As fontes

>> segunda-feira, 20 de abril de 2009


Os documentos como fontes

Quando a revolução francesa confiscou os bens das casas nobres e das instituições religiosas, o estado francês viu-se a braços com a riqueza documental dos arquivos seculares das famílias antigas e das instituições religiosas. Percebeu-se que era preciso organizar aquela papelada toda e, em 1821, já depois da restauração da monarquia, nasceu a ‘École des Chartes’, com o fim de formar homens que soubessem ler e interpretar os documentos antigos. E escrever sobre o passado baseados neles.
Em Portugal, onde no séquito da França, se tinham abolido as ordens religiosas, a Torre do Tombo, a Biblioteca Nacional, a da Universidade de Coimbra, e outras, viram-se inundadas do recheio dos arquivos que lhes chegavam às carradas dos conventos e mosteiros. Quando se aboliram por sua vez os morgadios, e os bens patrimoniais passaram a ter de ser divididos por mais que um herdeiro - para em lugar de um rico ou remeado e quatro pobres, ficarem cinco pobres – foi necessário ler os contratos e outros documentos antigos que estavam no cartório da casa para saber o valor das propriedades a dividir. Surgiram outros documentos de interesse histórico, que há séculos dormiam pacificamente o sono dos justos em baús e armários.
Percebeu-se que a história que até ali se escrevera não assentara em bases sólidas, que era agora, com aquela documentação vinda do longínquo passado, que verdadeiramente se podia perceber esse passado, e se podia escrever sobre ele. Porque toda a gente queria agora saber como aquilo tinha sido, e se os reis, aqueles sem vergonha, tinham dito a verdade ou não, quando diziam que tinham feito isto ou aquilo pelo povo.
-E os cronistas?
-Ora, esses escreviam o que os reis lhes mandavam, se calhar é tudo mentira.
Já não se queria escrever sobre o passado sem procurar saber o que os homens desse passado tinham dito e feito, e para isso era preciso consultar os documentos do passado, havia que ir às fontes, aos documentos originais.
Era só querer, documentos não faltavam. Documentos régios, documentos das câmaras, documentos dos mosteiros e conventos, e, para quem sabia procurar, os documentos dos cartórios das antigas famílias, alguns já nos arquivos públicos, outros ainda em mãos de seus antigos possuidores, tudo aquilo ali estava, à espera de ser aproveitado para recrear convincentemente o passado, para poder escrever sobre ele sem fantasia, como até ali sucedia.
Consigo muito bem meterem-me na pele daqueles historiadores que primeiro se abalançaram a escrever história baseados em documentos originais. À minha modesta maneira foi isso que fiz. Fui às fontes para os livros que escrevi. Por necessidade evidentemente, por achar que assim é que se devia fazer, mas também pelo gosto de sentir directamente como as coisas eram, e isso só sucede quando se mexe directamente nos papeis e pergaminhos dos arquivos.
O meu primeiro livro foi sobre a vida de um dos restauradores de 1640, que foi militar, e depois diplomata. Viveu a guerra no Alentejo, negociou como diplomata os casamentos de D. Catarina de Bragança e de D. Afonso VI. Com resultados não totalmente satisfatórios, mas isso não vem para o caso. O que ele tinha escrito enquanto militar e diplomata, não me faltava, no arquivo da minha família materna - que eu organizara - tinha em abundância a sua correspondência e outra documentação, mas era preciso saber o que tinham dito os outros. Saber o que se dissera no tempo sobre as operações multares, ler as actas do Conselho de Guerra, procurar algum relato dos feitos. Com a nomeação do homem para embaixador, era preciso saber o que tinham dito os ministros ingleses e franceses com quem ele tinha negociado e tratado. Candidatei-me a uma bolsa da Gulbenkian, que obtive, e pude consultar nos arquivos ingleses e franceses os documentos dos respectivos ministros e diplomatas.
Para o livro que intitulei ‘Na rota da Pimenta’ não houve problemas de leitura e deslocação, a documentação que mais interessa aos Descobrimentos está na sua maioria impressa.
Também não precisei de grandes deslocações para escrever sobre a vida monástica feminina em Portugal, assunto que muito me interessava, a maioria dos arquivos dos grandes mosteiros encontram-se na Torre do Tombo e na Biblioteca Nacional. Mas era preciso ler documentos com letra bem diferente da letra do século XVII a que me habituara. Fotocopiei, recopiei em casa, e à força de ler os documentos originais fiquei com uma ideia do que era em Portugal, no longínquo passado, a vida das mulheres em religião.
À leitura das fontes, segue-se a sua interpretação critica. Tome-se este caso da vida monástica das mulheres na Idade Média. Em Portugal, os autores do século XIX entusiamaram-se com a possibilidade de encontrar nos arquivos provas das vergonhas que se passavam nos mosteiros. Estudaram os documentos, e não muitos, com esse fim em vista. Há agora outro género de curiosidade sobre a vida monástica.
. Os cartórios monásticos encheram-se pelos anos fora de actas de doação, de contratos de arrendamento e de aforamento, de correspondência com as autoridades religiosas, de contratos com os andarilhos que levavam o correio a Roma. Há periodicamente compilação de documentos que interessavam à administração da grande casa. Abadessas conscenciosas mandavam copiar cartas de doação, pedir treslados de contratos, de arrendamentos, de doações. Abundam nos arquivos esses “apanhados” de documentos antigos para basear ou defender uma pretenção, Os mosteiros albergavam muita gente, os edifícios necessitavam de constantes reparações, guardavam-se os contratos com os mestres das obras, com os fornecedores de bens. E não faltavam os inevitáveis pleitos, com a respectiva documentação.
O autor que hoje pretende escrever sobre a vida nos mosteiros femininos, com o propósito de entender o que se passava e como se passava a vida nos mosteros, e não pró ou ou contra eles, esse vai estudar os contratos de doação, de compra e de venda de terras, os do arrendamento e aforamento destas, vai ler os documentos que tratam do relacionamento por vezes tempestuoso das abadessas com os bispos e reis, e aqueles que referem às questões com os foreiros, com os inúmeros assalariados de um grande mosteiro. Não vai ignorar os problemas de vivência, os escândalos que se deram e o porquê deles. Vai-se meter dentro do tempo e dos condicionamentos daquele tempo, e tirar as suas conclusões. Considerando as coisas como elas eram naquele tempo, não como elas, no seu parecer de autor moderno, deviam ter sido.
Gostava de saber exprimir o prazer da pesquisa das fontes, do momento em que se encontra aquele documento que prova uma suposição, que concluie um raciocínio, que explica uma duvida. Não me esqueço da alegria quando na biblioteca de Évora encontrei logo duas descrições coevas da batalha de Montijo, da qual eu até ali não conseguira perceber os verdadeiros movimentos.
Menos agradável é encontrar algum documento que prova que afinal nos enganámos numa afirmação, num raciocínio. Acontece, e pode obrigar a complicadas modificações.
Uma pergunta que me coloco por vezes é se a correcta e completa consulta das fontes, aliada à seriedade na sua avaliação, aliada à indispensável imaginação histórica, permitem ao escritor mostrar de facto como aquilo “na verdade fora”, segundo a exigência de Ranke. Mostrar como foi segundo os documentos, sim, mas mostrar como realmente fora para quem vivera os acontecimentos, isso nunca será possível. Mas isto já entra na questão de como escrever História, e estas minhas amostras de escrita histórica não tem nada a ver com isso, serviram só para exemplificar o uso de fontes documentais.

