Aprender

>> segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Adriano Moreira fez noventa anos, e o prof. Marcelo Rebelo de Sousa comentava no Domingo, com admiração, o facto de Adriano Moreira, apesar dos seus noventa anos, se interessar por coisas novas, de ele ainda gostar de aprender. Nesta matéria sei mais que o Professor, posso esclarecê-lo. Esta coisa espantosa que se chama cérebro humano é feita para acumular saber. Fá-lo ao longo dos anos, quer o dono do cérebro o queira ou não. Não para aos noventa anos, sou disso testemunha, já que poucos meses me separam de Adriano Moreira. Não aprendemos para fins de ordem utilitária. Não aprendemos com qualquer fim em vista. Aprendemos porque sim. Enquanto o nosso cérebro trabalha, aprendemos e gostamos de saber.

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Bilhete Postal Ibérico

>> segunda-feira, 16 de julho de 2012

Não sou filatelista, mas não seria compreensível, se, depois de ter lido, copiado, e organizado uma enorme coleção de cartas do século XIX, eu não tivesse notado alguma particularidade na evolução do envio nesse século de cartas e bilhetes pelo correio. Os primeiros selos portugueses são de 1853, mas notei que mesmo depois da sua existência, nem todas as cartas levavam selo, que muitas continuavam a ser franqueadas com um selo estampado, uma ‘estampilha’. A carta ainda não se colocava em envelope; era dobrada de forma a se poder fechar sobre si, e, num rectângulo da página exterior, escrevia-se nome e morada do destinatário. O correio estampilhava a carta nesse ‘sobrescrito’. Faltava pagar. Não sei bem como a coisa funcionava, mas sei que o porte podia ser pago pelo destinatário. Tenho a certeza que as cartas de 9 e 10 páginas, que as irmãs de D. Maria Joaquina Saldanha da Gama lhe escreviam para a Madeira não eram pagas pelas autoras das cartas, mas pela sua destinatária. Talvez essas cartas fossem marcadas de distinta maneira. Não sei, e de presente não me vou dar ao trabalho de aprofundar a questão. Do que quero falar é de dois postais, que me apareceram, e que me espantam. O ‘Bilhete Postal’ nasceu em meados do século XIX. Um professor vienense sugeriu em artigo de jornal a criação de um meio de enviar pequenas mensagens, dispensando a carta, talvez um cartão, com espaço para endereço e mensagem. Alemães e ingleses gostaram da ideia, e executaram-na, discutindo ainda hoje quem fora o primeiro. É coisa corrente entre aqueles primos. O facto é, que a ideia pegou. Para comunicarem um ao outro uma pequena notícia, o correspondente do século XIX não precisava de carta, passava a ter um ‘bilhete postal’. Portugal gosta de ponderar bem os prós e contras das grandes questões, e faz muito bem. Levou-se portanto algum tempo a introduzir aquela novidade. Assim, quando em Junho de 1878, a condessa de Rio Maior se prepara para uma viagem que a levaria a Paris, ela compra postais para mandar frequentes notícias às amigas. Não sabia ainda como a coisa funcionava e que não se podia deitar o postal português em qualquer estação espanhola. Que este tinha de levar estampilha espanhola. “A Maria ia munida de postais para escrever nas estações”, lemos numa carta, “dispunha-se a mandá-los de Espanha. Acho que não se capacitou com o que a tia lhe disse, que os nossos bilhetes não podem lá servir por causa da estampilha”. Sem estampilha a coisa não ia. Mesmo quando o postal – e aqui é que nasce o meu espanto – mesmo quando num postal de 1905 se podem ler, em elegante banda verde, as palavras: ”Portugal e Espanha”. E um selo de D. Carlos. Provavelmente toda gente instruída sabe que assim era, e tem a respectiva explicação à mão de semear. Eu não sabia, continuo a não saber, não tenho explicação e acho curioso.

