A grande precipitaçao

>> segunda-feira, 19 de outubro de 2009





Na introdução a um livro sobre erros cometidos em diversos ramos da ciência*, o autor escreve que grande parte desses erros tinham sido originados pela ânsia de “esclarecimento e reconhecimento” dos respectivos investigadores ou cientistas. Ânsia que os levara a afastar demasiado depressa as duvidas e a pôr de parte qualquer ideia de um possível engano.
Alguns desses enganos tinham sido desastrosos, escreve o autor, outros, menos nefastos, prejudicariam contudo a investigação, levando-a por caminhos errados, que acabariam fatalmente em becos sem saída. Com muito esforço desperdiçado e muito tempo perdido.
Parece-me que se pode dizer o mesmo mesmo no caso dos Painéis encontradas um dia nas arrecadações do mosteiro de São Vicente de Fora. Na ânsia de “esclarecimento e reconhecimento”, de serem eles os primeiros a desvendar o enigma daqueles homens reunidos em torno de dois santos, os investigadores precipitaram-se a proclamar conclusões e teses.
Não se pode levar a mal que o tenham feito, nem nos espantar que se tenham enganado, o que talvez se possa criticar é o facto de, mesmo depois de algumas das teses terem provado erradas, e reconhecido como tais, de, mesmo assim, se tivessem mantido e defendido.
As três teses em questão são - como já se disse - que o homem de chapéu preto é o Infante D. Henrique; que os santos são São Vicente em duplicado, e que o pintor é Nuno Gonçalves.
A tese do retrato ser o Infante, foi a primeira em linha, mas creio ser mais esclarecedor quanto aos métodos de investigação que se praticaram, começar com as duas ultimas teses. Elas estão aliás intimamente ligadas, uma condicionando a outra. Foi a tese de os santos serem São Vicente – a tese dita “vicentina” - que levou à tese “Nuno Gonçalves”. Uma depende da outra.
Uma das coisas que desde o inicio intrigou os investigadores foram as figuras, nimbadas que são o centro devoto daquelas tábuas. Não se conhecia santo que se figurasse daquela forma. Consultou-se então alguma das grandes enciclopédias católicas? Pesquisou-se talvez o arquivo da câmara, já que se via nos Painéis um homem a segurar uma relíquia que se podia ligar ã câmara e, eventualmente, aos dois santos? Nada disso. Adivinhou-se.
Surgiram as mais surpreendentes propostas. De se tratar de Santo Eduardo, rei de Inglaterra, sugeriu Joaquim de Vasconcelos, de São Vicente, afirmava José de Figueiredo, de Santa Catarina, propunha Alfredo Leal, de D. Isabel, mulher de D. Afonso V, como rainha fada, lembrou Armando Lassancy, do cardeal D. Jaime, filho do infante D. Pedro, propôs Belard da Fonseca, enquanto José Saraiva apostava no infante D. Fernando, o “Infante Santo”, e de Conceição Silva ver nas duas figuras limbadas um “Arauto do Espírito Santo”.
Até que as opiniões se concentraram em São Vicente. O pronunciamento originou em José de Figueiredo, então director do Museu Nacional de Arte Antiga, e levou à tese, dita “vicentina”, ou seja que os santos eram São Vicente. Não havia, dizia José de Figueiredo, outros santos na história de Portugal que pudessem reunir em torno de si figuras de primeiro plano e de populares. O que se explicava, dizia ele, por São Vicente ter sido obreiro da conquista da cidade de Lisboa aos mouros. Este santo era tão venerado que tinha altar próprio na Sé de Lisboa.
