E porque nao um blogue?

>> segunda-feira, 9 de março de 2009


28 E porque não um blogue?
Todos os bloguistas tiveram decerto a sua especial razão para entrarem na blogo-esfera, e hoje vou falar da minha razão.
Não sei o que faríamos sem frases banais para começar artigos.
Há anos, quando um escritor tinha alguma coisa a dizer, mas não havia quem fizesse o favor de o ler, o autor, mais ou menos desanimado, punha o seu textozinho ‘na gaveta’. Era a expressão usada. Também havia, e creio que ainda há, uma expressão para dizer que o autor está momentaneamente incapaz de começar, continuar, ou terminar a obra prima que está ideando ou elaborando. O autor está ‘bloqueado’. Eu vivo de momento as duas situações. Tenho textos ‘na gaveta’, e tenho um livro preparado, estudado, pronto para ser redigido, que pretendo intitular “A curiosa história da Crónica de Zurara”, e que não consigo começar. Estou portanto também ‘bloqueada’.
Não me faltam escritos prontos: um livro histórico, que está à espera de editor --e os editores não pulam de entusiasmo perante livros de história -- um romance histórico (que eu adoro) a publicar em breve pela Presença - antigamente dir-se-ia que estava no prelo, ou seja na prensa, hoje já não deve haver prensas, e quanto a sair em breve, também é força de expressão - e ainda tenho, como disse, um texto ‘bloqueado’. Pois foi ao tentar mais uma vez pôr aquilo em letra redonda, e quando mais uma vez não o consegui, que me lembrei desta coisa que se chama blogue. Porque não escrever uma série de artigos sobre temas literários e lançá-los na tal blogo-esfera? Talvez desbloqueasse, e decerto haveria uma ou outra alma que me lesse.
Telefonei ao senhor Casaca. O senhor Casaca vive em Sesimbra, têm aí o seu escritório, e é perito em Macs. Sempre que preciso de dar um passo em frente nesta nova arte, dou uma lição com o senhor Casaca. Lição interrompida com fascinantes relatos da pesca ao largo do Cabo Espichel, porque o senhor Casaca, filho de pescador, é pescador ao domingo. E pesca pargos que são a minha inveja. Eu tenho pouco a contrapor, mas sou tratada por Doutora - o que não sou - e me dá uma certa auréola de sapiência. O senhor Casaca não ficou tão espantado com o meu projecto como eu pensava, mas avisou-me dos perigos.
--Que perigos?
–Ah, a doutora sabe lá.
Mas não era preciso preocupar-me, se algum insulto, ou comentário pouco decoroso surgisse em resposta a um dos meus artigos, o senhor Casaca apagaria o escrito infame.
--E o perfil?
--Que perfil?
--Assim como a doutora é.
Quem me lesse, perceberia que perfil era o meu, respondi.
Fotografia é que tinha de ser.
Pois vá pela fotografia.
A composição não nasceu de um momento para o outro, esperei um mês, quase dois. Aproveitei para me inteirar do que se fazia por aí em matéria de blogues literários, e constatei que na sua maioria estes se dedicam à critica ou análise de livros. Alguns textos excelentes, aliás. O que me confirmava no propósito de abordar os mais variados temas literários, talvez até do que entendo por critica, mas de, pessoalmente, evitar um tema que me assusta. Perante a abundância de blogues literários, pensei mesmo em desistir. Quem me iria ler? Mas não pensava eu o mesmo, sempre que escrevia um livro? E não continuava a escrever? Pois então. Porque não ir em diante com o blogue?
E, finalmente vi-me perante a amostra do meu futuro blogue - composição do senhor Casaca - muito mais imponente do que eu imaginara, e, quisesse ou não, tive de começar.
Os primeiros artigos foram lidos por alguns indulgentes membros de família – houve logo uns que me comunicaram que adoravam ler – enquanto a mimha filha e as sobrinhas leitoras declararam que esperavam para ver antes de se pronunciar. Mas que não pusesse a fasquia muito alta. Não é coisa que eu costume fazer em matéria literária, e não me desiludi com os poucos leitores que tive de princípio. Agora já tenho mais, mas não muitos, entre quarenta a cinquenta leitores para cada um dos meus artigos, e estou contente.
