VIDA QUOTIDIANA DAS MONJAS NO MOSTEIRO MEDIEVAL - CAPº VII HORAS OFICINAS E OFICIAIS

>> quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016


O mosteiro era casa de oração, centrada na igreja e nas devoções. E era a casa de habitação de uma comunidade, um ‘convento’, de mulheres unidas na oração e no trabalho. Que tinham de ser alimentadas e vestidas, tratadas quando doentes e cuidadas na velhice. O seu dia estava dividido em períodos de seis ‘Horas’ de oração, de forma a realizar em perfeita harmonia o ideal monástico de oração e trabalho. Eram a hora de véspera ao fim da tarde, antes das monjas se deitarem. O que podia ser às oito no inverno, e às nove no verão. No coro agradecia-se ao Senhor o fim do dia e do trabalhos. Às 24 horas, era a hora de ‘Prima’ a primeira hora de um novo dia. No coro cantava-se ‘Saudadte Domibe in caelis’ saudando a aurora de um novo dia. Às 6 da manhã, ‘Hora  Sexta’ era a hora de levantar, de cantar ‘ Laudes,’ hino de louvor ao início de um novo dia de trabalho. A Hora Média podia ser celebrada às 9h00, chamada de ‘Terça’, às 12h00 ‘Sexta’ ou às 15h00 ‘Noa’ ou ‘Nona’.

O governo da casa era de relativa simplicidade quando o mosteiro era pequeno como a Regra recomendara. Uma comunidade reunida debaixo do mesmo tecto para fazer oração, alimentando-se de pão, vinho, peixe, fruta e hortaliça, dormindo no mesmo dormitório, e tomando as suas refeições em torno da mesma mesa, não exigia uma organização complicada. Tudo se modificava quando o número de religiosas era grande, por vezes exageradamente grande. Havia que fazer ajustes, arranjos, a casa já nada tinha a ver com a simplicidade original do monsaterio.

No entanto, grande ou pequeno, a divisão dos trabalhos domésticos era o mesmo. Dividia-se em ‘oficinas’ geridas por ‘oficinas’ escolhidas para o respectivo cargo No mosteiro pequeno as oficinas eram poucas, no mosteiro grande eram muitas. Em 1536, havia no mosteiro de Lorvão dezassete cargos e funções distintas dentro do mosteiro. Mas havia mais.

              A abadessa, ocupada com a administração, delegava o governo da casa na prioresa. Em grandes mosteiros podia haver uma sub-prioresa. Era o caso de Lorvão. No sector espiritual, a primeira oficial era a ‘cantor’, ou cantor-mor. Em Lorvão, ela tinha duas ou mais auxiliares. A cantor entoava e dirigia o coro, ensinava música e canto às noviças, e preparava a parte musical das procissões e dos ofícios solenes. Tinha outra incumbência. Talvez por se partir do princípio, que uma cantor tinha forçosamente boa dicção, era ela quem fazia a leitura da acta de recomendações que o Visitador deixara à comunidade após a sua visita e exame. A cantor-mor era naturalmente responsável pelos livros destinados aos ofícios divinos: livros de coro e de canto, que eram guardados na própria igreja, junto do altar, ou no coro. Livros levavam muito tempo a copiar custavam muito dinheiro em peles e tintas, em pagamento aos escribas e copistas, quando o livro não era produzido no ‘scriptórium’ do próprio mosteiro. Havia que ter os maiores cuidados com essas obras. Em Lorvão as monjas tinham herdado obras valiosas dos seus antecessores, e era a cantor a responsável pela sua conservação. Limpava-os, cosia ou mandava coser alguma folha solta, vigiava que não saíssem dos seus locais e que para lá voltassem depois de usados. Se os preciosos livros manuscritos do mosteiro de Lorvão sobreviveram às vicissitudes dos anos, se resistiram à humidade que sempre permeou aquelas paredes, isso deve-se com certeza aos cuidados constantes de gerações de´ cantores’.