Para que houvesse na Sé um altar de São Vicente, era porque este santo gosava da especial devoção da cidade. Os santos que se viam no políptico eram claramente santos que reuniam em torno deles toda a cidade. O políptico era pois com certeza aquele que estivera na Sé, no altar de São Vicente.
O pintor que pintara os quadros que ornavam esse altar fora um homem chamado Nuno Gonçalves. Homem de grande qualidade, de quem Francisco de Holanda no seu “Da Pintura Antiga” (publicado em Lisboa em 1548) escrevera que pintara à maneira dos grandes pintores italianos.
O poliptico encontrado em São Vicente de Fora era forçosamente aquele que estivera na Sé, e era portanto da autoria de Nuno Gonçalves.
Nada disto foi linear. Houve opiniões pró e contra. Havia sempre aquelas vozes discordantes, lembrando que São Vicente não se figurava daquela maneira, houve quem fizesse notar, que Francisco da Holanda escrevera expressamente que Nuno Gonçalves pintara os quadros do altar de São Vicente à moda italiana, e que as tábuas de São Vicente de Fora não eram decerto à maneira da nova escola italiana. . Nada a fazer. A tese “vicentina”, e a consequente tese “Nuno Gonçalves” impuseram-se, mantiveram-se e, por experiência própria, constatei que são acerrimamente defendidas.
Ao revelar o documento da câmara, que provava a existência de santos gémeos da devoção da cidade, eu tocara - de forma perfeitamente inocente, diga-se - na tese vicentina e gonçalvista. A revelação fora acolhida em silêncio, e não fizera grandes estragos. Quem é que ligava ao artigo de uma quase desconhecida? A coisa só incomodou quando publiquei um livro sobre o caso dos Painéis.
Nesse livro eu analisava, um por um, todos os problemas dos Painéis, abordando também, como era natural, e não podia deixar de ser, o problema do eventual pintor. Não apresentava tese, escrevi simplesmente as conclusões às quais chegara, analisando o caso com lógica, e não deixando de ter em conta as opiniões que haviam sido formuladas por outros.
Mas não escondera a existência de São Crispim e São Crispiniano, e com essa revelação, ruíam, para quem quisesse refletir, as teses vicentina e gonçalvista.
Não era a primeira vez que uma investigação posterior, demonstrava que houvera erro na tese precedente. Mas não foi assim que a coisa foi entendida. O museu de Arte Antiga decidiu ir em defesa de Nuno Gonçalves. Organizou uma conferencia, ou colóquio, e deu ao evento o título de “Nuno Gonçalves. Novos Documentos”.
Nunca cheguei a perceber, se a ideia nasceu da própria direcção do museu, e foi ela que tratou da organização do colóquio, ou se a coisa foi sugerida à direcção por um grupo de partidários das teses vicentina e gonçalvista e aceite pela direcção. Fosse como fosse, o colóquio realizou-se e raras vezes se terá assistido a mais triste demonstração de amadorismo em investigação.
Descreverei proximamente esse colóquio, porque julgo importante que se reflicta sobre que bases ainda hoje assenta a investigação oficial do caso dos Painéis.
Por hoje uma ultima reflexão. Ums reflexão sobre se importa verdadeiramente
o facto do pintor dos Painéis ser ou não ser Nuno Gonçalves. Se vem algum mal ao mundo de se manter uma identificação possivelmente errada? O homem é internacionalmente reconhecido, é o maior pintor português, para quê tocar nele? Que interessa isso para o caso dos Painéis? Deixem lá ficar o homem.
