Os signos e os símbolos

>> segunda-feira, 16 de novembro de 2009




Quase todos os objectos que se vêem nos Painéis, têm sido considerados como tendo um sentido simbólico, a dúvida sendo qual fosse esse sentido. Belard da Fonseca era da opinião que toda a obra era marcada de “forte carga de simbolismo”. Eu penso que a carga simbólica era tão forte porque se atribuía sentido simbólico a tudo que não se sabia explicar, que se achava um pouco estranho. Via-se símbolismo até no colar de um cavaleiro, na fivela pendente do cinto de outro, e até nas cores de um saio. Em minha opinião nada daquilo era simbólico, assim como não o era o caixão no painel da câmara e o madeiro no painel dos monges.
O livro na mão de um homem, a caixa de madeira junto de outro, eram sinais ou da ocupação, ou do cargo daquele homem. Eram ilustrações, não eram símbolos. Não era um símbolo misterioso a cruz encarnada, quase invisível, no barrete do homem de barba negra. Era um sinal da sua ‘profissão’ de frade trinitário.
Os contemporâneos que contemplassem a pintura. não viam com certeza símbolos naquelas coisas. Sabiam muito bem que o caixão ao lado do homem vestido de burel no painel da câmara era a marca do seu triste cargo como coveiro dos defuntos pobres. Toda a gente sabia que os frades trinitários - que o em de barba negra era - usavam obrigatoriamente uma cruz nas suas vestes, mesmo quando eles, nas suas missões de resgate em terras inimigas, vestiam como os habitantes dos países que visitavam E ninguém ignorava que o madeiro ao lace de frei Pedro Nuno, que todos conheciam como pregador mor dos cativos, e grande valido de el-rei D. Afonso V, era a caixa de madeira em forma de tronco, era uma caixa de esmolas, onde os fiéis deitavam as moedas com as quais contribuíam para o resgate dos cativos pobres..
Dos cinco livros que se vêem nos Painéis, e nos quais também se tem querido ver sentido simbólico, dois são os livros dos santos, e os outros caracterizam os homens que os têm na mão como pessoa ligada a livros. Um deles, no topo do painel dos cavaleiros, é muito provavelmente o cronista Ruy de Pina. O livro na mão de um dos religiosos no painel dos monges também significava decerto que se tratava de alguém ligado a livros, talvez como cronista religioso. No caso do livro apresentado pelo homem de preto no painel da Câmara, aí o que obviamente conta não é o homem, é o livro. No meu primeiro livro sugeri que este livro pudesse ser uma obra impressa, a grande novidade em matéria de livros. Sabe-se que D. Afonso V adquiriu “livros de forma”, e não seria improvável que o quisesse mostrar ali. Uma sugestão, nada mais.
Os observadores contemporâneos da pintura também não achariam nada de estranho e de simbólico nos invólucros de pano preto dos livros dos santos. Era sabido que livros de prece, como aqueles sem duvida eram, se protegiam com capas de pano.*
O que talvez espantasse os observadores, era o santo com o livro debaixo do braço. Sempre me divertiu aquele sem-cerimónia em figura de devoção. Parece-me que estou a ouvir o jovem figurante, perguntando ao pintor, onde punha o livro se tinha que segurar a vara doirada e ainda apontar para o rei, e o pintor respondendo, --põe o livro debaixo do braço.
Verdadeira e indiscutivelmente simbólico naquele conjunto é o molho de cordas aos pés do santo no painel do Arcebispo. Esse molho de cordas. sim, é elemento simbólico. E da maior importância para definir o sentido daquela composição.
Todos os investigadores viram o molho de cordas como elemento fundamental e todos puxaram a brasa à sua sardinha, servindo-se daquelas cordas em apoio das suas respectivas teses. E praticamente todos viam nas cordas um símbolo de prisão do seu herói. Ignorando que era outro o símbolo de prisão. Para xxxx Saraiva aquelas cordas eram as cordas da prisão do infante D. Fernando, para Belard da Fonseca eram as cordas da prisão do infante D. Jaime, e para os vicentistas eram as cordas da prisão de São Vicente.
A todas as sugestões que se fizeram acerca do molho de cordas examinei com atenção, assim como o fizera com as outras atribuições de simbolismo. Agora, que julgo ter encontrado a solução, espanta-me o tempo que dediquei a examinar propostas que sabia serem impossíveis. Tratei a todas com a mesma atenção e respeito como se acreditasse nelas. Não fui correspondida da mesma maneira.
De todas as sugestões feitas acerca daquele molho de cordas, só uma me pareceu ter consistência. Foi a de Afonso de Dornelas, que via no molho de cordas um símbolo de desejo de união. Era uma ideia que tinha lógica, mas não me parecia explicação suficiente.
Não me lembro quando pela primeira vez pensei que aquilo podia ser um rebos. O que sei, é que logo que a ideia me veio, tive a certeza que era disso que se tratava. De um rebos ou talvez de uma empresa. Optei pelo rebos.
