Que Ilhas desertas?

>> segunda-feira, 6 de julho de 2009



No último número da revista ‘Lire’ encontrei a resposta do autor Antoine Bello à pergunta dos livros que levaria para uma ilha deserta. Julguei que já passara, que já não se punha a questão. Pelos vistos porém a moda continua,
“Prisioneiro numa ilha deserta, passamos a ser o único sujeito, e o nosso próprio terreno de experimentação. Eu levaria portanto livros capazes de empurrar os muros do meu espírito” , respondeu o questionado. Ele lá saberá o que quer dizer.
Naturalmente é uma ilha idílica que este e outros questionados vêem diante de si quando se lhes coloca a pergunta. Uma ligeira brisa vinda de um mar azul, e eles, nos intervalos de algumas pequenas ocupações, à sombra das palmeiras, lendo as obras escolhidas. Só que na realidade a coisa não era bem assim. Houve homens perdidos em ilhas desertas, e alguns regressaram, e contaram como fora. Homem abandonado em ilha deserta associa-se imediatamente a Robinson Crusoe, herói do livro de Daniel Defoe, cujas aventuras apaixonaram gerações de leitores grandes e pequenos. Salvando-se do naufrágio do navio em que seguia, Robinson vai dar a uma ilha na qual consegue sobreviver graças à sua força de vontade e à sua capacidade de aproveitar aquilo que vai encontrando na ilha para se alimentar e vestir.
Não era uma figura totalmente inventada, o autor baseara-se em Alexander Selkirk, um marinheiro escossês, exposto na ilha de Juan Fernandes depois de uma discussão com o capitão do seu navio, que viveu nessa ilha durante quatro anos. Sendo recolhido então por outro navio inglês que ali passou, as suas experiências foram publicadas depois do regresso a Inglaterra, causaram natural sensação e resultaram na obra de Daniel Defoe. Que por sua vez inspirou o ‘Robinson de uma Família Suíça’, de Johann David Wyss e xom iato, o nome de Robinson passou a significar homem perdido em ilha deserta.
Mas não foram ingleses e menos suíços os primeiros Robinsons. Portugueses e espanhóis é que foram os percursores na matéria. Como não podia deixar de ser. Na Europa tudo quanto era ilha estava povoado e bem povoado, só quando portugueses e espanhóis começaram a percorrer novos mares, houve de novo ilhas desertas para homens experimentar que tal era aquilo de nelas sobreviver.
Gaspar Correia narra nas suas ‘Lendas da Índia’ o caso de um tal Fernão Lopes, que viveu isolado na ilha de Santa Helena. Esse Fernão Lopes, com alguns outros, fora preso em Goa por volta de 1512, acusado de ter servido os Turcos. Ele e os companheiros sofreram terríveis torturas, mais de metade morreu, e aos que ficaram disseram que fossem para onde quisessem. O tal Fernão Lopes meteu-se numa nau que estava de retorno, dizendo que queria voltar para Portugal. Só que no caminho mudou de ideias. Quando a nau aportou na ilha de Santa Helena, Fernão Lopes desapareceu.
Foram à sua procura,. mas não o acharam. Deixaram-lhe alguns mantimentos, biscoitos, bocados de carne seca, “sal e fogo, e roupas velhas que cada um lhe deu e também um papel em que lhe diziam que se mostrasse a outra nau que ali passasse. O foragido protegeu o fogo que lhe tinham feito, encontrou pedras que fizessem faísca que guardou e com os quatro dedos da mão esquerda e a continha da direita”, que lhe tinham ficado, conseguiu escavar e aumentar um pouco uma cova que descobrira sob uma lapa na encosta duma ribeira. Trancou-lhe a entrada com tojos e ali passou a dormir. “Achou ervas tenras, que eram gostosas de comer” e que ele cozia com sal em duas panelas que também lhe tinham deixado.
