O homem de letras

>> segunda-feira, 14 de junho de 2010

Há agora na vida pública uma figura literária profissional, à qual eu, até há pouco, não sabia dar nome. Agora sei. É um “homem de letras”. É a tradução literal do francês “homme de lettres”. Não sei se em França a definição ainda se usa, em português parece-me que não se usa e nunca usou. Eu é que apliquei a expressão espontaneamente a alguém que ouvi numa entrevista, e decidi falar disso aqui.
O homem de letras é um especialista em matéria de letras. Não é o engenheiro, que concebe e constrói os motores, é o homem que sabe qual ele é, e como ele é, e aonde ele se fabrica. Conhece tudo em matéria de motores, mas não é o peso pesado da engenharia. O homem de letras não é o peso pesado da literatura. Não é o engenheiro. É o técnico. Conhece os livros e os seus autores, critica e analisa livros, por vezes publica as suas críticas em livro, mas não é um escritor. Conhece os editores, e vai ao lançamento de livros que eles publicam. Fala fluentemente sobre qualquer desses aspectos da vida literária, feiras de livros, leilões de livros de qualidade, poetas que são políticos e vice versa, etc. No grande público, é tido por intelectual.
Nos fins do século XIX, o homem de letras surge nos romances franceses como elo de ligação entre as grandes senhoras com aspirações literárias e o mundo dos livros. O “homme de lettres" não era ele próprio aquilo que se entendia por escritor. O escritor labutava no seu triste sótão, e – com raras excepções – não tinha ambições mundanas. O homem de letras substituía-o com vantagem. Vestia bem, tinha boas maneiras, Dava à reunião mundana um agradável, ligeiro, toque de intelectualidade, e como em geral tinha espírito, divertia. Era o conviva ideal.
Já não há salões, nem grandes senhoras cultivando homens de letras. A definição desapareceu, e, no entanto, acabando de ouvir uma entrevista na TV, eu disse para comigo: “É boa. Este homem – ou seja o entrevistado – é aquilo a que no passado se entendia por homem de letras”. E o que é que eu vira e ouvira?
Vira um homem novo, nem bonito nem feio. Gordote. Tinha as mãos em cima da mesa. De onde não se ergueram. Nem para um gesto que fosse. Só os beiços se moviam, quando, num evidente esforço, respondia ao seu entrevistador. O qual, jovem, e talvez pouco experiente, parecendo transido de respeito e admiração, fazia perguntas anódinas, às quais Pedro Mexia - era ele o convidado - respondia a dormir.
Pedro Mexia confessou que, sim, que era um pouco misantropo. Desabusado da humanidade, da qual já nada de bom se pode esperar. Ficámos também a saber que Pedro Mexia acaba de traduzir uma peça inglesa, com muito humor inglês, que o autor da peça permitiu que ele tomasse algumas liberdades na tradução, para adaptar o texto aos conhecimentos do espectador português. Assim, por exemplo, substituiu “cricket” por “tennis”. Pedro Mexia não aprecia o Papa, escreveu até um artigo de severa crítica quando da sua eleição. Apreciou no entanto ter sido convidado para a reunião da elite cultural com Bento XVI. O qual, não sendo comparável ao seu antecessor, tem algum peso intelectual. Pedro Mexia foi autor de um blogue, que tivera um grande “feed-back” – o entrevistador mostrou a sua respeitosa admiração – e publicara o conteúdo do blogue em livro. Acha que os livros devem ser escritos por escritores, e não por inspiração de um qualquer, e é severo quanto ao mau português que se escreve. Faz lançamentos de livros, tem um programa na rádio. E, “although last, not least”, Pedro Mexia é benfiquista. No grande dia do título, foi para o marquês de Pombal vestido a rigor clubista de boné e cascol e outros atavios. Nem um sorriso, nem um gesto acompanharam essa declaração. Restou-nos a nós, ouvintes, imaginar a contribuição daquela esfíngica figura festejando os heróis encarnados.
Subtraindo o amor clubista, e algumas diferenças condicionadas pelo tempo, creio que não foi asneira minha, quando, em mente, apelidei Pedro Mexia de “homme de lettres” do século XXI.