O que dizem os outros
“A Revolução francesa não se contenta com mudar o sistema político, administrativo e judicial francês, suprime também, juntamente com as ordens sociais, os lares da vida científica: academias, sociedades, ordens religiosas, vende os seus bens, destroi-lhes os monumentos, apodera-se das suas bibliotecas e das suas colecções, dispersa e destrói os seus arquivos. No seio da própria Convenção homens como o abbé Grégoire insurgem-se contra esse vandalismo. Numa certa elite intelectual, que sob o Consulado e o Império estará no poder, manifesta-se o sentimento que é preciso preservar o património que aquilo representa”.* (m/tradução)
Em 1821, já no reino de Luís XVIII, é então criada a “École des Chartes”.
*LÉcole des Chartes de la Monarquie a la Republique, une histoire intelectuelle et politique (1621-1921) Bruno Delmas
em http.//www.archiviodistato.firenze.it/atti/aes/delmas.pdf

Observações à margem
Ficaram-me boas recordações de bibliotecas e arquivos que frequentei nas minhas pesquisas. E nem todas de ordem histórica. Assim, por exemplo, quando fiz uma consulta de documentos diplomáticos franceses no Arquivo dos Negócios Estrangeiros, no Quai d'Orsay, trabalhava lá, ao mesmo tempo que eu, um jovem padre italiano, que era a encarnação da beleza masculina. Considerei-o na altura o homem mais bonito que jamais vira.
No gabinete de manuscritos do Museu Britânico fui severamente repreendida por usar uma Bic. Lera à entrada, que era proibido usar o ‘ballpoint pen’, julguei que era uma caneta especialíssima, perigosa, não pensei que se tratava da Bic. Deram –me um lápis, e no dia seguinte levei a caneta de tinta permanente, que essa se podia usar. Curioso.
Na Torre do Tombo anotei entusiasmada a cota de um maço de documentos soltos do mosteiro de Lorvão, onde encontrara uma quantidade daqueles papeis recortados, que se usavam para proteger os grandes selos de lacra. Eram verdadeiras obras de arte de recorte, mereciam futura revelação. Perdi a cota.
Da Bibliothèque Nationale em Paris recordo a pesquisa que lá me levou, e a dúvida, se teria a sorte de encontrar a obrinha, que sabia existir, mas da qual ignorava o título, sobre os costumes e a etiqueta da corte de Borgonha, redigida nos meados do século XV pela filha de D. Isabel de Sousa, uma senhora portuguesa, que vivera na corte ao serviço da Duquesa, infanta D.Isabel de Portugal. Uma fonte importante para apoiar os argumentos que apresentava em livro que estava escrevendo. Pesquisa bem sucedida, felizmente, com a ajuda de duas bibliotecárias,

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Ironia. Aspas ou ponto de exclamaçao?