No ano seguinte passou de novo uma nau por lá. Os homens que desembarcaram viram os sinais de habitação, perceberam pelas coisas que lhe pertenciam que se tratava de homem branco. Não mexeram em nada, “antes lhe deixaram biscoito e queijos e coisas de comer e uma carta em que lhe diziam, que não se escondesse, que quando outra nau ali aportasse, que falasse, que ninguém lhe faria mal.”
Passado tempo o homem ganhou coragem e começou a aparecer à gente das naus e todos lhe davam qualquer coisas para plantar e semear “abóboras, romãs, palmeiras Ada (sic9, galinhas, porcos, cabras prenhes, que tudo se fez com muita criação e tudo se fez bravo no mato”.
Deste Robinson pode dizer-se que escolheu viver naquela ilha deserta, mas o mesmo não se pode dizer do segundo ‘Robinson’ de que há notícia. Foi um espanhol chamado Pedro Serrano, que em 1526 se salvou do naufrágio de um patacho espanhol, que navegava de Havana a Cartagena de Índias. Salvaram-se unicamente o capitão, o dito Pedro Serrano, e dois marinheiros, que a nado alcançaram uma ilhota, que se revelou ser um banco de areia sem vegetação e sem água.
Os sobreviventes alimentaram-se de pássaros e peixes, bebendo sangue das tartarugas que conseguiam matar e depois da água da chuva que recolhiam nas cascas das tartarugas. Um dos marinheiros morreu pouco depois de se salvar, mas alguns meses depois juntaram-se aos restantes dois sobreviventes mais dois de outro naufrágio. Estes tentaram em seguida procurar ajuda no pequeno bote, em que se tinham salvo, e nunca mais apareceram, ficando na ilha unicamente Serrano e um companheiro.
Como a ilha não tinha vegetação, os homens nem sequer puderam aproveitar alguma folha para se protegerem do sol, que lhes queimava a pele. Pouco a pouco cresceram-lhes os cabelos da cabeça e da barba, e foi essa a sua protecção. Conseguiram construir uma pequena torre à base de conchas e corais, e daí mandavam sinais de fumo queimando alguma coisa que dava à praia, mas só em em 1534, oito anos depois do seu naufrágio, foram vistos pela tripulação de um galeão e salvos.
Os espanhois afirmam que estudos recentes revelam que Daniel Defoe não se inspirou unicamente nas aventuras de Alexander Selkirk para o seu Robinson Crusoe, que se serviu também do relato de Pedro Serrano. É possível. Daquele que foi de facto o primeiro desses sobreviventes em ilha deserta ainda nada se sabia então. Só quando a Academia Real das Sciencias de Lisboa, entre 1858 e 63 publicou o manuscrito das ‘Lendas da Índia’ de Gaspar Correia, é que se pôde ler e saber da existência de Fernão Lopes e da sua isolada vida na ilha de Santa Helena.
O primeiríssimo Robinson da história moderna foi sem duvida um português. Mas não me consta que alguém tenha prestado muita atenção ao caso.
Daniel Defoe escreve que o seu Robinsom salvara uma Bíblia e mais um livro. Mas trata-se de ficção. Nos relatos de Fernão Lopes e de Pedro Serrano, dois especialistas em matéria de ilha deserta, não se fala em livros, ou da falta que porventura tivessem sentido deles. De muitos trabalhos e muitos sofrimentos, é que sim.