--Uns míseros quarenta a cinquenta leitores? Muitos deles provavelemente nem lêem, e está contente?
--Estou, sim senhor, e gosto do que faço.
--Porquê?
Foi o que me perguntei a mim mesma. E reparem como consigo resistir à citação óbvia.
Os artigos semanais, por pequenos que fossem, tinham de ser bem escritos e bem estudados, dariam trabalho. Mas isso não me assustava. Eu fui uma daquelas irritantes meninas que há em todas as aulas, que gostam de estudar. Creio que não chegava a irritar, porque era crime que sempre disfarcei, mas a verdade era essa: eu gostava de estudar. Até gostava de fazer os meus deveres de casa. O gosto manteve-se pela vida fora, passei de ser a menina estudiosa, para ser aquela Theresa, que tem a mania da leitura. –O que vale é que o marido também é grande leitor, acrescentava-se.
E agora sou aquela Theresa, a mãe da Isabel, que escreve livros e a quem, além de escrever livros, lhe deu na cabeça ter um blogue. Assim é, e gosto.
Gosto de pensar no artigo que vou publicar na segunda-feira, gosto de o estudar como se dependesse dele ganhar uma fortuna. Faço o possível para que aqueles que me lerem, entendam o que eu pretendo dizer, e até, se possível, se interessem pelo que escrevo.
Pierre Assouline diz no livro que escreveu sobre as experiências com o seu blog “la république des lettres”*, que um blogue é o ultimo salão onde se conversa: “Un blog est un salon. Le nouveau et le dernier salon ou on cause...........” Estava a pensar nos salões do século XVII, evidentemente, ali onde a sociedade francesa elevou a conversação a uma arte. O sentido entende-se: Tal como nos ‘salons’ literários, nos blogues conversa-se. Com uma diferença monumental. Os parceiros de então conheciam-se, na Net, os parceiros de conversa desconhecem-se. Pois sim, mas em contrapartida, o seu número e a sua variedade não têm fim.
Eu conto já entre os meus desconhecidos parceiros com alguém que conversou comigo sobre os Nibelungos, tenho alguém com quem estou falando sobre plágio e com ambos espero vir a conversar sobre outros temas. Pelo amador de um dos meus livros penetrei com ele num blogue muito masculino ali para os lados de Coimbra. Apesar de muito bem acolhida, senti-me um pouco estranha, percebi o que sentiu Alice no paiz das Maravilhas, ao encontrar criaturas de outro mundo, que pareciam do dela. Ou vice versa. Encontrei alguém que – tal como eu - lê livros sobre as batalhas medievais. E com quem espero discutir o assunto logo que tiver lido os livros de que ele me falou. Encontrei alguém que, tal com eu, ia morrendo de rir ao ler a história do tio Podger a pregar um quadro. E ainda outros que me fazem rir com os seus próprios escritos e humor. Conversei – e teria gostado de falar mais - com alguém que tem os mesmos problemas que eu quanto à arrumação de livros. Conversei com alguém que se preocupa como eu com a saúde do comissário Maigret.
Adérito, que ali me introduziu, o simpático e vigilante Cão, Britannicus, Viriato dos Santos, Tinoni, outros ainda, anónimos, ou com nome próprio, foi bom, é bom, conversar com eles.
E o que dizer de ter reencontrado, e com tanto gosto, a autora de um blogue literário, com quem há anos contactara? Devo-o ao fenómeno que é a blogo-esfera.
Quer isto dizer que não preferisse ser publicada em jornal ou revista? Foi hipótese que neste caso não cheguei a pôr, mas, citando Daniel Abrunheiro em comentário que ele me enviou, eu, tal como ele: “prefiro o papel”. Assim como prefiro a leitura com o livro na mão, à leitura no computador. Mas uma série de artigos em blogue não é um livro, é uma conversa. E eu gosto de conversa. De boa conversa. Tenho-a no mundo dos blogues, não a teria em jornais ou revistas

