Livros de Viagem. Através dos Estados Unidos no ‘Great Pacific Railroad’. Contªº

>> sexta-feira, 5 de junho de 2009



Continuação

“Pelas duas começou-se a avistar uma cadeia de montanhas altíssimas cobertas de neve de alto a baixo e brilhando tanto com os raios de sol, que a vista não era inferior, diz o papá, a alguns dos Alpes. Mas pelas 4 horas chegou a recompensa do desapontamento da manhã e da tarde anterior: que beleza, que grandioso, que esplêndido, que encanto e todas as mais expressões lisonjeiras que queiram! Fomos para a plataforma e, como sempre, os primeiros. É impossível descrever. Imaginem montanhas que parecem chegar ao céu, cobertas de neve, deixando de vez em quando aparecer a cabeça dos pinheiros. Depois, rochedos suspensos por artes breliques breloques com uns feitios muito ratões. Uma das coisas mais curiosas naqueles desfiladeiros estreitíssimos é numa montanha muito alta haver um buraco muito fundo desde cima até abaixo, e, dos dois lados, tem dois muros de pedra que parecem ter sido feitos de propósito. Chamam a este buraco: ‘Devil slide’. A beleza que é, depois de sair dum dos túneis, ver, ou as serras por cima da cabeça, se pode dizer, e deixando apenas espaço para se passar, ou então, as torrentes de água saindo dumas grutas e passando para o outro lado por baixo da linha. Não se imagina. Depois de sairmos do último túnel, e o mais célebre, ‘Weber Canon’, entra-se num vale verdíssimo com montes brancos dos lados, e no fim vê-se Ogden, uma cidade dos mormons.
Ogden é muito pequena, mas bonita pela sua situação aos pés dos montes. Vimos aí um homem completamente vestido de branco e com uma espécie de turbante na cabeça que decerto era um dos santos porque temos ideia que alguns deles andam vestidos dessa cor inocente. Também em Ogden vimos um chinês de rabicho caído; era enorme, grossíssimo e atado nas pontas que chegavam a baixo dos joelhos com uma fita preta. Em New York tenho visto bastantes, mas todos trazem o seu querido rabichão enrolado à roda da cabeça.
Saímos d'Ogden com uma hora de atraso por estarmos à espera dum comboio que vinha atrasado, de maneira que não pudemos chegar de dia a Salt Lake. Agora, para ganhar o tempo, estamos andando num tal galope que não posso quase escrever. Como nós descemos as rampas das montanhas rochenses (!) quanto a máquina podia, mas nem por isso deixámos de ver o bonito espectáculo de ontem à tarde.
Esquecia-me dizer que vimos também em Ogden um índio e uma índia. Que figuras! E hoje na estação onde almoçámos vimos imensos: são encarnadíssimos e parecendo muito fortes, uns trazem chapéus de palha com uma grande pena espetada, outros chapéus parecendo tampos de cestos cobertos de paninho encarnado; todos os que vi andam vestidos como toda a gente, só com a diferença de ser esfarrapado e sujíssimo. Alguns têm umas mantas de cores vistosas por cima do fato. Uma mulher tinha uma criança metida numa ‘hotte’ de madeira; não foi possível consentir em ver a criança, apesar de se lhe dar por umas poucas de vezes dinheiro (era o que ela queria); a pobre criaturinha estava metida dentro da tal caixa de madeira de feitio de ‘hotte’ tão amarrada e enrolada que não se podia de todo perceber onde ela tinha a cabeça, mas depois de voltar para dentro vi-a deitar a cabeça fora dos trapicalhos; já era bastante grande. Entramos logo na Sierra Nevada. O tempo lindo.
S. Francisco 3 de Maio 1886
Jantámos antes de ontem em Humboldt, um oásis no meio do deserto. Humboldt tem talvez uma dúzia de casas ou menos mas o ‘restaurant’ é grande e a comida óptima, a água é abundantíssima, de modo que aquele lugar está coberto de erva e árvores; quem dirá que é a mesma terra árida que vimos desde manhã que produz toda aquela verdura, a água faz esse milagre. Passámos ao pé do lago Humboldt, estreito, mas muito comprido e duma cor linda. Ao pé do lago estavam imensos índios, uma mulher andava com um filho às costas e duas pequenas estavam brincando com duas bonecas de trapos metidas numas ‘hottes’ pequenas, mas de palha. O papá estava com vontade de comprar este brinquedo índio, mas afinal não o fez. À noite entrámos na Sierra Nevada; como vínhamos com perto de 3 horas de atraso, passámos às 3 horas e meia da manhã pelos pontos bonitos. O papá, que não dormiu nada nessa noite, levantou-se às 2 e meia, mas os ‘socastes’ (corredores de madeira que fazem em pontos onde há perigo de avalanche) sucedem-se uns aos outros com tão pouco intervalo que nada se pode distinguir. Às 4 foi-me o papá chamar, como eu lhe tinha pedido, porque já havia luz, e a vista já principiava a ser bonita. Descemos de escantilhão aquelas serras cobertas de árvores e de flores, que têm precipícios enormes. Sabe como é feita a linha sua conhecida? Como não puderam fazer o caminho na serra por causa da dureza da rocha, fixaram-no por fora: uns paus enterrados no chão e que na altura da linha foram encaixados na rocha por homens suspensos por cordas sustentam os rails*. A vista desse ponto tão seguro é tudo quanto há de mais bonito.
Depois de passar as serras altas, entra-se na Califórnia que é um verdadeiro parque, por toda a parte se vêem vinhas, pomares, casas de madeira muito engraçadas, com trepadeiras de cima até a baixo e jardins à roda com imensas árvores; enfim, é lindo este país, o papá acha parecido com o nosso Minho. Às 9 almoçámos no Sacramento, que pouco se vê do comboio; pouco depois vê-se o Pacífico e depois a baía, que forma como uns poucos de lagos estreitando e alargando umas poucas de vezes. É muito bonita. Em Oakland, uma cidade diante de S. Francisco passámos para um ‘ferry boat’ .