O que dizem outros
“Existem relativamente poucas situações de sobrevivência. A ilha pode ter mais ou menos vegetação. O mar pode ser mais calmo ou mais agitado. o clima moderado ou rigoroso, mas isto são só variantes. Estes dramas só podem ter lugar em uns tantos teatros. O que há no entanto é um infinito número de actores para assumir os papeis. O que varia por isso - e isso consideravelmente – é a interpretação individual do papel pelo actor, é a extraordinária diversidade da resposta humano a circunstâncuas extremas” Edward E. Leslie ‘Desperate Journey’s, Abandoned Souls’

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Por ca chamam-se policiais

>> segunda-feira, 29 de junho de 2009



Nos tempos em que os meninos brincavam, um dos jogos preferidos era “brincar” aos policias e ladrões. Dividia-se o grupo de meninos em policias e ladrões, os ladrões escondiam-se, e os policias faziam o possível por os encontrar. Quem mais ladrões apanhava, era o melhor policia. Às vezes um dos ladrões escondia-se tão bem, que ninguém o encontrava. Os policias esqueciam-se dele, até que ele, farto de esperar, saia do esconderijo e se declarava vencedor, coisa com o que ninguém se importava.
Brincava-se ao que existia na via real. De um lado os ladroes e outros criminosos, do outro, aqueles que tinham a missão de os apanhar. A coisa era tão natural, que não valia a pena escrever sobre ela. Até que um dia, um senhor chamado Conan Doyle inventou um homem chamado Sherlock Holmes. Uma criatura irritantíssima, mas genial, que, quase sem sair da sua casa em 221B Baker Street, com a sua inteligência e poder de dedução, resolvia aquilo que a policia não conseguia resolver. Nascera o detective amador. A polícia só surgia no momento em que havia que prender o criminoso. Então não havia remédio se não chamar a autoridade, chamava-se a polícia, mas os solucionadores dos crimes passaram a ser os detectives amadores.
Proliferaram os sucessores de Sherlock Holmes: Lord Peter Whimsey, Ngaio March, Ellery Queen, Hercule Poirot, Miss Marple, tantos outros. Por cá os livros em que esses heróis actuavam e actuam, chamam-se livros policiais, em Inglaterra chamam-lhe ‘detective stories’, em França ‘policiers’, ou ‘polars’, na América ‘criminals’, na Alemanha ‘Krimis’.
Havia nos primeiros tempos do policial um sub género, em que o primeiro lugar cabia ao criminoso, que não era muito criminoso, era um ladrão muito hábil, ou uma quadrilha de ladrões. O especialista do género era Edgar Wallace, com os suas organizações de criminosos e um matador profissional, que quase sempre era albino. Será que Dan Brown leu Edgar Wallace? Em França houve um Maurice Leblanc, criador de Arsène Lupin. Um ladrão bonito, elegante, simpático, incapaz de ferir, quanto mais matar, e a quem as marquesas e condessas praticamente ofereciam os diademas e os colares de brilhantes. Parece que ainda tem culto em França, ultimamente à míngua de heróis.
Com os anos o tipo do romance policial mudou, a policia voltou a ter o seu lugar no combate aos criminosos, e os métodos de investigação criminal já não se baseiam em deduções intuitivas e mais ou menos lógicas de amadores. Já não são os crimes em torno da xícara de chá, que Miss Marple ou Hercule Poirot, perante o espanto dos polícias, resolviam com inteligência e conhecimento da natureza humana. Agora querem-se coisas mais concretas, e estamos bem servidos. Nos ‘criminals’ americanos não nos poupam nada da investigação: o momento em que a esquadra é notificada, o exame do local do crime e do,, ou dos cadáveres, a morgue e a autópsia e por aí fora, todo o desenrolar prático e até burocrático do processo. E nós leitores ali estamos, atentos e interessados seguindo o policia detective.

Vasco Pulido Valente escreveu um dia, que o policial tem de ser em inglês, que só numa ‘detective story’ achamos perfeitamente natural que se descubra um morto no terceiro ‘green’ de um campo de golfe, coisa que nunca aceitaríamos em um qualquer ‘green’ de campo de golfe português. Não deixa de ter razão. E quem aceitaria em romance policial português que uma senhora bem nascida matasse sucessivamente quatro ou cinco dos seus parentes por causa duma herança? Não que não haja portugueses bem nascidos, que tenham, ou tenham tido, essa mesma vontade, mas por cá a coisa não convencia. Nos livros de Agatha Christie a coisa é corrente, e se não convence, entretêm. Nos ‘criminals’ americanos, também se mata em série, mas aí as mortes não são motivadas por heranças. Nos Estados Unidos trata-se de ‘serial killers’, que matam por gostar de matar. Parece que há quase tantos assassinos em série na América como assassinos à cata de herança em Inglaterra. Pelo menos em ficção.
Evelyn Waugh dizia que uma das melhores coisas dos policiais era que se podiam reler as vezes que desse jeito, já que no mesmo momento que se acabavam de ler, se esquecia quem fizera o què. Assim será, mas para mim o melhor do policial não é o descobrir quem fez o quê. É claro que isso interessa, mas para meu gosto o melhor do livro é o que conduz a essa conclusão. É todo o caminho de raciocínio, de detecção lógica, que leva a encontrar quem fez o quê, e porque o fez. E quanto mais lógica, mais inteligente for a dedução, mais o livro nos prende.
Mas para que este não seja esquecido, como de facto acontece com a maioria dos policiais, é preciso que a história, além do seu interesse intrínseco como caso de polícia ou de detective, seja uma história bem contada. E aí ninguém bate Simenon e os casos do comissário Maigret.
Maigret é um policia a quem a sua profissão coloca diante de casos que qualquer policia do mundo pode ter alguma vez enfrentado ou vir a enfrentar. Nada de fantasioso em Maigret. É um homem simples, consciencioso, bom garfo e bom copo. Nos livros de Maigret acontecem crimes, que são resolvidos de forma profissional por um comissário de policia chamado Jules Maigret. Mas têm qualquer coisa mais. Não são unicamente policiais, ou criminals, ou detective stories, ou polars, ou o que lhes queiram chamar, são óptimas histórias.