*Pierre Assouline, Breves de Blog. Le nouvel âge de la conversation Les arenes

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De livros. De os roubar, copiar e adoptar

>> segunda-feira, 2 de março de 2009



Livros. De os roubar, copiar e adoptar
Há meses vi roubar livros na FNAC do Chiado. Eu estava em baixo na secção dos livros, vi um homem subindo a escada, reparei como ele olhou para a direita, onde sabia estar um empregado, como pôs um livro no interior da aba do casaco, imagino que em algibeira praticada para o efeito. Subiu mais uns degraus, virou-se de novo para o lado perigoso, sossegou, pôs outro livro em outra algibeira na outra aba do casaco. A curiosidade. feminina sendo o que é, subi a escada um pouco atrás do homem. Vi como ele |à saída abriu o casaco com as duas mãos, como alguém que está com muito calor. Talvez para enganar os sistemas electrónicos? Se era esse o fim, conseguiu, levou os seus livrinhos.
Ignoro de que tipo de ladrão se tratava. Há os que roubam para revender, há os que roubam sem fins lucrativos, para si, para ler, ou estudar, porque gostam de os ter e não os podem comprar. Há outros. E que não actuam nas FNACs. São os amadores de livros raros e preciosos, os bibliófilos que não resistem à tentação de roubar o que não podem obter de outra forma. Talvez a rara primeira edição há muito ambicionada, talvez uma obra prima da impressão, um exemplar saído da oficina de Aldo Manuccio, por exemplo. Raridades tentadoras não faltam.. Houve ladrões bibliófilos que ficaram célebres pelo volume e qualidade dos roubos que cometeram e pela pessoa que eram. Citam-se larápios historiadores, homens de ciência e, o que, como católica lamento, pelo menos dois cardeais, um dos quais veio a ser Papa. Consola-me que se nomeiem também eminentes teólogos protestantes praticando a arte. Houve furtos de colecções completas. Num pequeno livro intitulado “Buchmenschen in Buechern” - em português, “O homem do livro na literatura” - o autor relata o caso do conde Libri, um nobre italiano, professor de física na Universidade de Pisa e no Collège de France, membro da Académie Française, redactor do Journal des Sciences, o qual, eleito para a comissão encarregada de elaborar o catálogo dos manuscritos antigos das bibliotecas franceses, aproveitou o acesso livre que lhes tinha para formar uma das maiores colecções privadas de obras manuscritas do seu tempo. Até ser descoberto.
Comum a todos os ladrões de livros, há, creio eu, a convicção que roubar livro não é grande crime.. É só um livro, não é?
Um tipo especial de roubo de propriedade literária é o plágio. Na Roma antiga designava-se por plágio o roubo de um escravo, de um homem que pertencia a outro. E um dia, não sei quando, passou a ser designado com essa palavra o aproveitamento da escrita de um autor por outro. O que nem sempre foi tido por condenável, note-se. De momento que aquilo ali estava para todos lerem, também ali estava para todos copiarem. Na antiguidade romana não deixou contudo de haver discussões sobre quem copiara de quem. ou quem se inspirava em que obra. Nos tempos dos trovadores, era praticamente impossível saber quem primeiro ideara os contos e as lendas e os romances, levados de terra em terra, de castelo em castelo, pelos contadores de histórias. Com a descoberta da impressão, e o autor começou a assinar as suas obras, já não apreciava que outro se aproveitasse do seu texto, dando-o como seu.
Até que “ sob a pressão das ideias românticas, se começa a desenvolver uma nova atitude em relação à literatura.” Traduzo este trecho de “Le Plagiat” da autoria de Christian Vandenloyse.*
“A estética da imitação que reinara nas letras desde as suas origens, é substituída pela estética da originalidade que levará a uma procura acelerada da novidade. O escritor é visto como pertencendo a uma raça à parte, o seu génio é magnificado e a sua escrita profissionalizada. A crítica literária que também se tornou profissional acelera essa tendência……” Começou a caça ao plágio. Descobrem-se plágios desde Shakespeare a Dickens, desde Corneille a Voltaire e por aí fora.
Voltemos aos dias de hoje.
Júlio Pinto, um jornalista satírico, que durante algum tempo enriqueceu o ‘Independente’ com óptimos pequenos artigos sobre livros e leituras, falava num desses artigos, intitulado “Talento imitativo”, de um grande êxito editorial que seria quase decalcado de outro. Dava exemplos. Assim lia-se no primeiro livro: “…o eco longínquo das vozes que me trespassam”, e no outro: “…trespassava-me o eco de longínquas vozes”. E ainda, no primeiro: ”Minha mãe abraçava-se a meu pai, intimando-o a viver”, e, no segundo: “…e os meus dedos intimavam-na a viver”.