>> segunda-feira, 13 de abril de 2009



Aspas ou ponto de exclamação?
Quando eu andava na escola, usava-se nas escolas alemãs um livro, conhecido pelo “Lange” ( do autor, que se chamava Richard Lange), que continha exercícios para ensinar de como aplicar as regras de gramática, de sintaxe etc. Eu adorava o Lange, era com verdadeiro entusiasmo que me lançava naqueles exercícios. Passar frases do presente para o ‘Plusquamperfect’ – era assim que em alemão se dizia do ‘mais que perfeito’ - encaixar as frases secundárias nas principais, que delicia! E os sinais de pontuação! Quando pôr o ponto de exclamação, quando usar aspas, etc. Visto isto, não é talvez de espantar, que me viesse agora esta curiosidade pela história da escrita e as subtilezas dela. E lá voltamos à leitura silenciosa.
No livro sobre a história da leitura, de que falei num anterior post, o autor, H.J. Griep, escreve que nos primeiros anos da Roma Imperial se dera um aumento de leitores, mas que a leitura ainda não devia ser fácil para a maioria dos romanos, que aqueles que sabiam ler, o faziam murmurando, e que a leitura totalmente silenciosa devia ser ainda muito rara.
Para os que dominavam a técnica, a forma de o fazer dependeria da situação em que o leitor se encontrava – se em lugar publico, se privado - e, sobretudo - da forma em que estava escrito o texto que ele estava lendo. Se este “era todo escrito em maiúsculas, como sucedia em avisos públicos de qualquer sorte, a coisa não seria difícil. Mais difícil era a leitura dos rolos de texto, e dependia muito da forma da letra usada.” (Griep)
Em alguns dos volumes - volumina - os textos eram escritos em parte em cursivo “ou seja algumas palavras eram escritas juntas, sem que se seguisse uma regra certa”, e tanto produtores comerciais como copiadores privados colocavam a seu gosto sinais, “interpunktiones”, entre as palavras, indicando a pausa que na leitura em voz alta aí se devia fazer.
Grieb pensa que os leitores mais experimentados deviam preferir um texto neutral, no qual eles próprios podiam intercalar sinais que os ajudassem na leitura.
O ponto parece que foi o primeiro sinal a apontar. Que vem de muito longe. A simpática vírgula terá aparecido por volta do séc. VII da nossa era. De aí para diante foram nascendo e se estabelecendo os numerosos outros sinais, e com a descoberta da impressão instalaram-se definitivamente os sinais de pontuação que todos conhecemos. Que continuaram a ter por unico objectivo o de ajudar “fisicamente” a leitura. Parece que só em fins do século XVIII se reconheceu verdadeiramente a importância que os sinais de pontuação tinham para a melhor compreensão de um texto. Surgiram as primeiras obras de regras para o emprego dos sinais.* (sobre este aspecto da questão: www.la-ponctuation.com/histoire-ponctuation.html)
Levara-se séculos e séculos para ali chegar, mas finalmente lá se estava, O autor do texto podia exprimir melhor os seus pensamentos, fazer alusões, reforçar afirmações, etc Qualquer um, pensador, poeta, romancista, todo o comum mortal, que quisesse dar a entender a outro por escrito aquilo que lhe diria por palavra, passou a ter as necessárias ferramentas e regras para o fazer. Com um pouco de jeito, podiam-se transmitir de autor a leitor as mais variadas subtilezas.
Tome-se, para o exemplificar, o caso da ironia. É extremamente difícil de “dar a entender” - quer por escrito, quer por palavras – que, quando escrevemos ou dizemos isto ou aquilo, estamos a “ironizar”.
Que a ironia consiste em dizer o contrário do que se está pensando, simultaneamente dando a entender que não se quer dizer o que se está pronunciando, creio que todos sabemos. Raras vezes porém se frisa que a ironia não existe verdadeiramente sem parceiro, que precisa de parceiro que entenda que estamos a dizer uma coisa, e que na realidade pensamos o contrário do que estamos afirmando, que estamos “a ironizar”, que estamos “só a brincar” Não tendo à nossa frente quem esteja na mesma onda que nós, a coisa não é entendida.