O que dizem os outros
“O encanto de ouvir contar uma história é tão natural à natureza humana como o encanto de ver danças e mímicas, de onde nasceu o drama” escreve Somerset Maugham no seu livro ‘The Partial View’. “Que esse encanto existe intacto, provam-no os livros de detectives. São lidos pelas pessoas mais intelectuais, com condescendência, já se vê, mas lêem-nos. E porquê, se não porque a ficção psicológica, pedagógica, analítica, a única que as suas mentes aprovam, não lhes satisfaz aquele desejo inato.”

Observações à margem
Penso que não há escritor que não tenha alguma vez pensado em escrever um romance policial. Já satisfiz esse gosto, não com um livro, mas incluindo em um dos meus livros – um romance histórico - o caso de um crime, e da sua solução. Tratava-se da morte de uma monja ocorrida no dia da eleição de nova abadessa do mosteiro. Era um crime “necessário” para o desenrolar da acção, já que para que fosse eleita aquela monja que de facto –historicamente – foi eleita, era preciso que houvesse uma razão premente para isso, e essa existiria, se deixassem de existir as duas candidatas, que em ficção teriam mais razões para serem eleitas. O que sucederia com a morte de uma e o crime da outra.
Achei graça engendrar o caso e desenvolver o processo de dedução. Apresentei os factos da seguinte maneira: toda a comunidade estava reunida quando se deu pela falta de uma das monjas, justamente uma das candidatas ao cargo. Foram-na procurar, estava caída ao fundo do escada de pedra que conduzia ao claustro. Tropeçara ela e caíra, ou fora empurrada? Por alguém que tinha interesse em que ela não se candidatasse, ou por outra qualquer, por outra possível razão? Todas as monjas usavam o mesmo traje, como se podia saber que fora a ela e não a outra que se empurrara? Uma das monjas - o ‘detective’ da história - chegou à conclusão, que a haver crime só podia ter sido cometido pela monja que tivesse sido a ultima a entrar na sala do capítulo. Qual delas fora, e porque é que só podia ser ela?
Não sei se isso sucede normalmente nos policiais, mas no meu caso, constatei com espanto que, para poder narrar o processo crime e solução do crime, e poder concluir com a solução que se impunha, o raciocínio, teve de partir do fim para o início. A coisa não foi nada fácil.
Depois dessa modesta experiência só posso dizer, que o meu respeito pelos autores de policiais aumentou.

