ou Escritor de história?

>> segunda-feira, 5 de outubro de 2009




Devido a um problema de vista, é provável que tenha muito em breve de fechar este blogue. Com muita pena, aliás. Enquanto não o faço. vou encurtar os artigos, o que de resto já me fora aconselhado. Como até agora não escrevi sobre temas de história lembrei-me de o fazer nos próximos spots, e tocar, ao de leve como o assunto requer, no delicado problema da interpretação dos Painéis de São Vicente de Fora.
Mas antes de mais acho que devo definir o que sou em relação à escrita de história.
Há em Portugal um extraordinário número de “historiadores”. Praticamente todos os jornais apresentam artigos assinados por articulistas que se definem por “(historiador)”. Mas quando se procuram pelas suas obras, elas não se encontram, ou, quando existem, não são em geral aquilo que eu considero obra de “historiador”.
Consultei uma sobrinha que está a tirar o curso de história e fiquei a saber que ela, quando terminar o seu curso, está formada em história, e é portanto “historiadora”.
Ora se a minha sobrinha será historiadora sem ter escrito uma obra de História, o que são então aqueles senhores meus conhecidos pelas grandes obras de historiografia que deixaram? O que eram então na Alemanha Mommson, Ranke, em França Taine, Michelet, Herculano, em Portugal? Lembrei-me que em alemão se designam a estes autores por “Geschichtsschreiber”, ou seja, por “escritor de história”. A coisa assim era mais clara.
Tendo o historiador, o formado em história, escrito uma ou mais obras sobre problemas de história, então, além de ser formado em história e a poder ensinar, era um “escritor de história”.
Historiadores formados em história são uma espécie recente. A ciência e o seu ensino datam de meados do século XIX. Até ali os documentos originais nem eram consultados. Quando se constatou que, sem a sua leitura, não havia compreensão de “história”, percebeu-se que havia que ler os documentos Ainda não havia cadeiras de paleografia, e os primeiros escritores de história tiveram de se ensinar a si próprios a paleografia e a correcta interpretação dos documentos originais. Foram autodidactas em matéria de história.
Voltando ao meu caso. Não sendo formada em história, não sou historiadora. Mas, tendo-me ensinado a mim própria, escrevi obras de história Talvez possa dizer que sou uma escritora de historia à moda do século XIX.
O escritor de história que se auto-ensina corre determinados riscos. Já não falando no despreso a que é otado pelos “historiadores”, o que é natural e de esperar. Os riscos importantes ocorrem na sua forma, por ventura pouco profissional, de encarar a escrita da história.
Não sei se nas faculdades ensinam o futuro historiador a evitar, por exemplo, o “antiquarismo”. O escritor não formado pode facilmente cair nele.
No seu livro “The Practice of History “ o professor G.R.Elton escreve que o antiquarismo se distingue pela devoção ao detalhe, pelo o amor a este. O antiquarista quer saber, mas não quer perceber. Pouco o preocupa o que está aprendendo com aquilo que acabou de saber”.
O antiquarismo tem por vezes a sua utilidade, escreve Elton, mas em geral prejudica a escrita da história. “É uma doença que afecta mesmo os historiadores formados e pode atacar com maior virulência ao não profissional.”
Eu ignorava que a expressão existia quando pela primeira vez escrevi história. Creio que consegui escapar à doença pela avassaladora quantidade de dados curiosos que se me foram revelando quando comecei a organizar o antigo arquivo da minha família materna. Eram curiosidades a mais para serem realçadas. Quando comecei a escrever historia tinha aprendido sem mestre a evitar o antiquarismo.
Daquela leitura de documentos e nos cinco anos que levei a escrever o meu primeiro livro, a biografia de um homem da Restauração, fui aprendendo muto mais. Foram cinco anos de aprendizagem. Aprendi a medir o relativo valor dos documentos para a obra em questão. A não me entusiasmar por um dado descoberto sem ter medido o seu verdadeiro alcance. Aprendi a medir as evidências antes de me precipitar em conclusões. Constatei a dificuldade da isenção na avaliação dos feitos e dos homens, e logo jurei a mim mesma que nunca me empenharia em escrita de história na qual a isenção não me fosse possível.
Daquela primeira obra passei a outra, esta sobre a vida nos mosteiros femininos portugueses na Idade Média (livro que ainda está por publicar) e que me levou à leitura de inúmeros outros documentos. Ia-me tornando um pouco especialista na matéria. E foi assim, fazendo a pedido, uma pesquisa documental, que esbarrei com um dado que me fez penetrar ali onde jurara nunca entrar, na zelosa e superiormente protegida questão de umas tábuas pintadas que um dia haviam sido encontradas nas arrecadações do mosteiro de São Vicente de Fora. O que se seguiu fica para depois. Se a vista o permitir.