Surge aqui a minha dúvida: será que o segundo autor copiou na verdade, propositadamente, aqueles trechos do primeiro autor? Não será antes que ele, tendo lido o outro livro, o tenha apreciado tanto que fixara algumas das expressões e instintivamente as usara também? Todo o escritor sabe quantas vezes lhe vêm à pena expressões que não são suas, que lhe ficaram de leituras anteriores, ou de livro em que se exprimia justamente aquilo que ele também queria dizer.
Eu que o diga. Em um dos meus livros de ficção a heroína relembra a viagem que há anos fizera no então chamado Sud Express quando, vinda de França, regressava a Portugal: a travessia das vastas terras de Castela, as paragens nocturnas nas isoladas estações, a sua entrada em Portugal pela madrugada. Eu, que já fizera a mesma viagem, e que lera A Cidade e as Serras, tive de me esforçar para não descrever a viagem da minha Margarida com as palavras com que Eça de Queiroz descrevera a viagem de Jacinto.
Não digo que não haja quem propositadamente alinde os seus textos com a seara alheia, mas há muito plágio involuntário, ou – digamos - de boa fé. Em outro dos meus livros meti a dada altura uma pequena história, que vinha muito a propósito. Tinha-a lido algures, com certeza, mas não fazia ideia onde fora, ou se alguém a contar. Passaram-se anos, não mais pensei nisso, e eis que agora, que estou a escrever sobre plágio, sei finalmente de onde tirei a ideia. Sei finalmente onde a li, e de onde a tirei. Foi no livro “Erdachte Gespraeche” (Conversas ideadas) de Paul Ernst, de uma conversa ideada entre Sócrates e Alcibiades.
Em “As Casas da Celeste”, Ema, uma das suas heroínas, diz:
“—Pois vá, a história da galinha. Não a vou contar toda, porque a Olga rebentava. Mas é uma história que eu aplico muitas vezes e que me dá muito que pensar. Dita depressa, é assim: ‘Uma mulher tem uma galinha. Vem a raposa, leva-lhe a galinha, e come-a. A mulher diz que a raposas é uma ladra e uma assassina. Mas a raposa acha que fez bem, ela vive de galinhas. A galinha, essa, em vida, comia vermes. A mulher achava muito bem que a galinha comesse vermes, que até lhe ficavam os ovos mais gostosos. Mas os vermes, esses, achavam que galinha era uma assassina”. E por aí fora....
Mea culpa,. mea culpa. Ao escrever aquilo, estava a escrever o que tinha na memória de um dialogo entre Sócrates e Alcibíades imaginado por Paul Ernst. Estava a plagiar. Só que não fazia ideia a quem plagiava.
Já me sucedeu ler em algum livro trecho em que reconheço mão alheia. Ainda há pouco me indignei ao reconhecer um ideia de Maupassant em autor (português) moderno. Até que me lembrei do meu próprio crime.
Como autora, ainda não tive a honra de ser plagiada, mas achei graça quando percebi pela leitura de uma autora light da nossa praça, que ela se dera ao trabalho de ler os meus livros. A descoberta do passado da mãe da sua heroína num livrinho de veludo encarnado, não queria dizer nada. O meu livrinho era de veludo azul. Mas quando a autora fala de “linhagem” a propósito de uma “boa” família do Estoril, a coisa já deu para pensar. É que “linhagem” não é expressão comum, e nunca se emprega em relação de famílias de hoje, por muito boas que sejam. Posso estar enganada, mas suspeito que a autora em questão leu um meu romance histórico passado em que se fala em linhagem. Sabia-se então o que isso queria dizer.
Como disse um autor francês, só o primeiro é que não copiou de ninguém: "le plagiat est à la base de toutes les littératures, excepté de la première, qui d'ailleurs est inconnue".
Recentemente surgiu uma nova forma de plágio. Um autor escreve um romance histórico, e publica no fim uma “bibliografia”. Isto feito, imagina que está livre de usar dos livros aí mencionados para seu próprio uso. Mas não está. É evidente que na sua maioria esses autores o fazem por pura ignorância do que seja bibliografia. Como autores de ficção ignoram que o facto de indicarem quaos os autores que leram para escrever o seu livro, não os autoriza automaticamente a usar partes do texto deles, adaptando-o ao seu. Uma bibliografia no fim do livro - coisa pouco usada em ficção - permite que se citem frases de algum dos autores consultados, mas sempre com a menção do seu nome e obra. Adoptar frases de outro autor na nossa obra quando, em ‘bibliografia’ no fim do livro indicamos que lemos essa obra, não deixa de ser plágio.
ªCrhistian Vandenloyse Le Plagiat
wwwletttres.uottava ca/vanden.plagiat.htm