Descansem. Não se tocará em Nuno Gonçalves, ele continuará - em companhia dos dois São Vicentes – a ser ensinado em escolas e faculdades.
Àqueles, que têm a incómoda paixão da verdade em matéria de história, a quem a investigação lógica e os seus resultados interessam mais de que uma batota artificialmente mantida, a esses, o engano defendido incomoda evidentemente.
Até porque este engano, como todos os enganos desta sorte, têm as suas consequências. Uma delas afecta a apreciação visual dos Painéis.
Havia na época vários tipos de pintores, (não contando os miniaturistas, que não interessam para o nosso caso). Eram considerados oficiais mecânicos e trabalhavam ou para os reis, os nobres, o alto clero, ou para as cidades. Os primeiros pintavam os retratos dos seus patrões e aquilo que a estes interessava: imagens para as suas capelas, as suas igrejas, os mosteiros de que eram patronos ou devotos. Os pintores das câmaras, esses, ocupavam-se sobretudo em obra decorativa. Pintavam bandeiras, estandartes, flâmulas, e eram encarregados de “enfeitar” a cidade quando a cidade fstejava, ou comemorava, algum grande acontecimento: a entrada de um embaixador, um casamento real. Os pintores deviam ‘ilustrar’ visivelmente o acontecimento. Quando do casamento da infanta D. Leonor com o imperador da Alemanha, o embaixador que já citámos, escreve que se viam pela cidade várias composições artísticas, aluscasamento real. Ele vira entre outras, em determinado largo, a representação da eleição dos imperadores alemães pelos sete “príncipes eleitores”. Tratava-se evidentemente de obra executada pelo pintor da cidade.
Em 1470, quando se presume terem sido pintados os Painéis, havia dois pintores a trabalhar em Lisboa, um era o pintor do rei, chamava-se Nuno Gonçalves, outro, era o pintor da câmara, chamava-se João Enne. O pintor do rei pintara recentemente os quadros do altar de São Vicente na Sé e estava pintando outros para a capela do Paço de Sintra. Pinturas à moda italiana, como se sabe. Decerto muito diferentes do género de pintura que produziria o pintor da cidade, habituado a quadros decorativos de grandes dimensões. É um dos aspectos da questão dos Painéis que nunca foi tido em consideração, devido à fixação em Nuno Gonçalves.
Outra consequência dessa fixação é o que se dá com as tapeçarias de Arzila, ou de Pastrana, como também são conhecidas, segundo a pequena cidade espanhola onde hoje se encontram.
Se aceitamos que foi Nuno Gonçalves quem pintou os Painéis de São Vicente de Fora, isso obriga-nos a esquecer as tapeçarias de Arzila.
Por uma muito simples razão. Aquelas extraordinárias tapeçarias foram sem duvida alguma tecidas segundo desenho e pintura do homem que pintou os Painéis nossos conhecidos. Ora, ainda é minimamente aceitável, que um pintor, gabado por pintar segundo a escola italiana, tenha pintado os Painéis. Mas o que ninguém em seu pleno e perfeito juízo poderá aceitar é que as tapeçarias de Arzila sejam obra de pintor da escola italiana. Se Nuno Gonçalves pintava à moda italiana, não desenhou, pintou e ideou as telas para as tapeçarias de Arzila. E não pode ter pintado os Painéis, porque esses são indubitavelmente do autor das tapeçarias.
E assim. uma obra d’arte originada em Portugal, tratando de tema português, obra tão grande, ou maior, que os Painéis, é praticamente ignorada. Não vá alguém questionar o que não se deve questionar.