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Livros que foram de Afonso de Torres. Porquê Tácito?

>> segunda-feira, 28 de setembro de 2009





Volto de novo ao inventário dos livros que foram de Afonso de Torres, porque dei um pequeno passo em frente que julgo poder interessar. .
Trata-se, como escrevi num post anterior, de decifrar o inventário dos livros deixados pelo dito Afonso de Torres. e por eles avaliar que tipo de obras literárias eram lidas por um português culto na primeira metade do século XVII. Para o que era preciso conseguir ler o inventário dos livros que o homem deixara. Só que, como então escrevi, se estava praticamente face a uma adivinha, ou antes uma série de adivinhas, já que o avaliador dos livros não se dava ao trabalho de especificar correctamente a obra, e menos em soletrar algum título mais difícil. Dizia um nome, ou um título, que para ele definiam perfeitamente de que obra se tratava, e indicava o valor em que a avaliava. O valor é que interessava. O escrivão, que anotava as palavras do avaliador e nada devia saber de livros, escrevia o que lhe parecia ter ouvido.
Durante anos não tive paciência para me meter a resolver aquelas adivinhas. Ultimamente decidi pegar no inventário, pareceu-me que o trabalho de o decifrar e depois interpretar podia interessar e merecia ser feito.
Alguns livros já foram identificados, uns por mim, outros por Paulo Achmann, amigo bibliófilo, a quem pedi ajuda e outro por Gonçalo da Cunha, que entrou no jogo.
Para dar um exemplo desta colaboração mostro aqui como se identificou o primeiro livro do inventário.
“Viagem Dermundo de sevalhos”. lê-se nele.
Eu procurei por: ‘viagens em torno do mundo (dermundo)’, e cheguei a bom porto. O livro é: “Historia y viage del mundo del clerigo agradecido don Pedro Ordoñes de Zevallos … a las cinco partes de Europa, Asia, Africa, America y Magalanice. Contem 3 libros” Vasconso, José ed. Juan Garcia imp. Madrid 1614
Paulo Achmann foi por: ‘sevalhos’.
--Chegar lá, escreve ele, --não foi tão fácil como parece, porque sem o "Ordóñez" recusava-se a aparecer. Mas acabou por aparecer.
Outra adivinha era esta:
“Primeira parte del par nosso de ouvidio”
Paulo Achmann declarou-se derrotado: --Primeira parte del pai nosso de Ouvidio? Que diabo (releve-me a incontrolável linguagem blasfema) é que o Ovídio tem a ver com o Pai Nosso ?
A solução veio no comentário de Gonçalo da Cunha. “Primeira parte del pai nosso de Ouvidio” era, escreveu ele, “Primera Parte del Parnaso Antartico de Obras Amatorias con las 21 Epistolas de Ovidio, Sevilla 1608.
E que dizer da obra denominada “A contersia de Justiça Luso”?
Dessa identificação glorifico-me eu. Gonçalo da Cunha perguntou-me a dada altura se eu já descobrira o que era esse ‘A contersia de Justiça Luso’.
A minha primeira resposta foi que ainda não o conseguira, mas a pergunta acordou-me, voltei à adivinha e pude responder ao Gonçalo.
“Justiça Lusa” era provavelmente o nome do autor do livro e não o seu título. Os meus conhecimentos de alemão levavam-me a pensar que o “Justiça” podia ser o nome Justus, nome então bastante usado na Alemanha.
Consultei uma lista dos livros que pertenceram a um grande bibliófilo espanhol contemporâneo de Afonso de Torres. Encontrei “Justus Lipsius filólogo e humanista... fue el autor de una serie de obras que pretendían recuperar la antigua corriente filosófica conocida como estoicismo en una forma que fuera compatible con el cristianismo…….La más importante de dichas obras fue De Constantia.” Que deu a “contersia” do escrivão.
E passo ao título deste spot: Porquê Tácito?.
Afonso de Torres tem várias obras de Cornelius Tácito. Os meus dias não costumam estar ocupados com Tácito, mas dá-se o caso de ultimamente ter lido mais de uma vez o seu nome. E a razão é esta:
Há dois mil anos, no dia 9 de Setembro do ano 9 depois de Cristo, deu-se no norte da Germânia, na floresta de Teutoburg, uma batalha em que Roma perdeu três das suas legiões, As forças romanas eram comandadas por Quintilius Varus, as germânicas por Arminius, chefe de Cheruscos.
“Suetonius escreve que o imperador Augusto deixara crescer cabelo e barba em sinal de luto e que, quando recordava o desastre, exclamava ‘Varus, Varus dá-me as minhas legiões’.”*