A autora do ‘Livro das Preladas’, escreve que o ‘Livro dos Passarinhos’ - o célebre ‘Livro das Aves’ - estava na ‘Livraria do Canto Chão entregue às cantores’ .

Outra oficial ligada ao serviço divino era a sacristã. Ocupava-se da igreja, dos vasos sagrados, das vestes litúrgicas, das toalhas do altar e de tudo o resto que, de longe ou de perto, se ligava à igreja do mosteiro. Era ela a sineira

Era ela quem tocava o sino, ela a responsável pela limpeza da igreja. Era também ela quem se encarregava da iluminação, não só da igreja, como de toda a casa monástica. Comprava a cera para as velas, fabricava-as, ou mandava fabricá-las, e distribuía-as às outras oficinas. A oficina que se veio a designar por ‘sacristia’ foi criada nos primeiros anos do sec.XIV. Até lá os vasos e vestes sagrados tinham sido guardados em arcas e armários nas capelas onde eram usados.1 A sacristã era em geral coadjuvada por uma ou mais monjas, e teve muito cedo ajudantas pagas para fazer a limpeza da igreja. No mosteiro de Arouca encontramo-las entre os servidores do mosteiro já em meados do século XV.

À sacristã de Lorvão cabia uma curiosa tarefa: o fabrico d’água dos danados’. Era uma água - decerto com fama de curativa - confeccionada fervendo nela a caveira de um abade de santa memória.

No sector temporal a primeira oficial era a ‘bolseira’. Seguiam-na, em ordem de importância, a ‘celeireira’, a ‘tulheira’, a ‘despenseira’, a ‘refeitoreira’, a ‘enfermeira’, a ‘boticária’ e a ‘porteira’. Em Lorvão, onde tudo era em grande, havia duas bolseiras, auxiliadas por uma escrivã; havia duas celeireiras, a principal e a sub-celeireira, ambas por sua vez auxiliadas por uma escrivã. Havia mais que uma enfermeira, mais que uma porteira e, como já se disse, mais que uma sacristã e cantor.


Todos os anos as oficiais juravam sobre os Evangelhos, que cumpririam o seu cargo ‘com toda fidelidade e diligência e caridade’. Por essa ocasião, aquelas oficiais que estavam à cabeça de oficinas onde se lidasse com dinheiro, davam conta das respectivas receitas e despesas. As contas eram apresentadas à abadessa e às anciãs, as monjas mais velhas do convento. Que não hesitavam em destituir uma oficial, e nomear outra em seu lugar, caso julgassem a oficina mal regida.

Quando da visitação de 1536, os visitantes não encontraram em Lorvão nada a dizer no que tocava ao lado espiritual do mosteiro ‘nas coisas sptriais (sic) e ofícios divinos se cumprem mui bem’, mas no campo administrativo da casa encontraram fortes razões de crítica. O que nos valeu uma acta com reparos explícitos sobre as obrigações e da maioria das oficinas e suas oficiais.

A bolseira, como o nome indica, era a mulher dos dinheiros, aquela que tinha a bolsa deles. Recebia o dinheiro que entrava no mosteiro, e era ela quem o distribuía pelas outras oficinas para compras e pagamentos. À bolseira recomendava-se que exigisse sempre recibos, e desse por sua vez quitações. Devia anotar todos os dinheiros recebidos e distribuídos. Os visitadores recomendavam que todo o dinheiro recebido na bolsaria fosse depositado na ‘Arca do Depósito’ e que também se guardasse aí o Livro da Bolsaria, em que se deviam anotar as despesas e receitas. Para a dita arca devia haver duas chaves, ordenavam os visitadores. Pela mesma ocasião recomendavam que todos os pagamentos fossem devidamente anotados, que a escrivã das bolseiras desse sempre quitações, e que estas fossem assinadas por ambas as bolseiras, pela abadessa, pela oficial responsável pela entrega, e pela própria escrivã. E todos esses recibos deviam ser devidamente tresladados no Livro da Bolsaria. Era provavelmente uma ordem periodicamente repetida e constantemente desatendida ou mal executada, e os visitadores não deviam ter grandes esperanças de serem obedecidos na matéria.