Um rebos é, como se sabe, uma adivinha, um jogo que consiste em exprimir uma ideia, um provérbio, por meio de letras, números, objectos desenhados, que, quando pronunciados, produzam o som das palavras ou do provérbio que está por adivinhar. Sendo assim, o que vemos é um molho de cordas ~ que significa união, força - com nós. Solução: A CORDA NOS UNIÃO
Pouco tempo depois da publicação do livro em que eu dava essa solução recebi uma carta do Porto de Helena Correia de Barros. Dizia-me que no Brasil se venerava muito a SS Crispim e Cruspiniano como protectores da união e que eram numerosas as orações que lhes eram dedicadas, pedindo a sua intercessão para esse efeito. Uma das orações era a seguinte:
“Confiante em vosso mérito suplico-vos São Crispim e São Crispiniano união, concórdia e confiança. Possamos nós viver unidos como vós sois unidos, concordes um com outro, confiantes como vós confiais”
E mais adiante “Tudo que for amarrado seja desamarrado, o que estiver cosido fique descosido, o que estiver ligado a meu favor, fique ligado, o que estiver ligado contra mim, fique desligado, pelo vosso poder, São Crispim e São Crispiniano, pelos vossos méritos, pela graça que Nosso Senhor vos deu..”
Penso que a oração confirma a solução que propuz para o problema do molho de cordas. E a oração também contibui para ezplicar os nós ou atilhos que se vêem no painel do arcebispo nos ombros do rei e no do homem de joelhos. No rei, o atilho é em fio de ouro, no cavaleiro em fino cordão preto. São emblemas que exprimem o mesmo espírito que o molho de cordas, e que se podem ler como a este.
Sempre considerei esses atilhos como sinais de participação em determinada função, que, neste caso. com a presença do arcebispo só pode ser religiosa, e que – tudo considerado – só podia ser a procissão de SS Crispim e Crispiniano. Os antos aos quais se pedia união e força.
O homem de joelhos, à esquerda nesse peinel, seria então muito provavelmente o mordomo** da procissão, que naquela ocasião cedia a sua posição ao rei. A vara que o santo apresenta ao rei, sempre considerada como vara de comando, significaria a vara de ‘comando da procissão. A vara era a vara de mordomo daquela procissão.

*A protecção de livros de missa com capas de pano foi hábito que se conservou e ainda persistia em meados do século XX
** Não sei se é exactamente essa a designação, nas aldeias é aquele que ainda hoje se usa. Eu pusera inicialmente a hipótese de o homem ser o condede Odemira. Com algumas duvidas, aliás. Gonçalo da Cunha disse no seu comentário que duvidava dessa minha identificação. Gostava de saber a sua opinião acerca desta.

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Painéis. Figuras Centrais

>> segunda-feira, 9 de novembro de 2009




Quando um acaso me empurrou para dentro da questão dos Painéis, o que verdadeiramente me interessava era a possibilidade da identificação das figuras.
Impossível ficar indiferente perante aquele espantoso retrato de sessenta pessoas, obviamente contemporâneas umas das outras, e obviamente retratados em vida. Que não me viessem com fantasias do infantes D,Pedro, morto em 1449, ali retratado no meio de pessoas vestidas à moda de 1470. E que não me falassem também dessa outra fantasia de piedosa saudade, querendo encaixar ali por força o infante D. Fernando, por ter sido muito bom e ter morrido em cativeiro. As mulheres são realistas, olhei para o retrato com realismo, deixando os saudosismos históricos aos meus predecessores. Também lhes deixava com gosto as suas teorias pré-concebidas, que se achavam na obrigação de defender. Não tinha teoria que pretendesse defender.
O que eu queria era poder dizer: o homem ou a mulher que está ali foi em vida este ou aquela. O que evidentemente só poderia dizer se tivesse chegado a essa conclusão pelo raciocínio lógico, tendo em conta as realidades históricas. Uma conclusão que me satisfizesse, que me permitisse dizer que aquele homem ou aquela mulher eram este ou esta, porque não podiam deixar de ser, porque tudo provava que o eram. Queria-o para mim, para minha própria satisfação. Na altura não pensava em livro sobre a matéria.
A presença de um homem da câmara de Lisboa e a veneração aos santos protectores de Lisboa, marcavam a obra como portuguesa e, em particular, lisboeta, O homem da câmara era importante, mas não era a figura mais importante daquele conjunto. A primeira pessoa era sem duvida o homem de joelho em terra olhando o santo, no painel do Bispo. Bispo, que só podia ser o arcebispo de Lisboa, Naquela posição, estando presente o arcebispo de Lisboa e um vereador da câmara da cidade, aquele homem só podia ser o rei. Ainda admiti contudo a possibilidade de se tratara de outra pessoa de grande posição. Talvez que se tratasse de um dos Grande do reino, que fosse um deles o mandatário daquela obra, e que ali se tivesse retratado com a família. Desisti de imediato da ideia. O homem de joelho em terra, olhando para o santo, era D. Afonso V, o rapaz a seu lado era seu filho e herdeiro, o príncipe D. João. o futuro D. João II. Pelas modas estava-se nos anos de 1469/70
Dei muitas voltas à questão. Não tinha duvida de que quem estava ali no primeiro lugar era o rei, era D. Afonso V, mas queria uma prova concreta. É que, de aquele homem ser ou não ser o rei, dependia a continuação das deduções. Acordei um dia a meio da noite em sobressalto. E se o homem tinha espada como os outros cavaleiros? Nesse caso não era o rei, porque a espada do rei era o condestável quem a levava. Levantei-me, fui verificar. Que alivio! O homem não tinha espada. Em sua frente estava o condestável, segurando com as duas mãos a espada do rei.
Belard da Fonseca escrevera que enquanto não se encontrasse a figura central não se podiam identificar correctamente as outras. Assim é. Só tendo a certeza de quem era a figura central, se podia proceder com outras identificações. Essa figura central estava encontrada, já se podiam fazer identificações.
