O humor não se aprende

>> segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Consta-me que acaba de ser publicado um livro intitulado “Seis histórias picantes” da autoria de seis mulheres. O título é um pouco confuso, não se percebe se estamos perante histórias de seis acontecimentos picantes, ou se estamos perante uma colecção de seis ‘pequenas histórias’ com essa conexão. Duvido do mérito literário da obra colectiva, mas a coisa, em si, é fazível. Como o seria com seis histórias melancólicas, ou seis histórias alegres, ou seis histórias filosóficas, ou seis histórias satíricas, ou seis histórias assustadoras. Suponhamos porém que o editor sugeria às seis autoras que elas escrevessem seis histórias de humor, ou talvez as mesmas histórias com humor. A sugestão não seria atendida, não o poderia ser. A não ser, o que é pouco provável, que todas as seis autoras fossem dotadas dessa estranha coisa que se convencionou designar por humor.
O humor não se comanda, não se aprende. Um autor, grande ou pequeno, tem humor; não o estudou, não o aprendeu, não o adquiriu com a experiência. Escreve com humor porque tem humor. E isso ainda ninguém soube explicar.

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Livres de pensar

>> segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Entre as cantigas que na nossa escola se aprendiam na lição de canto uma delas – mal traduzida do alemão – rezava assim:
“Os pensamentos são livres,
Ninguém os pode adivinhar
Nenhum caçador caçar,
Fiquem-se por aqui
Os pensamentos são livres”
A música era simples, talvez por isso a canção nos era ensinada tão cedo, não era decerto entendida por nós pelo seu valor filosófico, cantávamos ou berrávamos a cantiga sem atender ao seu significado. Pela vida fora não me faltou leitura sobre o que seja liberdade, mas de todas essas leituras a que me ficou foi a canção da minha lição de canto. Sei que o homem tem de ser livre, que perante a lei é livre, mas a vida ensinou-me que na realidade a liberdade não existe. A consciência prende a acção, o amor prende-nos aos filhos, aos pais, ao marido ou outros amores. Gostamos da nossa pátria, estamos presos a ela pelo sentimento. Estamos sempre presos. Só nos pensamentos somos verdadeiramente livres. Ninguém os pode adivinhar, nenhum caçador caçar, somos livres de pensar.

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Cartas ao director

>> segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Gostava de perceber o que faz com que se escrevam
‘Cartas ao director’.
Ao longo da vida escrevi – em mente e a preto e branco – cartas ao director. Mandei talvez sete ou oito ao seu destinatário, e destas sete ou oito conto quatro publicadas. Considerava a coisa perfeitamente normal. Até que me lembrei de procurar entre os meus conhecimentos outra ou outro autor de uma ou mais ‘Cartas ao Director’. Não conheço nenhum. Entre parentes próximos e afastados, e simples conhecidos nem um escreve ou escreveu cartas a um director de jornal. Nem um sentiu em si o imperativo desejo de escrever a um desses senhores, e, através dele, ao leitor do periódico por ele dirigido para lhes dizer o que ele, autor da carta, pensava sobre determinada situação, acção, opinião. Não houve um, que, tal como eu, sentisse a imperativa necessidade de apontar uma falta de lógica no raciocínio, um erro literário ou histórico.
Ignoro o critério a que obedece a escolha que os jornais fazem das cartas que lhes são dirigidas, e se recebem muitas ou poucas dessas missivas. Em geral publicam duas ou três cartas, e creio que dão a preferência a temas políticos, contanto que pouco contenciosas. Dedicam um pequeno espaço ao género. Os seus congéneres estrangeiros são mais generosos, e alguns, como os ingleses, publicam com entusiasmo cartas sobre os mais variados assuntos, com os quais os seus leitores se indignaram, ou irritarem, ou de outra forma se incomodaram. Porque a razão de escrever esse tipo de cartas é sempre esse: o desejo de emendar os erros alheios. Tenho justamente uma ‘Carta ao Director’ pronta para ser enviada. Questiono nela se será permissível que, a pretexto de segurança de um membro do governo, se prejudiquem os seus vizinhos.
Ainda não sei se a enviarei.

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'Taklamakan'

>> segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Na Ásia Central, nas vertentes sul do Pamir, as areias do deserto de Taklamakan conservam, praticamente incorruptos, corpos de homens, mulheres e crianças que há quatro mil anos ali viveram, ou talvez de passagem ali foram obrigados a ficar. A gente que hoje vive no oásis do Taklamakan é de estatura baixa, cabelo escuro, olhos rasgados.
Aqueles que a areia cobriu, eram gente de grande estatura, cabelos loiros ou ruivos, olhos azuis. Exames provaram que eram tão ‘europeus’ como nós. Um grupo ou uma tribo que não seguiu a migração dos seus congéneres quando estes gradualmente foram migrando para oeste. Provavelmente achavam-se seguros nas verdes pastagens do Takllamakan. Os outros que se fossem, eles ficavam. Até que as areias vieram. Agora ali estão, testemunhos daquilo que é um dos grandes momentos da história da humanidade: a migração de leste para oeste dos povos de pele branca, que originalmente ocupavam as terras da Ásia Central a norte dos Himalaias, e que, um dia, por razões sobre as quais só se pode especular, de lá partiram. Vieram em vagas espaçadas, ocupando gradualmente um minúsculo espaço de terra a que se dá o nome de Europa.
Foi em “In the shadow of the silk road” de Colin Forbin,que ouvi pela primeira vez falar do Taklamakan e dos seus primitivos habitantes. O livro é lento, contemplativo, como que escrito ao passo das caravanas da rota da seda. É um livro triste pelo que os contactos humanos revelam de aspirações frustradas, de um sonho irrealizável: a Europa. O Oeste.

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Sobre este blogue

Libri.librorum pretende ser um blogue de leitura e de escrita, de leitores e escritores. Um blogue de temas literários, não de crítica literaria. De uma leitora e escritora

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