,Ainda hoje se discute a exacta localização e o decorrer de uma batalha que foi decisiva para a história da Europa, e o tema apaixona arqueólogos e historiadores.
A batalha, que estava praticamente esquecida, veio de novo à memoria europeia em meados do século XV quando se descobriu no mosteiro de Hersfeld na Alemanha um pequeno manuscrito intitulado “De origine et situ germanorum”. O autor latino era Publius Cornelius Tacitus e falava dessa batalha.
Ignora-se como sucedeu, mas em 1455 o manuscrito foi parar a Itália e em 1470 era impresso em Veneza. Em 1473 era impresso na Alemanha.
Eu acabara de ler três obras, duas alemãs e uma de um autor americano sobre essa batalha e em todos eles se cita Tácito. Não é pois de estranhar que, imersa como estava no assunto e em Tácito, eu tivesse, ao pegar de novo no inventário, identificado o “Cornelius Tácito” de Afonso de Torres, com àquele livro de Tácito que eu conhecia, ou seja com o “De origen... Germanorum”.
Estranhei contudo que houvesse outros livros de Tácito. Um deles intitulado “Cornelius Tácitus Aforismos”, outro intitulado “Cornelio Tácito Espanhol 600 rs”.
O que tinham aqueles títulos a ver com o “De origen-----Germanorum”? E porquê tanto interesse espanhol por Tácito? Foi procurando esclarecer esta duvida, que pela primeira vez soube da existência de uma corrente de ideias designada por ºtacitismoº, e que um dos seus principais expoentes fora Baltasar Álamos de Barrientos (1555 – 1640) com o seu “Tácito Español illustrado con aforismos” (Madrid, 1614).
Não era ºpois do ‘De origen .... Germanorumº, e não era da batalha de Teutoburgo que se tratava nas obras que se encontravam na biblioteca de Adonso de Torres. Tácito fora autor de outras obras, e era dessas suas obras que os tratadistas espanhóis se estavam servindo nas suas argumentações, e eram os livros deles que Afonso de Torres tinha.
Na Net, e não, como esperava, na minha ‘Historia de la Literatura Española’, encontrei um artigo que me esclareceu. É da autoria de Elena Cantarino e intitula-se “Tratadistas politico-morales de los siglos XVI e XVII”
“A moralidade ou imoralidade dos meios usados pelos governantes para conseguir os seus fins políticos era assunto que ocupou o pensamento politico na Europa”, escreve Elena Cantarino .
O tema nascera com Maquiavel e, ao discorrer sobre a ética na politica, na “Razão de Estado”, as opiniões devidiam-se. Havia várias escolas de pensamento: a escola eticista, a idealista e a realista.
Os primeiros, anti-maquievelistas, repudiavam “a irreligiosidade e o amoralismo na política, que julgavam ver na doutrina de Maquiavel”.
Outros não atacavam a tese de Maquiavel, mas “criticavam, mais ou menos veladamente, as consequências negativas da sua doutrina…”
É com esta corrente que se introduz a Tácito, e que “se assumem indirectamente propostas que têm sido consideradas por alguns como maquiavelistas e por eles designados por ‘maquiavelismo encoberto’ ou ‘camuflado’. Os autores que defendiam essa corrente eram tratados de realistas ou de ‘tacitistas’.”
E mais adiante:
“Tácito era a figura que a maioria dos ‘realistas’ tomaram como modelo, como fonte de inspiração e de admiração. Descoberto no Renascimento (as suas obras foram impressas em 1458) foi no entanto a edição de Justo Lipsio (1574) que permitiu que o autor clássico se convertesse no grande mestre da razão de Estado. Sem duvida que o seu estilo aforístico e a sua forma de ‘enfocar” a política com imoralidade fizeram com que a sua obra reunisse as condições essenciais para agradar ao gosto do barroco. “
Entre os autores da primeira escola, a idealista, Elena Cantarino cita Juan de Mariano e Francisco de Quevedo, dos quais há livros no inventário de Afonso de Torres. Mas é de autores da terceira escola, a realista, que ká identificámos mais obras. Entre elas as de autores como Justus Lipsius, do citado Baltasar Álamos de Barrientos com o seu “Tácito Español illustrado con aforismos…”, e, “altough last, nor least”, das obras do próprio Tácito.
Afonso de Torres estava natiralmente interessado na magna questão da “Razão de Estado” e da sua ºetica, e, considerando os seus livros já identificados, parece ter sido adepto da escola “realista” ou “tacitista”.

