‘O retrato do Camões’

>> quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

1) Cruzamento de dados
Com a crise e a austeridade entraram novas expressões na linguagem televisiva e jornalística portuguesa. Uma dessas expressões é ‘cruzamento de dados’. Usa-se em geral em relação à actividade do Fisco, e à forma como esta amável entidade descobre as prevaricações dos contribuintes. Quando recentemente fui avisada que na minha declaração de IRS para o ano de 2008 houvera um erro, e o fisco fora lesado em 21, 08 Euros, explicaram-me que o erro fora detectado ‘por cruzamento de dados’.
Sucede que, praticamente na mesma ocasião, me foi dado observar o frontispício da luxuosa edição dos Lusíadas mandada executar em Paris por pelo morgado de Mateus. O frontispício tem a imagem do poeta devidamente coroado de louro. Lembrei-me do tão diferente retrato de Camões na prisão de Goa, de como um dos problemas do retrato seria resolvido pela troca de informações de duas investigadoras, ou seja, como hoje se diria, ‘por cruzamento de dados’.
Fui uma das protagonistas do caso, e houve um momento em que me poderia ter gabado, sem receio de ser desmentida, ser a única pessoa que podia dizer, com prova documental, quem fora um dos primeiros possuidores do dito retrato. Não era aquele indicado no verso do mesmo, mas era por ele que se chegava à verdade. A coisa tem uma certa graça, e creio que merece ser contada. O que tentarei fazer no próximo, ou próximos textos.
2) Coroas de louro
O século XIX gostava de recordar de forma decente os seus poetas. Mesmo que os falecidos em vida tivessem frequentado de preferência as tabernas aos salões eram recordados em efígie de casaca e até de chapéu alto. Para com os poetas do longínquo passado, de quem se desconhecia a fisionomia, imaginava-se esta sempre com respeito. E foi assim que por volta dos anos vinte do século XIX, quando das comemorações camonianas, surgiu em gravura e escultura um Luís de Camões de agradáveis feições e elegantemente ataviado à moda de fins do século XVI. Um perfeito cortesão. A coroa de louro com a qual por vezes o figuravam, não parecia descabida. É esse Camões que todos conhecemos, e raras vezes nos questionamos se ele teria sido de facto assim. Não era. Há um retrato do poeta que mostra um homem muito diferente.

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Economia Doce

>> segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Nos primeiros anos do século XIX a mulher portuguesa viajava pouco e se viajava era acompanhada, que assim é que devia ser. Maria Teresa e Isabel de Ornelas (irmãs de Ayres de Ornelas e primas de minha mãe) não se importavam muito com a opinião pública. Eram grandes viajantes e viajavam sozinhas. Inteligentes, curiosas do que se passava fora de Portugal seguiam conferências, visitavam exposições, falavam com gente de toda a qualidade e por toda a parte, e segundo consta, ao menor pretexto enalteciam as virtudes do seu país natal. Eram perfeitas – e gratuitas – embaixadoras culturais e económicas. Sucedeu que em Paris parassem um dia diante da montra de uma pastelaria e constataram com espanto e não pequena satisfação que a montra expunha doces regionais do Algarve. Pequenos cestos de vime com frutos em massa de amêndoa, Dons Rodrigos. Outros. Olharam encantadas. Depois baixaram os olhos, em letras doiradas sobre fundo negro leram: ”Faits par les sauvages dês cotes du Portugal”. Conta-se que entraram na pâtisserie, e em perfeito francês disseram o que tinham a dizer.
Esta velha história lembrou-me – não sei porquê – o enaltecimento económico do pastel de nata.

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O humor não se aprende

>> segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Consta-me que acaba de ser publicado um livro intitulado “Seis histórias picantes” da autoria de seis mulheres. O título é um pouco confuso, não se percebe se estamos perante histórias de seis acontecimentos picantes, ou se estamos perante uma colecção de seis ‘pequenas histórias’ com essa conexão. Duvido do mérito literário da obra colectiva, mas a coisa, em si, é fazível. Como o seria com seis histórias melancólicas, ou seis histórias alegres, ou seis histórias filosóficas, ou seis histórias satíricas, ou seis histórias assustadoras. Suponhamos porém que o editor sugeria às seis autoras que elas escrevessem seis histórias de humor, ou talvez as mesmas histórias com humor. A sugestão não seria atendida, não o poderia ser. A não ser, o que é pouco provável, que todas as seis autoras fossem dotadas dessa estranha coisa que se convencionou designar por humor.
O humor não se comanda, não se aprende. Um autor, grande ou pequeno, tem humor; não o estudou, não o aprendeu, não o adquiriu com a experiência. Escreve com humor porque tem humor. E isso ainda ninguém soube explicar.

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Livres de pensar

>> segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Entre as cantigas que na nossa escola se aprendiam na lição de canto uma delas – mal traduzida do alemão – rezava assim:
“Os pensamentos são livres,
Ninguém os pode adivinhar
Nenhum caçador caçar,
Fiquem-se por aqui
Os pensamentos são livres”
A música era simples, talvez por isso a canção nos era ensinada tão cedo, não era decerto entendida por nós pelo seu valor filosófico, cantávamos ou berrávamos a cantiga sem atender ao seu significado. Pela vida fora não me faltou leitura sobre o que seja liberdade, mas de todas essas leituras a que me ficou foi a canção da minha lição de canto. Sei que o homem tem de ser livre, que perante a lei é livre, mas a vida ensinou-me que na realidade a liberdade não existe. A consciência prende a acção, o amor prende-nos aos filhos, aos pais, ao marido ou outros amores. Gostamos da nossa pátria, estamos presos a ela pelo sentimento. Estamos sempre presos. Só nos pensamentos somos verdadeiramente livres. Ninguém os pode adivinhar, nenhum caçador caçar, somos livres de pensar.

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Sobre este blogue

Libri.librorum pretende ser um blogue de leitura e de escrita, de leitores e escritores. Um blogue de temas literários, não de crítica literaria. De uma leitora e escritora

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