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Escrita e leitura ao masculino e ao feminino

>> segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009




Escrita e leitura ao masculino e ao feminino

Homens e mulheres têm gostos diferentes no que escrevem e no que lêem. Acho eu. E tenho mais algumas ideias sobre esta coisa de leitura e escrita no masculino e no feminino. Tenho mesmo tantas ideias e tantas perguntas a esse respeito, que não tinha tenção de me lançar em tão vasto assunto. Uma frase de Patrícia Reis lida no blogue: Click(IN)VERSOS fez com que afinal me aventurasse nele, não na esperança de esclarecer o assunto, só para o abordar. Ao de leve, com os devidos cuidados e as necessárias atenções.
Patrícia Reis, a quem uma entrevistadora perguntava porque é que os relacionamentos amorosos estavam muito presentes nos seus livros, (curiosa pergunta, aliás) respondeu desta forma:
– Ora, porque é um livro de uma mulherzinha. (RISOS) Quando é um homem a escrever uma história de amor, ele está a meditar sobre a condição humana... Ora, escrevo também sobre a condição humana. Há vozes distintas em meus livros e escrevo uma história para cada um dos personagens. Não existe literatura feminina. Estou farta desta questão. As pessoas têm manias dos rótulos e dos gêneros. Por que? Os homens gostam mais de sexo do que a mulher? Isso é o que os homens gostam de pensar... “
A resposta era um pouco confusa, mas permitiu-me concluir que aquilo que a autora pretendia dizer, era que, para ela, não havia distinção entre literatura feminina e literatura masculina.
Confesso que estas declarações peremptórias me espantam. Sucedem-se os estudos sobre a escrita feminina e a leitura feminina, eu acabara de ler um livro sobre a leitura ao feminino*, o livro mostrava, nem que fosse pela sua abundante bibliografia, que a divergência entre leitura ao feminino e ao masculino é assunto de estudos e debates, e aqui tínhamos uma autora de ficção varrendo o assunto para baixo do tapete. Que escrita feminina e escrita masculina são igualmente literatura, ninguém discute, o que me parece incompreensível é que alguém seja da opinião que nada distingue uma da outra.
Parece-me o contrário. Creio que escritoras e escritores, leitoras e leitores se diferenciam na escolha dos temas da sua escrita e da sua leitura, e, que no que diz respeito à leitura, a diferença de gostos se nota-se já na criança.
Na escola que eu frequentava, o colégio alemão, havia de duas em duas semanas uma aula que era dedicada à ida à biblioteva para a escolha de livros por nós alunos. Lembro-me muito bem que, nas raparigas, a tendência era para a escolher de preferência livros, chamados "de rapariga", e que, no caso dos rapazes, a preferência ia para os livros de aventura, de piratas, de tesouros escondidos.
Havia também revistas destinadas a gente nova. Em inglês parece-me que se intitulavam respectivamente “Girls Own” e “Boys Own”, e as correspondentes revistas alemãs chamavam-se “Der gute Kamerad” (O bom Camarada) e “Wir Maedel” (Nós, raparigas). Eram diferentes, porque os editores partiam do princípio que gostos de rapazes e raparigas eram diferentes.
Não me lembra de um dos meus irmãos pegar na minha revista, mas eu lia a minha e a deles, Não era caso único, muitas raparigas leitoras liam também livros de aventura. O que era impensável era que rapaz lesse livro de rapariga. E a coisa não mudou com o passar dos anos. Enquanto uma mulher lê sem hesitar livros mais conotados com o gosto masculino, deve ser raro um homem pegar em livro especificamente feminino.
E já lhes deu para pensar nos contos de fada - um género de "ficção" também eles? Se seriam de autoria feminina, ou de autoria masculina? Se seriam destinados a raparigas ou a rapazes?
Ultimamente tem-se escrito muito sobre o simbolismo e o fundo psicológico dos contos de fada. É já um novo ramo da investigação literária, e, no entanto, creio que o assunto não foi ainda abordado sob este aspecto: a saber se os contos que há centenas ou milhares de anos brotaram da imaginação de narradores anónimos, se esses pequenos textos, levados por boca de terra em terra, eram da autoria de mulheres ou de homens e se eram destinados a um mesmo público de ouvintes. Creio que não, creio que alguns dos contos eram destinados a jovens - e até menos jovens - "ouvintes" masculinos, enquanto que outros, se destinavam sem uma dúvida a serem ouvidos por jovens - e até menos jovens - "ouvintes" femininas. Basta pensar no conto do "Capuchinho vermelho". As recomendações que a mãe do Capuchinho lhe faz: nunca se afastar de caminho, nunca dar atenção às palavras do lobo, se ele lhe aparecesse, recomendações mais extensas e explícitas ainda na forma francesa do mesmo conto, são recomendações que qualquer mãe já fez a uma sua filha. O "Capuchinho Vermelho", foi decerto inventado por uma mulher e decerto para ser contado a raparigas. Para as divertir e para as precaver. É um conto puramente feminino. Tal como a "Branca de Neve e os sete anões" é feminino, e tal como é puramente para rapazes e ideado decerto por homem o conto do rapaz que "saiu de casa para aprender a ter medo".
Quem se quiser dar ao trabalho de estudar os contos sob esse aspecto, distinguirá facilmente os contos 'femininos' dos contos 'masculinos’. Tal como - digam o que quiserem - se distingue hoje, a ficção feminina da ficção masculina. Há temas abordados por homens que poucas mulheres escolheriam para tecer uma história em sua volta. E vice versa. Tal como o faziam os narradores ambulantes de contos.