D. Afonso teria forçosamente a seu lado a sua família mais chegada. Fiz uma lista dos membros da família real, tal como se compunha por volta de 1469, 70. O rei, seus filhos D. Joana e D. João, seu irmão D. Fernando, duque de Viseu, e o Filho mais velho deste, o pequeno D. João, a prima e cunhada do rei, D. Filipa, irmã de sua mulher. E, naturalmente, os primos do rei. O duque de Bragança e seus quatro filhos, D. Fernando, então conde e futuro duque de Guimarães, D. João, marquês de Montemor, D.Afonso, conde de Faro, e o mais novo, D. Álvaro.
Assim como a maioria dos painelistas, quer voluntariamente, por isso ser conveniente à sua teoria, quer por autêntica ignorância, não tomaram em conta os preceitos do culto religioso, assim desprezaram soberanamente os preceitos pelos quais se regia a sociedade medieval. Mas as regras hierárquicas e de precedência que então vigoravam têm de ser consideradas quando se aprecia uma obra medieval. Os Painéis são bem um produto dessa época mesmo que do seu fim, e quando eles se estudam há que ter em conta a mentalidade das pessoas que neles figuram. Aquelas pessoas, e não só as mais importantes, não foram colocadas nas posições que ocupam arbitrariamente ou obedecendo a opções de ordem estética. O seu estado e a sua posição dentro do seu estado determinavam a sua colocação. Determinavam como se sentavam em Cortes, determinavam quem seguia ou precedia quem em reunião familiar publico, como um baptizado, um casamento, E determinavam, naturalmente, a sua posição quando figuravam numa pintura de natureza ‘oficial’ como é o caso do politico.
Em matéria de ordem de precedência, os painelistas, ou ignoravam esse aspecto da questão, ou afirmavam tê-lo em conta, mas arquitectavam teorias fantasiosas sobre aquilo que julgavam saber.
A obrigatória presença do infante D. Henrique não facilitava as coisas. O Infante tinha de estar ali, e mesmo quando já toda a gente se convencera, que ele de facto não ali estava, mesmo então se continuou a deduzir como se ele lá estivesse. Assim, a maioria dos painelistas admitia que D. Afonso V tinha de ser uma das primeiras, se não a primeira figura do políptico, mas não agiam nesse sentido. Cegos com a figura do Infante, faziam deste a figura fulcral, sendo a partir dele que faziam as suas deduções. É evidente que estas só podiam ser erradas. Pasma-se perante afirmações de ordem histórica que visivelmente não foram aprofundadas. Assim, por exemplo, fazia-se passar o infante D. Henrique à frente do duque de Viseu, irmão de D. Afonso V. O que era errado. Como irmão do rei, o duque de Viseu passava à frente do infante D. Henrique.*
Outro erro, e um dos mais crassos, era o de querer ver a D.Isabel, duquesa de Borgonha, na senhora de traje semi religioso no painel dito do Infante. D. Isabel era uma fanática do correcto cumprimento de tudo que dizia respeito a cerimonial e ordem de precedência, e nunca aceitaria figurar numa pintura em posição secundária. A não ser que esta posição, por questões de precedência, fosse de facto a que lhe cabia. Um pequeno livro sobre os costumes da corte de Borgonha, escrito pela filha de uma dama portuguesa da duquesa, é elucidativo e peremptório a esse respeito.
Eu não lera ainda esse livro quando encarei a questão do posicionamento das figuras principais do politico, e ainda não encontrara o documento no qual D. Afonso V estipula a ordenação dos grandes do reino***, mas sabia que a colocação das figuras dos Painéis obedecera forçosamente a regras de hierarquia.
Não sei se o facto de haver dois santos facilitou, se complicou a vida a quem se encarregou de indicar ao pintor a ordem das colocações. Creio que a facilitaria. Poderem-se dar as posições adequadas a todos os figurantes sem ferir as susceptilidades daqueles senhores. O rei e seu filho no painel do Bispo, e frente a eles o irmão do rei, o duque de Viseu. Nas costas do Príncipe, o conde de Faro, terceiro filho do duque de Bragança. Frente ao rei, à esquerda do santo, o segundo filho do duque, D. João, marquês de Montemor, que exercia o cargo de condestável em caso de impedimento de seu irmão mais velho. O que ali sucedia, tendo o filho primogénito do duque de Bragança de ocupa com o pai a primeira posição no outro painel. De joelho em terra, olha o livro que outro santo lhe mostra, e onde se lê muito claramente “O Pai é maior do que eu...eu faço o que o pai me ordena”. O pai, o duque de Bragança, preferiu decerto não estar de joelho em terra, cedendo a honra ao filho. Não sem que isso fosse devidamente notado.
Nesse painel estão as duas senhoras da família, a princesa D. Joana, filha de D. Afonso V e sua prima e cunhada, a senhora D. Filipa, filha do infante D, Pedro.
Foram conclusões a que cheguei, tendo feito a análise individual de cada um dos casos. Justifiquei-os demoradamente no livro que depois publiquei, e ainda ninguém me provou que tivesse errado. Foi a partir da identificação daquelas figuras centrais que tentei identificar algumas das outras. Umas creio que são certas e até indiscutíveis, outras mais duvidosas.