Um exemplo. Um politico está em conversa com outro político. Acabaram de obter um exito magistral. Um diz ao outro: “como eu odeio a politica!” A sua expressão facial dará naturalmente a entender ao outro, que quer dizer o contrário, que está a “brincar”, mas o outro nem precisaria de lhe ver a expressão para perceber que o colega pretende dizer o contrario. Porque ambos estão na mesma onda.
Mas alguém que os oiça, que não esteja na mesma onda e que não faça ideia do que seja ironia, poderá tomar o dito à letra, e se for jornalista, escreverá com convicção no seu jornal: “o senhor ministro XX declarou ontem publicamente que odeia politica”.
Outro exemplo, mais comezinho: ao almoço, em minha casa, aparece um assado que cheira a esturro. Desculpo-me às minhas convidadas: “desculpem, o chefe não está nos seus dias”. Como as convidadas são minhas sobrinhas, percebem que o chefe é a empregada a dias. Percebem, porque me conhecem, e sabem que sou useira e vezeira desse tipo de ironia, de exagerar por ironia. Uma desconhecida que por acaso me ouvisse, podia pensar que a minha cozinha era presidida por cozinheiro de barrete branco na cabeça.
Em resumo: ironia falada completa-se quando quem a ouve está na mesma onda e quando é alguém que sabe o que é ironia e a aprecia. Ironia precisa de parceiro certo.
E quem diz ironia falada, diz ironia escrita.
Queremos dar a entender a outro, que certa frase ou palavra que escrevemos tem outro sentido: ou que é o contrário do que afirmamos, ou que com ela exagerámos ou a qualidade, ou o tamanho, ou a quantidade de determinada coisa? Colocamos a palavra, a afirmação, entre aspas, ou fazemo-la seguir por uma série de pontos de exclamação ou de pontinhos. Se o leitor estiver na nossa onda, perceberá a nossa intenção, perceberá que se trata de ironia. Se não o estiver, ou não souber o que seja ironia, não nos entenderá. Ironia pede sintonia nos conhecimentos.
Veja-se o que se passa com a nossa Europa nas mãos de Vasco Pulido Valente.
Vasco Pulido Valente tem imenso dó da velha Europa, escreve: “Europa”; VPV acha a Europa um caso perdido, escreve: “Europa”, VPV acha que os portugueses têm ilusões quanto a este continente estar quase unificado, escreve: “Europa”.
Eu entendo a classificação pelo que é, por ironia, mesmo que não concorde e em geral não concordo - com ela. Mas não tenho duvida que muito bom leitor pensa que Europa se escreve agora com aspas
VPV usa aspas para exprimir a ironia, eu também, e até em exagero, segundo me dizem. Um amigo meu usava pontos de exclamação. Três, quatro, mais, por vezes. Fazendo-lhe eu um dia uma observação sobre o seu uso imoderado de pontos de exclamação, ele observou que se comparava favoravelmente com o meu uso demesurado de aspas. Calei-me.
Esse utilíssimo sinal, que por cá se designa por aspas, designa-se em francês por ‘guillemets’, em atenção a mestre Guillaume, impressor do seu ofício, que, em 1523, achando que fazia falta um sinal que sinalizasse uma citação, ou alguma expressão pouco usual, teria inventado esse duplo sinal, que se coloca antes e depois da citação.
Há agora autores que não reconhecem o mérito dos sinais de pontuação, não gostam de aspas, desdenham o ponto e a vírgula, escrevem sem parágrafos, e praticamente sem pontuação. Perdem uma leitora. Eu quero pontos, quero vírgulas, quero parágrafos colocados pelo escritor, não quero ser obrigada a colocar eu as vírgulas e os pontos e os parágrafos. Não vejo razão para me exigirem esse esforço. Ainda admito que não se goste da vírgula, mas quando se trata de parágrafos todo a minha mente, solidamente nutrida de exercícios do Lange, revolta-se. Porque razão havemos nós de regressar à Idade Média em matéria de escrita?
* www.la-ponctuation.com/histoire-ponctuation.html)

