SENTIDO DE HUMOR

>> segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Ter ‘sentido de humor’ é, creio eu, a propensão que algumas pessoas têm de apreciar o absurdo e o ridículo, a parvoíce dita e feita – inclusive a nossa própria. O humorista exprime essa propensão na escrita, ou no desenho e pintura. Quem não tem esses dotes, aprecia o absurdo em silêncio, consigo. E cada um tem o seu sentido de humor pessoal.
Ter sentido de humor não é virtude, não é qualidade, não é prova de superior inteligência, se bem que requeira poder de observação e alguma cultura. A criança não o pode ter, e o jovem está demasiado ocupado com a sua própria importante pessoa para que note com a necessária indulgência algum absurdo de outros. O sentido de humor é coisa da idade madura, quando já se tem vagar para observar e indulgência para notar o absurdo com um sorriso.
O absurdo de que falo é pequeno, insignificante. Observa-se, ouve-se em casa, numa sala, numa loja. Fixa-se. Relembra-se com gosto.
Dado que não se trata de qualidade ou virtude estou á vontade para dizer que tenho sentido de humor. “Que delícia”, digo para mim perante um desses pequenos absurdos que a vida corrente nos oferece. Se a coisa for particularmente suculenta sinto necessidade de a partilhar. Telefono à minha filha, que a saberá apreciar. Outra pessoa não lhe acharia a mesma graça, ou nem acharia graça nenhuma.
O sentido de humor vive, alimenta-se dos pequenos disparates.
-Como está o tempo por aí, Rosa?
-Péssimo, pessimista, minha senhora. A Rosa era uma fonte inesgotável de absurdos que me ficaram em grata memória.
O sentido de humor diverte e pode transformar a irritação em gozo.
No noticiário das 8 da manhã na Antena 1 preenchem-se por vezes os pequenos intervalos com canção berrada por meninas prendadas, com letra absurda. É tão mau, tão mau, que incomoda. Pensei escrever ao Provedor. Até que um dia me dei ao trabalho de ouvir uma daquelas obras até ao fim. Agora as ‘letras’ já não me irritam, o seu absurdo diverte-me. Gosto de ter sentido de humor.

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FACTURAS

>> segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Todos sabemos o que é uma factura, e, bons alunos que somos, das aulas de Economia e Finanças, que diariamente nos são dadas por rádio, televisão, jornais e revistas, estamos familiarizados com expressões como “quem paga a … é…”, “Eles apresentarão a factura…”.
A factura conta uma história, mas não aspira a qualidade literária, não pretende agradar pela leitura, não é essa a sua missão. Mas há excepções. Guardo, e releio com gosto a factura passada a 9 de Agosto de 1886 por um pintor de arte sacra, pela sua obra de restauro na igreja do Bom Jesus do Monte. Aqui a transcrevo. Quem sabe? Talvez encontre mais algum apreciador.

SERVIÇOS
Por corrigir os dez mandamentos, embelezar Pôncio Pilatos e pintar-lhe as fitas 1$700 rs
Um rabo novo para o galo de São Pedro e pintar-lhe a crista 1$600 rs
Dourar e pôr penas novas na asa esquerda do anjo da guarda 1$230 rs
Lavar o criado do Sumo Sacerdote e pintar-lhe as suíças 1$600 rs
Tirar as nódoas ao filho de Tobias 2$000 rs
Uns brincos novos para a filha de Abraão $ 930 rs
Avivar as chamas inferno, pôr rabo novo ao diabo e fazer vários concertos nos condenados 2$400 rs
Renovar o céu, arranjar as estrelas e limpar a lua 1$400 rs
Retocar o purgatório e pôr-lhe almas novas 1$830 rs
Compor o fato e a cabeleira de Herodes 1$000 rs
Pôr uma pedra nova na funda de David, engrossar a cabeça de Golias e alargar as pernas a Saúl 1$200 rs
Adornar a arca de Noé, compor a túnica do filho pródigo e limpar a orelha esquerda $600 rs
Total 17$490 rs”.