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Zola no supermercado*

>> quarta-feira, 24 de junho de 2009



Depois de tanto comboio, os meus leitores - poucos, mas bons, como um deles teve a amabilidade de afirmar - devem estar fartos da via férrea. Além disso, o ultimo post foi comprido demais, e os ditos poucos, mas pacientes, leitores merecem que não se lhes impinja nova litania de 1600 palavras. Pensei que era boa altura para fazer uma pausa, tanto mais que estava numa fase em que não sabia bem o que havia de escrever. Não sei se a isso se chama ‘writers block’, se falta de ideias. E com essa explicação e um pedido de desculpa me teria hoje ficado, se não fosse terem-me dito ontem no supermercado, que os guardanapos de papel, que costumavam estar junto de rolos de papel, tinham passado para a secção de papelaria. Na outra ponta da loja, portanto.
“Devem ter lido ‘Au Bonheur des Dames’, estes senhores”, pensei. Porque foi nesse livro de Zola que li pela primeira vez desse processo de promover as compras, que é fazer com que o comprador se veja obrigado a passear pela loja ou armazém. Com um fim muito especial em vista: fazer com que a cliente - era na cliente feminina que se pensava - fosse obrigada a passar diante de secções pelas quais de outra maneira não passaria, e isso a tentasse a fazer compras que não teria em mente fazer. Também me lembro do livro quando oiço falar de mulheres que têm o vício da compra, porque Zola criou em Madame Marty e sua filha Valentine os protótipos da compradora compulsiva. E também penso no ‘Bonheur des Dames’ quando se fala do arruinar dos pequenos comerciantes pelas grandes superfícies, porque é disso que o livro fundamentalmente trata.**
Cheguei à conclusão que o leitor a tendência a associar ideias a livros lidos. Porque tem um mundo próprio cheio de figuras e de situações que leu em livros. E assim, nascido prosaicamente no supermercado, encontrei o meu post para hoje.

Observações à margem:
Qual não é o leitor que não gosta de encontrar, escrita por outro, uma frase quase igual àquela que ele uma vez escreveu, ou dito com outras palavras um mesmo sentimento?
Eu tenho uma nesga de terra, metade jardim, metade horta, que criei a partir de um amontoado de lixo, e se o consegui devo-o a um artista que se ignora, um homem reformado que percebe da terra e gosta dela, que se chama António Rodrigues, e de quem muitas vezes digo que vale o seu peso em oiro. Madame de Sévigné tinha um jardim perto de Paris e um homem que trabalhava nele, que se chamava mestre Paulo, e que valia, segundo ela, "son poids d'or" “o seu peso em oiro”.
Madame de Sévigné, tal como eu, seguia com interesse as obras que lhe faziam em casa. Creio que é uma característica especificamente feminina. Artista que me venha desentupir um cano, arranjar uma torneira, colocar uma ficha de electricidade, tem em mim uma atenta companheira. Há tempos tive o senhor Francisco, um habilidoso cá do bairro, a arranjar um autoclismo. Dos antigos, que estão nas alturas. Já se vê que assisti ao trabalho, que passei as ferramentas e comentei interessada o andar da obra. Congratulei-me em carta para a minha filha pelo facto de existir um senhor Francisco empoleirado no escadote, a arranjar um autoclismo. Leio, a respeito de obras que lhe estavam a fazer no telhado da sua casa de campo, que madame de Sévigné - tal como eu segui as habilidades do senhor Francisco - seguia a obra que lhe estavam a fazer no telhado e o comentava com a filha:
"Tenho dez carpinteiros no ar, que me estão a levantar a ‘charpente’, que correm sobre as solivas, que parecem a todo o momento que vão cair, que me fazem mal ao pescoço de tanto os ajudar de baixo.”

E mais uma observação:
Quando um leitor se encontra com um não leitor, os dois quase com certeza não vão falar de livros. Quando dois não leitores se encontram, então é que, com toda a certeza, não se fala de livros. Mas quando dois ou mais leitores se encontram, a conversa, mais tarde ou mais cedo, irá dar a livro ou livros.
Depois do almoço. Presentes: a minha filha, duas sobrinhas e eu. Fala-se de jovens autoras da moda. Críticas ferozes de conhecedoras.
Por vezes a conversa caie sobre livros da infância. Peço a uma das sobrinhas que recite as primeiras linhas das "Meninas Exemplares" da condessa de Ségur - sei que ela as sabe de cor - fá-lo de imediato, e perfeitamente. A outra recorda como chorava sobre a morte de Beth nas Quatro Raparigas. Todas se riem do entusiasmo pelos livros de Max du Veuzit, o ‘máximo do vazio'.
E por aí fora. Sem grande nexo, sem pretensão a intelectualidade, por prazer. Porque todas nós, as novas e a velha, somos leitoras, e todos os leitores têm as suas particulares lembranças de leituras e as suas associações de ideias a livros lidos.
____________
*Esta artigo estava preparado para segunda-feira, dia 22, e não foi publicado devido a um problema entretanto resolvido.
**Au Bonheur des Dames é um dos 17 volumes dos “les Rougon-Macquart”, a história de uma família francesa através das mudanças sociais do século XIX. ....., o romance conduz o leitor ao mundo dos grandes armazéns, uma das inovações do Segundo Império. (Wikipedia)
Consta que Zola se inspirou para Octave Mouret, o herói do seu livro, na personagem de Auguste Hériot, um dos fundadores dos ‘Grands Magasins du Louvre’. (Wikipedia)

