Leitura em voz alta

>> segunda-feira, 6 de junho de 2011

Falando há dias com um amigo sobre “audio-livros”, ou seja livros que não lemos mas ouvimos, constatei que ele não só tinha dúvidas quanto à quantidade de obras disponíveis, como sobre a sua qualidade. Quanto a esse último aspecto posso afirmar que de todos os livros que tenho ouvido, só um, um livro francês me decepcionou. Em todos os outros, alemães ou ingleses, não nos cansamos de admirar a excelência da leitura. Não é qualquer um que tem a voz e a dicção necessárias para ler alto. Eu fui uma grande leitora enquanto os olhos o permitiram, mas sei que seria uma péssima audio-leitora. Quanto à escolha de obras fica-se pasmado perante a abundância e a variedade. Os grandes clássicos da literatura dos respectivos países e os greco-latinos. Livros de viagem, memórias, biografias, livros de poesia, livros de criança, e mais.
Por graça vou tentar dar uma ideia de audis que já tenho na minha auditeca. Livros de história: dois sobre a batalha de Teutobburo, dois sobre as dinastias dos imperadores que sucederam aos Carolimgios. Em alemão. Romances históricos. Estes em inlês: I, Claudius, Pompei, Imperium e Lustrum de Robert Harris. De viagem: dois em alemão, dois em inglês. Dos quais o extraordinário “In the shadow of the silk road”. Livros de ensaios, dois em alemão, um sobre o Romantismo, outro sobre a amizade entre Goethe e Schiller. Poesia: um livro de baladas. Uma decepção, porque o livro não ouviu os meus conselhos, e não leu aquelas que eu teria preferido, mas um prazer mesmo assim. E que mais? Ah, como me podia esquecer: um livro sobre Opera, em alemão, um sobre a história da música clássica, este em inglês. Dos grandes clássicos por enquanto só os Nibelungos e outras Sagas. Mas já encomendei as cartas de Cícero a Attico. Livros de criança, por enquanto só um moderno em alemão, delicioso, sobre o Pólo Sul e os Pinguins ouvindo a Traviata. Espero que um dia se traduza para português, as crianças portuguesas também merecem ouvir o melhor que se escreva para elas. Em inglês tenho Tom Sawyer de Mark Twain, lido pelo fabuloso Patrick Fraley, Treasure Island e Railway children para recordar leituras antigas. E, por fim, submetendo-me desde já ao desprezo de algum intelectual que por ventura me leia, direi que tenho já três livros de Agatha Christie, de Miss Marple lidos pela própria Joan Hickson. Depois quatro livros de John Grisham, entre eles os meus preferidos “The Firm e Pelican Brief”. E para acabar de cair na consideração dos intelectuais, confesso que tenho quatro Westerns, de um autor com o curioso nome de Louis l’Amour, da sua série sobre os Sackets.
A técnica moderna fez renascer uma arte que se julgava desaparecida para sempre: a leitura em voz alta.

Read more...

“Nazaré!”

>> segunda-feira, 25 de abril de 2011

Tendo trabalhado durante anos no Japão, sem ter visto do país mais que Tóquio e arredores, um inglês chamado Will Ferguson decidiu que antes de regressar a Inglaterra iria percorrer o Japão de lés a lés. Usaria transportes públicos e de vez em quando tentaria arranjar uma boleia. No Japão não era costume dar boleia mas talvez houvesse uma excepção. Houve-a. Um simpático japonês abriu-lhe a porta do seu carro. Meteram conversa. Falaram da Europa. O japonês estivera lá recentemente. Viagem clássica, visitando as belezas do nosso continente.
- O que o impressionou mais? Perguntou o inglês.
- Nazaré. Respondeu o japonês.
Tenho de voltar à Nazaré.

Read more...

'fofocas'

>> segunda-feira, 11 de abril de 2011

'fofocas'