* Este ‘cabo’ era uma parede rochosa de 2.700 pés de altura, que subia a pique do ‘American River’ e que praticamente não oferecia um único ponto de apoio. Mas os chineses teceram grandes cestos de vime, marcaram-nos com sinais coloridos para afastar os espíritos, e ao apito anunciando o nascer do sol, marchavam silenciosamente para o topo do abismo. Nos paus de bambu de transporte de carga, levavam em uma das pontas os seus cestos e na outra ponta barris com chá. Eram baixados centenas de pés ao longo do penhasco nos seus cestos, cortavam lascas da rocha, formando as pequenas cavidades onde inseriam pólvora negra, depois trepavam lestamente pelas cordas acima até ao topo, puxando os seus cestos atrás de si. (traduzº de transcontinental_rr.ppt ) Continua na Segunda-feira, 8

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Livros de Viagem. Através dos Estados Unidos no ‘Great Pacific Railroad’. Contªº

>> quarta-feira, 3 de junho de 2009




“Ontem, 27, chegámos a Chicago às 8 e meia da manhã. Antes de entrar na cidade costeia-se durante meia hora talvez o lago Michigan, que parece o Oceano pelo tamanho. Fomos deixar as bagagens à estação onde devíamos embarcar à noite, e depois de almoçarmos pusemo-nos a percorrer a cidade sem parar um instante. Parece incrível que em meia dúzia de anos se possa fazer uma tão bela cidade como Chicago é hoje. O pavimento das ruas é um horror como o de New York, mas há edifícios soberbos, entre outros o da Câmara é esplêndido. Metemo-nos no americano, fomos a Lincoln Park, que é o melhor da cidade e dizem mesmo da América; está situado sobre o Michigan, é muito grande e bem traçado, as árvores já têm bastantes folhas e o gazon dos canteiros está agora verdíssimo. Em suma, achámos este parque superior ao Central-Park de New York. Vimos por fora o edifício onde estão as máquinas e o túnel que traz água do fundo do lago (para ser mais pura) para Chicago. Não entrámos dentro por ignorarmos o que se pagava, mas também, não se vendo o túnel, não valia a pena ir ver as máquinas, o que vimos por fora menos mal. Foi só para dizermos que tínhamos visto os ‘water works’ de Chicago. Depois fomos à catedral, que é bonita, mas não tem nada de especial. Queríamos ir ver uma igreja que dizem muito bonita, mas por causa dum engano de americano achámo-nos bem longe dela, e já era tão noite que não tivemos pernas que nos levassem lá, todo o dia não tínhamos parado. Jantámos na estação e, às 9 e meia, fomos para o ‘sleeping car’ esperar que o comboio partisse às 10 e meia. Depois de estar deitada ainda vi uma cidade bastante grande, que atravessámos pelo meio sem o menor cumprimento. Aqui consideram o vapor como um cavalo qualquer.
Almoçámos hoje, 28, no comboio e temos passado o dia nas famosas ‘prairies’ do centro da América que dizem tão feias; não temos achado isso, não são tão planas como se diz, e o campo é tão verde e a terra parece tão rica que faz gosto ver. O papá tem estado encantado com a fertilidade e riqueza do solo. Além disso ainda há muitas florestas com pequenos rios cortando-os a cada minuto. São mais de cinco horas da tarde e ainda não acabámos de passar estes campos. Só vendo, se faz ideia do tamanho deste país, que os americanos chamam o mundo, pois quando perguntam a alguém de que estado é, perguntam: "de que parte do mundo é você?"
Chegamos a Counsil-bluff sobre o Missouri à noite. Estamos lá uma hora e depois seguimos para diante. Infelizmente os pontos mais bonitos e mais altos das Montanhas Rochosas e Sierra Nevada passamo-os de noite. A maman lembra-se de ver num livro do papá uma vista da Sierra Nevada, em que o caminho de ferro passa quase em cima do monte a 4000 m de altura e dá uma volta curva e que a maman não quis continuar a ver? Pois passamos por aí de noite. Mas como o papá quer ver esses pontos altos, à volta voltamos pela mesma linha para os ver então de dia e depois vamos mais pelo sul para ver as ‘Mamouth Caves’. (Nota: 2 de Junho New York. Afinal vimos tudo de dia à ida)
Os bilhetes de ida para S. Francisco custaram 28 dollars em vez de 160, mas soubemos que tinham subido a 72, de modo que à volta não tomamos bilhetes directamente para New York, mas só até Washington, me parece que é, e depois compramos então ‘excursion tickets’ que são muito mais baratos. Não podemos ir ao Niágara de passagem para S. Francisco como imaginávamos, mas é fácil ir depois mais tarde de New York. Pode-se ir e voltar em dois dias.
Quinta feira, 29, à tarde.