Dentro do grupo da Camila real parece-me certa a identificação do homem de capacete como conde de Monsanto. E o Bispo é sem duvida o arcebispo D. Jorge de Costa. Ainda me parecem certas e correctamente justificadas as identificação de alguns dos homens do governo. O Dr. Ruy Gomes de Alvarenga, chanceler mor, os irmãos Afonso e Gonçalo Vaz de Catello Branco e outros
Considero indiscutível a identficação do homem de barba negra no painel dos frades como frade trinitário. A esse até o nome se consegue dar: frei Pedro Nuno, de sobrenome ‘de Córdova’, conhecido por Pregador mor dos cativos. Correcta também a identificação dos dois frades em baixo no mesmo painel como o abade mor de Alcobaça e o esmoler mor do reino. Justifiquei sempre as identificações que fiz, comparando-as naturalmente com as de outros autores.
Seria ir longe demais insistir nesse aspecto. Não estou a escrever terceiro livro sobre os Painéis. Quis só preparar o terreno para poder ser entendido quando escrevesse sobre um dado que recentemente encontrei e me parece curioso e significativo. Primeiro ainda tenho vontade de contar como interpretei o enigma da corda que se vê aos pés do santo no painel do rei. Foi mais adivinha que pesquisa, mas divertida e que me trouxe uma grande alegria: uma carta com uma informação, que provava que a solução que eu propusera estava certa. Uma muito agradável sensação.

* O infante D, Henrique jurava em Cortes depois de D. Fernando, e, em 1455 jura fidelidade ao recém nascido príncipe D. João, herdeiro do trono, nas mãos do irmão do rei. Em toda e qualquer cerimónia a ordem de precedência era essa: rei, príncipe herdeiro, irmão do rei, tio do rei.
**datado de 1473, quando das Cortes de Coimbra, no qual D. Afonso V delibera “acerca dos estados, assentamentos e precedimentos dos Duques e senhores Condes e pessoas dos seus Regnos” em História Genealógica da Casa Real de António Caetano de Sousa. Tomo V, livro VI de Provas.

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2º coloquio. A miniatura

>> segunda-feira, 2 de novembro de 2009





Pouco tempo depois do primeiro, o Museu de Arte Antiga organizou um segundo colóquio sobre o tema dos Painéis. Desta vez tratava-se de apresentar a descoberta feita pelo doutor Jorge Almeida da assinatura de Nuno Gonçalves.
O doutor Jorge Almeida surgira para o problema dos Painéis com a publicação do meu primeiro livro. Tendo conseguido obter o meu número de telefone, falou-me, convidando-me a almoçar com ele - em restaurante à minha escolha – para ele me expor o que era a opinião dele sobre os diferentes problemas. Agradeci o convite, mas não o conhecia, e quanto aos Painéis, escrevera o que tinha a dizer, e dava o assunto por terminado. Com notável persistência, o doutor Jorge insistiu com sucessivos telefonemas, desafios para debates públicos etc e um dia tentou entrar em minha casa, e tive de lhe fechar a porta na cara.
O que não conseguiu comigo, conseguiu com os média. Apareceram artigos ditados por ele, fomos informados de que o Dr. Jorge resolvera os problemas dos Painéis e até de que havia uma declaração subscrita por nomes importantes do nosso meio intelectual, como Augustina Bessa Luís, António Lobo Antunes, João Lobo Antunes, Marcelo Rebelo de Sousa, e outros, em que se lia que o Dr. Jorge tinha toda a razão e dizia muito bem. O Museu de Arte Antiga encantou-se com o Dr. Jorge, tinha um novo paladino da tese vicentina e gonçalvista. E um dia soube-se, que o museu organizava novo colóquio. Desta vez para que o Dr. Jorge Almeida pudesse fazer uma importante revelação: a descoberta da letra N de Nuno Gonçalves no sapato do rapazinho, no painel dito ‘do Infante’.
Obtinha-se essa visão virando a respectiva tábua de eerta maneira, creio que de pernas para o ar. Confesso que me deliciava a visão de director e conservadores do Museu de Arte Antiga, de cócoras, ou empoleirados em escadote, constatando sob a batuta do Dr. Jorge, a presença do N de Nuno Gonçalves no pé do rapazinho.
É sabido, que houve artistas medievais, que caprichavam na colocação de inscrições alusivas nos seus quadros. Mas não há memória de que a inscrição, uma vez encontrada, não seja legível olhando a pintura de frente. Ter de a virar de lado ou de pernas para o ar para descobrir o N de um pintor pareceu-me surrealista.
Sendo pouco provável que o museu permitisse, que me virassem a tábua em questão da forma adequada, contentei-me com o fazer em casa com a fotografia do sapato, e constatei aquilo que no Museu se devia ter visto antes de se adiantarem em colóquios.
Desta vez, talvez por se tratar de tão triunfal colóquio, eu fora convidada a assistir, e o director do Museu perguntou-me se eu queria dizer alguma coisa. Respondi que sim, o que ele, jovialmente comentou com estas palavras: “Desta vez, como vê, deixo-a falar” Agradeci e quando me chamaram, disse rapidamente o que tinha sido a minha investigação dos problemas dos Painéis e que, quanto ao tema do dia, estudara-o com muita atenção e tinha dizer o seguinte: a letra N compunha-se, como era sabido, de dois traços paralelos, ligadas por um traço diagonal vindo do topo da coluna da esquerda para o sopé da coluna da direita. O signo, que, segundo o Dr. Jorge Almeida, se conseguia ver no sapato do rapazinho, e que segundo ele, seria o N de Nuno Gonçalves, não era o N que nós conhecíamos, já que se compunja de dois traços, ligados por uma diagonal que ia do sopé da coluna da esquerda para o topo da coluna de direita. Era letra ou signo que não existia no alfabeto.