*Heinrich Zinkl Der grosae Irrtum

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O homem de encarnado

>> segunda-feira, 12 de outubro de 2009




“Et omnes erant uno coloro escarlato rubeo ornamentatissimi vestiti” escrevia Nikolas Lankmann von Falkenstein.
Eu ia caindo da cadeira quando li a frase.
Falkenstein, o embaixador de Frederico III de Habsburgo, imperador da Alemanha, que em 1453 veio a Portugal buscar a infanta D. Leonor, irmã de D. Afonso V, noiva e futura mulher do Imperador, descreveu no seu diário as festas que houve então em Lisboa em honra do acontecimento. Uma dessas festas foi organizada pela câmara da cidade. A Câmara apareceu em grande e luzido cortejo, e todos os seus homens - assim escreve o embaixador - vestiam uniformemente de uma cor só, de “escarlato rubeo”. De vermelho, portanto. E só de vermelho.
Naquela altura eu não estava particularmente interessada no problema dos Painéis de São Vicente de Fora, mas sabia o bastante sobre o caso para considerar aquela informação de enorme importância. Ela interessaria decerto os peritos que se ocupavam do assunto, e tinha portanto de ser publicada.
É que, com a descrição do embaixador, se podia finalmente identificar, de forma “documental”, a figura de encarnado que se via nos Painéis com aquilo que se pensava poder ser -- e decerto era – a relíquia de Sto António, que a Câmara de Lisboa tinha à sua guarda.
Escrevi portanto um artigo dando conta desse achado. Que aliás já podia ter sido feito, dado o diário do embaixador estar publicado (em latim) na História Genealógica da Casa Real de António Caetano de Sousa, e ter sido traduzido para português e publicado por Luciano Cordeiro.
O meu artigo apareceu no Diário de Notícias em 1983 na sua boa secção cultural, dirigida então por António Valdemar.
A identificação não foi contestada nem na altura, nem mais tarde, nem o podia ser. Mas foi recebida em silêncio. Note-se, que se tratava da identificação indiscutível de uma figura de primeiro plano dos Painéis. Que era a única identificação documentada que até ali se fizera. Foi tacitamente aceite, porque não podia deixar de o ser, mas em silêncio.
Este blogue foi criado para falar de temas literários, e nunca pensei incluir nesses temas o caso dito “dos Painéis”. Só que encontrei recentemente aquilo que penso ser a resposta a mais um dos problemas do caso, e lembrei-me de escrever aqui sobre essa descoberta.
Para logo pensar que, uma divulgação dessa natureza, isolada do seu contexto, não interessaria os leitores. Como a poderiam eles avaliar, aceitar ou rejeitar, se não conhecessem as minhas relações anteriores com o caso? Se não soubessem das pesquisas que realizara, e da sua forma? Das descobertas que gradualmente fora fazendo, das conclusões que delas tirara e do livro que a partir delas escrevera? Para já não falar da reacção que houvera a esse livro?
Acrescia que o caso dos Painéis, tão cheio de problemas de interpretação, sobretudo de ordem histórica, tem hoje, adicionalmente, um problema de ética, de honestidade intelectual. A saber até que ponto, em matéria da história de uma obra de arte, se pode defender a mentira para preservar a revelação de erros cometidos.
Creio que aqueles que habitualmente lêem os meus posts, são pessoas que saberão apreciar a questão nas suas diferentes vertentes. E é nessa convicção que me decidi a incluir no libri. librorum a questão “dos Painéis”.
Após ter publicado o artigo sobre o homem de encarnado, pensei ficar-me por ali. Mas como sou curiosa, achei que devia valer a pena dar uma vista de olhos no arquivo da Câmara de Lisboa. Se um homem da Câmara figurava em lugar de destaque nos Painéis, era possível que, entre a documentação da Câmara, se viesse a encontrar qualquer coisa relacionada com aquela obra. Era um passo lógico. Numa pesquisa documental histórica é assim que se procede.