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Robinson Crusoe

>> segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A primeira vez que li Robinson foi em criança, em alemão. Numa encadernação cartonada verde, com uma estampa colorida na frente mostrando Robinson na sua jangada transportando os preciosos objectos salvos do navio afundado. Mais tarde comprei o texto original inglês para completar os meus clássicos. Reli o livro a partir do capítulo do naufrágio. Agora tenho o livro em Audio, e ouvi os primeiros capítulos. Fiquei a saber que o herói da história era filho de uma senhora inglesa de apelido Robinson e de um alemão de apelido Kreutzer, e que esses dois apelidos passaram a ser o seu nome próprio. Kreutzer sendo transformado em Crusoe. Mais interessante é a história da amizade de Robinson com um capitão português. Esse capitão salvara Robinson que andava à deriva num pequeno bote no qual fugira do cativeiro em que se encontrava. O capitão da nau portuguesa é um modelo de bondade e honestidade, dá tão bons conselhos ao jovem Robinson, ajuda-o a resolver os problemas no Brasil, e merece de tal forma a gratidão de Robinson que este o nomeia por seu herdeiro no testamento que redige antes de partir para a viagem que o devia levar à costa da Guiné adquirir negros, e que teve o trágico desfecho que todos conhecemos, e com o qual compadecemos. E quase todos ignorámos essa figura de capitão de nau portuguesa, exemplar de bondade, caridade e honestidade. A literatura náutica não cita muitos capitães com essas características mas Robinson Crusoe conheceu um. Se o querem conhecer não saltem os primeiros capítulos das aventuras de Robinson Crusoe.

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Os gostos dos autores

>> segunda-feira, 18 de julho de 2011

Realizei um dia, não sei a que propósito, que em todos os meus livros se fala por sua vez, de uma forma ou de outra, de livros. A coisa sucedeu espontaneamente, não porque fosse necessário à acção. Deu-se, creio eu, porque o livro faz de tal forma parte da minha pessoa, que tinha de surgir na minha escrita.
Decerto, pensei, que daí se poderia concluir que todo o autor que trouxesse a leitura para os seus livros – estou a falar em ficção – seria também um leitor, e que, por outro lado, se podia concluir que aquele autor que nunca sentisse a necessidade de utilizar o livro como assunto ou objecto da sua narrativa, que esse provavelmente não era um grande apreciador de outros livros.
Examinei o caso. Constatei com espanto que há autores em cujos livros o objecto ‘livro’ não aparece.
Porque não sentiam a necessidade de o mencionar? Ou por o autor não ser um ‘leitor’, não ser apaixonado da leitura? Creio que é esta a razão. Não falam de livros, porque não são leitores.
Veja-se Agatha Christie. Não me lembro se ela fala de leituras na sua Autobiografia, mas nos seus policiais ‘o livro’ não aparece. Miss Marple faz croché e tricot, é apaixonada de jardinagem, mas não lê. Mr. Poirot, o seu outro detective, reflecte sorvendo um licor adocicado, nunca pega num livro. Os criminosos que Miss Marple e Mr. Poirot desmascaram, são em geral pessoas respeitáveis, bem inseridas na sua comunidade, têm as mais variadas ocupações e distrações, mas a leitura não faz parte delas.
Apostaria que a grande Agatha era apaixonada jardineira, mas não uma leitora.
E Simenon? O inspector Maigret, o detective que Simenon criou, não lê. Mesmo quando ele e Madame Maigret estão de férias, eles não lêem.
O mesmo porém não se dá com os criminosos que o Inspector persegue. Entre estes, e na maioria são de modesta condição, há um ou outro leitor, um deles é um encadernador de obras de grande qualidade. Concluo que Simenon era conhecedor de livros, e talvez ’leitor’.
Passemos a outro género de ficção, e outros autores. Basta ler A Cidade e as Serras e a Ilustre Casa de Ramires para saber com absoluta certeza que Eça de Queiroz era um apaixonado leitor. Gonçalo Ramires escreve um livro e discorre sobre leituras. Jacinto tem em Paris uma grande biblioteca, e lê Homero em Tormes.
Umberto Eco, que põe uma biblioteca no centro de uma sua obra é fatalmente um grande leitor.
E o que é que isso tem? Perguntarão. Nada, mas a mim diverte-me. Assim como me diverte concluir, que Agatha Christie só devia conhecer a cozinha inglesa, e a essa na perfeição, já que muitos dos crimes que ela imagina, são de envenenamento, e em geral servido em produtos culinários. E algumas dessas especialidades, como as sanduíches de “egg and sardines”, que Miss Marple aprecia, não falam muito a favor da cozinha britânica. Parece-me que Mr. Poirot não a apreciava, mas Agatha Christie não fala em algum bom prato que este estrangeiro apreciasse. Porque não conhecia outra cozinha que a da sua Ilha.
Que diferença entre ela e Simenon e os respetivos detectives. Cassoulet, omelette aux fines herbes, crème anglaise onctueuse, cada crime, cada prato.
E, na outra literatura, lá temos Eça de Queiroz e o lirismo com que gaba os pratos da cozinha portuguesa.
Quer o queiram ou não, os autores revelam nos seus livros alguns dos seus gostos, e eu gosto de os descobrir.
Bem sei que não interessa a ninguém mas a mim diverte-me.

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Sobre este blogue

Libri.librorum pretende ser um blogue de leitura e de escrita, de leitores e escritores. Um blogue de temas literários, não de crítica literaria. De uma leitora e escritora

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