              A bolseira arrecadava também o dinheiro que as monjas tivessem recebido por algum trabalho de suas mãos, em particular fio fiado por elas. Também cabia à bolseira o pagamento dos salários aos trabalhadores que eram pagos em dinheiro.

A verdadeira dona de casa era a celeireira. Era ela quem encomendava e comprava os géneros, que os mandava vir e recebia das propriedades do mosteiro, e ela que fazia a sua distribuição. Contratava, pagava, e, se necessário, despedia o pessoal que trabalhava para o mosteiro dentro de casa. Este era pago, segundo tabela estabelecida, em e dinheiro e em géneros: comida e fato. Quando um mosteiro tinha quinta própria, o que era o caso de Lorvão com a sua quinta do Botão, era a celeireira que superintendia o seu bom governo, que nomeava o feitor. Era responsável por que os produtos da quinta: ‘trigo e farinha e azeite e vinho e vinagre e legumes e todas as cousas que em Botão se recolhiam’ viessem a tempo. Devia também tomar nota de tudo o que se gastava na quinta ‘em pão, vinho, azeite, aves, linho, dinheiro e qualquer outra cousa’.

              As abadessas de Lorvão e algumas das religiosas passavam por vezes largos tempos em Botão. Visitantes de passagem também lá eram recebidos. Era a celeireira que provia que fossem bem tratados. Competia também às celeireiras zelar por que não faltasse farinha no mosteiro, tratando a tempo com os moleiros. Se a farinha faltava na tulha não era de quem tinha os moinhos da casa, que se murmurava, mas das celeireiras. Em 1536 os visitadores notaram que as religiosas tinham muitas vezes que esperar pela cozedura do pão: ‘por não ter farinha feita’. Não podia ser, escreve o visitador, as celeireiras que fizessem o possível para que isso não sucedesse. O mosteiro tinha boas arcas para guardar a farinha produzida pelos seus moinhos, e se estes não produzissem o necessário, as celeireiras que dessem ordem ao feitor de Botão para que este mandasse também trabalhar as azenhas que o mosteiro lá tinha

Cabia igualmente à celeireira cuidar dos géneros para velhas e doentes. O visitador de 1536 fora informado que muitas vezes faltava o necessário às religiosas velhas. Que eram elas que tinham de comprar as suas mezinhas e remédios, pagando-os com o seu dinheiro. Muitas, além de velhas, eram doentes, não podiam trabalhar, e não tinham parentes que lhes dessem dinheiro. Não era de admitir que passassem necessidade. Os visitadores deram estritas ordens às celeireiras para se ocuparem disso, para que houvesse ‘provisão e mantimentos de suas enfermidades, fraquezas e velhices’.

Por ocasião daquela visita havia muitas doentes no mosteiro, o que o visitador atribuía à situação pouco salubre do mosteiro, ‘má disposição da casa e terra e aposentos’, mas também ao facto de não se acudir a tempo às doentes ‘com medicinas e sangrias’. Era preciso, frisava o visitador, que a enfermeira tivesse mais cuidado, e que abadessa e celeireira fornecessem a tempo, e com abundância, tudo que as doentes necessitassem ‘em mezinhas, purgas ou sangrias ou mantimentos, ou serviços para as ditas enfermas’. Era de novo à celeireira que se recomendava o cuidado de aprovisionar regularmente a enfermaria, de ‘aves, carneiro, vinho, frângões, cabrito e todas as outras cousas necessárias para dita enfermaria. Para que tudo isto se fizesse convenientemente e a tempo, ordenava-se-lhe que se contratasse um homem, ‘um bom moço’, para chamar médico ou sangrador e levar e trazer ‘aves, cabritos, frangões e ovos’. Com todo este trabalho à sua conta, não é de espantar que a celeireira de Lorvão tivesse uma sub-celeireira e duas escrivãs para a ajudar.

Adiante se dirá de outra incumbência da celeireira e suas ajudantes e talvez a mais árdua: a distribuição das rações aos homens que trabalhavam para o mosteiro no exterior.