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O comboio na literatura

>> segunda-feira, 15 de junho de 2009

Leitura puxa leitura. Impossível conviver durante uma semana com uma viagem de comboio sem pensar no que foi o comboio na nossa vida, e - principalmente – sem querer saber como se tratou o comboio em literatura.
Quem não se lembra de ter ouvido dizer, ou de ter dito, pelo menos uma vez, o “poucaterra, poucaterra”* à passagem do comboio? Quem não sentiu alguma vez um arrepio ao ouvir na noite o apito do comboio? E entre aqueles que somos leitores, qual de nós não se lembra de história, de livro, em que o comboio figura? A começar pelos livros de criança: a primeira viagem de comboio, as recomendações dos pais instalando os filhos no compartimento. E os Western? A chegada à pequena estação do destino, os assaltos ao comboio, a construção das ‘linhas de ferro´. Ainda releio com gosto ‘Desert Rails’ de L-P. Holmes, que recria um caso verdadeiro: a atribulada construção de uma pequena via férrea no estado de Nevada. E os policiais? Agatha Christie e o ‘4.50 from Paddington’, e o ‘Murder on the Orient Express’, e outros. Nos livros de Simenon, o comissário Maigret começa uma investigação com uma noite mal dormida pela agitação de um companheiro de compartimento, segue um suspeito no comboio, espera na ‘Gare du Nord’ a anunciada chegada de um homem procurado pela policia internacional. As grandes estações de caminho de ferro, com as suas impressionantes coberturas de ferro e vidro, passaram a ser um pano de fundo de muitas histórias. As de Paris figuram em muitos das investigações de Maigret. E na grande literatura? Ana Karenine reflectindo sobre a sua vida ao ritmo do rolar do comboio e por fim, procurando nele a sua via de saída. Em ‘La Bête Humaine’, Zola evoca o mundo do caminho de ferro e a história é vivida ao longo da linha Paris-Le Havre. E na literatura de guerra? Quem conhece a história da Europa Central dos últimos séculos, conhece o papel do comboio nessa literatura. Leu em histórias, memórias e romances das despedidas dos soldados nas estações, dos últimos adeus, leu da construção e reparação das vias de comboio pelos soldados especializados. Na literatura russa o comboio é uma constante, e na recente, quem não leu dos comboios levando os prisioneiros políticos e de guerra, à mistura com os criminosos, para os campos do ‘Gulag’?
Não fiquei espantada com a imensa bibliografia que existe sobre o comboio. Não me espantou também que houvesse inúmeras obras sobre a construção dos comboios, sobre a difícil implantação das estações de caminho de ferro nas cidades, e sobre todos os outros aspectos práticos da questão. Sabia também que era grande o número de obras literárias em que o comboio é o elemento de fundo, algumas eram conhecidas minhas. O que me espantou foi o grande e espalhado interesse pelo tema “o comboio na literatura”. Pensamos sempre que somos nós os únicos a ter deterrminada ideia.
Em artigo, no qual trata do impacto do comboio na moderna imaginação literária, o italiano Remo Ceserani, ele próprio autor de um livro sobre o tema, cita autores alemães, ingleses e franceses que se ocuparam do mesmo tema. Al Barton, um autor americano, resumiu o caso num seu artigo:
“O comboio tocava a toda a gente, por ser a “de facto” maneira de viajar. Nas duas guerras mundiais o comboio teve papel vital, transportando com característica eficiência bens, alimentos, cpmbustivel, armas, soldados e civis. ..............
Resumindo, o comboio era abundante fonte de caracteres, de aventura, de romance, de malandrice e de heroísmo – o material de que se constroem as histórias....................”**
E para ainda meter a minha colherada: havia evidentemente a omni presença do comboio, era o meio de transporte por excelência, tanto servia a recôndita aldeia, como atravessava os continentes. E depois havia na viagem de comboio um misto de intimidade, de aventura e de nostalgia, que não se encontrava em nenhum outro transporte. Os pequenos compartimentos de seis pessoas, três de cada lado, sentadas face a face, convidavam à convivialidade. Havia poesia nas pequenas estações de província e nas grandes estações com as suas gigantescas coberturas de vidro e aço, havia poesia nos nomes dos comboios das grandes linhas: Orient Express, Transiberiano, Simplon Express, Transcontinental. Será heresia, dizer que a viagem de comboio tinha mais de viagem do que tem hoje a viagem de avião? Parece-me que não.