Observações à margem
Ainda a ironia
Para exprimir a ironia nem sempre se requerem sinais. Que melhor exemplo do que a primeira frase de “Orgulho e Preconceito” de Jane Austen: “É uma verdade universalmente reconhecida, que um homem, solteiro, possuidoe de uma boa fortuna, tem de estar à procura de mulher”.

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Ler ou nao ler. Eis a questao

>> segunda-feira, 6 de abril de 2009


32. Ler ou não ler. Eis a questão
Há livros que não consegue ler?
Clifton Fadiman, que foi um conhecido crítico literário americano, confessava no seu Reading I've Liked, que havia livros – estava falando de ficção - universalmente reconhecidos como grandes, que ele durante anos tentara ler sem o conseguir. Nomeava à cabeça ‘Os Irmãos Karamazov’ de Dostoievsky. Tentara-o pelo menos dez vezes, escreve ele, e acabara sempre por desistir. Até que um dia tentou de novo e conseguiu. Leu e gostou.
Ainda estou à espera desse momento, ainda não fui capaz de ler os Irmãos Karamazov. Nem o Dom Quixote. Em um e outro pego de vez em quando, leio um parágrafo aqui, um parágrafo ali. A apresentação do pai Karamazov no primeiro parágrafo do livro é uma maravilha de exposição de carácter. Mas fico por ali. No Dom Quixote, se o abro numa reflexão do Sancho Pança, penso que deve haver em mim uma falha por não conseguir ler aquilo do princípio ao fim. Como é o caso. Há livros assim, reconhecidamente grandes, que fazem as delícias de alguns leitores e são ilegíveis para outros.
Também entram na categoria dos livros que não consigo ler, algumas das grandes obras de ficção da actualidade. Não me tentam os livros obscuros. Obscuros, não confundir com difíceis. Foi um género literário que nasceu em fins do séc. XIX como reacção aos livros realistas, e que, sob uma ou outra forma, periodicamente renasce.
Emile Faguet, dedica no seu ‘Art de Lire”, escrito em 1913, um capítulo aos autores obscuros do seu tempo. Tinham amadores entusiastas, escreve ele, naqueles para quem o livro não se devia revelar de imediato, que gostavam de procurar o pensamento que se escondia detrás das palavras e frases incompreensíveis ao leitor comum. Mas que eles compreendiam.
“Assim se formam em torno de certos autores umas elites que lhe agradecem ele ser impenetrável”. Há nelas, diz Faguet, aqueles que não compreendem, que sabem que não compreendem, e que fingem compreender e admirar. Há os que compreendem realmente qualquer coisa, pouco, mas alguma coisa. E, enfim, há os outros, os verdadeiros devotos do culto, que só sabem admirar o que não compreendem.
--Devemos nós ler esses autores difíceis, dos quais sabemos que de entrada nada compreenderemos?--pergunta o potencial leitor. --Sem dúvida,-- responde Faguet. --O exercício pode ser cansativo, mas é são e útil. É a tradução de uma linguagem cifrada. Há que encontrar a cifra. Não se pode passar a vida a procurar cifra e a decifrar, mas de vez em quando a coisa não é nem sem proveito, nem sem prazer.-- Faguet dixit. Não me convenceu.

Há livros que já não consegue ler?
Há ainda aqueles livros, que um dia lemos com gosto, até com entusiasmo, e que, anos passados, não nos dizem nada, ou antes, dizem que não os queremos ler de novo. No meu caso, de Aldous Huxley, Point Counter Point, nem vê-lo. De Steinbeck, só conseguiria talvez ler Tortilla Flat, e, a esse, sem duvida, o seu encantador livro de viagem pela América com o cão. Creio que os livros que menos resistem ao passar dos anos são aqueles que foram escritos com um fim, ou num clima de intenso debate ideológico, e ainda os muito intelectuais, Point Counter Point é um exemplo disso. O curioso é que não os deitamos fora. Já não gostamos deles, temos a absoluta certeza que não os vamos reler, irrita olhar para eles e pensar no espaço que estão a ocupar, mas eles ali ficam. Desafiam-nos a deitá-los fora. Sabem que não o faremos. Talvez os ponhamos na segunda fila da prateleira. A mais não nos atrevemos, e eles sabem-no.