              Para serviços e recados fora do mosteiro, a celeireira tinha vários homens sob as suas ordens. Que todos, inclusive o padre que cuidava dos moinhos, juravam, quando eram contratados, ‘na mão da celeireira’, que cumpririam bem e fielmente as suas obrigações. Provando-se que algum desses homens não era ‘fiel do que tratava’, a celeireira devia despedi-lo. Devia ser ‘quitado dos ditos seus ofícios e cargos e corrigido de seus delitos e faltas’

As aristocráticas monjas de Lorvão deram - cremos que muito cedo - a palaciana designação de ‘Mordomia’ à oficina dirigida pela celeireira. Em Lorvão era portanto nos ‘Livros de Mordomia’ que se anotavam as aquisições e os pagamentos feitos pelas celeireiras. Em meados de Setecentos designam-se os mesmos livros como ‘Livro da Feitoria’.

Os mosteiros tinham usos e costumes próprios, que sucessivas gerações de celeireiras foram anotando: Não eram usos no sentido de ritos diferentes. Tratava-se do que era uso a casa fabricar, aquilo que, em determinado dia ou por determinada ocasião se distribuía, ou se oferecia - em espécie e em quantidade - a determinada pessoa ou entidade. As designações desses livros de apontamento diferem de mosteiro para mosteiro. Em Lorvão consultava-se o ‘Regulamento da Celeireira’.e o ‘Regulamento da Sala’, vezes designado por ‘Alcorão da Sala’ para saber como e a quem fazer determinada oferta ou fabricar determinado alimento. Em Arouca, mosteiro cisterciense como o de Lorvão, havia também, o ‘Alcorão da Tulha’

              Para anotar os pagamentos aos servidores da casa, a celeireira tinha o ‘Livro das Soldadas’. Não existem muitos. Sucedeu-lhes decerto o que sucedia aos livros de contas de outras donas de casa, eram destruídos no fim de um ou dois anos.

Quando o preceito da vida em comum, era tomado no verdadeiro sentido da palavra, as monjas comiam em comum, às mesmas horas à mesma mesa. Quando por volta de quatrocentos o preceito foi praticamente abandonado, e se introduziu o costume das monjas cozinharem ou mandarem cozinhar a sua própria comida, havia que lhes dar diariamente os necessários géneros. A tarefa cabia também à celeirieia.

Abaixo da celeireira, se bem que não dependentes dela, estavam a tulheira, a despenseira e a refeitoreira. A tulheira recebia as farinhas que a celeireira comprara, ou que viera dos foreiros e rendeiros. Arrecadava-a na ‘tulha’. A tolheria superintendia o fabrico do pão, e fazia a distribuição deste às monjas e àqueles que eram pagos em pão, os ‘apaniguados’

              Havia duas outras oficiais ligadas à alimentação: a despenseira e a refeitoreira. A primeira era responsável pela arrecadação dos outros géneros que não o pão, e pela sua distribuição às cozinhas. A refeitoreira ocupava-se do refeitório. Comprava, ou mandava tecer, as toalhas de mesa, punha as mesas, e estava incumbida de recolher os restos das refeições para serem aproveitados em outras comidas, ou dados aos servidores da casa e aos pobres. Cabia–lhe manter limpo o lavatório -  que nos grandes mosteiros se situava junto do refeitório - onde as monjas lavavam as mãos antes e depois das refeições.

                        Uma oficial pouco recordada é a ‘Vestiária’. A Regra dispunha que houvesse um monge, que mandasse tecer e coser as roupas e fabricar os sapatos dos religiosos. O mesmo se devia aplicar a mosteiros de religiosas, mas nestes instalou-se muito cedo um costume mais individualista, cada religiosa recebendo anualmente uma soma para se vestir.