Às vezes temos de recorrer a um estrangeirismo para exprimir exactamente o que queremos dizer. Sucede-me agora que surgem nas cartas de senhoras do século XIX cartas de ‘fofocas’, não há outra palavra. É sabido que as mulheres gostam de falar do próximo. Não, como se pode pensar para falar mal ou apontar defeitos ou pecadilhos, mas, muito simplesmente, porque os feitos do próximo as interessam. Interessam-lhes os casamentos, os noivados, as doenças e a morte do próximo. Talvez que as intelectuais, as cientistas estejam livres desse pecado, ou antes desse pecadilho, mas são uma excepção. Vem isto a propósito daquelas minhas avós e tias, que, na ausência de telefones portáteis ou fixos conversavam por carta. É verdade que eram mulheres inteligentes e cultas, que se interessavam por política e que liam jornais, mas eram mulheres, gostavam de falar do próximo. As cartas estão recheadas de informações sobre o que sucedera ao próximo, o que dissera, o que vestira.
“O que me diz - ou o que acha - disto ou daquilo ?’’ As ausentes interessavam-se com o que se passava por cá. Nascimentos, mortes, casamentos anunciavam-se e comentavam-se: “Já deves saber pelos jornais que morreu a tia Asseca. Chorada por todos que a conheceram”, “Deve-te espantar a morte do António Xavier. Pobre rapaz, pouca falta faz, mas a mulher chorou. Gostava dele.” “Morreu o tio Murça. De ter sido um alívio para ele acabar tão inútil vida”. Há festas, há bailes. Esta bem vestida, aquela um desastre. Casa el-rei D. Luís. Da Alemanha, a infanta D. Antónia, irmã do rei e casada com um príncipe alemão, pede informações a uma das correspondentes: “ela veste bem? Eu mando vir os meus vestidos de Paris, e como recebe ela?”
Procurei a palavra certa para designar este aspecto das cartas. Em inglês dir-se-ia ‘gossip’, em francês ‘papotage’, em alemão encontrei duas expressões, mas nenhuma delas exprimia exactamente o que aquilo era. Consultei a minha filha, que respondeu sem hesitação: “Fofocas”

Read more...

Um Conto

>> segunda-feira, 28 de março de 2011

Pensa-se em geral que os contos dos irmãos Grimm são histórias para criança, mas na sua maioria as pequenas histórias que os irmãos coleccionaram percorrendo a Alemanha de lés a lés não se destinavam a crianças. Leia-se o conto do “Pescador e sua mulher”. Foi contado aos irmãos numa aldeia da Frísia e por eles conservado no dialecto original.
“Certo dia um pescador levantou na sua rede um peixe desconhecido. O peixe falava.
- Lança-me de novo à água, e dou-te o que quiseres.
O pescador não hesitou. Aquilo não era peixe como os outros. Devolveu-o ao mar.
– Gostava de ter um barco maior, disse.
– Já o tens, disse o peixe, e o pescador viu-se sentado em barco maior e mais bonito. Quando chegou a casa e contou à mulher, esta disse que ele devia ter pedido mais, que fosse à praia e dissesse ao peixe que queria uma casa. Coisa melhor que a cabana em que viviam. O pescador obedeceu, mas contrariado. Chamou o peixe, disse que a mulher dele, a Maria, não via as coisas como ele via, que queria uma casa.
– Vai-te, que ela já a tem.
A casa era bonita. A mulher ficou contente. Por pouco tempo. Não tardou a achar que era pequena. Pequena, para ser perfeita tinha de ser maior. O pescador lá foi à praia, chamou o peixe, desculpou-se, que a mulher, a Maria, não via as coisa como ele via
– Que quer ela ?
– Quer uma casa maior.
- Vai-te, que já a tem.
A mulher gostou da nova casa, mas depois pensou “casa daquelas não era para pescador era para um homem importante, assim um Burgomestre.
- Vai lá à praia falar com o peixe” .
O homem foi. O peixe acordou o pedido
– Vai-te, que ela já o é.
De pedido em pedido, o pescador desculpando-se que a sua mulher, a Maria, não via as coisas como ele via, e o peixe acedendo, não tardou a que chegassem às alturas. A Maria quis ser imperador, e foi. Não era mau, mas havia mais e melhor. O marido que dissesse ao peixe que ela queria ser Deus.
-Vai-te, disse o peixe . - ela já tem o que quer.
Ao regressar, o pescador – imperador, encontrou a mulher à porta da velha cabana.
O conto é um pouco machista, deitando as culpas para cima da mulher, mas o sentido era mais lato. Encontra-se em outros daqueles contos. Encontra-se em contos, em fábulas, em poesias de outros povos: o homem pode ser muito, mas não pode ser Deus.

Read more...

Sobre este blogue

Libri.librorum pretende ser um blogue de leitura e de escrita, de leitores e escritores. Um blogue de temas literários, não de crítica literaria. De uma leitora e escritora

Lorem Ipsum

  © Blogger template Digi-digi by Ourblogtemplates.com 2008

Back to TOP