*Peter S. Wells The battke that stopped Rome. Emperor Ausgustus, Arminius and the slaughter of the legions in theTeutogurger Wald.

Observações à margem
Há ainda muitas obras por identificar. Agradeço qualquer sugestão quanto a:
“Tragicomédia dos apóstolos”
“Filosofia de meya”
“Os quatro novíssimos de Rolim”

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Ficção cientifica e eu

>> segunda-feira, 21 de setembro de 2009



Há umas semanas, sugeriram-me aqui que lesse livros de ficção cientifica. Argumentando eu que para a leitura desse género de livros seria decerto preciso ter algumas bases científicas, JPC, o leitor que me fizera a sugestão, assegurou-me que não, que qualquer um se podia abalançar.
Não me convenceu. Contudo, analisando as minhas qualificações, constatei que não era totalmente desprovida delas.
Sabia o que era um telescópio! Tinhamos um em casa de meus pais, já que o meu pai era um entusiasta de astronomia. Desde pequenos que meus irmãos e eu éramos chamados para observar através do telescópio uma especial constelação. (Que eu em geral não via.) No colégio alemão, o nosso professor de física, era outro entusiasta de astronomia, e o ano escolar não passáva sem uma ou duas noites de observação dos astros.
Numa viagem a Alemanha o nosso pai achou imperativo que eu e o meu irmão, então de 7 e 8 anos, fossemos a um planetário. Fomos a um planetário.
A escola organizava conferências para os alunos. Numa dessas conferencias conheci Hanna Reitsch, que pilotou o primeiro V2 como piloto teste de Werner v. Braun. Nem todos os leitores de ficção cientifica se podem gabar de tal.
Os discos voadores também não tinham segredos para mim. Um dia, num fim de tarde, quando ainda não havia a ponte sobre o Tejo, atravessando o rio num cacilheiro, e estando o meu carro virado para os lados de Cascais, vi no céu, vindo em nossa direcção, desaparecendo depois por entre as nuvem, uma coisa que parecia um disco amarelado. “Tem piada, pensei, então é a isto que se chama um disco voador”. Comentei-o com o meu marido e amigos e passei adiante.
Considerando tudo isto, fiquei mais tranquila. Tinha afinal alguns conhecimentos que me pareciam necessários para enfrentar aquele género de literatura.
Mas precisava de saber um pouco mais. JPC sugerira que eu lesse um artigo elucidativo sobre Jack Vance, que recentemente saira no New York Times. Li o artigo com interesse, mas Ainda achei pouco. Consultando a respectiva bibliografia, comprei o “Billion Year Series ” de Brian Aldiss, do qual o New York Times Book Review escrevia que se tratava de um estudo cuidadosamente pensado desse ramo, das suas origens, do seu impacto e das suas falhas.
Li, e abriram-se-me os olhos.
Fiquei a saber que era a uma mulher que cabia a honra de ter escrito o primeiro livro moderno de ficção cientifica. Que fora Mary Shelley, mulher do poeta desse nome, quem criara Frankenstein e o seu monstro. Não foi muito seguida, foram autores masculinos que tomaram conta do género, e não foram poucos e de pouca imaginação. Até Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes tentou o género, e o seu “The Lost World” é, segundo Aldiss, além de ficção cientifica, uma das grandes historias de aventura.
A história trata da descoberta pelo professor Challenger e seus companheiros de um enorme vulcão na bacia do Amazonas em cuja cratera, sobrevivia um fragmento do mundo pré-histórico: tribos da Idade da Pedra, homens macaco, dinossauros etc.
Júlio Verne penetra na terra no seu ‘Voyage au centre de la terre” e outro autor encontra sob a terra um corredor no qual vivia uma antiqíssima e curiosíssima civilização.