Em Lorvão encontra-se muito cedo menção de servidoras vindas do exterior. forneiras, de criadas de tulha, e de auxiliares da sacristã. São já mencionadas em contrato da rainha D. Teresa, em que estipula que as ‘servidoras’ , entre as quais uma sua protegida, que iria viver na cerca de Lorvão, comessem o mesmo que as servidoras do convento. De início esse pessoal seria reduzido, mas com o decorrer dos tempos as monjas foram encontrando pretextos para a introdução de mais auxiliares. Em um rol das ‘soldadas e mimos’ que, no século XVI, se davam em Lorvão às ‘criadas da Ordem’ enumeram-se nada menos de cinquenta dessas serviçais. As sacristãs também requereram ajuda. Passou a haver uma moça para fazer hóstias, outra para lavar as ‘sanguinhas’ - os pequenos panos com que o sacerdote enxuga o cálice Para o refeitório havia uma criada, para a botica três criadas de ‘fora’. Havia uma criada que acendia as lâmpadas do mosteiro e três encarregadas de abrir as portas das cercas.

Na cozinha e forno trabalhavam forneiras, e havia criadas de tulha. Posteriormente, haveria uma conserveira encarregada de fazer os doces.

A cozinha da abadessa era separada. Havia nela duas criadas, e na hospedaria, uma. E não se contam aqui as criadas que serviam algumas monjas, que sentiram a necessidade de serem servidas pessoalmente. Às observações dos visitadores apresentavam argumentos desta ordem: que ‘sem ajuda de criadas não podiam cumprir as suas obrigações religiosas, como seja cantar e rezar em louvor do Senhor’. Implantara-se também gradualmente o hábito das criadas das monjas dormirem no próprio dormitório destas. O que os visitadores constantemente - se bem que sem resultado aparente - proibiam.

Assim como proibiam, com o mesmo resultado, os criados e os escudeiros, que dona abadessa passou a ter a seu serviço. A designação original de ‘homens’ da abadessa vai desaparecendo, generalizando-se, a partir do século XV, para aqueles que ocupavam a mesma posição, a designação de ‘criado de Dona Abadessa’. Em 1416, dona Mécia Vasques da Cunha afora um olival, estando presentes ao acto ‘Pero Nunes e Domingos Gonçalves e Gonçalo Nunes, criados da dita senhora’. Ao emprazamento, que se realizou em 1432 em Botão ‘diante das pousadas de dona abadessa’, assistiram como testemunhas ‘Vicente Annes de Aveiro, Gonçalo Martins e Gonçalo Domingues creligo (sic) e Gonçalo Coutinho, criados da dita senhora.’ Em 1500, uma procuração da abadessa dona Catarina d'Eça, é testemunhada por ‘Luís de Mendonça, criado da senhora abadessa e outros’  No século XVI surge a designação de ‘escudeiro’ da abadessa. Primitivamente, o escudeiro era o homem que servia um cavaleiro levando o seu escudo e tratando das suas armas, e viria a ser um criado nobre. Que acompanhava o senhor em serviço de guerra ou outro. O rol dos pagamentos de Arouca menciona pagamentos aos escudeiros que acompanhavam o abade visitador quando este vinha em visita ao mosteiro. Em resumo, os escudeiro estavam ao serviço de homens. Ora as abadessas de Lorvão não se achavam menos que estes senhores, passaram também elas a ter a seu serviço criados a quem designavam por escudeiros. Quando da composição feita em 1503 entre Dona Catarina d'Eça e os moradores da vila da Esgueira, uma das testemunhas é ‘Pero Vaz escudeiro da dita senhora’. E, em 1515, no acto de emprazamento de um olival, realizado no próprio mosteiro e na ‘câmara da muito magnífica e virtuosa senhora, a senhora dona Catarina D’eça’ uma das testemunhas foi ‘Alvaro de Morais escudeiro, criado da senhora abadessa e em casa da dita senhora morador’. Uma oficial sempre escolhida com especial cuidado era a porteira, a monja que estava na portaria, que aí recebia quem vinha em visita às religiosas. Alguns visitantes podiam entratra no interior do mosteiro. Eram excepções devidamente especificadas. Em outros casos ficava ao critério da porteira se o, ou a, visitante seria conduzido ao parlatório, onde poderiam conversar com a monja a quem vinham visitar. Estando esta sempre acompanhada de uma companheira, e a conversa realizando-se através de uma grade que dividia o quarto. A grade era particular aos mosteiros de homens, as primeiras monjas não a encontraram quando se instalaram em Lorvão. As cistercienses não tinham clausura, contactavam com gente de fora do mosteiro quando trabalhavam no campo, pelo que é difícil de perceber a necessidade de haver uma grade que as separava dos vistantes. ´E difícil apurar exactamente quando esta doi introduzida em Lorvão. Mas existiu. Sendo provavelmente utilizada com mais rigor a partir das severas medidas de reforma do século XVI. Em l533.2 um contrato notarial foi assinado ‘Na casa do palratório da grade de baixo, lugar acostumado onde semelhantes autos se soem fazer’. Outro contrato é assinado em l538.3 ‘em a varanda que está à portaria do dito mosteiro, ahi na grade do palrlatorio que ahi está, que é lugar acostumado para se fazerem tais autos.’ Quando em meados do século XVI se dá a revolta das monjas contra a imposição de uma abadessa alheia ao mosteiro, houve um incidente presenciado pelo Juiz chamado pela abadessa, o notário descreve, que estavam na casa da grade e separados por duas grades, uma de ferro, outra de pau.’