Chegámos ontem a Counsil-bluffs às 6 e meia e vou contar um episódio curioso e engraçadíssimo. Na hora que ali estivemos havia muitas coisas a fazer: cear, compra de bilhetes para o ‘sleeping-car’, e troca dos caminhos de ferro, e despachar as nossas bagagens que o tinham sido só até ali. Nesta terra, em qualquer estação que parece insignificante, há tanto movimento como em Lisboa. Não digo mais para não se “escandalizarem”. Milhares de malas havia ontem no quarto das bagagens, e apesar de estar tudo muito bem organizado sempre leva tempo. Como o papá se demorou na compra dos bilhetes, já tínhamos dito o número das nossas coisas quando o papá chegou, e por mais que dissesse, que estava vendo as malas, e que partia daqui a minutos não havia meio de o atenderem. Mas, por felicidade, ao pé do papá estava uma senhora a quem tinha acontecido o mesmo, e a quem serviram logo assim como todas as outras. O papá, vendo isto, corre chamar-me para ver se conseguia o que se queria. Foi ‘l'affaire d'un instant’. Rimos depois imenso desta aventura; aqui são polidíssimos com as sanhoras. Daqui em diante ponho-me à frente quando houver qualquer dificuldade, mas também teve graça o homem das malas não querer ouvir as respostas que o papá fazia às perguntas dele, mas esperar que eu respondesse.
Atravessámos o Missouri - que nesse ponto é larguíssimo - numa ponte que parece de papelão. Esta manhã almoçámos bastante bem numa estação e jantámos às 7 e meia em Sidney. Continua a prairie, mas menos bonita por ser completamente plana, o que faz parecer um mar. Assim mesmo é bastante povoada, nunca se deixa de ver ao pé ou ao longe casinhotas de imigrantes e o gado é abundantíssimo, mas assaz feio. Decerto sabe que nestas regiões há uma quantidade de cães bravos muito curiosos a que chamam ‘prairie dogs’, temos visto imensos. Fazem uns montinhos como as formigas (são do tamanho dum esquilo) e aí se metem nos buracos que estão feitos no meio dos montes. São cinzentos e parecem focas; quase todos estão em cima das suas ‘tanières’ sobre as patas detrás, é engraçadíssimo. Em cada buraco há uma coruja e dizem também uma serpente que vive com eles; é ratão. O papá, lendo o que eu escrevi até agora, deu-lhe vontade de rir eu dizer, que não é nada ir de New York ao Niágara, e diz que a maman decerto vai dizer que eu estou uma americana; não estou, nem nunca o virei a ser, esteja certa, mas na verdade o modo de viajar é tão cómodo que dois dias de caminho de ferro nada cansam. Já estamos aqui há quase cinco dias e não sentimos o menor incómodo, a comida, ou dentro, ou na estação, é boa geralmente, as camas são óptimas, e de dia está-se o mais confortável possível: uns lêem, outros trabalham e conversam, outros põem almofadas nos canapés, que de noite se transformam em camas, e fazem o seu sono, alguns escrevem - o que eu estou fazendo agora - sobre uma mesa que se arma no intervalo dos canapés. Para distrair vem a cada instante um homensinho vender laranjas, bananas, barretes de viagem para homens, jornais, revistas etc. Não há nada que o infeliz não ofereça ao viajante, mas só jornais tem vendido, de resto só vendeu um livro a uma senhora e um guia e duas bananas a nós. Também não admira muito que não faça bom negócio, faça ideia que três laranjas custam 25 cents, isto é 225 reis, e tudo mais em proporção. Desde Chicago tem vindo connosco uma senhora americana com quem temos conversado; vai para Salt Lake City, o que nos fez imaginar que ela era uma das noivas do Brigham Young*, mas depois, pela conversa e pelo bilhete, vimos que não. Tivemos ontem durante o jantar uma trovoada bem boa, mas fora isso temos tido um tempo lindo e o céu parece de Lisboa. São quase 4 horas, estamos a avistar as Montanhas Rochosas, vou-me pôr a ver. “
1 de Maio 1886
É sem igual o desapontamento que tivémos com a primeira parte das montanhas que, como disse, principiámos a ver antes d'ontem. Como já há dois dias estávamos subindo, os primeiros montes não faziam efeito algum, nem uma árvore ou uma ervinha era visível. Só pelas 8 horas da noite principiámos a ver os montes cobertos de neve e a juntarem-se uns aos outros. Fomos para a plataforma e durante meia hora talvez, foi linda a vista; passámos por uma ponte chamada Dale Creek Bridge**, que não tem a largura senão a necessária para por os rails e rodeada dos dois lados de precipícios enormes cobertos de neve e de pinheiros, assim como alguns montes pequenos ao pé. Depois começaram os montes a desaparecer, e achámo-nos de novo na planície apesar de estarmos a uma elevação imensa acima do nível do mar. Toda a manhã de ontem foi feia, a aridez dos montes não pode ser maior, mas têm uns feitios os mais curiosos possível, tanto os montes como os rochedos. Uns parecem ruínas de castelos, outros colunas, esfinges, leões deitados e mil outros feitios muito estrambólicos.
* Brigham Young era o presidente da igreja de “Latter Day Saint’s” da seita Mórmon. Os mormons praticavam poligamia, e a Brigham Young são atribuídas 55 mulheres, tendo 57 filhos de 16 delas.
**A ponte tinha 200 m de comprimento e 38m de altura no seu ponto mais alto. Originalmente construida em Madeira, foi depois substituida por uma estrutura de ferro. Era a passagem mais perigosa em toda a linha. (Wikipeda)