Não descobri documentos que aludissem directamente aos Painéis, mas encontrei outros que, indirectamente, interessavam ao caso. Eram documentos que se referiam à obrigação que a Câmara tinha de organizar anualmente, no dia 25 de Outubro, uma procissão para comemorar a conquista de Lisboa aos mouros, e dar graças aos Santos que tinham presidido a essa vitória. A procissão ia da Sé ao mosteiro de São Vicente de Fora, e os santos em questão eram dois irmãos gémeos, que se chamavam São Crispim e São Crispiniano. Quando os senhores presidente e vereadores da Câmara pareciam estar em vias de esquecer aquela sua obrigação, os reis tinham o cuidado de lho lembrar. Que Suas Senhorias fizessem o favor de não esquecerem a obrigação de comemorar “tão grandes santos, e a quem a cidade tanto devia”.
Aqui estava outro facto que merecia ser participado, pensei eu, e escrevi o respectivo artigo. A revelação foi acolhida com a gargalhada que os nomes Crispim e Crispiniano provocaram a pelo menos um dos peritos. Como se santos com aqueles ridículos nomes pudessem ser tomados a sério.
Não previra uma recepção entusiástica daquela nova informação. mas pensava que ela interessaria. Afinal estavam ali documentos que diziam que houvera na história da cidade de Lisboa dois santos, que eram gémeos, que tinham sido mártires e diáconos, o que permitia que fossem representados com barrete na cabeça tal como aquelas duas figuras centrais e idênticas que se viam nos Painéis
A verdade é que eu vivera na ilusão que alguém devia querer provas documentais para aquele caso. Perdi essa ilusão. Percebi que nos cérebros dos senhores dos Painéis reinava a certeza que os dois santos eram São Vicente em duplicado. Mesmo quando vozes competentes apontavam que não havia memória de São Vicente ter sido representado com barrete na cabeça, visto ter sido tonsurado, e que a um santo tonsurado nunca se representava de cabeça tapada, mesmo assim, os ditos senhores mantinham soberanamente a sua convicção.
A falta de reacção não me incomodou, e ignorei a troça. Não tencionava continuar o estudo daquele caso, e menos entrar em discussões a seu respeito.
E mais uma vez decidi que por ali me ficaria. E assim o teria feito, se não fosse a minha filha me contar, ao chegar um dia a casa, que fora abordada na rua por uma senhora que lhe perguntara se ela não era minha filha, e tendo ela respondido afirmativamente, a desconhecida dissera-lhe: --Olha, então diz à tua mãe que continue com o caso dos Painéis, porque ela é que está no bom caminho.
Ri, mas o mal estava feito. Meti-me onde não era chamada. E, já que me metia, fiz a ‘metidela’ a fundo.
Já lera alguma coisa sobre a questão, decidi ler tudo. Desde os cinco volumes de Belard da Fonseca ao mais pequeno folheto. Mais tarde iria voltar a eles para argumentar e contra-argumentar, de momento li as teorias, li os factos históricos e artísticos mais ou menos pertinentes apresentados, admirei as imagens elucidativas que os diferentes autores apresentavam, e fiz obedientemente as comparações que me aconselhavam. Fui uma esponja.
Destaquei de tudo aquilo e dois únicos dados que me pareciam de interesse. Dois factos. Dagoberto Markl, lembrou, que no tumulo do Infante D. Henrique se via uma figura jacente, cujas feições não eram as do homem de chapéu preto dos Painéis, que se presumia representar o Infante. Dagoberto Markl não tirou dali as devidas consequências, mas tinha dado uma utilíssima contribuição para o caso.
O segundo facto pertinente era revelado por João Paulo Abreu Lima, a saber, que na época em questão, tinham trabalhado em Lisboa dois pintores, um, Nuno Gonçalves, português, outro, João Ennes, flamengo ou português de ascendência flamenga.
De resto pude concluir que havia três dados que eram considerados indisputáveis. Eram eles:
a) os dois santos eram São Vicente em duplicado
b) o homem de grande chapéu preto retratado nos Painéis era o infante D. Henrique
c) o autor da pintura fora o pintor português Nuno Gonçalves.

