ser laboriosamente construídos segundo leis gerais e combinações particulares. A maior parte dos autores epistolares ignorou que eram autores; ........não escreviam por escrever, mas porque tinham parentes e amigos, problemas e afecções. Na sua correspondência não estavam minimamente preocupados com a imortalidade, mas muito burguesmente com os cuidados materiais da vida. O seu estilo é simples como a intimidade............"

Exemplo de uma carta familiar

Carta de Isabel Saldanha da Gama (17 anos) para sua irmã Theresa, datada de Caxias, a 10 de Outubro 1866
“Minha muito querida Theresa recebi ontem, 9, carta sua de parabéns que muito agradeço. Achei imensa graça à sua descrição do dia dos meus anos, é exactíssima. Ao abrir os olhos recebi carta e doces de Resgatinha (sic), um pouco mais tarde, doces do senhor César acompanhados duma carta em prosa poética que, como a menina diz, me pôs de horrível humor. Resmunguei, chamei tolo ao pobre do homem, tive meia hora a pena na mão e afinal escrevi duas palavras sensaboríssimas, mas as sublimidades do Cesário têm a habilidade de me empatetecer”.
A autora da carta era filha dos condes da Ponte, e o pai era nessa ocasião Vedor da Casa Real. A família passava o verão em Caxias, e ali perto, em Linda-a-Velha, era a quinta do pai de Cesário Verde, onde ele produziu óptima fruta. É possível que o senhor César, fornecesse a casa real e daí conhecesse o conde da Ponte e as filhas. Não sei. Mas quem gosta dos versos de Cesário Verde gostará desta prova da sua ascendência poética. E é de uma carta familiar que nos vem a informação.
As cartas acabaram, temos o e-mail e os blogues. Não é nada mau.