Relê livros?
Abel Barros Baptista escreve em A Infelicidade da Bibliografia, que o poeta João Cabral de Melo, sempre que viajava, oferecia os seus livros a escolas e bibliotecas, e que Jorge de Lima era da opinião que os livros eram para ser lidos e passados adiante. Concordo com o autor do artigo, quando ele pergunta: "Quem lê pelo prazer de ler, quem relê os clássicos não há-de gostar de conservar os livros que leu e releu?" Eu vou mais longe. Não só os clássicos. Como é possível desfazermo-nos de livros nada clássicos, mas que nos deram prazer, que esperamos um dia tornar a reler e que queremos ali nas nossas estantes à nossa espera? No meu caso, há muitos que nem esperam por muito tempo.
Há livros que releio quase todos os anos. Alguns conforme as estações, é uma questão de atmosfera. Dias de chuva, dias tristes? Maigret. Não passa um inverno sem reler os livros do comissário Maigret. Prelúdios de bom tempo, saudades do calor? A Ilustre Casa de Ramires, o calor de Oliveira, as janelas fechadas da grande casa do Barrolo e as sangrias frescas que um criado trazia.
A outros livros releio porque, porque, não sei explicar porquê. Porque aprecio não só o texto como a prosa. É o caso de “L’histoire des Girondiens” de Lamartine. Já não volto provavelmente a fazê-lo, mas li os seus oito volumes pelo menos três vezes. Pela incomparável prosa, não pela correcção histórica que é duvidosa. Releio quase todos os anos o "Primeiro Círculo" de Solyenitzine. Tantos outros, obras boas demais para serem lidas só uma vez.
E a melhor re-leitura é, para mim, aquela que faço de um livro que acabei de ler, que li demasiado depressa, do qual não apanhei todas as subtilezas, ou do qual, porventura, não compreendi certos pormenores. Relê-lo então, com vagar, é a melhor das re-leituras.
Clifton Fadiman, que já citei, não punha a questão se relia ou não. Questionava-se sobre o género de livros que relia: "Estou há tempos procurando determinar que tipo de livros eu releio com prazer. Todos nós sabemos que, infelizmente, uma personagem atractiva tem muita vez pouco a ver com as qualidades morais e até físicas dessa pessoa. É muito possível gostarmos imenso dum homem que ignora a sua mãe. Até a mãe gosta dele. E da mesma forma, aquilo que eu chamo a qualidade mágica - aquela qualidade que faz com que eu o queira e possa reler - não está necessariamente dependente da importância do livro, do seu peso intelectual."
Exactamente. Se assim fosse, se a ‘qualidade mágica’ dependesse da importância ou do peso intelectual do livro, relia eu, como faço, os livros de Lucy e Mapp?* A minha filha não percebe. Temos gostos diferentes. Eu delicio-me com a luta de Lucy e Mapp pela supremacia social numa vilória inglesa. E se dependese do peso intelectual, relia eu livros que em seu tempo se escreviam para raparigas e até alguns livros para criança? Relia eu os livros de Marlitt e de Ottilie Wildermuth, autoras alemãs do século XIX, nenhuma delas citadas em livros sobre grande literatura alemã? Que me encantam e sossegam o espírito com as suas histórias calmas, vividas em pequenas cidades, nas florestas da Turingia, nos vales da Suábia. E se me perguntassem por um livro de qualidade mágica, não hesitava em citar um dos livros de Ottilie Wildermuth
* E.F. Benson Lucia Victrix