Creio que a mulher escreve e lê de preferência romances baseadas em factos e sentimentos concretos, não escreve ficção muito cerebral, ou muito fantasiosa. E quem diz escritor e escritora, diz leitor e leitora. Na sua leitura e na sua escrita, a mulher prefere normalmente romances com pessoas e coisas que possa visualizar, sentir, que se situem em meios que lhe sejam familiares. Raras vezes entra pelo fabuloso, por onde o homem recentemente tem enveredado com tanto êxito. E, mais uma vez, quem diz escritora, diz leitora.
Pareece-me que, com raras excepções a mulher leitora preferirá, se lhe propuserem a escolha - dando um exemplo concreto tirado da literatura sul-americana - ‘O Tempo e o Vento’ de Erico Veríssimo ao ‘Cem Anos de Solidão’ de Garcia Marques. Porque prefere o realismo verdadeiro ao realismo mágico.
É verdade, como já disse, que a mulher leitora lê, indiferentemente, livros de escritores e livros de escritoras, mas creio que há livros - e grandes - de autores masculinos, que a mulher leitora lê com menos agrado e menos facilidade. Procurando, assim de repente, um desses livros que julgo agradarem pouco às leitoras, lembro-me de ‘Moby Dick’, de Melville. Por mim falo. Forcei-me a lê-lo, mas sei com absoluta certeza que não lhe voltarei a pegar.
Já ‘Guerra e Paz’ de Tolstoy é livro para – em minha opinião - agradar tanto ao leitor masculino como ao feminino. Tem romance, tem retratos de mulher, tem pintura de costumes que bastam para ela, e tem retratos de homem, tem debates filosóficos, tem guerra - e discussão dela - que bastam para ele.
Pois nem todos são da minha opinião. Scott Fitzgerald tratava ‘Guerra e Paz’ de livro para homem. Como a filha (que teria então 18 ou 19 anos) não o tivesse conseguido ler até ao fim, ele repreendia-a por ter começado a lê-lo, sem estar preparada para isso: “You shouldn’t have started War and Peace, which is a man’s book and may interest you later”. **
É uma curiosa afirmação, mas muito verdadeira em um dos seus aspectos. Passados aqueles primeiros anos de leitora, em que a mulher lê quase exclusivamente o género “ficção”, surgem gradualmente novos interesses e com eles o gosto por outro tipo de literatura. Assuntos e problemas abordados em ‘.Guerra e Paz’, que não a interessavam aos dezanove anos, já a poderão interessar aos trinta ou quarenta.
Isto quanto à leitura. Na escrita, penso que a diferença entre literatura masculina e feminina não está tanto no estilo, que aí praticamente não há distinção óbvia, que a diferença, está mais nos temas escolhidos por uns e por outras e está na abordagem destes. Assim, por exemplo - a não ser nos romances policiais - as escritoras escolhem prioritariamente uma mulher como centro das suas histórias, enquanto os escritores escolhem prioritariamente homens como heróis, ou centro principal. Não o fazem decerto de propósito, nem um nem outra. Fazem-no instintivamente. Colocam prioritariamente (repito, prioritariamente, não me esqueço das grandes excepções) personagens do seu sexo no centro das suas respectivas ficções, porque são essas as que melhor conhecem.
A propósito. O “Nibelungenlied”, a saga dos Nibelungos, é em geral identificado com a pessoa do herói Siegfried, e portanto como um livro de homem. Foi coisa que nunca questionei. Até que um dia me deu no goto que o anónimo autor daquela saga, falasse tanto de vestuário. Comentei-o com a minha filha numa carta escrita em Setembro 2006: “.a respeito do Nibelungenlied. ......... Uma das coisas que me diverte, é a preocupação do autor com o vestuário das mulheres. Chego a pensar que se tratava de uma autora, porque as heroínas e as suas damas passam a vida a por e tirar vestidos,...”
Curiosa de aprofundar esse aspecto do livro, peguei nele de novo, e constatei com espanto que a primeira pessoa nele mencionada, não é Siegfried, é Krimhilde (Cremilde). Não a segunda, ou a terceira personagem, a primeira. A estória é a estória dela. Na segunda estrofe do poema lê-se:
“Crescia então nas terras de Borgonha uma rapariga de primeira nobreza, mais bela que todas as outras no mundo, chamada Krimhilde. Viria a ser uma linda mulher e muitos guerreiros deixariam a vida por sua causa.”
Por sua causa, é verdade, mas não ‘em sua causa’. A historia é muito mais a história de duas mulheres – Krimhilde e Bruenhilde – que se servem dos homens para as suas vinganças. Talvez não fosse escrita por uma mulher, mas é um livro feminino.
Leitura e escrita ao feminino e ao masculino, o tema é difícil, e é delicado. Não esqueço as grandes poetizas e as grandes romancistas, mas a grande literatura é “ao masculino”. Não tenho duvida a esse respeito, o que ignoro é a razão. Há o argumento da mulher a quem os homens durante séculos não permitiam que ...... Sem dúvida, mas não é só essa a razão. Há o papel de mãe para o qual a natureza a destinou, que rouba à mulher o tempo necessário para se dedicar a coisa tão absorvente como a escrita. E como se pode ela concentrar, como a grande literatura exige, quando vive em constante preocupação com a saúde e a educação dos filhos? O homem consegue abstrair, a mulher, não. Outras razões haverá. Não sei. E, confesso, que pouco me importo. Se o livro é bom, tanto se me dá que o autor tenha sido homem ou mulher.

