Um bom romance

>> terça-feira, 18 de maio de 2010

Num destes sábados ‘à hora nobre’ ouvi no segundo canal, as últimas frases de uma conversa da locutora com José Rodrigues dos Santos. Pareceu-me que o assunto fora uma série de dez entrevistas que José Rodrigues dos Santos vai fazer, ou já fez a dez romancistas. A entrevistadora pediu no fim ao seu convidado, que lhe dissesse como definia um ‘bom romance’. José Rodrigues dos Santos respondeu sem hesitar: “um bom romance é uma boa história, bem contada”.
Que simples. Que fácil. Que bom deve ser, pode responder com tanta confiança, tanta firmeza, a tão difícil pergunta.
A definição não é errada, é até óbvia, mas o que nos diz ela? Suponhamos que alguém, talvez a minha filha, me perguntava, como muitas vezes o fez, que tal era o livro – romance – que eu estava lendo.
“Lê-se muito bem, uma óptima história”, responderia, ou talvez: “Gosto. A história é Interessante, e está muito bem contada.” A interlocutora perceberia, que eu estava lendo um ‘bom romance’. Um dos milhares de livros que anualmente são editados, que nos contam bem – com habilidade - uma boa história.
Fosse a resposta à mesma pergunta um pouco diferente, se respondesse, por exemplo: “Um grande livro”, ou “este sim, este vai ficar”, então a minha filha perceberia que, em minha opinião, havia naquele livro qualquer coisa, que fazia dele mais que uma boa leitura, mais do que ‘um bom romance’.
Alguém pode falar de “O Tempo e o Vento” de E. Veríssimo como um bom romance? Ou de “O Pavilhão dos Cancerosos’ de Soljenytsine? Ou de ‘O Primeiro Círculo’ do mesmo autor?
São todos eles boas histórias, bem contadas. Mas não são aquilo que correntemente entendemos por bons romances. O que são é grandes livros.
O que distingue uns dos outros? Dois livros podem ter o mesmo tema, os seus autores podem, um e outro, tratar o tema com grande habilidade, dando-nos uma história bem contada, pode suceder que um dos livros seja só um ‘bom romance’ e o outro seja um ‘grande livro’. Dois exemplos:
‘Kim’ de Kipling e ‘The Far Pavillions’ de T. F. Kaye. O tema é o mesmo, o rapaz inglês que nasce na Índia, e que, por acidente, vive desde criança como hindu e se considera tal, só muito tarde vindo a saber que é inglês. Os dados são os mesmos. ‘The Far Pavillions’, é empolgante. Enorme, lê-se de um fôlego. ‘Kim’ também é empolgante. Mas lê-se mais lentamente. Também queremos saber o que se vai passar na página seguinte, mas temos de saborear página por página. ‘Kim’ é um grande livro.’ The Far Pavillions’ é só um óptimo romance.
Consideremos duas obras mais recentes: ‘O primeiro Círculo ‘ de Soljenytsine e ‘Doutor Jivago’ de Pasternak. O último é um grande romance, o ‘Primeiro Círculo’ é um grande livro.
Quem os lê, sente que são diferentes. Que um deles nos dá mais do que o prazer de uma boa leitura. Porque nos faz sentir e pensar. E admirar.
Observação à margem
O verbo ‘estar’ conjuga-se agora da seguinte forma:
Eu tou
Tu tas
Ele tá
Nós tamos
Vós tais
Eles tão. Não esquecer

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Recordar poemas

>> terça-feira, 11 de maio de 2010

Nos meus tempos de escolaridade, aprendiam-se versos. Aprendi versos em alemão e português, em francês, em inglês. E tínhamos de os recitar. Em festa escolar, era sabido, fazia parte do programa que um aluno recitasse uma poesia. Não nos fez mal.
Sei as primeiras linhas de inúmeras poesias, e muitas sei por inteiro. Gosto de as relembrar e recitar para mim, e agora mais do que nunca, que não as posso ler.
E o gosto não é só de agora. Em viagens de automóvel, ao volant5, sempre recitei para mim. Em voz alta. Poesias fáceis, que não me distraíssem. Confesso que tenho pena das crianças a quem não ensinam versos. Não sabem o que perdem. Porque os versos que se aprendem em criança nunca mais se esquecem por completo. Alguma coisa deles fica, nem que seja só uma estrofe, ou só duas ou três linhas. Um dia vêm-nos à memória, e é uma alegria.
Quando há não muito tempo uma leitura me fez recordar a peça ‘Wallenstein’ de Schiller, veio-me de imediato, sem pensar, a lembrança dos versos que toda a nossa classe, rapazes e raparigas, recitava com entusiasmo, sem sermos obrigados. Para nós, porque gostávamos do ritmo empolgante daqueles versos: “Vamos, camaradas, a cavalo, a cavalo” “Wohlauf, Kameraden. Aufs Pferd, aufs Pferd, ins Feld, in die Freiheit geritten”. E por aí fora.
Há poesias para todas as emoções, todas as impressões, todas as ocasiões. Há poesias alegres e poesias tristes, românticas e realistas, profundas e ligeiras, é só escolher. E lembrar.
A propósito da muito falada crise, lembrei-me da fábula de La Fontaine sobre a cigarra e a formiga. Aprendi-a nas aulas de francês. Em Portugal já não se aprende francês, La Fontaine deve ser pouco conhecido. Não importa. Tenho vontade de recordar ‘La Cigale et la Fourmi’, Acho que vem a propósito a história da cigarra que cantou durante todo o verão sem pensar em juntar qualquer coisa para o inverno. E a laboriosa formiga, que se nega a lhe emprestar, aconselhando-a a dançar, já que passou o verão a cantar. Aqui vai, portanto:
“La clgale, ayant chanté tout l’été,
Se trouva fort dépourvue
Quand la bise fut venue.
Elle alla crier famine
Chez la fourmi, sa voisine,
La priant, de lui prêter
Quelques grains pour subsister
Jusqu’á la saison nouvelle.
La fourmi n’est point préteuse,
C’est lá son moindre défaut.
Que faisiez vous au temps chaud?
Demanda-t-elle à la quéteuse.
Au temps chaud?
Je chantait, ne vous déplaise.
Vous chantiez? J’en suis fort aise.
Et bien, dansez maintenant.