Não me lembro de ter recebido resposta, a sessão continuou com o programa agendado, uma comunicação que incluía a transmissão de fotografias agrandecidas dos Painéis. E como tudo aquilo era extraordinário, deu-se então o seguinte episódio. Na escuridão, agachando-se para não encobrir o ecrã, aproximou-se de mim uma figura da qual não consegui distinguir as feições. Vinha dos bancos do museu, e entregou-me um bilhete. Quando se fez luz, li o bilhete. Era acusada de ter plagiado uma determinada autora. Li alto o bilhete, acrescentando o que tinha a dizer sobre a acusação, e ainda que o bilhete, não assinada, viera dos bancos do Museu. Nessa altura levantou-se um rapaz, pediu a palavra, e declarou querer participar um curioso facto sucedido com ele. Ele tinha uma pequena revista de arte destinada a um publico juvenil. A revista sempre se vendera na loja do Museu. Mas o ultimo número fora rejeitado, com a explicação que na revista, ao falar dos Painéis, se usara as identificações de Teresa Castello Branco, o que era proibido. O livro dela também não se podia ali vender.
E assim terminou um segundo colóquio organizado pelo Museu de Arte Antiga em prol do estudo histórico-cientifico da sua peça mais valiosa, os painéis de São Vicente de Fora.
Passemos a tema mais interessante e mais limpo: o caso da ‘miniatura do Infante’.
O erro ‘do retrato do Infante’ é coisa muito diferente do “erro” da tese vicentina. No caso da miniatura houve de facto um erro, mas um erro muito compreensível. Interpretou-se erradamente um dado que, à primeira vista, parecia indiscutível.
Em 1837 descobrira-se em Paris um retrato do infante D. Henrique. A Europa vivia então a febre de querer saber. Também queria saber como era aquilo “lá fora”. Ia-se lá fora em simples viagem de turismo, ou em viagem de exploração. Um jovem francês chamado Ferdinand Denis, fora às terras do Brasil, ganhara interesse pelos descobrimentos e as explorações dos portugueses e, nesse contexto, consultara. no fundo de manuscritos da Biblioteca Nacional de Paris, aquilo que se relacionasse com Portugal. Deu com um manuscrito intitulado “Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné” de Gomes Eanes de Zurara. Falou do seu achado ao visconde da Carreira, então o ministro de Portugal em França, homem culto, que tratou de divulgar o achado. Interessava provar a primazia dos descobrimentos portugueses, e a crónica foi usada sobretudo nesse sentido. Daquilo que Zurara contava, pouco se falou. Do que se falou foi de uma miniatura que a obra continha. Uma miniatura representando um homem de grande chapéu preto e tendo em baixo a divisa do infante D. Henrique. Um retrato do Infante, portanto.
Quando em 1883 se descobriram em S.Vicente de Fora as tábuas onde se via um homem idêntico ao que se via na miniatura, ninguém duvidou que se tratava da mesma pessoa, que aquele homem era o Infante. O homem da miniatura era um pouco mais novo que o dos Painéis mas era sem duvida o mesmo homem. Só muito mais tarde se perceberia que esse homem não era o Infante.
Quando a duvida nasceu, já era tarde para fazer meia volta, nem interessava fazê-la. O Infante D. Henrique adquirira as feições do homem da miniatura e dos Painéis.
Em 1937, cem anos depois da sua descoberta, publicou-se finalmente a crónica de Zurara, e a descrição que Zurara nela dava da pessoa do Infante era a de um homem muito diferente do homem da miniatura. Descrevia-o assim: ”Este nobre príncipe havia a estatura do corpo em boa grandeza e foi homem de carnadura grossa e de longos e fortes membros, a cabeladura havia um tanto levantada, a cor de natureza branca, mas pela continuação do trabalho por tempos tornou-se de outra forma. Sua presença de primeiro sguardo aos ousados era temerosa”-
Mais tarde Dagoberto Markl notaria ainda a diferença que havia entre o homem de chapéu grande e a figura jacente do Infante D. Henrique no seu tumulo.
Os testemunhos dos túmulos são muitas vezes esquecidos como fonte documental. Talvez por se imaginar que os artistas que esculpiam os túmulos usavam da sua própria imaginação e fantasia para tudo, inclusive as figuras jacentes dos mortos. Ora com a morte não se brincava. O morto devia ser recordado o mais fidedignamente possível. O escultor seguia as instruções que lhe davam e procurava transmiti-las da melhor forma. Quando não podia reproduzir a figura exacta do homem ou da mulher que jaziam no tumulo, dava-lhes atributos que os caracterizassem, ou mesmo alguma indicação sobre a sua vida e morte. Os túmulos de D. Pedro e D. Inês, frente a frente, são tão expressivos do seu amor, como é expressiva da causa da sua morte a representação de uma criança sendo violada, que se vê em Odivelas em um dos pés do tumulo de uma pequena filha de D. Diniz. E ningém pode duvidar que D. Isabel de Portugal, mãe de Isabel a Católica, era uma ávida leitora, vendo-a de livro na mão imersa na leitura no seu tumulo na Cartuxa de Miraflores.
O Infante D. Henrique estava representado no seu tumulo tal como fora. E exactamente como Zurara o descrevera.
Estes dois testemunhos – texto de Zurara e tumulo - deviam ter sido suficientes, mas só a peritagem que se fez à miniatura é que convenceu e transformou duvida em certeza. O homem de chapéu grande não era o Infante.