* La lecture au féminin. La lectrice dans la litérature française du Moyen Age au XX siècle”,WBG Darmstadt

** F. Scott Fitzgerald On Writing editred by Larry W.. Phillips

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DAS CARTAS AOS MAILS

>> segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009


Das cartas aos mails
“Você tem correio”
Julgava eu que acabara para sempre a emoção de receber uma carta quando um filme encantador me veio provar o contrário. “You have mail” (o título parece ser este ) mostra como a carta electrónica de hoje pode ser tão emocionante como o era nos tempos passados a carta que o correio trazia. O que talvez tenha acabado para sempre são os livros de cartas de gente que primou na arte epistolar. Ou será que alguém publicará um dia as cartas electrónicas de dois escritores, de dois políticos dos nossos dias? E de dois anónimos que só se conhecem pela Net? Será preciso esperar para ver.
No século XVII um inglês (Lord Chesterfield) indicava ao filho, como exemplos dignos de estudar e de imitar, as cartas de Cícero, do cardeal d'Ossat, de Bussy Rabutin, e as de Madame de Sévigné.
Não conheço a correspondência de Ossat, e provavelmente já ninguém o recomendará pela sua arte epistolar. Os nomes de Cícero e de Madame de Sévigná é que nunca podem faltar quando se trata de arte de escrever cartas. Em princípio, creio que nem um nem outro escreveram para serem lidos por outros que não os destinatários das suas cartas. Em princípio! Porque no caso de madame de Sévigné, não tardou que as suas cartas passassem de mão em mão lidas na roda íntima dos seus conhecidos.
. A escrita de cartas era uma arte cultivada por uma elite culta, além missiva pessoal. a carta era exercício literário. E no seu tempo, reconhecido por todos, nem homem nem mulher excedia Madame de Sévigné.
O preciosismo do século XVII foi passando, esperava-se que uma carta fosse bem escrita, mas não se exigia que brilhasse como obra literária. A 3 de Janeiro de 1801 Jane Austen escrevia a sua irmã Cassandra: “Atingi agora aquilo que nos dizem ser a verdadeira arte de escrever cartas, que é o de exprimir no papel exactamente aquilo que diríamos à mesma pessoa por boca”.
. As pessoas escreviam como falavam, ao correr da pena. Cumpriam, decerto sem pensar, a regra principal da boa comunicação epistolar: transmitir ao correspondente, por escrito, como o faria verbalmente, aquilo que não lhe pode dizer directamente.
Em Portugal foi com certeza no século XIX quando elas descobriram a política, e se lhes abriram outros novos horizontes, que as mulheres se tornaram entusiásticas praticantes da arte epistolar. As senhoras tinham o seu dia de correspondência, em que punham, como elas diziam, "a escrita em dia", cobrindo com a sua letra cuidada, em linhas cruzadas e até contra cruzadas, resmas do melhor papel de carta jamais fabricado.
È em parte devido áqueles pormenores triviais, que raras vezes faltam nas cartas de mulher, que estas despretensiosas correspondentes familiares, transmitem como ninguém o espírito da sua época. E é na convicção do que elas revelam do espírito do século XIX, que eu talvez ainda venha a contribuir para a expistolografia feminina portuguesa com a publicação das cartas familiares da minha bisavó materna e das suas filhas.
Penso que um dos atractivos da leitura de volumes de cartas tem alguma coisa a ver com o seu lado indiscreto. O leitor tem a sensação de estar a olhar para dentro duma casa, de estar ouvindo o que lá se está vivendo, entra na intimidade das pessoas. Estou falando das correspondências familiares. Nada disto tem a ver com correspondência diplomática, ou de escritores, de pensadores.
Numa categoria à parte estão as cartas de amor. Há-as sem duvida lindíssimas, de grande valor sentimental e literário, basta lembrar as cartas de Héloise e Abélard, sempre citadas em primeiro lugar. Não sou grande amadora do género. Expressões de amor saídas das penas de grandes figuras das letras ou da política, expressões que a seu tempo decerto deleitaram amados e amadas, deixam-me frias, quando não incomodada por pueris ou de mau gosto. Acho que as cartas de Napoleão a Josefina podiam muito bem ter ficado no segredo dos arquivos, e as cartas de amor de Fernando Pessoa dão vontade de rir. Aqueles "meu bebezinho querido", com certeza recebidos com encanto pela destinatária, soam ligeiramente ridículos aos nossos ouvidos.
Não aprofundei o caso, mas creio que, ao longo da história, as mulheres talvez tenham sido mais felizes que os homens na expressão epistolar dos seus sentimentos. Veja-se, por exemplo, como se exprimiu uma mulher famosa, escrevendo, nos primeiros anos do séc. XIX a um jovem português por quem estava apaixonada. Mesmo quem não aprecia muito o género, sabe apreciar o que é bonito.
"Os cortesãos de Buonaparte não recolhem mais avidamente as suas palavras do que eu traço as vossas no meu coração", escrevia Germaine Necker, baronesa de Stael a D. Pedro de Sousa e Holstein. Ela tinha 40 anos, ele tinha 24. Fora um conhecimento nascido em Itália, onde D. Pedro ocupava um posto diplomático e madame de Stael estava em viagem cultural. Só aquele encontro entre eles e o seu amor por ele, lhe tinham aberto os olhos para as belezas que vira à sua volta, confessaria a apaixonada baronesa: "Só por si é que me foi dado compreender as delícias daquela estadia, a minha imaginação ainda não tinha povoado o deserto, amei-o e tudo se animou para mim, as belas-artes, a natureza e mesmo as recordações do passado".