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Livros de Viagem. Atraves dos Estados Unidos no 'Great Pacific Railroad'

>> segunda-feira, 1 de junho de 2009




Em meados do século XIX inicia-se a era da viagem do comboio. A novidade era naturalmente comentada em cartas e conversas, mas havia viagens que mereciam um pouco mais, e, quando em 1886, uma rapariga portuguesa da minha família foi com o pai aos Estados Unidos, e o acompanhou numa viagem no ‘Great Pacific Railroad’, que os levou de Nova-York à costa do Pacífico, o caso foi digno de ser recordado em diário.
A par das cartas que ela então escrevia e deitava no correio em todos os pontos em que isso era fazível, Maria Theresa, a rapariga em questão, - bem à moda do tempo - ia redigindo o seu ‘diário de viagem’, que depois passará a limpo e enviará à mãe.
Consultei o site do “Central Pacific Railroad Photographic History Museum”. para saber o que se tinha escrito sobre aquele famoso comboio. Há inúmeros livros sobre a construção da via férrea, as suas enormes dificuldades, os problemas de engenharia de construção, e de mão de obra, mas não são muitos os testemunhos dos primeiros viajantes, e pouquíssimos os de mulheres. Menciona-se um pequeno caderno, o diário de bordo, chamemos-lhe assim, de Gretchen Schaeffer, uma rapariga alemã de 21 anos, que ia procurar trabalho na Califórnia. Vai fazendo curtos apontamentos diários sobre as distâncias percorridas, sobre paisagem e passageiros, explica como de duas cadeiras se fazia uma cama. Pouco mais.
O outro testemunho da viagem, esse impresso, é um artigo publicado na revista Scribners Monthly em Maio de 1873, no qual a autora, Susan Coolidge, que já fizera a viajem, aconselha as mulheres que a planeiem sobre a melhor época de viagem, o vestuário a levar etc: ”O melhor tempo para aquelas que desejem ver a Califórnia na sua verde perfeição, coberta do seu maravilhoso manto de flores selvagens, é o fim de Março ou princípio de Abril, quando é de prever que já não há perigo de haver neve no Pacific Railroad”. *
Quando a custos, o preço do bilhete de ida e volta a São Francisco era um pouco menos de trezentos dollares, havendo que contar com a despesa das refeições durante sete a oito dias. Também havia que pensar na bagagem, o uso de grandes malas não era aconselhável, porque cada passageiro só tinha direito a cinquenta quilos, cada quilo a mais era pago. A bagagem grande seguia em wagon especial, recomendava-se portanto uma pequena mala com os artigos de toilette para uso diário. Deviam-se escolher botas velhas e cómodas. O pó era o grande inimigo do conforto. A autora vira senhoras que cobriam a cabeça com uma toca que apertavam com um elástico para protegerem o cabelo, “um processo admirável, que eu aconselho”.
“Espanta às vezes, escreve ela, que aos viajantes que a fizeram se oiça falar tão pouco do inevitável cansaço de tão longa viagem. Mas o facto é que o cansaço é muito menor do que seria de esperar. Em parte devido ao grande conforto dos Pallmans” e também devido á agradável locomoção dos comboios. “É notável a falta de solavancos, de choques ao arrancar e ao parar dos comboios”.
De resto, esqueciam-se os desconfortos, o calor e o pó, e as pequenas irritações, enquanto a novidade, as lindas vistas o largo horizonte ficavam para sempre. Em resumo, a autora recomendava vivamente a viagem.
O diário de Maria Theresa parece-me mais completo que qualquer destes textos. Hesitei em publicá-lo aqui. A quem interessaria? Mas essa duvida existe em relação a todos os posts. Tenho estado a escrever sobre livros de viagem, e o que é este diário senão um desses livros? Como o diário é demasiado comprido para ser publicado de uma só vez, distribuirei o texto por cinco ou seis posts: o de hoje, seguido de um post na quarta-feira, dia 3, outro na sexta, dia 5, e o último, ou penúltimo, na segunda-feira 8 de Junho.
*Susan Coolidge A few hints on the Califórnia Journey Scribner’s Monthly May 1873