Mas foram sobretudo as viagens à lua, com estadias mais ou menos longas, que atraíram autores. Brian Aldiss conta pelo menos 250 relatos de idas, chegadas, estadias e encontros de viajantes terrestres que se aventuraram a visitar o nosso amável satélite. Curiosamente os autores falam pouco dos lunáticos.
Entre 1879 e 81 o astrónomo italiano Schiaparelli observa umas estranhas linhas no planeta Marte. Designaram-se essas linhas por ‘canais’, e ninguém duvidou que havia naquilo mão de homem. Marte passou imediatamente a ser procurado por exploradores terrestres, e os artefactos voadores nos quais estes senhores se aventuravam eram dos mais variados.
O corajoso tenente Gulliver Jones, criado por Edwin Lester Arnold, lançou-se no ar em tapete mágico impulsionado por “wish”, ou seja ‘desejo’.
Em “Across the Zodiac” de Percy Greg, publicado em 1880, a coisa é mais ‘científica’. “É possivelmente a primeira viagem inter-planetária realizada por uma nave espacial” escreve Aldiss. “Tal como J. Verne, Percy Greg cria complicados factos e figuras para a sua nave. Esta até está munida de um rudimentar sistema ‘hydroponico’ (?) para reciclar o ar e orgulha-se de paredes de metal de três pés de espessura ”.
O turismo entre Marte e terra tornou-se intenso. Retribuindo as visitas dos terrestres, surgem na terra os ‘marcianos’, entes estranhos, de preferência verdes, às vezes com escamas e em geral com olhos em forma de bolas de ping-pong dos lados da cabeça. Parece que só um autor alemão, Kurd Lasswitz, no seu “Auf zwei Planeten”, “Em dois planetas”, publicado em 1897, encontrou em Marte habitantes mais atractivos, um deles, o engenheiro Fru, tinha cabelo encarniçado. Um critico citado por Aldiss, escreveria que o autor dos “Dois Planetas” evitara nessa matéria os exageros da maioria dos autores que escreveriam depois dele.
Vivendo numa era de convulsões sociais, os autores destas obras davam a muitas das suas histórias uma nota de empenho social. Humanizavam as obras da sua imaginação, “usando o futuro para espelhar os males do presente”, escreve Aldiss. Com o resultado, de que histórias fantásticas, que aos nossos olhos, parecem destinadas a rapazes adolescentes, entusiasmavam igualmente as grandes crianças, que eram os seus pais.
A ficção cientifica sempre construíra as suas obras do futuro a partir daquilo que de momento se sabia, e, quando, com os avanços tecnológicos, muito daquilo que havia sido imaginado, se tornou realidade, os autores de ficção cientifica já não podiam impunemente ignorar os dados científicos básicos. O que, naturalmente iria fazer – e fez - as suas obras de mais difícel leitura para quem não possuísse um mínimo desses conhecimentos.
Era o meu caso, mas apesar disso, lancei-me finalmente na leitura de ficção cientifica. Para iniciação quis obra que fosse de um dos melhores autores do género. Pedi ao meu genro, conhecedor na matéria, que mo escolhesse. Escolheu “Rendez-vous with Rama” de I.F. Clarke, que se anunciava desta forma:
“Rana é uma enorme, estranha, nave espacial, que penetrou o nosso sistema solar. Um cilindro perfeito, de 50 km de comprido, rotando rapidamente, correndo através do espaço. Rama é uma maravilha tecnológica, um artefacto estranho, mistérios e profundamente enigmático. É o primeiro visitante vindo das estrelas e tem de ser investigado.”