Nestas três verdades absolutas não se podia tocar. Assim sendo, de momento que eu me ia ocupar do caso, aquelas três ‘verdades’ tinham de ser examinadas e a sua consistência, conforme o caso, tida ou não. em consideração. Após a leitura dos livros, era este o passo que se impunha. Que eu me impus.
--Porque é que pensa conseguir desenvencilhar o que os outros não conseguiram? perguntou-me um dos meus irmãos, a quem falei na decisão que tomara.
–Porque eu não vou adivinhar, vou investigar, respondi.
Podia ter acrescentado que eu tinha o que nenhum dos outros tivera. Eu tinha um ponto de partida. Eu tinha o homem de encarnado.

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ou Escritor de história?

>> segunda-feira, 5 de outubro de 2009




Devido a um problema de vista, é provável que tenha muito em breve de fechar este blogue. Com muita pena, aliás. Enquanto não o faço. vou encurtar os artigos, o que de resto já me fora aconselhado. Como até agora não escrevi sobre temas de história lembrei-me de o fazer nos próximos spots, e tocar, ao de leve como o assunto requer, no delicado problema da interpretação dos Painéis de São Vicente de Fora.
Mas antes de mais acho que devo definir o que sou em relação à escrita de história.
Há em Portugal um extraordinário número de “historiadores”. Praticamente todos os jornais apresentam artigos assinados por articulistas que se definem por “(historiador)”. Mas quando se procuram pelas suas obras, elas não se encontram, ou, quando existem, não são em geral aquilo que eu considero obra de “historiador”.
Consultei uma sobrinha que está a tirar o curso de história e fiquei a saber que ela, quando terminar o seu curso, está formada em história, e é portanto “historiadora”.
Ora se a minha sobrinha será historiadora sem ter escrito uma obra de História, o que são então aqueles senhores meus conhecidos pelas grandes obras de historiografia que deixaram? O que eram então na Alemanha Mommson, Ranke, em França Taine, Michelet, Herculano, em Portugal? Lembrei-me que em alemão se designam a estes autores por “Geschichtsschreiber”, ou seja, por “escritor de história”. A coisa assim era mais clara.
Tendo o historiador, o formado em história, escrito uma ou mais obras sobre problemas de história, então, além de ser formado em história e a poder ensinar, era um “escritor de história”.
Historiadores formados em história são uma espécie recente. A ciência e o seu ensino datam de meados do século XIX. Até ali os documentos originais nem eram consultados. Quando se constatou que, sem a sua leitura, não havia compreensão de “história”, percebeu-se que havia que ler os documentos Ainda não havia cadeiras de paleografia, e os primeiros escritores de história tiveram de se ensinar a si próprios a paleografia e a correcta interpretação dos documentos originais. Foram autodidactas em matéria de história.
Voltando ao meu caso. Não sendo formada em história, não sou historiadora. Mas, tendo-me ensinado a mim própria, escrevi obras de história Talvez possa dizer que sou uma escritora de historia à moda do século XIX.
O escritor de história que se auto-ensina corre determinados riscos. Já não falando no despreso a que é otado pelos “historiadores”, o que é natural e de esperar. Os riscos importantes ocorrem na sua forma, por ventura pouco profissional, de encarar a escrita da história.
Não sei se nas faculdades ensinam o futuro historiador a evitar, por exemplo, o “antiquarismo”. O escritor não formado pode facilmente cair nele.
No seu livro “The Practice of History “ o professor G.R.Elton escreve que o antiquarismo se distingue pela devoção ao detalhe, pelo o amor a este. O antiquarista quer saber, mas não quer perceber. Pouco o preocupa o que está aprendendo com aquilo que acabou de saber”.
O antiquarismo tem por vezes a sua utilidade, escreve Elton, mas em geral prejudica a escrita da história. “É uma doença que afecta mesmo os historiadores formados e pode atacar com maior virulência ao não profissional.”
Eu ignorava que a expressão existia quando pela primeira vez escrevi história. Creio que consegui escapar à doença pela avassaladora quantidade de dados curiosos que se me foram revelando quando comecei a organizar o antigo arquivo da minha família materna. Eram curiosidades a mais para serem realçadas. Quando comecei a escrever historia tinha aprendido sem mestre a evitar o antiquarismo.
Daquela leitura de documentos e nos cinco anos que levei a escrever o meu primeiro livro, a biografia de um homem da Restauração, fui aprendendo muto mais. Foram cinco anos de aprendizagem. Aprendi a medir o relativo valor dos documentos para a obra em questão. A não me entusiasmar por um dado descoberto sem ter medido o seu verdadeiro alcance. Aprendi a medir as evidências antes de me precipitar em conclusões. Constatei a dificuldade da isenção na avaliação dos feitos e dos homens, e logo jurei a mim mesma que nunca me empenharia em escrita de história na qual a isenção não me fosse possível.
Daquela primeira obra passei a outra, esta sobre a vida nos mosteiros femininos portugueses na Idade Média (livro que ainda está por publicar) e que me levou à leitura de inúmeros outros documentos. Ia-me tornando um pouco especialista na matéria. E foi assim, fazendo a pedido, uma pesquisa documental, que esbarrei com um dado que me fez penetrar ali onde jurara nunca entrar, na zelosa e superiormente protegida questão de umas tábuas pintadas que um dia haviam sido encontradas nas arrecadações do mosteiro de São Vicente de Fora. O que se seguiu fica para depois. Se a vista o permitir.

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Livros que foram de Afonso de Torres. Porquê Tácito?