Algumas notas:
A construção do Pacific Railroad iniciou-se em 1863 e estava dividida em dois troços. Um dos troços partia de Sacramento na Califórnia., trabalhando-se nele em direcção a leste, o outro, dirigindo-se para oeste ao encontro do primeiro, partia de Omaha no Estado de Nebraska. A junção dos dois troços deu-se em Maio de 1869, em ‘Promontory Point’ no Utah e o comboio começou de imediato a funcionar.

Maria Theresa, a autora do diário que em seguida transcrevo, tinha dezanove anos, era a filha mais velha de João Ferrão de Castello Branco e de D. Theresa Saldanha da Gama (Ponte). O tratamento de “papá e maman”, que ela dá a pai e mãe, assim como o frequente uso de outros francesismos, eram então hábito comum nas famílias portuguesas mais educadas.
Pai e filha partiram de Lisboa a 7 de Março de 1886, e estão em Nova York a 22 do mês. De todos os pontos Maria Thereza manda notícias à mãe: a 9 de Março, de Paris, a 12 de Março, de Liverpool, onde irão embarcar e - uma última vez da Europa - quando já estão instalados no navio ‘Servia’, da Cunard Lines. A 22 estão em Nova York, instalados no HOTEL ESPANOL e HISPANO AMERICANO na 14th Street, "near 5th Avenue", escreve Maria Theresa na sua primeira carta, na segunda emenda “afinal não é perto da quinta é perto da sexta avenida, é "near 6th Avenue".
O pai estava nomeado para um posto consular, e enquanto não começava a exercer as suas funções decide empreender a viagem à Califórnia no famoso novo comboio. Isto apesar de ser um homem doente, e que o sabia, como se lê da carta que escreverá a sua mulher durante a viagem: “Ando estafado e mal em todo o sentido, poucas esperanças tenho de melhorar, mas gosto entretanto de ir vendo e conhecendo o que há por este mundo e comsola-me a ideia de não morrer sem ter diminuido o número das belezas que ainda me eram desconhecidas.”