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A ‘velha’na literatura

>> terça-feira, 1 de junho de 2010

Toca o telefone. Desejam que me pronuncie sobre determinado produto. Respondo que já ultrapassei a idade de dar opiniões. “E não há aí alguém de 68 anos?” perguntam-me. “Não tenho a certeza, mas vou ver”. Desliguei, rindo. Pergunto-me se terei falado com um idiota ou com alguém com graça, com sentido de humor. Espero que fosse o último.
Gostaria de saber em que dados se terão baseado as agências de publicidade para concluírem que, passados os 68 anos, os velhos não têm capacidade de opiniar sobre papel higiénico ou detergente?
A história fala dos conselhos dos velhos, cuja opinião era a ultima palavra. Nos mosteiros femininos medievais, a abadessa convocava o conselho das anciãs quando havia assunto difícil a resolver.
Na literatura, que afinal procura recriar a realidade, a mulher velha pode ser má, mas raras vezes é estúpida. O tipo da ‘velha’ é aliás um dos tipos da literatura. Ou seja, literariamente, a mulher velha interessa. Ela encontra-se em contos e romances. E quase sempre como figura activa. Nos contos, é mais vezes bruxa má do que bondosa avó. Inclinada, apoiada no seu pau, arguta, capaz de prever o futuro, de adivinhar intenções. Assustadora. Foi assim que os contistas do passado viram a mulher velha.
Quando os irmãos Grimm percorreram a Alemanha à procura de velhos contos, era de preferência a mulheres idosas que se dirigiam. Sabiam que elas recordavam. Que tinham em alto grau essa faculdade.
A literatura, grande e pequena, tem construído histórias sobre a mulher velha que recorda.
Muito recentemente ouvi o Dr. Henrique Monteiro, director do Expresso, ser entrevistado sobre um seu romance, creio que o primeiro, intitulado ‘Toda uma vida’, no qual o autor faz reviver a história do século passado através da vida e das recordações de uma mulher velha.
Eu fiz o mesmo, e também no meu primeiro romance, se bem que o segundo a ser editado. Servi-me da figura de uma velha senhora para reconstruir o passado. O passado de uma família.
Já não era uma jovem quando escrevi ‘ A Morte de uma senhora’. Henrique Monteiro não é um jovem. Penso que a mulher velha não é personagem para autores jovens.
Creio que é preciso uma certa maturidade para poder – e querer – criar uma obra sobre a pessoa de uma mulher velha. Ou mesmo para a incluir entre as figuras secundárias dos seus livros.
Mas não faltou quem delas tratasse. Quem as achasse ‘interessantes’. Recordo, nos livros alemães do romantismo as avós bondosas e acolhedoras, não me esqueço da avelha camponesa russa que esperava a passagem dos comboios que levavam os prisioneiros para a Sibéria, para os confortar com a sua bênção. Das velhas francesas lembro-me de camponesas, duras, rancorosas, implacáveis.
O romance policial não se esqueceu delas. Surgem em muitas das investigações do inspector Maigret. Vê-mo-lo mais de uma vez confrontado com a astúcia e a força de uma velha mulher.
Astúcia e força são também as faculdades que Agatha Christie atribuie à sua Miss Marple. Velha, frágil, mas forte. E que recorda. Que resolve os problemas com o uso da sua memória e conhecimento dos homens.
A longevidade da mulher distingue-a do homem. Este desaparece, ela vai ficando. Velha, frágil, mas forte. Teimando em viver, reconfortante e incómoda, como aquela velha Bibiana do ‘Tempo e o Vento’ baloiçando-se na sua cadeira, observando os novos repetir as asneiras dos seus predecessores.

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O cabeçalho

>> segunda-feira, 24 de maio de 2010

O meu computador é ‘topo da gama’. Dizem. Eu não precisava de tanto, mas para o meu caso tinha de ser aquele e não outro. Aceitei o super computador. Carregam-se em duas teclas, e o que era pequeno, passa a ser grande, enorme. É especial para mim, e estou grata a quem o ideou. Penso que foi ‘alguém’, espero que tenha havido ali a mão humana, mas em computadores nunca se sabe. Eles já fazem tudo por si. É normal. Dizem. É normal, que nas Amazon dos diferentes países se lembrem de mim, me escrevam a lembrar a sua existência e me saúdem com simpatia quando volto a aparecer. É normal em computador, não precisa de ninguém para o fazer. E pois normal que ele me proponha livros que estão dentro dos meus hábitos de leitura. Cheguei a Imaginar que uma bibliotecária escolhia para mim os meus livros. Sentia-me lisonjeada pela atenção. Sei já que não é bem assim, que não há ali a mão humana, que é o computador. É normal. Assim como é normal que ele me emende os erros de ortografia. Não porém a pontuação. Não gosta da pontuação. O escritor que se arranje.
O meu computador faz tudo o que fazem os seus colegas e um pouco mais. Tive ocasião de constatar que o meu computador lê os meus pensamentos, que me ajuda espontaneamente em casos de dúvida.
Preparava-me para escrever à minha filha. Escrevi ‘sexta-feira’, e pensei para comigo “dia 19 ou dia 20?” O meu computador sentiu a minha dúvida, e, solícito, escreveu:20 . Era o dia 20.
Aceitei, mas um pouco irritada. Como sabia ele que eu quisera saber o dia do mês? Talvez tivesse querido escrever o dia do Santo, sexta-feira, dia de São João, por exemplo. Mas eu queria de facto a data, e o computador sabia-o. Tudo quanto há de mais normal.
Tive ontem nova prova de solicitude informática.
Estou a preparar para publicação uma série de cartas do século XIX. Vão de 1834 a 1910., e são sobretudo cartas de mulheres. Cartas compiladas e copiadas por mim. Da minha bisavó materna e suas filhas. Mulheres instruídas, cultas, falam dos acontecimentos mundanos, sociais e políticos do dia, discutem-nos. Pareceu-me por isso adequado iniciar as cartas de cada novo ano, com um pequeno resumo dos acontecimentos mais importantes desse ano, com um cabeçalho. Assim, por exemplo:
1853
Em Portugal: Morte de D. Maria II. Regência de D. Fernando II na minoridade de D. Pedro V. Primeiros trabalhos de assentamentos dos caminhos de ferro. Utilização de selos postais.
Sucede que, ao rever agora esse aspecto do – futuro e ainda hipotético - livro, constatei que para o ano de 1869 não havia esse resumo. Virei-me para o lado, e anotei: “1869, falta cabeçalho”. Olho de novo para o ecran, e o que vejo? A observação: “falta o cabeçalho”. Acho demais!