Basicamente a história é simples. No ano de 2130 apareceu no céu um objecto que os cientistas identificam como uma nave espacial extra-terrestre. No Quartel General Planetário situado na Lua, reúne-se um conselho extraordinário de embaixadores dos planetas habitados, e a decisão é unânime, aquela estranha nave tem de ser abordada e estudada. Para o efeito nomeia-se o comandante Norton. Seria ele quem chefiaria uma equipe de especialistas da sua confiança. Até aqui tudo bem, isso até eu percebia. Norton tem uma mulher na Terra e outra em Marte, o que também aceitei, era lá com elas. Não me pareceu que a esposa de Marte fosse marciana, e ninguém me explicava o que sucedera aos primitivos habitantes dos planetas agora habitados por gente cá deste planeta. Mas conheço a história, sei como essas coisas se passam. Os meus problemas surgiram quando se entrou em astronomia, astro-fícia, e tecnologia avançada, o que naturalmente sucedeu com a aproximação da ‘nossa’ nave à outra nave. Quando se tratou da entrada nela não percebi como é que abriram aquilo que eu chamava porta, mas que tinha outro nome. E com a exploração do interior de Rana, a coisa piorou. Eu comparava tudo o que os exploradores encontravam com aquilo que havia cá na terra, e achava isto por cá bastante melhor. Não percebia porque seria que os habitantes da nave, umas curiosas criaturas feitas de uma substância que me parecia plástico, mas não era, como e porquê eles não falavam, mas estavam sempre a limpar os detritos de alguma coisa que caísse, ou se desfizesse. Uma torre de vidro na qual se amontoavam os mais diversos objectos, e que deu muito que pensar ao comandante Norton e seus companheiros, era afinal - concluíram eles - um depósito de ‘saber’. Comparei a torre da sapiência - desfavoravelmente - com a minha Enciclopédia.
Enfim, dera-se o que se devia dar. Percebi que os meus conhecimentos não chegavam quando se tratava da actual ficção científica. Que não era já unicamente uma despretenciosa fantasia, mas sim uma ficção em que as historias podiam ser, e eram, fantasiosas, mas em que os problemas suscitados eram cientificamente correctos, e a forma de os solucionar era - tinha de ser – de forma e com técnicas adequadas àquele problema imaginário.
Ora eu não só não percebia os problemas suscitados, como nunca me conseguia convencer da realidade da aventura. Nunca – como sucede em livros de aventura – esperei pela consequência que logicamente seguiria um perigo sucedido, o que pensava para comigo era: “o que irá ele (o autor) agora inventar para resolver isto?” O meu realismo terra a terra não me largava, procurava soluções terra a terra para problemas astrais, e - crime imperdoável - aquilo às vezes dava-me vontade de rir. Sucedeu às vezes, não muitas, mas algumas.
Tive de concluir que ficção cientifica não era para mim. E atrevo-me a pensar que, apesar de ter havido uma Mary Shelley e de haver agora algumas escritoras que se lançaram neste género, que, apesar disso, a ficção científica é mais apreciada por leitores masculinos, do que por mulheres, por muito leitoras que estas sejam.
Não foi no entanto inútil a experiência. É verdade que não me interessa conhecer o futuro e o que se possa sobre isso inventar, porque tenho a certeza que isso – felizmente – não se conseguirá. Mas gostava de saber se neste universo há mais alguém do que nós, e creio que isso, sim, um dia se poderá vir a saber.
Sobretudo foi bom ser levada de novo a pensar no que representa o céu estrelado que nos ilumina, e que as estrelas que hoje brilham nos enviaram a sua luz há biliões de anos e podem já não existir.
Aprendi alguma coisa com o que li, e se não fiquei adepta de ficção cientifica, percebo que seja escrita e apreciada.