DIÁRIO DA VIAGEM

29 de Abril (1886) à tarde
Já temos três dias de viagem, mas só hoje posso principiar a descrevê-la. Saímos de New York no domingo de Páscoa à meia noite num ‘ferry boat’ que nos levou à estação de caminho de ferro, que fica do outro lado do porto. Não nos foi possível arranjar ‘sleeping car’ nessa noite. Não havia senão os ‘berths’ de cama, o que não quisemos por ser incómodo trepar para lá estando qualquer vizinho já deitado em baixo. Não tivemos outro remédio senão sujeitar-nos a passar a noite nas carruagens simples. Como sabe, não há diferença de classes na América, só para os emigrantes há carruagens à parte. O papá nessa noite não pregou olho, está bem entendido, o que não me sucedeu a mim. Passámos por New Jersey, a que se pode chamar um bairro de New York, e por Filadélfia, mas nada se podia distinguir,
Na segunda feira, 26, almoçámos em Baltimore, onde mudámos de comboio e arranjámos ‘sleeping car’. A cidade é bastante grande e bonita pela sua situação sobre um rio cujo nome ignoro. O caminho deste Baltimore até Cumberland, uma cidade pequena onde lanchámos, é bonito. É uma série não interrompida de casas de madeira de apetite, de campos verdes e de matas cortadas por imensos riosinhos lindos. Pelo meio dia começou a vista a ser realmente encantadora Durante duas ou três horas fomos seguindo as imensas voltas (e dando-as com tanta rapidês que mesmo o papá achou uma brutalidade) do rio Potomac; a cada passo se vêem ilhas pequenas cheias de verdura e dos lados do rio são montanhas cobertas de árvores com verdes em todos os tons e, como para diminuir a monotonia do verde, de espaço a espaço estão espalhados uns arbustos com uma flor encarnada bem bonita. Que mal que estou explicando isto, mas também não é fácil. Um dos pontos mais bonitos é a ‘Harper's Ferry’ (uma ponte) por onde passámos e onde se junta o rio Potomac com outro. Pelas 2 da tarde entrámos nos Alleghenys, a beleza dos quais não me parece possível que possa ser descrita de modo a poder dar uma leve ideia dela a quem não viu, e então descritas por mim, faça ideia! Puseram-se duas locomotivas por se subir muito. Por que precipícios que nós passámos, minha querida maman, há uns três pontos em que apenas há o espaço para a linha, e quando se põe a cabeça de fora, e se vê a terra a faltar, parece que se está suspensa por cima do abismo. Aos pés vê-se sempre água a correr por meio do arvoredo, de que estão cobertos também os montes dum feitio variadíssimo. Estivemos todo o dia embasbacados para a beleza da vista e também muito encanitados, porque um alemão e a mulher não fizeram todo o tempo senão dormir. Nos intervalos do dormir faziam uma partidinha e depois ó-ó outra vez, e a mulher espetava a gâmbia muito bem espetadinha, o que nos fez rir a mim e ao papá o que não se crê.
Não fazíamos ideia da beleza das Alleghenys, não são inferiores aos Pirenéus decerto. Depois há um intervalo menos bonito, onde já estão cortando muitas árvores para se poder cultivar o terreno; vem depois uma parte bem bonita onde se passa por uma quantidade de pontes sobre rios, dando uma tal quantidade de voltinhas que tornam a viagem encantadora. À noite jantámos no ‘dining car’ e durante uma hora imaginámo-nos no ‘Servia’! Como nos montes diminuem um pouco a rapidez, para ‘retrappaer le temps perdu’, põem-se numa tal pressa, num caminho que é um zig zag contínuo, que o balanço foi tal que enjoámos. A tristeza e melancolia em que passámos essa hora não se imagina, de modo que não pudemos gozar do cómodo de jantar aqui mesmo. Como disse, tínhamos ‘sleeping car’. As camas não podem ser melhores, são exactamente tão largas e tão compridas como as que se têm em casa e felizmente o papá dormiu perfeitamente. (Continua)

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Livros de viagem. De turismo

>> segunda-feira, 25 de maio de 2009


Turismo no Egipto no século XIX
O fenómeno ‘viagem no século XIX’ não deixa de espantar. A impressão que se tem, é que nesses anos toda a Europa saiu de casa para ‘ ir ver’. Sobretudo, é preciso que se diga, para ir conhecer e estudar: “havia muito simplesmente uma reverência pela ciência”. A viagem podia ser unicamente uma curiosidade declarada, e podia ser uma verdadeira expedição com fins científicos de geografia, zoologia, botânica, arqueologia. escreve Wilfred Thesiger*.
Mas começava também a surgir o viajante que viajava para seu próprio entretenimento, para ver por ver, nascia o turista, e com ele a viagem organizada. Na Alemanha, Karl Baedecker publica em 1828 o seu primeiro guia de viagem, e, mais tarde, em Inglaterra, Thomas Cook organiza viagens de grupo. Leva 350 pessoas em excursão à Escócia, e em 1867 organiza a sua primeira viagem ao estrangeiro, levando um grupo de ingleses a Calais, a tempo de poderem visitar a Exposição de Paris caso quisessem. Nos anos seguintes leva grupos à Suíça, à Itália, ao Egipto, e até aos Estados Unidos. Tem mesmo um sistema de viagem individual, nos quais o viajante ia independentemente, com a agência pagando- por um determinado período a alimentação e a acomodação.
O turista do século XIX incluía escritores e pintores, gente culta, que se achava na obrigação de anotar o que via e de o comunicar ao seu semelhante. Enquanto os geógrafos mediam as serras e os rios, os zoólogos estudavam peixes, aves e mamíferos, e os botânicos classificavam as plantas, escritores e poetas descreviam as “impressões” que paisagens e monumentos lhes tinham causado, e mais tarde aproveitavam as suas impressões na criação literária. Um dos países mais visitados por esse tipo de viajantes era o Egipto, em particular por franceses, os quais, com a decifração dos hieróglifos conseguida por Champalion, se achavam em relação à terra dos faraós numa situação privilegiada, de bom pai triunfante.
Tenho dessa época ‘Le Fayoum, Le Sinai et Petra’ de Paul Lenoir**, e em português, naturalmente ‘O Egipto’ de Eça de Queiroz.
Lenoir, pintor, viajou ao Egipto em 1872 com um grupo de colegas, estudantes de Belas Artes, em excursão organizada pelo pintor Jean Léon Gérome. Iam ver e estudar as paisagens e os monumentos como objectos da sua arte.
Eça fizera a viagem em Novembro de 1869, para assistir à inauguração do Canal de Suez, projectada para o dia 17 desse mês. Ia em companhia de um amigo, o conde de Resende. Eça tinha 23 anos, o amigo 25. Dois lisboetas elegantes que queriam ver como era aquilo do Egipto e das pirâmides.
O livro de Eça de Queiroz transmite bem o que era a viagem de um turista diletante do tempo, e parece-me que só isso desculpa que o filho tenha publicado aquelas impressões, que seu pai deixara na gaveta. É que mesmo um grande escritor não se inicia logo com uma obra de qualidade, e “O Egipto”, sobretudo na sua primeira parte, é um acabado exemplo disso. Sucedem-se os lugares comuns, os superlativos, as analogias. Os poetas e os deuses são constantemente chamados para ilustrar as imagens, nada e ninguém é como é. Pessoas, objectos, monumento são sempre como outra coisa qualquer.