O exame da miniatura revelara, que esta tinha um vinco, ou seja, que, em tempos, fora dobrada e que não fizera sempre parte do manuscrito com o texto de Zurara. Provou-se também que a divisa fora pintada em cima do vinco, era portanto posterior ao original, e mais, que a sua ortografia não correspondia à da divisa do Infante. Uma pequena, mas significativa diferença. O Infante escrevia “Talant de bien fere”, e na divisa da miniatura lia-se “talant de bien faire”- Além disso, era sabido que a verdura que o Infante tinha na sua empresa era de carrasqueira, enquanto aquela que se via na miniatura era de folhas e bolotas de azinheiro e sobreiro.
Destas e ainda ousaras anomalias e o que elas significam sabe-se há mais de cinquenta anos, mas mesmo depois de os factos se saberem, os investigadores continuaram a fazer identificações a partir da figura do homem de chapéu preto como se do Infante se tratasse.
Ora que o Infante tenha tido a pele clara e cabelo loiro e fosse forte e de ombros largos, ou de ombros estreitos e cabelo liso e preto, não tem grande importância, nem hoje se pode e pretende mudar. Mas deve ser permitido àqueles que querem saber “como as coisas na verdade eram” (Ranke), que a essas seja permitido fazer as suas investigações a partir do facto de no homem de preto se tratar de outro homem do que o Infante.
O Dr. Fernando Baptista Pereira declarou no primeiro colóquio que a investigação iconográfica não tinha grande importância, que aquilo de qualquer modo era tudo simbólico. Opinião sua. Em minha opinião rata-se de um grande retrato de pessoas históricas e contemporâneas umas das outras.. Pessoas às quais naturalmente gostaríamos de dar os seus nomes. Nomes autênticos, racionalmente encontrados, não fantasias. Foi isso que tentei fazer e que, até certo ponto, penso ter conseguido. De como procedi, e de que raciocínios usei, procurarei dar conta no próximo post.

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Um coloquio

>> segunda-feira, 26 de outubro de 2009





Depois da publicação do meu primeiro livro sobre os Painéis, o Museu de Arte Antiga realizou dois colóquios sobre Nuno Gonçalves. O primeira, o mais importante, com o título de "Nuno Gonçalves. Novos Documentos. Novas Perspectivas", foi de 2 a 4 de Dezembro de 1993. O tema do segundo dia do colóquio (ao primeiro não pude assistir) era sobre as fotografias obtidas através do exame refletográfico feito aos Painéis, e o título estava correcto, porque se tratava sem dúvida de uma nova e interessantíssima documentação. Achei emocionante poder viver, através desses documentos, a preparação do pintor para a feitura da sua grande obra. Esse aspecto do colóquio satisfez-me plenamente.
A segunda parte do colóquio, e seu ultimo dia, era intitulada de "Nuno Gonçalves. Novas Perspectivas", e constava de sete comunicações-Trés delas não tinham nada a ver com o problema vicentino. Uma delas, de Jpaquim Caetano era sobre o estatuto social do pintor no século XV, as duas outras de Ignace Vandervivere e da Drª Dalila Rodrigues eram comunicações de profissionais sobre os respectivos temas. No caso das restantes comunicações saltava à vista, que se tratava na realidade de um colóquio ‘vicentista’. As conferências seriam sobre: "Painéis da Capela-mor da Sé", "Problemática do Altar de S. Vicente" e "Políptico da Veneração de S. Vicente".
Era óbvio que se tratatva de anular a revelação por mim feita de que os santos protectores da cidade eram SS Crispim e Crispiniano, irmãos e gémeos. O facto não fora por mim inventado, eu revelara somente documentos existentes e mostrara acreditar neles. Os documentos não se podiam declarar errados. No colóquio optou-se por ignorá-los e aos dois santos. Por silenciar documentos autênticos e santos autênticos, procurando de todas as maneiras reforçar a convicção que os santos dos Painéis eram S. Vicente. Analisei este caso num segundo livro*, aqui só posso dar uma ideia do que foi o colóquio.
Eu tinha a certeza que, directa ou indirectamente, seria visada. Era até normal que o fosse, que se citassem afirmações minhas para lhes opor a versão do orador. Não sucedeu, o meu livro e a minha pessoa, tal como os santos gémeos, não existiam. Para o que desse e viesse, eu parti para aquela sessão devidamente preparada. Tomei um calmante, ouvi as recomendações filiais de não falar, ou, como se diria no português oficial de hoje, “no sentido” de não abrir a boca. Para maior segurança ia acompanhada de uma sobrinha, com instruções de me amordaçar, caso necessário. E tudo funcionou na perfeição, até pouco antes do fim da sessão, quando esqueci filha, sobrinha, e um bom par de anos de boa educação e me levantei, declarando no meio do silêncio, que não aguentava continuar a ouvir um colóquio sem nível e indigno daquele museu.
Não o devia ter feito, fiz mal, recebi sem protestos repreensões e criticas. Mas querem saber uma coisa? Não me arrependi então, e ainda hoje não me arrependo. Não terá sido bonito, mas a verdade era essa: aquilo que ali se ouvira não tinha nível e era indigno de um primeiro museu.
O Museu de Arte Antiga é o primeiro museu do pais. Quando o primeiro museu de um pais organiza uma série de conferências sobre uma das suas peças, o publico espera, e tem todo o direito de esperar, que aquilo que irá ouvir será de qualidade, até de grande qualidade, e, sobretudo, de grande seriedade. E isso, muito simplesmente, não foi o caso.