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Do romance historico

>> segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009


O romance histórico

Alguns factos e um dilema
O romance histórico é uma obra de ficção - de amor, de aventura, de mistério – vivida em tempos mais ou menos longínquos, ou tratando de um caso misterioso estreitamente relacionado com o passado. O género brotou em força no século XIX quando se descobriu uma nova forma de encarar a História, e homens que se intitularam de Historiadores, passaram a estudar as fontes originais, e a partir delas procuraram reconstituir os feitos do passado. Poetas e romancistas foram no encalço dos historiadores, aproveitavam-lhes as revelações, ou eram eles mesmos investigadores, e criaram um novo género literário: o romance histórico. Walter Scott (1771-1832) é considerado o criador do género, seguido em França por Vitor Hugo (1802-1885), na Alemanha por Gustav Freyrag (1816-1895) em Portugal por Alexandre Herculano (1810-1877). Em 1895, o polaco Henryk Sienkiewics inaugurou, com o seu “Quo Vadis?”, o romance histórico no cenário da Roma dos Césares.
“Era na altura um tipo de narrativa que devia combinar, cita a Wikipedia: ”a erudição do historiador, necessária para a minuciosa reconstituição de ambientes e costumes de épocas passadas, com a imaginação do literato, que cria ou amplia tramas para compor seus enredos. Dessa forma, o autor situação num tempo passado, procurando reconstituir uma época. Para isso, contribuem descrições pormenorizadas de quadros antigos, como festas religiosas, indumentárias, ambientes e aposentos, topografias de cidades. São frequentes as intervenções do narrador, que tece comentários filosóficos, sociais ou políticos, muitas vezes relacionando o passado narrado com o quotidiano do século XIX.”
Com o tempo o género foi evoluindo, não se escreve hoje o romance histórico como se escrevia no século XIX. As intervenções do narrador, tecendo comentários filosóficos, sociais ou políticos desapareceram, e já não se exige do autor de romances históricos que seja erudito historiador. Não faltam livros em que se poderá informar sobre os costumes da época em que situa a sua narrativa.
Há naturalmente uns tantos pressupostos. O autor deve ter a capacidade e a imaginação de se colocar na época em que situa os acontecimentos do seu romance, e não irá pôr no centro da acção um conflito baseado em problemas que na época não existiam.
Depois há que ter cuidado com o uso de nomes próprios. Não havia Sónias, Vanias, Sabrinas ou Marlenes na Na Idade Média, a filha de um burguês não era Mafalda nem Cunigunda, deixem isso às princesas e senhoras da alta nobreza. Usava-se o patronímico António Feliciano, era filho de Feliciano. José Joanes era filho de João, José Carvoeiro era decerto filho de quem exercia essa função. Se a narrativa se situa em tempos mais recentes, em fins do século XIX por exemplo, há que recordar que só houve Marias de Lourdes e Milús depois dos aparecimentos marianos em Lourdes.
E, goste-se ou não se goste, havia classes, e havia usos que distinguiam as classes. As modas não eram iguais para todos, havia cores e tecidos reservados à alta nobreza, algumas mesmo só aos reis e rainhas. As mulheres trabalhavam nos mais variados ofícios, e a grande maioria, mesmo as mais altamente colocadas, não sabia ler.
Depois há os pormenores de ordem material. A luz artificial era de velas e candeias de azeite, os vidros nas janelas só tarde existiram, as batatas vieram da América, não as havia antes do século XVI.
Quanto ao diálogo. A gíria, e as expressões “da moda” marcam uma época. Em narrativa do século passado ou anterior não se podem usar expressões que sejam nitidamente dos dias de hoje.
Um exemplo crasso daquilo que nessa matéria não se pode fazer, encontramo-lo num livro recente de Isabel Stilwell, no qual lemos como D. Catarina de Bragança, recém casada com Carlos II de Inglaterra, mostrando o seu espanto por uma atenção do marido, se lhe dirige com estas palavras: “Não me diga, Carlos”. A expressão é tão “actual”, que mesmo em romance do século XIX seria descabida, e no século XVII é de um cómico tal, que o “Não me diiiga, Carlos” - o assento nos is é obrigatório -, entrou desde já na minha colectânea de frases de humor involuntário.
Em romance histórico, o título do livro também é importante para o colocar na época e dar o tom do género de história que será. Exemplo daquilo que não se fará na matéria, é mais uma vez o citado livro de Isabel Stilwell. Ela intitulou-o “D.Catarina de Bragança, unica portuguesa que foi rainha de Inglaterra......”. Perante o título, e a vasta bibliografia citada no livro, o leitor estava no direito de pensar que se tratava da vida, historicamente estudada, dessa personagem real, que se estava perante a biografia daquela D. Catarina, que fora rainha de Inglaterra.
Só quando folheei o livro e li as conversas inventadas, e a infanta, dirigindo-se a seu futuro marido com o fatídico: “Não me diga, Carlos”. percebi que aquilo era, não uma biografia de D. Catarina de Bragança, mas um romance histórico à base da sua vida.
Das entrevistas que depois da publicação do livro fizeram à autora, conclui que ela se considera uma espécie de detective, de investigadora, da História, e, neste caso, da história de Dona Catarina de Bragança. Ora, querida Isabel Stilwell, os “detectives” do seu romance foram aqueles que lhe forneceram os dados sobre os quais pode arquitectar a sua semi-biografia, ou semi-romance, foram os autores das obras que cita na bibliografia. Conto-me entre elas. Decifrei, primeiro no arquivo da minha família materna, depois em arquivos e bibliotecas de Londres, Paris, Lisboa e Vila Viçosa perto de vinte volumes manuscritos da correspondência do homem que fez aquele casamento, e sem o qual nada se saberia das suas negociação, da ida da Infanta, dos seus primeiros tempos de casada etc etc Depois escrevi sobre essa investigação. Essa esteve em primeiro lugar. Deixe aos investigadores o que é deles, e bem pouco é.