“Ontem dobrámos o cabo de S. Vicente sob um luar digno de Shakespeare. O mar infindável, sereno, sem trevas, belamente escuro, tremia sob o grande raio luminoso da lua, como os antigos animais sob a carícia dos profetas. À direita do vapor, negro de perfil, seguia-se o Cabo, de linhas precisas e nítidas, e a decoração admirável da noite assentava silenciosamente em redor. O solo final da ‘Áfricana’, com a sua lenta desolação aflita, seria grandiosamente belo no meio desta imensa paisagem severa cheia das coisas infinitas!”

Passam Gibraltar, estão no Mediterrâneo, “ao fundo, sobre a negra terra de África, erguia-se o Atlas, tão belo, tão forte, tão vivo com nos velhos tempos mitológicos, quando ele sustentava nos ombros gigantescos o céu com todo o seu povo de deuses.”

“De resto a viagem era adorável. O mar parecia uma seda levemente franzida..”

“Iam a bordo algumas individualidades curiosas: um oficial da Índia ..... A sensação nele era rápida e explosiva: um verdadeiro bárbaro. De resto, um ‘gentleman’.”

Pararam em Malta, visionaram o seu passado sob os seus cavaleiros guerreiros.
“Umas horas depois, toda aquela visão da história e do romantismo tinha desaparecido no meio da noite, e nós continuávamos no mar nocturno a nossa viagem para Leste.

“De manhã avistámos uma terra baixa, negra, ao nível do mar. Era o Egipto. Aproximámo-nos da entrada terrível.”

“Eu, entretanto, pensava que ia pisar o solo de Alexandria. Estávamos talvez na mesma água em que outrora tinham fundeado as galeras de velas de púrpura, que voltavam de Actium!”

“Assim tu nos apareceste, o negro Egipto, romântica terra dos Califas!”

Numa carruagem forrada de chita “entre o monte das nossas bagagens” os viajantes seguiram para o hotel. Ficaram dois dias em Alexandria: “tínhamos curiosidades clássicas a examinar”. Foi uma decepção: “deixámos Alexandria alegremente. Aquela monótona cidade, cheia de ‘boulevards’ e de casinos, no sítio onde o solo ainda está quente dos passos dos Ptolomeus e das sandálias de Cleópatra, pesara-nos como a página dum livro comercial intercalado no arabesco fantástico d’As Mil e Uma Noites!”
O livro prossegue neste estilo.
No Cairo os viajantes instalam-se no Shepheard’s, o melhor hotel do Cairo.
“São sete horas da noite. O gás ilumina o largo corredor lajeado; os aparelhos cintilam; os ‘drogmans’ circulam. Um árabe percorre os corredores batendo uma larga placa de metal, como para anunciar um velho rito. Aquele som velado, doce e penetrante, espalha-se num eco esbatido pelas largas salas. É o jantar.
A imensa sala adornada de colunas está cheia de luz.............aqui é o nosso mundo europeu, civilizado, sábio, filosófico, egoísta e rico......”