A primeira comunicação foi do Dr. Carlos Alberto Ferreira de Almeida, que nos foi apresentado como especialista em iconografia religiosa, e o tema era “Problemas iconográficos dos Painéis de Nuno Gonçalves”. O Dr Ferreira de Almeida declarou de imediato não ter duvidas que os dois santos eram São Vicente, e lamentou que houvesse gente teimosa, que pretendesse negá-lo. Quanto a ele, não havia duvida nenhuma. Nos Painéis havia muitos atributos, que eram atribuíveis a São Vicente, mas o santo nem precisava deles, porque vinha do céu atendendo a um voto, pelo que “não tinha que carregar com os seus atributos”.
Eu sabia que nenhum perito, por mais eminente que fosse, provaria que aqueles santos de cabeça tapada e cabelo comprido eram São Vicentes, mas não esperava ouvir da parte de um perito um argumento daquela ordem. Nem que esse especialista declarasse, que o objecto que o santo tem debaixo do braço era um “barrete litúrgico”, e que, depois do intervalo, ele subisse ao palco para dizer, que tinha estado a pensar, e que o barrete afinal não era um barrete. Não explicando o que fazia do raciocínio que fizera a partir da coisa preta ser um barrete. O que importava era ligar a São Vicente tudo que se podia ligar, ou se julgava a ele poder ligar. E assim ainda ouvimos, entre outras coisas, que o homem de barbas negras, que está no canto superior do painel dito ‘dos monges’ era o cruzado alemão Henrique de Bona, porque esse cruzado estava enterrado em São Vicente de Fora, que era da ordem a que pertencera São Vicente. Ainda se ouviria falar de várias maneiras dessa figura, que. em minha experiência, provou ser a figura mais fácil de identificar entre as figuras secundárias.
A segunda comunicação deste ciclo devia tratar da capela mor da Sé, onde fora visto o retábulo de São Vicente. Havia que provar que o dito retábulo era aquele que conheciamos como “Os Painéis”. Ingrata missão, de que se encarregaram o Dr. Rafael Moreira e Pedro Cid. Este último não entrou no problema, coube-lhe mostrar como teria sido, e em que local se situava a capela mor da Sé. O Dr. Rafael Moreira é que se encarregou da parte mais complexa do caso, ou seja, como conjugar o testemunho de D. Rodrigo da Cunha e o texto do documento conhecido por “documenro Motta Alves”.
No seu livro “História Exlesiástica da Igeja de Lisboa”, publicado em 1643, D. Rodrigo, futuro Arcebispo de Lisboa, descrevera em detalhe o retábulo de S. Vicente e não descrevera nada que se parecesse com os Paineis. Segundo a sua descrição o retábulo constava de quadros mostrando os milagres de S. Vicente e nem o mais ardente ‘vicentista’ conseguia ver nos Paineis alguma coisa que se parecesse com um milagre, fosse de que santo fosse.
Sudedera no entanto que aparecera um documento no qual se lia que, a dada altura, os dois painéis centrais do políptico de S. Vicente de Fora tnham sido vistos na capela mor. O documento em questão, descoberto no Brasil na biblioteca nacional do Rio de Janeiro por Artur Motta Alves, não mentia. Em dada altura alguém, cujo nome se ignora, descrevera em carta a um amigo as igrejas de Lisboa e, a propósito da Sé, dizia-lhe, que vira lá um dia umas tábuas com uns homens vestidos de modo estranho. Pela descrição, eram sem duvida os cavaleiros das tábuas centrais dos Painéis. O autor da carta lembrava-se de ter visto as tábuas, mas por pouco tempo, ao escrever a carta elas já não estavam onde os vira. Que fora “junto do tumulo de S. Vicente”.
Dagoberto Markl, o primeiro a aproveitar o documento, concluíu que as ditas tábuas tinham feito parte do retábulo de São Vicente, que por alguma razão, provavelmente por uma obra, tinham sido retiradas do retábulo e depois repostos nele. O que não explicava evidentemente que, anos depois, D. Rodrigo da Cunha não as tivesse visto nesse retábulo e descrito.
São problemas desta natureza que apaixonam o investigador, e no que me diz respeito, foi com verdadeiro entusiasmoque o abordei. E com isso iria complicar ainda mais a tarefa do dr. Rafael Moreira. Eu estudara a fundo todos os documentos que tocavam aquele assunto, e não eram poucos, e dera deles uma leitura lógica, e, assim me convenci, muito elucidativa. Acompanhara o texto com um importantºissimo elemento novo. o “Selo grande” da cidade de Lisboa, do século XIV, que mostrava justamente o interior da capela.
O problema não fora afinal tão difícil de resolver como eu pensara. D. Rodrigo da Cunha explicara perfeitamente, não só como era o retábulo, mas onde este se encontrava. O retábulo fazia parte de um conjunto de elementos dedicados a São Vicente. Conjunto esse que se situava na capela mor, no lado da epístola, num espaço onde havia um largo degrau. O retábulo desse santo, não era, como Dagoberto Markl supunha, retábulo do altar mor. Os altares mor de todas as Sés do reino eram, como escrevera D. Rodrigo da Cunha, dedicados à “Virgem,senhora nossa e sua gloruisa ascenção”.
Havia portanto na capela mor, num degrau desta, um altar de São Vicente encimado de um retábulo com os seus milagres. Mas nesse espaço havia outro monumento vicentino, era um ‘túmulo’ de S. Vicente. Nesses túmulos simulava-se a presença dos restos mortais do santo da devoção de uma igreja ou capela.
No Selo Grande da cidade, que eu revelei, vê-se este tumulo, um sarcófago de pedra sobre estreitas colunas. E foi junto a esse túmulo que o anónimo autor da carta viu as duas tábuas dos painéis. Porque razão ai estavam provavelmente nunca se virá a saber.