Em Portugal, o romance histórico, praticamente adormecido desde Alexandre Herculano, renasceu com Fernando de Campos, e o género proliferou quando - perante o sucesso do livro de Dan Brown - se provou que era fácil escrever um romance histórico. E como há por cá uma certa tendência para o exagero deu-se entre os autores portugueses este curioso fenómeno, que é confundir um romance histórico com obra de História.
Dito isto, apetece-me falar de questão de outro género e bastante mais interessante. É questão nascida da leitura de um post publicado no blogue “Arte de Ler”. Trata-se de saber, se é fazível apresentar um facto histórico inédito em obra de ficção.
Peço desculpa aos autores se abrevio nos seus respectivos textos, as apreciações de estilo etc. que não adiantam para a questão que para mim é central.
O livro que dá origem à questão é “O Cavaleiro da Ilha do Corvo” de Joaquim Fernandes (Círculo de Leitores / Temas e Debates), e o crítico que originou o debate foi Luís Carlos Silva.
Depois de uma apreciação da qualidade literária da obra, Luís Carlos Silva escreve:
“Essencialmente, o romance anda à volta de uma hipotética estátua encontrada pelos navegadores portugueses na Ilha do Corvo, decorria o reinado de D. Manuel I e que, juntamente com outros achados, provaria que as ilhas haviam sido descobertas muitos séculos antes dos navegadores portugueses. A descrição desta estátua é feita por Damião de Góis, o que, para o autor, é suficiente como garantia de veracidade. Ou seja, Damião de Góis é, para o autor, uma fonte autorizada e irrefutável. Contudo, e apesar de termos em grande conta o prestigiado humanista português, temos de relembrar que é o mesmo Damião de Góis que dedica várias linhas na sua Descrição da Cidade de Lisboa à existência de tritões, nereidas e sereias nas águas limítrofes à cidade.”
A análise toca em outros pontos discutíveis, inspiração no livro de Dan Brown, erros como o confundir meridianos com paralelos, etc, mas “ainda assim, prossegue o crítico, trata-se de um livro que satisfaz bastante, enquanto obra de ficção, pois tem um enredo bem encadeado e cativante...............”
A partir dali seguiu-se, escreve Luís Carlos Silva, uma amistosa troca de e-mails entre ele e o Prof. Joaquim Fernandes, e este aceitara o desafio de escrever um texto como “resposta” à recensão crítica da sua obra.
Eis o que o autor disse:
“O objectivo do meu romance, ‘O Cavaleiro da Ilha do Corvo’, não foi produzir obra-prima ficcional, “mas sim colocar à disposição dos leitores, pela primeira vez sobre a matéria, um painel documental sobre a hipótese da verosimilhança da polémica estátua corvina. Sendo antes de mais historiador, procurei atestar essa competência na confortável bibliografia, reunida ao longo de mais uma década, com intermitências, e exposta no final da obra. Sinceramente, nunca me preocupei com o modelo do “Código da Vinci”, ainda que logicamente o “esqueleto” ficcional da obra o torne comparável. Mas aqui nem pretendi ser original: bastou-me o insólito do acervo documental, ignorado pela generalidade dos leitores – incluindo muitos colegas académicos – para superar as eventuais fraquezas do enredo................................................
O que tentei fazer no meu despretensioso “romance” (modalidade por que optei em lugar de um porventura maçador ensaio) foi colectar e oferecer aos leitores “comuns” toda a informação disponível sobre o tema – que considero fascinante e tem ligações, como se sabe, a toda uma tradição do imaginário ocidental atlântico e “atlântido”, onde se fundem literatura e história.”
Até aqui o professor Joaquim Fernandes.
Pessoalmente, o que desde logo me interessou foi a questão que os dois textos indirectamente levantavam: a saber, se um facto ou caso histórico inédito, e possivelmente controverso, pode ser apresentado por meio de uma obra de ficção , ou se há que seguir as vias académicas, dando primeiro a conhecê-lo por meio de um ensaio -“possivelmente maçador” - ou outro tipo de estudo.
O prof. Joaquim Fernandes optou pelo romance. O qual, segundo ele, existia apenas para apresentar uma teoria e a vasta bibliografia em que esta se apoiava.
À primeira vista, a opção do autor pareceu-me inadmissível. Se ele estava razoavelmente convencido de que havia provas de ter existido na Ilha do Corvo a estátua de um cavaleiro, datada de muitos anos antes das descobertas portuguesas, então o assunto era de interesse histórico, e em minha opinião devia ser tratado primeiro em ensaio, ou estudo, com argumentos bem documentados, quite a ser depois usado de outra forma, de ser o pano de fundo de um romance detectivesco ou histórico, por exemplo.
Em seguida reconsiderei. Não havia duvida que aquilo que se impunha era um estudo e não um romance. Mas... estamos em Portugal. Quem iria ler o dito estudo? Quem o analisaria e criticaria com competência e isenção?
E depois, e aí é que bate o ponto: recordei o meu próprio, recente, dilema.
Estando em posse de um facto, que me parecia, e parece, relevante para a solução de um problema histórico, optei por o revelar em romance histórico (ainda por publicar). E fi-lo por ter a certeza que como “estudo” não seria lido e comentado, e que, incluído em romance, talvez o fosse. Ou seja, eu fizera exactamente a mesma coisa que o professor Joaquim Fernandes.
E mais. Tendo eu estudado em profundidade –nas fontes – a vida monástica das mulheres em Portugal, e terminado um estudo a esse respeito, imaginei as longas duvidas das editoras, e decidi não esperar pelas suas decisões. Aproveitei os meus conhecimentos em romance histórico. Fiz bem. O romance 'O Mosteiro e a Coroa' foi publicado e premiado, o ‘estudo’ ainda está à espera que os editores se decidam. Estamos em Portugal, professor Joaquim Fernandes.

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