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Um bom romance

>> terça-feira, 18 de maio de 2010

Num destes sábados ‘à hora nobre’ ouvi no segundo canal, as últimas frases de uma conversa da locutora com José Rodrigues dos Santos. Pareceu-me que o assunto fora uma série de dez entrevistas que José Rodrigues dos Santos vai fazer, ou já fez a dez romancistas. A entrevistadora pediu no fim ao seu convidado, que lhe dissesse como definia um ‘bom romance’. José Rodrigues dos Santos respondeu sem hesitar: “um bom romance é uma boa história, bem contada”.
Que simples. Que fácil. Que bom deve ser, pode responder com tanta confiança, tanta firmeza, a tão difícil pergunta.
A definição não é errada, é até óbvia, mas o que nos diz ela? Suponhamos que alguém, talvez a minha filha, me perguntava, como muitas vezes o fez, que tal era o livro – romance – que eu estava lendo.
“Lê-se muito bem, uma óptima história”, responderia, ou talvez: “Gosto. A história é Interessante, e está muito bem contada.” A interlocutora perceberia, que eu estava lendo um ‘bom romance’. Um dos milhares de livros que anualmente são editados, que nos contam bem – com habilidade - uma boa história.
Fosse a resposta à mesma pergunta um pouco diferente, se respondesse, por exemplo: “Um grande livro”, ou “este sim, este vai ficar”, então a minha filha perceberia que, em minha opinião, havia naquele livro qualquer coisa, que fazia dele mais que uma boa leitura, mais do que ‘um bom romance’.
Alguém pode falar de “O Tempo e o Vento” de E. Veríssimo como um bom romance? Ou de “O Pavilhão dos Cancerosos’ de Soljenytsine? Ou de ‘O Primeiro Círculo’ do mesmo autor?
São todos eles boas histórias, bem contadas. Mas não são aquilo que correntemente entendemos por bons romances. O que são é grandes livros.
O que distingue uns dos outros? Dois livros podem ter o mesmo tema, os seus autores podem, um e outro, tratar o tema com grande habilidade, dando-nos uma história bem contada, pode suceder que um dos livros seja só um ‘bom romance’ e o outro seja um ‘grande livro’. Dois exemplos:
‘Kim’ de Kipling e ‘The Far Pavillions’ de T. F. Kaye. O tema é o mesmo, o rapaz inglês que nasce na Índia, e que, por acidente, vive desde criança como hindu e se considera tal, só muito tarde vindo a saber que é inglês. Os dados são os mesmos. ‘The Far Pavillions’, é empolgante. Enorme, lê-se de um fôlego. ‘Kim’ também é empolgante. Mas lê-se mais lentamente. Também queremos saber o que se vai passar na página seguinte, mas temos de saborear página por página. ‘Kim’ é um grande livro.’ The Far Pavillions’ é só um óptimo romance.
Consideremos duas obras mais recentes: ‘O primeiro Círculo ‘ de Soljenytsine e ‘Doutor Jivago’ de Pasternak. O último é um grande romance, o ‘Primeiro Círculo’ é um grande livro.
Quem os lê, sente que são diferentes. Que um deles nos dá mais do que o prazer de uma boa leitura. Porque nos faz sentir e pensar. E admirar.
Observação à margem
O verbo ‘estar’ conjuga-se agora da seguinte forma:
Eu tou
Tu tas
Ele tá
Nós tamos
Vós tais
Eles tão. Não esquecer

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Sobre este blogue

Libri.librorum pretende ser um blogue de leitura e de escrita, de leitores e escritores. Um blogue de temas literários, não de crítica literaria. De uma leitora e escritora

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