>> segunda-feira, 28 de setembro de 2009





Volto de novo ao inventário dos livros que foram de Afonso de Torres, porque dei um pequeno passo em frente que julgo poder interessar. .
Trata-se, como escrevi num post anterior, de decifrar o inventário dos livros deixados pelo dito Afonso de Torres. e por eles avaliar que tipo de obras literárias eram lidas por um português culto na primeira metade do século XVII. Para o que era preciso conseguir ler o inventário dos livros que o homem deixara. Só que, como então escrevi, se estava praticamente face a uma adivinha, ou antes uma série de adivinhas, já que o avaliador dos livros não se dava ao trabalho de especificar correctamente a obra, e menos em soletrar algum título mais difícil. Dizia um nome, ou um título, que para ele definiam perfeitamente de que obra se tratava, e indicava o valor em que a avaliava. O valor é que interessava. O escrivão, que anotava as palavras do avaliador e nada devia saber de livros, escrevia o que lhe parecia ter ouvido.
Durante anos não tive paciência para me meter a resolver aquelas adivinhas. Ultimamente decidi pegar no inventário, pareceu-me que o trabalho de o decifrar e depois interpretar podia interessar e merecia ser feito.
Alguns livros já foram identificados, uns por mim, outros por Paulo Achmann, amigo bibliófilo, a quem pedi ajuda e outro por Gonçalo da Cunha, que entrou no jogo.
Para dar um exemplo desta colaboração mostro aqui como se identificou o primeiro livro do inventário.
“Viagem Dermundo de sevalhos”. lê-se nele.
Eu procurei por: ‘viagens em torno do mundo (dermundo)’, e cheguei a bom porto. O livro é: “Historia y viage del mundo del clerigo agradecido don Pedro Ordoñes de Zevallos … a las cinco partes de Europa, Asia, Africa, America y Magalanice. Contem 3 libros” Vasconso, José ed. Juan Garcia imp. Madrid 1614
Paulo Achmann foi por: ‘sevalhos’.
--Chegar lá, escreve ele, --não foi tão fácil como parece, porque sem o "Ordóñez" recusava-se a aparecer. Mas acabou por aparecer.
Outra adivinha era esta:
“Primeira parte del par nosso de ouvidio”
Paulo Achmann declarou-se derrotado: --Primeira parte del pai nosso de Ouvidio? Que diabo (releve-me a incontrolável linguagem blasfema) é que o Ovídio tem a ver com o Pai Nosso ?
A solução veio no comentário de Gonçalo da Cunha. “Primeira parte del pai nosso de Ouvidio” era, escreveu ele, “Primera Parte del Parnaso Antartico de Obras Amatorias con las 21 Epistolas de Ovidio, Sevilla 1608.
E que dizer da obra denominada “A contersia de Justiça Luso”?
Dessa identificação glorifico-me eu. Gonçalo da Cunha perguntou-me a dada altura se eu já descobrira o que era esse ‘A contersia de Justiça Luso’.
A minha primeira resposta foi que ainda não o conseguira, mas a pergunta acordou-me, voltei à adivinha e pude responder ao Gonçalo.
“Justiça Lusa” era provavelmente o nome do autor do livro e não o seu título. Os meus conhecimentos de alemão levavam-me a pensar que o “Justiça” podia ser o nome Justus, nome então bastante usado na Alemanha.
Consultei uma lista dos livros que pertenceram a um grande bibliófilo espanhol contemporâneo de Afonso de Torres. Encontrei “Justus Lipsius filólogo e humanista... fue el autor de una serie de obras que pretendían recuperar la antigua corriente filosófica conocida como estoicismo en una forma que fuera compatible con el cristianismo…….La más importante de dichas obras fue De Constantia.” Que deu a “contersia” do escrivão.
E passo ao título deste spot: Porquê Tácito?.
Afonso de Torres tem várias obras de Cornelius Tácito. Os meus dias não costumam estar ocupados com Tácito, mas dá-se o caso de ultimamente ter lido mais de uma vez o seu nome. E a razão é esta:
Há dois mil anos, no dia 9 de Setembro do ano 9 depois de Cristo, deu-se no norte da Germânia, na floresta de Teutoburg, uma batalha em que Roma perdeu três das suas legiões, As forças romanas eram comandadas por Quintilius Varus, as germânicas por Arminius, chefe de Cheruscos.
“Suetonius escreve que o imperador Augusto deixara crescer cabelo e barba em sinal de luto e que, quando recordava o desastre, exclamava ‘Varus, Varus dá-me as minhas legiões’.”*
,Ainda hoje se discute a exacta localização e o decorrer de uma batalha que foi decisiva para a história da Europa, e o tema apaixona arqueólogos e historiadores.