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LEITOR E AUTOR. Temos de simpatizar com o autor?

>> segunda-feira, 14 de setembro de 2009




Num mundo ideal o leitor abre o livro, lê-o, gosta dele - muito pouco ou nada - e a sua apreciação não é influenciada pelo facto de gostar muito, pouco ou nada do autor da obra. Mas o mundo não é ideal, e pergunto-me por vezes, se o facto de o leitor gostar, ou não gostar, da pessoa do autor do livro que está lendo, pode afectar a apreciação deste.
A pergunta surgiu de novo agora que me preparava para escrever sobre livros de viagens nas nossas terras, e um dos autores que pretendia citar é personagem com quem não simpatizo.
Em alemão leio com gosto as “Wanderungen” de Theodor Fontane no Brandenburgo. ‘Wandern’, é uma palavra para a qual não há tradução em português, em inglês fala-se de ‘rambling’, significa percorrer o pais, ou uma região dele, em geral a pé, por prazer, para gozar da natureza, para contemplar, pensando.
Do mesmo género tenho em inglês o livro de Steinbeck ‘Travels with Charley in Search of America’ , que não é outra coisa o que uma ‘Wanderung’, um ‘rambling’, um ameno passeio, no seu caso num ‘station’, com o seu cão Charley.
Procurando obra equivalente em português afastei as ‘Viagens na minha terra’ de Almeida Garrett, por nunca ter conseguido passar das primeiras páginas. Seguiam-se logicamente as ‘Viagens a Portugal’ de José Saramago, livro que prometia ser do género procurado.
Normalmente, não conhecemos os autores dos livros que lemos. São personagens remotas que ou já não são deste mundo, ou vivem em outros países. Quanto aos que vivem no mesmo pais e que conhecemos por jornais ou televisão, é raro que as suas pessoas nos apaixonem ao ponto de influenciarem a nossa opinião sobre as suas escritas.
Por Theodor Fontane tenho admiração, se vivesse no seu tempo partilharia decerto as suas convicções politicas, li os seus livros de correspondente de guerra de 1870 e concordo com aqueles - entre os quais Thomas Mann . que xonsideram o seu ‘Effi Briest’ melhor que Madame Bovary. Steinbeck também me é um autor simpático. Jã não leio os seus romances, mas fiquei amiga do amigo de Charley e releio esse seu livro com prazer.
No caso de José Saramago a coisa à partida era diferente. O homem não me é simpático. Pelo seu actual ar de arrogância e vaidade e por não ter esquecido do passado os seus artigos no Diário de Notícias. Não li os seus romances, não por antipatia, mas porque gosto de pontos, vírgulas e parágrafos e José Saramago não os aprecia.
Agora, com o seu ‘Viagens em Portugal’, surgia a ocasião de ler um livro seu, que não é um romance, que tem razoável número de parágrafos e no qual não faltam os pontos e as vírgulas.. Era também ocasião de verificar se a minha antipatia pelo autor afectaria a apreciação do seu livro.
Saramago fala sempre na terceira pessoa. Não é ele, é “o viajante” que vem a Portugal e o percorre de Norte a Sul. Muitos dos percursos que ‘o viajante’ faz, também eu uma vez fiz, parei em muitos dos locais onde para este viajante, e como colaboradora mental que sou dos livros que leio, acompanhei também a este com íntimos comentários. O ‘viajante’ está constantemente de mau humor, queixa-se da chuva, queixa-se do hotel mal aquecido, e, em mente, eu lembrava ao viajante que se não queria apanhar chuva e frio, que não tivesse vindo ver a terra em pleno inverno. O ‘viajante’ vai a Coimbra: “é um viajante, um sujeito que passa, um homem que, passando, olhou, que é superfície apenas. Tem de encontrar depois lembranças das correntes profundas. São também volteios, mas da banda da sensibilidade. Enfim, este é a Universidade de Coimbra donde muito bem terá vindo a Portugal, mas algum mal se preparou. O viajante não vai entrar....”