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Cartas do Século XIX

>> segunda-feira, 11 de junho de 2012

Vou enviar a quatro editoras o CD com o texto do 1º volume de um livro de correspondência feminina do século XIX. O livro intitula-se: UMA ÉPOCA, UMA SOCIEDADE, UMA FAMÍLIA O século XIX na correspondência de D. Maria Teresa Sousa Botelho Condessa da Ponte, e suas filhas 1834-1910 1º Volume Pensei inicialmente em publicação de autor, mas a releitura que fiz agora das cartas, convenceu-me que era errado não contactar as editoras. O interesse humano e histórico das cartas é tal, que a minha modéstia neste caso, não se justificava, e que não consultar editora seria um erro. Quatro mulheres, inteligentes, cultas e espirituosas, contam à filha ou à irmã ausente, em enormes cartas o que se passa no seu dia-a-dia, o que aconteceu, ou está por acontecer na sua imensa parentela, o que esta, ou aquela, disse e fez. Falam de festas que começavam ao almoço e terminavam de madrugada, de noivados e casamentos, de doenças e dos que as tratavam. Lemos de curiosos tratamentos aconselhados por médicos, que hoje dão nomes a ruas e estabelecimentos hospitalares. Não faltam apreciações de actos e personagens da vida pública, de deputados, jornalistas, de ministros e diplomatas, de reis e rainhas e daqueles que os rodeavam. A sociedade que este livro dá a conhecer desapareceu da cena com a implantação da República em 1910. Mas esse mundo existiu, e merece ser conhecido nas suas grandes virtudes e nas suas enormes fraquezas. O facto de se tratar de correspondência, não deve assustar o leitor. Pode esquecer que está a ler cartas. Está a ouvir conversas. A ouvir contar histórias por vezes alegres, por vezes tristes, por vezes divertidas, por vezes absurdas. De gente que viveu há cem ou cento e cinquenta anos. Observação à margem: O livro tem comentários e notas indispensáveis à sua compreensão, mas ainda me faltam algumas. Haverá algum leitor deste blogue que me possa dizer quem era a figura tratada em uma das cartas por “D. Magnífico”? O contexto não permite reconhecer de quem se trata, se o sentido é irónico, e o sobrenome dado pela autora, ou se era corrente. É citado em carta de 1875: Fulano ia “ao sarau político de D. Magnífico,..”

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Sentido de História

>> segunda-feira, 14 de maio de 2012

História – mesmo designada por Ciências Sociais - não é uma ciência. Se amanhã um grande cientista declarasse que tinha estado a pensar, e que chegara à conclusão, que dois e dois não eram quatro, e sim quatro e qualquer coisa, o senhor seria respeitosamente conduzido ao mais próximo manicómio. Porque dois e dois são quatro, e se assim não fosse, e como tal reconhecido, ainda vivíamos em cabanas de lama ou cana. No caso da História a coisa é diferente. Se um eminente Historiador declarasse que certa batalha decisiva do passado não se dera afinal no dia e ano que todos conheciam, mas dois anos antes, alguns auditores encolheriam os ombros, o homem não estava bom da cabeça, mas não vinha dali mal ao mundo. Dias depois ninguém pensaria mais no caso. A não ser, possivelmente, uma daquelas curiosas criaturas que se gabavam de ter ‘sentido de história’. A esses todo o problema histórico interessava. Bom proveito. A maior parte da humanidade passa muito bem sem conhecer o passado, o homem europeu é que começou muito cedo a desejar desvendar, como disse o poeta, as brumas do passado. Queria saber como aquilo fora, e a questionar o porquê de ter sido de uma, e não de outra forma. Um dia, respondendo a esse interesse, nasceu uma disciplina chamada História, na qual se ensinava aos meninos como é que as coisas se tinham passado em tempos idos. Alguns desses meninos optariam um dia por estudar História a fundo, seriam professores ou escritores de História. O que não lhes dava automaticamente aquilo que designo por sentido de História. Trata-se de um sentido, e um sentido ou se tem, ou não se tem. Não se aprende. Ter sentido de História pressupõe naturalmente conhecimentos históricos. Aqueles que são básicos, e aqueles que se vão adquirindo pelos estudos, e estes aliados à imaginação, à curiosidade e à reflexão. A História passa a estar presente no pensamento, tem-se o sentido da História. Associam-se acontecimentos dos nossos dias a factos e dados do passado, e a este não se considera particularmente estranho ou maravilhoso. O passado não espanta a esses curiosos. Sentem-se nele à vontade. Creio poder dizer que tenho esse sentido. Não maço com ele, não impinjo a ninguém doutas reflexões ou associações históricas, é de uso particular. O que se segue é a excepção que confirma a regra. Um dia leio no arquivo do mosteiro de Lorvão de monjas cistercienses, um documento de contrato de arrendamento do século XIV. Na substância o documento não difere de muitos outros que já li. Noto porém que a letra é mais bicuda do que a usual, e que há no latim em que é redigido um ou outro termo que não é de ‘latinório’ português, que é latinório de estrangeiro, e, com toda a probabilidade, de um alemão. Tem graça, pensei. Vi em imaginação um religioso alemão de passagem por ali, imaginei o procurador do mosteiro ocupado e um contraente impaciente, querendo o seu contrato sem demora. O monge alemão oferece os seus serviços. O procurador aceita. Nada mais natural. O caso não afectava qualquer aspecto da história monástica, se dei por ele, foi por saber alemão e português. Apreciei-o contudo, achei-lhe graça, e anos passados ainda me lembro daquilo. Atribuo-o ao ‘sentido de História’.

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Sobre este blogue

Libri.librorum pretende ser um blogue de leitura e de escrita, de leitores e escritores. Um blogue de temas literários, não de crítica literaria. De uma leitora e escritora

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