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Biografia ou romance histórico?

>> terça-feira, 4 de maio de 2010

Aos sábados, das 10 da manhã ao meio-dia, há na Antena 1, um programa intitulado ‘Hotel Babilónia’. Nos meus tempos de leitora, não o ouvia, agora, que sou sobretudo auditora, oiço o ’Hotel Babilónia’. Na sua segunda parte, quando os anfitriões, João Goberne e Luís Delgado, conversam com uma convidada. Neste sábado, a conversa foi com Isabel Stilwell, e sobre livros seus. Três livros sobre três rainhas: D.Filipa de Lancastre, D. Catarina de Bragança e D.Amélia de Orléans. Isabel Stilwell narra as suas vidas sob a forma de romance histórico. Uma opção perfeitamente aceitável.
Ora sucede, que em todos os três livros se vê na capa o nome da respectiva rainha e o seu retrato. Vendo isso, o leitor, que pega no livro, pensa naturalmente que se trata da biografia daquela personagem. Foi o meu caso, quando há tempos peguei numa livraria no ‘D.Catarina de Bragança’ da autora. Com curiosidade e simpatia, já que o meu primeiro livro fora a biografia do marquês de Sande, o homem que negociara o casamento daquela infanta portuguesa com Carlos II de Inglaterra, e que depois conduzira a futura rainha, e lhe aturara os maus humores. Abri portanto o livro de Isabel Stilwell, curiosa de ver como ela pegara naquela pouco simpática figura. Abri o livro ao acaso para ter uma ideia. E li, com algum espanto, confesso, como D.Catarina, falando a seu marido, lhe dirige estas palavras: “não me diga, Carlos”. Para já não falar no pouco provável uso de uma expressão que tem muito poucos anos, por alguém do século XVII, era impossível em biografia, onde o discurso directo não existe, a não ser numa citação. Era forçoso concluir que aquele livro, intitulado ‘D.Catarina de Bragança’ e com o retrato da rainha na capa, não era afinal o que parecia ser. Não era uma biografia daquela rainha. Pois não, disseram-me, era um romance histórico.
Agora saiu o ‘D. Amélia de Orléans’, que é, da mesma autora, que, tal como os dois livros precedentes, é um romance histórico. Que tal como estes, aparenta ser - pela capa e título - uma biografia.
Tratando-se de um romance histórioco, ou seja de um romance, no qual aquela senhora é evocada de forma lúdica, então isso devia ser percebido. Por exemplo, dando-lhe um título deste tipo: ‘Uma Orléans?’ Já que aquela rainha de Portugal ainda sofria do estigma de ser uma Orléans, dava-se a entender que o livro trataria de D. Amélia, mas ninguém pensaria estar a comprar uma biografia da rainha.
Uma ninharia, dirão. Não é. O editor está a atrair o público com um engano literário. E o engano é duplo. Está oferecendo uma coisa que não é o que a capa e o título prometem, e leva o leitor menos conhecedor a pensar que uma biografia se escreve em forma de romance histórico. Tudo vale para vender livros? Assim é, pelos vistos.

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Escrever a um autor.

>> terça-feira, 27 de abril de 2010

Vou escrever a Ludger Saffranski para lhe agradecer o seu livro que ouvi em disco, lido por ele, sobre a amizade entre Goethe e Schiller, os dois grandes poetas alemães. O livro teve críticas magníficas, e o autor provavelmente cartas em abundância, pouco lhe pode interessar mais uma carta. Não impede que lhe escreva. Por mim, porque lhe quero dizer o prazer enorme que me deu com o seu livro.
Não é a primeira vez que escrevo a um autor, mas é a primeira vez que me pergunto, o que me leva a escrever. A perfeição? Não só, porque li muitos livros que admirei pela perfeição de estilo e interesse de assunto, e não escrevi aos autores. Olhando para trás vejo que, quando escrevi, foi porque se conjugavam vários factores. No caso deste livro sobre a amizade dos dois poetas, ele não só me satisfez plenamente, como veio quando pensava que já não me seria dada essa sensação de prazer e satisfação num livro novo. Veio no momento exacto, e talvez seja por isso que sinto vontade de escrever ao autor. Talvez não seja só a excelência da obra, a sua qualidade, mas também o momento em que ela é lida, que façam da leitura um momento tão especial, que o queiramos comunicar a outra pessoa, e de preferência a quem nos proporcionou esse momento.
. Lembro-me de outra ocasião em que escrevi ao autor, e concluo agora que o fiz pelo facto do livro dele ter vindo tão a propósito. Acabara de ler dois livros sobre a guerra franco-alemã de 1870. Um, alemão, de Theodor Fontane. outro, francês, um romance, mas considerado de grande exactidão histórica, lA Débacle’de Zola. Tive vontade de ter ainda uma outra opinião. Li ‘The Franco Prussian War’ de Geoffrey Wawro . O livro provou ser tão exactamente aquilo que eu procurava, no equilibrio da avaliação dos acontecimentos políticos e das acções militares, que peguei na pena e escrevi ao autor.

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Libri.librorum pretende ser um blogue de leitura e de escrita, de leitores e escritores. Um blogue de temas literários, não de crítica literaria. De uma leitora e escritora

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