Uma Época. Uma Sociedade. Uma Família.

>> segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Este livro nasceu quando há muitos anos encontrei no sótão da casa de meus pais, um baú cheio de cartas. O baú pertencera a D. Theresa Saldanha da Gama, minha avó materna, as cartas eram as que ela recebera ao longo da sua vida. Da primeira à última. Ofereci-me para as classificar e ordenar. Todas tinham interesse familiar, e algumas mais do que isso. As cartas da mãe e das irmãs da minha avó diferenciavam-se das outras pelo conteúdo e pelo estilo. Essas copiei, com a ideia de as divulgar entre parentes e amigos. Sucede que a este primeiro núcleo se vieram a juntar outras de grande interesse. Estas dirigidas pelas mesmas correspondentes a D. Maria Joaquina Saldanha da Gama, irmã da minha avó, e ainda as muitas cartas que esta escrevera, pouco antes da queda da monarquia, a seu filho Francisco, que então trabalhava em África. Convenci-me que, em conjunto, as cartas mereciam mais que uma leitura exclusivamente familiar, que elas mereciam ser facultadas a um público mais vasto, e que se pudesse fazer delas uma leitura histórica. Não que elas viessem alterar factos históricos conhecidos. O seu valor está naquilo que nelas se revela da vida social portuguesa no século XIX, e, em particular, da forma de viver e de pensar daquele grupo social que mais viria a sofrer com a implantação da República em 1910, e que, com ela, praticamente desapareceu: a nobreza histórica, a classe na qual os reis, não digo que se apoiassem, não há apoio em bengala fraca, mas com a qual mantinham maior intimidade. Um primeiro volume contendo as cartas que vão de 1834 a 1880 foi publicado pela 'Aletheia e recentemente apresentado. Terei o gosto de dar a conhecer nos próximos artigos do meu blogue.

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O escritor, as suas personagens, e a TV

>> segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O escritor não cria as figuras dos seus livros copiando pedanticamente figuras reais. As personagens nascem da sua imaginação, mas a imaginação precisa de exemplos para trabalhar. Quanto mais pessoas o escritor veja, observe e estude, melhor irá trabalhar a sua imaginação, melhor irá criar. O escritor pode dar a alguma das suas figuras fictícias as idiossincrasias de alguém que conhece ou viu, mas isso não quer dizer que esteja a copiar um original. Inspirou-se nele. O escritor é naturalmente observador, as pessoas interessam-no. Se não o interessassem, não seria escritor. Não estou escrevendo livro de ficção, e duvido que venha a ter tempo para outro, mas continuo a ser observadora. Recentemente, dei por mim olhando as figuras reais da nossa TV como possíveis figuras de ficção. Os telejornais fornecem um manancial riquíssimo. Surgem os locutores que leem as notícias, os comentadores das notícias e aqueles que fazem as notícias. São dezenas de figuras que passamos a conhecer. Notamos como aqueles senhores leem, como opinam, e, no caso dos políticos, o que eles fazem, fizeram, ou tencionam vir a fazer. Os locutores leem as suas notícias, não se lhes pede que tenham opinião sobre o que leem. São bons profissionais, mas figuras anódinas, sem potencial de personagem fictícia. Os comentadores - de Economia, de Futebol, de Política – diferem em interesse fictício: Os primeiros, impecavelmente vestidos, enunciando com clareza o que se passa com a Economia, agem moderadamente sobre a imaginação do escritor, os comentadores de futebol - que pululam a partir das dez horas - são descontraídos, animadas, e decerto iluminariam o autor que se atrevesse a escrever sobre problema do divino desporto. É no grupo dos comentadores de política, e, naturalmente, naqueles de quem eles comentam os feitos, que o escritor encontra maior potencial literário. Escolhidos pelas suas capacidades de análise e comunicação, são pessoas inteligentes e cultas. Têm características que à força de os vermos acabamos por fixar. Em resumo, interessam ao escritor. Pessoalmente, servi-me da figura do professor Marcelo Rebelo de Sousa para uma das personagens do meu livro ‘Júnia ou a Justiça de Trajano’. Dado que não conheço pessoalmente o professor, não é um retrato, nem pretende ser. É uma personagem do mesmo tipo do Professor. Porque, note-se, é só isso que a TV nos dá a conhecer. De figuras como o professor Marcelo, o autor utilizará – chamemos-lhe assim – a personagem intelectual que a TV apresenta. De outras figuras ele poderá aproveitar – chamemos-lhe assim – o seu aspecto físico. Viesse eu a escrever romance de amor no século XIX, e não deixaria de me inspirar no Dr. Passos Coelho e no Eng.º Sócrates como tipos de galã português desses tempos, um de sala, o outro de feira. Há ainda aquelas figuras públicas que – na opinião do autor – personificam determinadas qualidades, defeitos ou idiossincrasias. Assim por exemplo, querendo o autor construir a figura eterna de maçador, terá nos doutores Cavaco, Medina Carreira e Seguro, figuras tipo, com grande vantagem de cada um desses senhores ser maçador à sua maneira. E há as senhoras locutoras e comentadoras, mas isso é outro capítulo.