A batalha, que estava praticamente esquecida, veio de novo à memoria europeia em meados do século XV quando se descobriu no mosteiro de Hersfeld na Alemanha um pequeno manuscrito intitulado “De origine et situ germanorum”. O autor latino era Publius Cornelius Tacitus e falava dessa batalha.
Ignora-se como sucedeu, mas em 1455 o manuscrito foi parar a Itália e em 1470 era impresso em Veneza. Em 1473 era impresso na Alemanha.
Eu acabara de ler três obras, duas alemãs e uma de um autor americano sobre essa batalha e em todos eles se cita Tácito. Não é pois de estranhar que, imersa como estava no assunto e em Tácito, eu tivesse, ao pegar de novo no inventário, identificado o “Cornelius Tácito” de Afonso de Torres, com àquele livro de Tácito que eu conhecia, ou seja com o “De origen... Germanorum”.
Estranhei contudo que houvesse outros livros de Tácito. Um deles intitulado “Cornelius Tácitus Aforismos”, outro intitulado “Cornelio Tácito Espanhol 600 rs”.
O que tinham aqueles títulos a ver com o “De origen-----Germanorum”? E porquê tanto interesse espanhol por Tácito? Foi procurando esclarecer esta duvida, que pela primeira vez soube da existência de uma corrente de ideias designada por ºtacitismoº, e que um dos seus principais expoentes fora Baltasar Álamos de Barrientos (1555 – 1640) com o seu “Tácito Español illustrado con aforismos” (Madrid, 1614).
Não era ºpois do ‘De origen .... Germanorumº, e não era da batalha de Teutoburgo que se tratava nas obras que se encontravam na biblioteca de Adonso de Torres. Tácito fora autor de outras obras, e era dessas suas obras que os tratadistas espanhóis se estavam servindo nas suas argumentações, e eram os livros deles que Afonso de Torres tinha.
Na Net, e não, como esperava, na minha ‘Historia de la Literatura Española’, encontrei um artigo que me esclareceu. É da autoria de Elena Cantarino e intitula-se “Tratadistas politico-morales de los siglos XVI e XVII”
“A moralidade ou imoralidade dos meios usados pelos governantes para conseguir os seus fins políticos era assunto que ocupou o pensamento politico na Europa”, escreve Elena Cantarino .
O tema nascera com Maquiavel e, ao discorrer sobre a ética na politica, na “Razão de Estado”, as opiniões devidiam-se. Havia várias escolas de pensamento: a escola eticista, a idealista e a realista.
Os primeiros, anti-maquievelistas, repudiavam “a irreligiosidade e o amoralismo na política, que julgavam ver na doutrina de Maquiavel”.
Outros não atacavam a tese de Maquiavel, mas “criticavam, mais ou menos veladamente, as consequências negativas da sua doutrina…”
É com esta corrente que se introduz a Tácito, e que “se assumem indirectamente propostas que têm sido consideradas por alguns como maquiavelistas e por eles designados por ‘maquiavelismo encoberto’ ou ‘camuflado’. Os autores que defendiam essa corrente eram tratados de realistas ou de ‘tacitistas’.”
E mais adiante:
“Tácito era a figura que a maioria dos ‘realistas’ tomaram como modelo, como fonte de inspiração e de admiração. Descoberto no Renascimento (as suas obras foram impressas em 1458) foi no entanto a edição de Justo Lipsio (1574) que permitiu que o autor clássico se convertesse no grande mestre da razão de Estado. Sem duvida que o seu estilo aforístico e a sua forma de ‘enfocar” a política com imoralidade fizeram com que a sua obra reunisse as condições essenciais para agradar ao gosto do barroco. “
Entre os autores da primeira escola, a idealista, Elena Cantarino cita Juan de Mariano e Francisco de Quevedo, dos quais há livros no inventário de Afonso de Torres. Mas é de autores da terceira escola, a realista, que ká identificámos mais obras. Entre elas as de autores como Justus Lipsius, do citado Baltasar Álamos de Barrientos com o seu “Tácito Español illustrado con aforismos…”, e, “altough last, nor least”, das obras do próprio Tácito.
Afonso de Torres estava natiralmente interessado na magna questão da “Razão de Estado” e da sua ºetica, e, considerando os seus livros já identificados, parece ter sido adepto da escola “realista” ou “tacitista”.

*Peter S. Wells The battke that stopped Rome. Emperor Ausgustus, Arminius and the slaughter of the legions in theTeutogurger Wald.

Observações à margem
Há ainda muitas obras por identificar. Agradeço qualquer sugestão quanto a:
“Tragicomédia dos apóstolos”
“Filosofia de meya”
“Os quatro novíssimos de Rolim”

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Sobre este blogue

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