O que eles disseram:
Em criança no comboio
“Quando em criança viajávamos – e desde muito pequenas que fomos sozinhas de comboio em visitas à família - íamos muito cedo para a estação para apanharmos um bom lugar. A nossa mãe sabia muito bem que ficávamos de trombas – agora dir-se-ia frustradas – se não tivéssemos cada uma o seu lugar à janela, e que haveria briga certa se houvesse só um. Eram precisos dois lugares à janela e para isso tínhamos de estar no cais antes da chegada do comboio------
Depois havia as recomendações: - comer o nosso lanche, mas não começar logo que o comboio se pusesse em andamento, não abrir as portas e de maneira nenhuma olhar pela janela em direcção da marcha do comboio, não aceitar nada de um estranho, não se deixar interrogar por ninguém, não trancar por dentro a porta do WC, melhor ficar uma de fora a tomar conta. Tudo isto dito no cais e repetido pela janela aberta do compartimento”
Heilwig v. der Mehden Schoen ist es auch anderswo

-- “De resto os seus companheiros de compartimento inspiravam confiança e não pareciam ladrões nem assassinos. Ao lado do homem que respirava com tanto barulho, estava sentada uma mulher que fazia um xale de croché. Num canto junto da janela e ao lado de Emílio um senhor de chapéu de coco lia o jornal”
Erich Kaestner Emílio e os detectives

No compartimento
--“Hasta aqui he ido solo em el departamento. En Paredes suben tres monjas, tres hermanas de la Caridad. Una es jóven, palida, escrufulosa. Otra, de mediana idad, con tes y perfil anglosaxones. La tercera a quien ambas atienden, es vieja….. Debe ser esta monja una alta autoridad en su Orden, Por lo que habla, una visitadora, que va de hospital en hospital, inspecionando los pequeños destacamentos de este exercito tan noble……..
Logo pergunta:
--Que dia es hoy?
--Dieciseis de Julio, le contestan
Y da un hondo suspiro, mira la lejania y dice:
--Pues esta mañana, a las cinco, han hecho cuarenta y nove años que sali de mi casa para ir al convento. Qué mañana!”
José OEREGA Y GASSET El Espectador

A Estação
-- “…em poucos minutos o comboio passava a desgraça da suburbia de Londres. Na carruagem, todos de alerta, esperavam o momento de escapar. Finalmente lá estavam sob o grande arco da estação, na tremenda sombra da cidade”
D.H.LAWRENCW Women in Love

-- “ Apesar da monumental cobertura de vidro, os cais da ‘Gare du Nord’ eram varridos pelas borrascas. Vidros caídos do teto tinham-se partido sobre os carris. A electricidade funcionava mal. A gente apertava-se nos agasalhos. Diante dum guichet os viajantes lia-se um aviso pouco tranquilizador: “Tempestade no canal da Mancha”
………..
“A luz amarela do comboio surgiu ao longe. Depois foi o barulho, os gritos dos ‘porteurs’, o laborioso andar dos viajantes em direcção à saída”
Georges SIMENON Pierre-le-Letton