Observações à margem
É assim que se fortalece a memória dos idosos?
Há agora o propósito de ajudar as pessoas de idade a fortalecerrem a memória. Creio que usando cartões com perguntas adequadas, sugerindo palavras cruzadas e outros jogos mentais. Em princípio parece-me um bom projecto. O que não se pode admitir é que uma estação de televisão tivesse ilustrado esse projecto com uma reportagem como aquela que há pouco passou em uma das nossas estações. Via-se a sala de um lar de idosos, nessa sala uma fila de quatro mulheres sentadas lado a lado num sofá, enquanto uma repórter invisível nos informava a nós ouvintes, do que se tratava. Tratava-se de ensinar àquelas mulheres velhas como melhorar a sua memoria. E fazia perguntas para provar que elas estavam precisadas de lições. --Lembra-se disto? --Sabe fazer isto? --E aquilo? Depois viu-se uma futura instrutora que, com ar severo, sem um mínimo de simpatia na voz e no olhar, leu alguns dos exercícios que se propunha fazer para avivar as memorias das suas ouvintes. Que eram focadas em cheio enquanto a senhora perorava. Indignada, ia desligar, mas ainda fui a tempo de ver a única coisa que naquela vergonhosa exposição me deu um rasgo de alegria. É que, sentado ao lado do sofá, estava um homem a ler o jornal. A dada altura a repórter dirigiu-se-lhe a ele, perguntando, naquele tom de voz a que essas reporters nos habituaram, que parece um latido, se ele se lembrava não sei de quê. O homem levantou calmamente a cabeça, olhou a menina repórter com ar malicioso e informou-a em voz clara e pausada, que a sua memória nunca estivera tão boa. –Bravo. Apeteceu-me bater palmas
Aquilo passou-se num lar de idosos. Agora pergunto: quem autorizou a entrada ali da estação de Televisão? Esse lar, onde esses idosos vivem, onde pagam para viver, não é a sua casa? É. E foram eles porventura questionados sobre se queriam ou não a visita de uma estação de televisão em sua casa? E para quê essa visita era? Às mulheres não pediram decerto autorização para as arrumarem para o espectáculo e as bombardearem de perguntas. Quatro mulheres de idade, ali sentadinhas num sofá, com as luzes em plena cara, para se ver bem que velhas eram, e como estavam precisadas de serem leccionadas. Meu Deus, que vergonha. Não para elas, para a estação de televisão. E para quem o permitiu e permite.
E mais uma pergunta. Em quantos dos muitos lares de idosos que há em Portugal, há uma biblioteca? Pequena, que seja. Uma estante com livros. Com livros de boa letra, alguns ilustrados, de geografia, da vida dos animais, de botânica, alguns bons romances, livros que possam entreter, avivar a curiosidade para mais leituras. Quantos? Entre tantas estatísticas que por aí se fazem, com tanto, e tão altamente declarado interesse pela leitura, decerto que já se estabeleceu quantos os lares de idosos que dispoem de uma pequena biblioteca, e quantos de uma estante de livros. Era bom que nos comunicassem os resultados a que chegaram para não fazermos falsos juizos.

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Das origens da leitura

>> segunda-feira, 30 de março de 2009


Leitura silenciosa?
Até há pouco, se me perguntassem o que sabia sobre as origens da leitura, teria resposta pronta, papagueando de hieróglifos, de sinais gravados em barro, de como esses sinais eram destinados a transmitir um recado, e até de como e onde nascera o alfabeto..
Não me pretendendo perita no assunto, julgava saber o bastante para me sair bem da pergunta, e para não me espantar com alguma nova revelação sobre a materia. Há, é verdade, revelações e revelações. Não há dia em que não tenhamos ocasião de dizer: – tem graça. isto não sabia eu. Mas que fiquemos abismados de espanto, é que não sucede todos os dias.
Pois sucedeu-me agora. Num livro sobre a história da leitura leio que: “Quando, onde. e porque razão as pessoas começaram a ler, isso não sabemos. A questão do início da história da leitura, está ligada a tantas outras questões, que não é fácil responder à pergunta”. O autor, Hans-Joachim Griep, levanta em seguida outra questão: “quando é que se começou a ler para dentro, silenciosamente?”.
E aí é que eu fiquei de boca aberta e ainda estou, se assim se pode dizer. Ignorava que a leitura nem sempre fora a leitura silenciosa que hoje achamos natural. Pensava que de momento que se lia, que se lia, ou alto ou baixo, ao gosto de cada um. Não sabia que se soletravam alto os sinais, as letras, que só se lia alto, porque não se conhecia outra forma de o fazer.
Griep escreve a esse respeito, que é a partir do séc. V.a.C. que há provas da existência da leitura silenciosa na Grécia. Que por essa altura já havia leitores, não muitos, decerto, que, pela interiorização da voz, estavam em condições de ler mentalmente. Tudo indica que até lá a leitura estava ligada à voz do homem, que os sinais com que se escreviam palavras eram soletrados, lidos, em voz alta” .
Em fins do séc. V. a. C. a “leitura silenciosa” já se teria, segundo o autor, divulgado em Atenas “ao ponto do público o entender como coisa normal”, mas muito poucos dominavam essa técnica.
“A leitura silenciosa provou ser uma técnica, que permitia ao leitor absorver mais textos em menos tempo. O que era de importância capital, dado que o número de textos de todos os géneros aumentava constantemente. Por outro lado, a leitura silenciosa era dificultada de maneira que hoje não podemos imaginar pelo facto de se usar então uma escrita sem intervalos e sem pontuação”.
Foi por isso uma técnica que levou muito tempo a se generalizar. Na Roma imperial ainda se lia maioritariamente alto, nas escolas da Idade Média ainda se lia alto.
E eu ainda estou a digerir esta revelação: que nem sempre se leu silenciosamente, mentalmente, para si.