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O detetive moderno

>> segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O detetive do romance policial de há vinte ou trinta anos era muito diferente do de hoje. Então era um cerebral, resolvendo os problemas e descobrindo o criminoso pela reflexão. Tinha decerto funções fisiológicas normais e uma vida afetiva com altos e baixos, mas era com ele. O leitor não tinha nada com isso. Já não estamos nesses tempos, hoje acompanhamos o detetive nos seus relacionamentos amorosos - em geral mal sucedidos - preocupamo-nos com os filhos - é em geral divorciado, tudo isto enquanto procura resolver o crime, ou os crimes. Não é fácil. O detetive cerebral movia-se pouco, solucionava casos intrínsecos sem grande actividade física. Quando necessitava de alguma informação, havia um agente de polícia que solicitamente lhe fornecia o dado desejado. Fazia-o gostosamente, já que o resultado seria por ele aproveitado. Quando era um agente da polícia, que detetava e solucionava – o que era raro, mas sucedia – o homem tinha de se esforçar um pouco mais. Fazia algumas deslocações, telefonava, e, se necessário, telegrafava. Quando o criminoso tinha contatos fora das fronteiras, o detetive preparava sua mala e deslocava-se. Pachorrentamente. Não havia pressa. O detetive de hoje - que é sempre um agente das forças policiais - desloca-se constantemente, toma o avião, regressa em outro no mesmo dia. Obtém as necessárias informações por computador - é só preciso saber procurar - e por telemóvel. Em geral tem mais que um. O telemóvel é elemento chave do enredo. O leitor conhece a música de abertura, incomoda-se quando toca em momento inoportuno. O detetive de hoje é humano, vai ao ‘rest-room’, toma duche - frio ou quente conforme o estado do seu sistema nervoso - e, de vez em quando, come. O detetive cerebral do passado decerto se alimentava, mas não era coisa em que se falasse. Subentendia-se que homem da sua inteligência comia e bebia do melhor. O detetive de hoje é em geral americano. Os seus criadores são americanos, sabem o que dizem. Quando descrevem as refeições do seu detetive estão a falar do que sabem, estão a falar verdade. Ficamos pois a saber que o detetive de hoje se alimenta praticamente de sanduiches, e estas de composições surpreendentes: sanduiche de sardinha com peanut butter, sanduiche de carne fumada acompanhada de pequeno copo de cranberry sauce. Em casa, quando está no meio de um problema muito complicado, o detetive compõe ele próprio a sua sandwich, e sucede comê-la debruçado sobre o lava-loiça, limpando a cara à torneira e secando com guardanapos de papel. Nada nos é poupado. Quando tem um momento de lazer faz esparguete com molho bolonhês, ao qual acrescenta qualquer coisa, o que indica que gosta de cozinhar, só que não tem tempo. Quando o homem se senta à mesa de restaurante come rapidamente uma salada, talvez um bife com ovo, que rega tudo abundantemente, com ketchup. Se o homem envolvido na solução do crime é um advogado, a composição das sanduiches é menos arrepiante. O counselor vai a restaurantes de renome, onde o criado lhe coloca um guardanapo preto sobre os joelhos. Se pede água - o que sucede quando está em cura de álcool - trazem-lhe uma garrafa de ‘european water’. Mas o que tem isto a ver com o crime e o criminoso. Nada, é uma concessão ao leitor. O leitor gosta de saber. Em tempos gostou de saber do copo de licor de Poirot e dos scones de Miss Marple. Um dia gostará de saber que o seu detetive resolve tudo ao computador e se regala com concentrados de carne, legumes e talvez até de sanduiches.

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Simpatia

>> segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Penso muita vez no que seja ‘simpatia’. A pessoa de idade é mais sensível à simpatia ou falta dela no próximo, e é na idade avançada que há a experiência que ajuda a procurar explicação para o que sejam, ou ao que, por ventura, obedeçam as qualidades, os defeitos, e outras características do comportamento humano. É um entretenimento de pessoa madura. La Rochefoucauld não era novo quando ideou as suas ´Maximes’. Pensei pois definir o que é simpatia. Recordei para o efeito homens e mulheres do meu longo passado, procurando entre eles aquele ou aquela, que tivesse achado particularmente simpático, no sentido, um pouco superficial, de ‘agradável no trato’. Não me faltaram exemplos de gente agradável, simpática: ‘nice people, nette Leute, des gens simpatiques’ dir-se-ia em inglês, alemão e francês’. Sucede que, sem premeditação, espontaneamente, pus de parte dois nomes. Os nomes de duas mulheres – falo delas no presente se bem que uma delas já não viva – das quais sentia que havia nelas uma simpatia especial. Qualquer coisa que era mais que trato agradável. A franqueza, a simplicidade, o agrado na presença da pessoa amiga, alegria, que nelas se acha, são tudo atributos que se em maior ou menor grau se encontram na pessoa simpática. Em Margarida e Teresa há tudo isso, mas há mais. A simpatia é uma característica, como podia ser a beleza, a bondade, a fealdade. Pensa-se em simpatia quando se pensa nelas. Os dicionários não são muito claros quanto ao significado da palavra. Optei pela definição que leio em Wikipedia: ”Simpatia é uma forma de magia ou feitiçaria mágica, extremamente ligada ao povo, normalmente de origem campesina e geração empírica”. Ora Teresa e Margarida, hoje de diferente condição social, são - se olharmos para trás - uma e outra, de origem campesina.

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Sobre este blogue

Libri.librorum pretende ser um blogue de leitura e de escrita, de leitores e escritores. Um blogue de temas literários, não de crítica literaria. De uma leitora e escritora

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