Economia Doce

>> segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Nos primeiros anos do século XIX a mulher portuguesa viajava pouco e se viajava era acompanhada, que assim é que devia ser. Maria Teresa e Isabel de Ornelas (irmãs de Ayres de Ornelas e primas de minha mãe) não se importavam muito com a opinião pública. Eram grandes viajantes e viajavam sozinhas. Inteligentes, curiosas do que se passava fora de Portugal seguiam conferências, visitavam exposições, falavam com gente de toda a qualidade e por toda a parte, e segundo consta, ao menor pretexto enalteciam as virtudes do seu país natal. Eram perfeitas – e gratuitas – embaixadoras culturais e económicas. Sucedeu que em Paris parassem um dia diante da montra de uma pastelaria e constataram com espanto e não pequena satisfação que a montra expunha doces regionais do Algarve. Pequenos cestos de vime com frutos em massa de amêndoa, Dons Rodrigos. Outros. Olharam encantadas. Depois baixaram os olhos, em letras doiradas sobre fundo negro leram: ”Faits par les sauvages dês cotes du Portugal”. Conta-se que entraram na pâtisserie, e em perfeito francês disseram o que tinham a dizer.
Esta velha história lembrou-me – não sei porquê – o enaltecimento económico do pastel de nata.

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O humor não se aprende

>> segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Consta-me que acaba de ser publicado um livro intitulado “Seis histórias picantes” da autoria de seis mulheres. O título é um pouco confuso, não se percebe se estamos perante histórias de seis acontecimentos picantes, ou se estamos perante uma colecção de seis ‘pequenas histórias’ com essa conexão. Duvido do mérito literário da obra colectiva, mas a coisa, em si, é fazível. Como o seria com seis histórias melancólicas, ou seis histórias alegres, ou seis histórias filosóficas, ou seis histórias satíricas, ou seis histórias assustadoras. Suponhamos porém que o editor sugeria às seis autoras que elas escrevessem seis histórias de humor, ou talvez as mesmas histórias com humor. A sugestão não seria atendida, não o poderia ser. A não ser, o que é pouco provável, que todas as seis autoras fossem dotadas dessa estranha coisa que se convencionou designar por humor.
O humor não se comanda, não se aprende. Um autor, grande ou pequeno, tem humor; não o estudou, não o aprendeu, não o adquiriu com a experiência. Escreve com humor porque tem humor. E isso ainda ninguém soube explicar.

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Livres de pensar

>> segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Entre as cantigas que na nossa escola se aprendiam na lição de canto uma delas – mal traduzida do alemão – rezava assim:
“Os pensamentos são livres,
Ninguém os pode adivinhar
Nenhum caçador caçar,
Fiquem-se por aqui
Os pensamentos são livres”
A música era simples, talvez por isso a canção nos era ensinada tão cedo, não era decerto entendida por nós pelo seu valor filosófico, cantávamos ou berrávamos a cantiga sem atender ao seu significado. Pela vida fora não me faltou leitura sobre o que seja liberdade, mas de todas essas leituras a que me ficou foi a canção da minha lição de canto. Sei que o homem tem de ser livre, que perante a lei é livre, mas a vida ensinou-me que na realidade a liberdade não existe. A consciência prende a acção, o amor prende-nos aos filhos, aos pais, ao marido ou outros amores. Gostamos da nossa pátria, estamos presos a ela pelo sentimento. Estamos sempre presos. Só nos pensamentos somos verdadeiramente livres. Ninguém os pode adivinhar, nenhum caçador caçar, somos livres de pensar.

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Cartas ao director

>> segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Gostava de perceber o que faz com que se escrevam
‘Cartas ao director’.
Ao longo da vida escrevi – em mente e a preto e branco – cartas ao director. Mandei talvez sete ou oito ao seu destinatário, e destas sete ou oito conto quatro publicadas. Considerava a coisa perfeitamente normal. Até que me lembrei de procurar entre os meus conhecimentos outra ou outro autor de uma ou mais ‘Cartas ao Director’. Não conheço nenhum. Entre parentes próximos e afastados, e simples conhecidos nem um escreve ou escreveu cartas a um director de jornal. Nem um sentiu em si o imperativo desejo de escrever a um desses senhores, e, através dele, ao leitor do periódico por ele dirigido para lhes dizer o que ele, autor da carta, pensava sobre determinada situação, acção, opinião. Não houve um, que, tal como eu, sentisse a imperativa necessidade de apontar uma falta de lógica no raciocínio, um erro literário ou histórico.
Ignoro o critério a que obedece a escolha que os jornais fazem das cartas que lhes são dirigidas, e se recebem muitas ou poucas dessas missivas. Em geral publicam duas ou três cartas, e creio que dão a preferência a temas políticos, contanto que pouco contenciosas. Dedicam um pequeno espaço ao género. Os seus congéneres estrangeiros são mais generosos, e alguns, como os ingleses, publicam com entusiasmo cartas sobre os mais variados assuntos, com os quais os seus leitores se indignaram, ou irritarem, ou de outra forma se incomodaram. Porque a razão de escrever esse tipo de cartas é sempre esse: o desejo de emendar os erros alheios. Tenho justamente uma ‘Carta ao Director’ pronta para ser enviada. Questiono nela se será permissível que, a pretexto de segurança de um membro do governo, se prejudiquem os seus vizinhos.
Ainda não sei se a enviarei.

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Sobre este blogue

Libri.librorum pretende ser um blogue de leitura e de escrita, de leitores e escritores. Um blogue de temas literários, não de crítica literaria. De uma leitora e escritora

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