“Se até o pátio da Universidade o incomoda, o melhor é não ir a Lisboa, porque o homem também por lá andou”, comentei eu. O ‘viajante’ não passa perto ou longe de igreja, que não a visite, que não procure o sacristão, ou a mulher da aldeia que tem a chave para lá poder entrar. Eu espanto-me em mente por tanto interesse religioso. O ‘viajante’ é pouco comunicativo, não o vejo trocando conversa com o povo que tem ocasião de abordar e que tanto ama. “Conversas destas deixam o viajante mal humorado. Por isso quase não tem olhos para Vila Flor. Tem de abrir o guarda chuva..” Coitado do viajante!
Em livros de passeios nas nossas, suas, terras, o autor não vai à procura de aventuras, não pretende descobrir paragens desconhecidas, vai passeando, deambulando pela sua terra. vai contando o que vê, fala de quem encontrou pelos caminhos e que impressões trocou, descreve uma paisagem, fala de um monumento, relembra a sua história. São livros contemplativos, com calor humano, por vezes - e porque não - um pouco lamechas.
Ora ‘Viagens a Portugal’ é scco, sem vida, sem calor humano, e o viajante irrita-me com o seu constante mau humor. E volto à pergunta inicial. A saber se o livro, objecto que não tem culpa de eu não simpatizar com o seu autor, sofreu da minha antipatia? Se me irritaria eu tanto se, em vez de antipatizar com a pessoa do autor, eu gostasse dessa pessoa?
Curiosamente, parece-me que, na apreciação que fiz do livro, não fui influenciada contra o autor por não gostar da sua pessoa. É verdade, confesso-o, que nunca me consegui esquecer que ‘o viajante’ é José Saramago, e talvez que se o autor fosse outro, eu teria tido mais indulgência para com os seus maus humores e a sua secura.
Mas creio que não, creio que teria sentido exactamente o mesmo se o autor me fosse simpático. Creio que o facto de gostar do autor não me levaria a compadecer com o seu mau humor, não deixaria de me irritar com a secura dos seus comentários.
Resumindo, cheguei à conclusão – que aliás me espantou – que não gostei do livro, porque o livro, em minha opinião, não é ‘gostável’, e não por se dar o caso de o autor me ser pouco simpático.
Ponhamos agora o caso de um autor, pela amizade que existe entre nós, esperar de nós uma opinião sobre um seu livro.
Se, por suposto, a autora do hipotético livro fosse a minha filha, eu não hesitaria em lhe dar a minha sincera opinião. Mas, caso se tratasse de um amigo, eu teria mais cuidado com a franqueza.
F. Scott Fitzgerald não hesita em apontar os seus defeitos literários à filha: “Li a história com a maior atenção, e lamento ter de te dizer, que o preço que temos de pagar pela produção de uma obra profissional, é muito mais alto do que aquele que tu estás preparada a pagar”. Não seria provavelmente tão franco com um amigo, mesmo -- ou sobretudo – muito chegado.
Encontrei no spot “Todos ao Chiado” do blogue Tapornumporco, um trecho que me parece vir a propósito e que transcrevo-o aqui. Espero que o autor não se importe. Escreve ele:
“............., há um novo escritor português que me cativa. É o Daniel Abrunheiro e também é por sermos amigos. Distantes, mas de longa data. A amizade, neste caso, conta apenas por ter sido a porta de entrada para a sua obra e para a sua escrita. Confesso que se não fosse um amigo provavelmente não me teria dado ao trabalho de conhecer mais e melhor. Teria perdido uma pérola. ......... A circunstância de ser um amigo, como tal, não me torna mais parcial o julgamento em relação à criação. E o que eu acho é que é uma leitura cativante, enriquecedora e, principalmente, um universo literário, uma poética, original, que é das coisas mais raras e preciosas de se encontrar num escritor.”
Mas como escreveria o autor do spot sobre o livro do amigo, caso não o tivesse apreciado?
E quando se dá o caso do leitor ser também autor?
Leitor e autor habitam o mesmo planeta, um pequeno planeta chamando ‘Leitura’. Os dois precisam um do outro, mas a relação entre eles é muito delicada. E tudo porque entre eles está uma coisa de aparência insignificante, que se chama livro.

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Sobre este blogue

Libri.librorum pretende ser um blogue de leitura e de escrita, de leitores e escritores. Um blogue de temas literários, não de crítica literaria. De uma leitora e escritora

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