Tudo isto, e em muito maior detalhe, eu expusera no capítulo dedicado a esse problema. O Dr, Radael Moreira ignorou o meu livro, mas era difícil ignorar as suas conclusões. E não ignorou o selo. Este foi apresentado, se bem que sem se mencionar quem primeiro o trouxera para aquele problema. O que, em comunicações que se pretendiam histórico.ciêntificas, se costuma fazer.
O Dr. Rafael Moreira explicou então o que se passara com os painéis na Sé. Esqueceu o que escrvera aquele que vira a coisa – que as tábuas estavam junto do túmulo - e decidiu a coisa à sua maneira, Em sua opinião, elas estavam era por baixo do retábolo, e assim se explicava que D. Rodrigo da Cunha não os tivesse mencionado. O que também explicava, segundo ele, que nos Painéis não se vissem os milagres de São Vicente. Estes, sim, estavam representados no retábulo, enquanto nos Painéis, que estavam aos pés deste, estava o “agradecimento pelos milagres que se esperavam de S.Vicente”.
A quarta conferencia foi do Dr. Fernando António Baptista Pereira e devia tratar de uma “Nova contribuição para o problema do altar de São Vicente”. Mas antes de entrar no assunto, o conferencista declarou severamente, que era preciso “traçar uma clara linha divisória entre os esforços sérios de critica histórica da pintura e a quantidade de produtos literários que periodicamente surgiam com louváveis esforços, mas não se lhes reconhecendo consistência.
Como nos últimos tempos não houvera outro esforço dessa natureza que não fosse o meu, era claramente eu a visada. E ainda não tinha ouvido nada.
Quanto a D. Rodrigo da Cunha e seu testemunho, era evidente que ele se enganara ao dizer que o retábulo mostrava passos da vida e milagres de São Vicente. O que D. Rodrigo com certeza quisera dizer, era que estavam no retábulo quadros com o agradecimento pelos milagres do santo. D. Rodrigo da Cunha não se esquecera de mencionar o políptico, ele enganara-se na sua descrição.
Parece-me que foi depois de proferir estas considerações, que o Dr. Fernando Baptista Pereira se dirigiu à audiência com uma exortação que julgo inédita. Sugeriu-nos ele, que entrassemos com ele em um ‘gentlemen’s agreement’, de que, de ali em diante, não se aceitariam mais identificações iconográficas, porque nesse campo nada de novo se podia cientificamente concluir. Ele próprio não se coibindo de logo a seguir as fazer.
O conferencista seguinte foi d Dagoberto Markl, que nos foi apresentado pelo Dr. Fernando Baptista como o maior especialista dos problemas dos Painéis, e que entre eles era apelidado de “iconoclasta”
Dagoberto Markl abriu consequentemente a sua comunicação com estas palavras: “Eu sou o iconoclasta”. Tal como o seu antecessor, exprimiu a sua indignação com a “pertinácia” daqueles amadores, ignorantes de história, que persistiam em negar a tese de José de Figueiredo.
A visada era de novo eu, e logo ali me devia ter levantado e saído. Fiquei e assim tive ocasião de ficar a saber que Dagoberto Markl, que até ali arrumara todas as tábuas dos Painéis no retábolo de São Vicente, agora, não sendo possível ignorar de todo o que dissera o documento Motta Amaral e o esquecido D. Rodrigo, que agora, ele opinava, que as tábuas dos Painéis estavam por baixo do retábulo, na sua parte inferior. D. Rodrigo da Cunha esquecera-se de falar nelas. E Dagoberto Markl, por sua vez, esquecera que as duas tábuas centrais dos Painéis, e só elas, tinham sido vistas junto do túmulo d São Vicente. Provavelmente encostadas a este. Mas o túmulo fora documentado por uma ‘ignorante de história’, o melhor era esquecê-lo.
Houve ainda a comunicação do Dr. Alberto Seabra de Carvalho, que pretendeu demonstras que o madeiro que se vê junto do homem de barbas no painel dos monges era a tábua com pregos sobre a qual São Vicente fora forçado a andar. Não havia duvida, achava ele. E mais disse, mas parece-me que já se disse o bastante e de mais sobre este colóquio.
Na altura cada um dos assistentes terá feito o seu juízo sobre o que ali se disse, e como se disse,. Por minha parte, o que me incomodou foi ouvir homens que se consideravam histórica e cientificamente formados, proferindo afirmações que não motivavan, e que não resistiriam a um exame sério. Convictos da autenticidade da sua tese, acham decerto que tudo vale para a defender. O que na verdade lhes é mais fácil do que seria a outros, porque estão munidos de uma poderosa arma: a sua ignorância e ingenuidade em matéria religiosa. A igreja católica tem ‘história’, e nessa história cabem as suas regras e os seus costumes. E estes não se podem ignorar quando se estuda um problema que tenha aspectos que toque, à Igreja. Não é preciso ser católico e crente para tratar de temas ligados à Igreja, mas é preciso conhecer ‘cientificamente’ os seus preceitos.
Eu não esperara “novas perspectivas” sobre Nuno Gonçalves, mas não esperava o que nos foi dado ouvir. Ainda hoje, quando releio o que foi dito naquele colóquio, e que felizmente fixei textualmente, ainda hoje me pergunto como foi possível que ali se dissesse o que se disse.
*Painéis de S. Vicente de Fora. Adivinhação ou Investgação?
Livraria Bizantina

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