O que dizem outros

Johann Wolfgang Goethte Afinidades electivas
"Pomos de parte as cartas, para nunca mais as lermos, depois destruímo-las por discrição, e assim desaparece o mais belo, o mais imediato sopro de vida, perdido para sempre, para nós e para os outros."

Victor Hugo Journal d'un jeune Jacobite de 1819
".... O género epistolar deve mais à natureza do que à arte. As produções desse tipo são, pode-se dizer, como as flores, que crescem por si, enquanto todas as outras composições do espírito humano se assemelham a edifícios que desde os seus fundamentos têm de ser laboriosamente construídos segundo leis gerais e combinações particulares. A maior parte dos autores epistolares ignorou que eram autores; ........não escreviam por escrever, mas porque tinham parentes e amigos, problemas e afecções. Na sua correspondência não estavam minimamente preocupados com a imortalidade, mas muito burguesmente com os cuidados materiais da vida. O seu estilo é simples como a intimidade............"

Exemplo de uma carta familiar

Carta de Isabel Saldanha da Gama (17 anos) para sua irmã Theresa, datada de Caxias, a 10 de Outubro 1866
“Minha muito querida Theresa recebi ontem, 9, carta sua de parabéns que muito agradeço. Achei imensa graça à sua descrição do dia dos meus anos, é exactíssima. Ao abrir os olhos recebi carta e doces de Resgatinha (sic), um pouco mais tarde, doces do senhor César acompanhados duma carta em prosa poética que, como a menina diz, me pôs de horrível humor. Resmunguei, chamei tolo ao pobre do homem, tive meia hora a pena na mão e afinal escrevi duas palavras sensaboríssimas, mas as sublimidades do Cesário têm a habilidade de me empatetecer”.
A autora da carta era filha dos condes da Ponte, e o pai era nessa ocasião Vedor da Casa Real. A família passava o verão em Caxias, e ali perto, em Linda-a-Velha, era a quinta do pai de Cesário Verde, onde ele produziu óptima fruta. É possível que o senhor César, fornecesse a casa real e daí conhecesse o conde da Ponte e as filhas. Não sei. Mas quem gosta dos versos de Cesário Verde gostará desta prova da sua ascendência poética. E é de uma carta familiar que nos vem a informação.
As cartas acabaram, temos o e-mail e os blogues. Não é nada mau.

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