--“ – Ambos em pé, às janelas, esperámos com alvoroço a pequenina estação de Tormes, termo ditoso das nossas provações. Ela apareceu enfim, clara e simples, à beira do rio, entre rochas, com os seus vistosos girassóis enchendo um jardinzinho breve, as duas altas figueiras assombreando o pátio, e por trás a serra coberta de velho e denso arvoredo.. Logo na plataforma avistei com gosto a imensa barriga, as bochechas menineiras do chefe da estação, o louro Pimenta…”
EÇA DE QUEIROZ A Cidade e as Serras

O maquinista
“Jacques ............ não perdia a linha de vista, debruçando-se a todo o momento fora do vidro de protecção para melhor ver. Rudemente sacudido pela trepidação, sem mesmo ter consciência disso, tinha a mão direita sobre o manípulo da mudança de velocidades como um piloto a roda do leme. Manobrava-o com um movimento insensível e contínuo, moderando e acelerando o andamento, e com a mão esquerda não deixava de puxar o cordão do apito, porque a saída de Paris é difícil e cheia de emboscadas. Apitava às passagens de nível, aos túneis, às grandes curvas. Ao cair da noite, avistando ao longe um sinal vermelho, pediu longamente a via livre e passou como um trovão.....”.
Émile ZOLA La Bête Humaine

Guerra
16 de Julho 1870
“De repente veio a notícia que estava declarada a guerra entre a França e a Prússia…. Muita gente nas ruas, debatendo, aconselhando-se, os comboios que chegavam tomados de assalto pelos que ansiavam por ir ocupar os seus postos”
Ottilie WILDERMUTH Leben

O Quartel General do Grão Duque Nicolas na frente da Prússia Oriental
“No interior, a disposição da carruagem havia sido modificada. Entraram num escritório que ia de uma janela à outra, com o chão coberto de um tapete oriental, uma mesa de trabalho, uma pele de urso na parede, uma panóplia de armas (uma oferta), alguns icons e um retrato do soberano.”

Vorotyntsev trouxera notícias da frente, e em particular de um grave erro cometido
“A carruagem do grâo duque devia se ter erguido sobre si mesma perante tal relato, todo o comboio imobilizado devia ter entrado em transe! Mas não. Nada mudou, e um resto de chá no fundo do copo não se agitou.”
Alexander SOLJENITZYNE La Roue Rouge Acte Premier. 1914

Outros passageiros, outras viagens
“O Stolypin era uma vulgar carruagem com oito compartimentos, cinco deles para os prisioneiros, três para os guardas”.
“…, os passageiros do Stolypin distinguiam-se dos outros passageiros do comboio pelo facto de ignorarem para onde era a sua viagem e onde ela terminava…………
No verão ouviam o alto-falante: --O comboio Moscovo Ufa parte dentro de três minutos…..passageiros para Tachkent por favor para o cais número três.
Os conhecedores dos dados geográficos do Arquipélago esclareciam os companheiros: --Workuta ou Petchova não são, para lá vai-se por Jaroslaw, os campos de Kirow e Gorki também não. ……..
--O comboio para Novosibirsk parte dentro de cinco minutos. Era o nosso. Mas que queria isso dizer? Nada, por enquanto. Tanto podíamos ir para os campos do Wolga Central, como para os do Ural. Para as minas de cobre de Dacheskasgan, como para Taichet………Toda a Sibéria esperava por nós. E a Kolyma pertencia-nos. E Norilsk também.”
Alexander Soljénitsyne Der Archipel Gulag

O apitar do comboio
“A cada estação
a cada centena de dormentes
saía um poema na forma de canção
Para o doce deleite dos presentes
E lá na frente
o maquinista Marcelino
jogava lenha na fornalha”

APITA COMBOIO. 4ª parte da viagem do trem encantado de Marcelino, chegada à Costa da Caparica em Portugal
O blogue de Dirceu Marcelino

*”Penso que "poucaterra poucaterra" é uma onomatopeia, em que é imitado o som produzido pelo rodado do combóio à passagem dos intervalos entre os rails” Paulo Achmann.
** Al Barton "Fiction: The Truth Be Told."

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Sobre este blogue

Libri.librorum pretende ser um blogue de leitura e de escrita, de leitores e escritores. Um blogue de temas literários, não de crítica literaria. De uma leitora e escritora

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