Como se teria dado esse passo em frente que foi a descoberta da leitura silenciosa? Talvez o problema estivesse no ar, fosse hipótese que há muito se discutia. Talvez fosse invenção de um só, e por ele revelado ou ensinado. Posso imaginar um ateniense, passeando na ‘agóra’, e confiando aos amigos, que encontrara a forma de ler para dentro, para si, que já não precisava de ler alto.
Para lembrar - a quem não faz palavras cruzadas - o que era a ‘agóra’ na vido dos atenienses, recorro à ‘Historia da Filosofia Grega’ de Luciano de Crescenzo, e confesso que o faço para ter pretexto de falar no autor. Não sei se o seu primeiro livro ‘Assim falou Bellavista’ - um daqueles livros que não envelhecem - foi publicado em Portugal, mas em 1988 a Presença publicou o primeiro volume da sua História da Filosofia, ‘os Pré-socráticos’. Na introdução, Crescenzo explica a Salvatore, porteiro da casa do professor Bellavista, e um dos membros da sua roda de ouvintes e interlocutores, o que seja filosofia, e começa por lhe explicar o que se entendia na antiga Grécia por “agorazein”.
“Agorazein”, explica ele a Salvatore, significava ir até à praça – à ‘agóra’ - ouvir o que por lá se dizia. Significava ”comprar, vender, conversar e ver os amigos; mas significava também sair de casa sem um objectivo preciso, vaguear ao sol até à hora do almoço............”Agorazonta”, o particípio desse verbo, descrevia a maneira de andar de quem praticava o ‘agorazin’, esse caminhar lento, de mãos atrás das costas, com um percurso quase nunca rectilíneo.”
“Pois bem, caro Salvatore” – informa-o o autor, “a filosofia grega deve muito a esse hábito peripatético dos meridionais.”
Não me parece pois fantasioso da minha parte, imaginar que foi num dessas passeios ‘na agóra’, nesse ‘ensinar passeando’, que um ateniense terá levado a conversa para a leitura e confiado aos companheiros, que conseguira “ler para dentro”. Que, para ele. a leitura já não consistia numa acção mecânica, ocupando a voz e a vista, já que, na leitura mental, esta podia ser acompanhada de reflexão, que era como que uma alternativa à conversa. Que o leitor, tal como em conversa na ‘agóra’ discutia o que estava ouvindo, na leitura silenciosa, podia discutir em mente, par si, o que estava lendo,.

*Griep, Hans Joachim Geschichte des Lesens, Wissenschaftliche Buchgesellschaft



Observações à margem
Eça de Queiroz não tinha grande opinião quanto aos gostos literários dos jovens portugueses seus contemporâneos. Em 1871, tinha ele 26 anos, escrevia dos homens: “Não se compra um livro de ciência, um livro de literatura, um livro de história. Lê-se Ponsson du Terrail - emprestado!”
Quanto às meninas casadoiras e jovens mulheres portuguesas, que contraste com as senhoras inglesas e franceses, essas “lêem ou para si, ou em voz alta aos irmãos mais pequenos ou aos filhos, livros de história natural, curiosas vidas de animais, viagens. ..... Entre nós lêem Ponsson du Terrail ou Dumas Filho” .
Não sei que mal tinha que as meninas portugueses lessem as aventuras de Rocambole e de d’Artagnan, e duvido que as francesas e inglesas fossem aqueles modelos de leitoras. De resto, foi o princípio da frase de Eça de Queirós: “Não se compra um livro de ciência, um livro de literatura, um livro de história” que sempre fixei. Porque essa opinião ainda me parece actual. Enquanto os primeiros pouco espaço ocupam, Ponssons du Terrail cobrem as mesas das livrarias, e são eles que sobretudo se compram. Não tenho nada contra livros de entreter. Tenho-os e leio-os, e se tivesse vivido naqueles anos teria decerto lido du Terrail. Mas não só. É que os outros também entretêm. Do que cada um se tem de convencer por si próprio.

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