A partir daqui, talvez cansado de tantos superlativos, ou porque o que via era tão esmagador, que não precisava de hiperbólicos, Eça baixa de tom, e temos descrições mais simples, mais naturais. Admira as casas árabes “feéricas, de ‘moucharabièhs’ maravilhosos, cheios de arabescos, rendilhadas, bordadas, riscadas de listras vermelhas..”. Os dois amigos adoptam o burro como meio de transporte, como fará mais tarde o grupo de Paul Lenoir. São turistas uns e outros, com anos de distância vêem e admiram as mesmas coisas.

As descrições de Lenoir não têm pretensões literárias. Descreve o que viu e o que sentiu com palavras simples. O seu grupo está hospedado em casa de um cozinheiro francês, e a única queixa do grupo era de menus demasiado abundantes. Era comida demais para quem queria estar leve, pronto para a aventura. Não que a coisa da comida não os interessasse. O grupo tinha o seu cozinheiro, e Lenoir descreve com entusiasmo a fabulosa marmita sueca que acompanhava a caravana: uma panela solidamente encastoada numa caixa de madeira completamente forrada lã e hermeticamente fechada. Punham-se no tacho todos os ingredientes para um ‘pot-au-feu’ e uma hora antes de partir juntava-se-lhe o que bastava de água a ferver. Fechavam-se tacho e caixa, e o cozido fazia-se por si próprio. Fosse a marmita de carro, a cavalo, a burro, ou a dromedário. Quando, tendo partido de manhã cedo, “chegávamos estenuados e esfomeados ao nosso destino. era um pot-au-feu’ fumegante que nos estndia os braços”.
Mas isso seria depois, ainda estão no Cairo, percorrem as sua ruas, vão aos bazares, entram nas mesquitas. Tal como Eça usam burro como transporte.

“A burro, meus senhores, ‘a burro’! E como num sonho japonês, estávamos todos ‘a burro’ antes mesmo de saber porque”.

“O burro é não só o primeiro amigo que se faz no Cairo, é também o melhor par de sapatos: as botas só se usam ao colocá-las ao pé da cama..............vivemos ‘a burro’ na nossa expedição ao Feyoum, assim como vivemos ‘a dromedário’ nos nossos dois meses de deserto a Sinai e a Petra”.

“O Mouski ..... Esta rua imensa, ou antes esta verdadeira avenida coberta, resume de forma completa e admirável toda a circulação das ruas orientais no que elas têm de mais vivo e mais pitoresco: inumeráveis boutiques cheias das mercadorias mais extraordinárias pela sua variedade e profusão.”
Admiram como Eça as “admiráveis esculturas em madeira que, sob a forma de ‘moucharabièhs’, servem de janelas e de ventilação às habitações”
E, uma vez o primeiro entusiasmo passado, analisam o que vêem: “Aquilo que um sábio académico (Ampère) designou muito justamente como febre da chegada ao Cairo, já a tínhamos experimentado, começávamos agora a analisar um pouco mais esse primeiro espanto.”
Em caravana, com tendas e material de cozinha e de dormida vão ao deserto, a Gizeh, a Sakhara.
“toda a cidade, invadida pelas areias está por descobrir, mas as incríveis dificuldades que se encontram quando se querem fazer pesquisas nesta areia movediça vão infelizmente retardar a descoberta dos tesouros e das maravilhas que aí estão certamente enterradas. Viam-se inúmeras ossadas, que a deslocação do solo tinham posto à vista, não tínhamos mais que nos baixar para colher restos humanos calcinados pelo tempo. Uma infinidade de múmias mutiladas cobriam a areia ....... eu tirei de um crânio de mulher, escondido sob montões de bandelettes e de cabeleiras, dois dentes admiráveis de brancura, que mereciam ter pertencido a uma serva de filha de faraó. O meu amigo G. ofereceu-se dois crânios, e eu tive a sorte de encontrar um daqueles pequenos amuletos em terra esmaltada ... uma mulher com cabeça de leão. Esta profusão de despojos à mão de semear e á superfície da areia faz pensar no que certamente se descobriria por baixo, se o trabalho das pesquisas não fosse tão dispendioso e tão difícil.”

Os futuros pintores regressaram ao Cairo, para dali atravessarem o Sinai e irem a Petra.
A viagem de Eça de Queiroz e do conde de Resende foi menos aventurosa. Assistiram à inauguração do Canal de Suez e regressarem a Portugal.
Não é a literatura de viagem da minha preferência, mas creio que os dois livros testemunham bem o que era a viagem turística do século XIX.

*em John Kaey Travel in Dangerous Ages Robinson. Londres
** Paul Lenoir Le Fayoum, le Sinai et Petra. Expedition dans le Moyen Égypte et l’Arabie Pétrée sous la direction de J.L. Gérome
Henri Plon, Imprimeur-Éditeur Paris

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