2 T.T. Lorvão Gavetas-3-6
3 T.T. Lorvão . Lº 40-229v

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VIDA QUOTIDIANA DAS MONJAS NO MOSTEIRO MEDIEVAL - CAPº VI AS ABADESSAS

>> quarta-feira, 27 de janeiro de 2016


As abadessas dos grandes mosteiros eram personagens importantes na sociedade medieval, ‘mulheres de considerável posição social, habituadas ao poder e gostando de o exercer’, assim define W.M. Labarge as superioras dos mosteiros no seu livro sobre as mulheres na Idade Média. ‘Pessoa importante não só no seu próprio convento, como no mundo exterior. Era vizinha, senhoria, e filantropa nas vizinhanças da sua casa’, escreve a mesma autora. A autoridade da abadessa exercia-se com efeito, não só sobre as suas religiosas, como sobre a gente que vivia em torno e nos arredores do mosteiro. Mais longe até, em toda a parte onde a casa monástica possuía terras e bens. Quanto maior e mais rico fosse o mosteiro, maiores eram a posição e a influência da sua superiora. No caso das abadessas de Lorvão, que eram senhoras donatárias de várias vilas, e com jurisdição própria em algumas delas, que apresentavam os párocos em numerosas igrejas, que eram donas de inúmeras terras das quais podiam dispor, arrendando-as ou aforando-as, e de quem dependia uma infinidade de gente ligada à administração dos bens monásticos, pois dessas senhoras facilmente se entende que, na região conimbricense, só o bispo de Coimbra e, talvez, o Prior de Santa Cruz, tivessem maior posição e influência que dona abadessa de Lorvão.

Naturalmente, também se esperava de uma abadessa, que ela, como cabeça do seu mosteiro ou, em determinados casos, pela influência da sua família, obtivesse benesses para o seu mosteiro, que protegesse à sua gente, e que estendesse, se necessário, a sua protecção a outros, impondo-se aos bispos e outros grandes senhores e, se necessário, ao próprio soberano. As abadessas de Lorvão fizeram-no frequentemente. Em 1288, ao arrendar uma propriedade do seu mosteiro aos frades de Santa Cruz, a abadessa dona Maria Joanis promete, no contrato que firma com os frades crúzios, que, no caso de o rei vir de qualquer forma a incomodar os frades, ela, abadessa, e seu convento, os protegeriam com as suas cartas e privilégios e à sua custa, ‘per nostras literas, cartas, privilegius et expensas debemus vobis defendere...’.1

Dois séculos mais tarde, a influência da abadessa de Lorvão ainda era tão reconhecida que, em 1416, um tal Afonso Peres não hesitava em dar à abadessa dona Mécia Vasques da Cunha, para ela e seu convento, uma ‘marinha de fazer sal’, com a condição de ela e as suas sucessoras tirarem, ou fazerem tirar, o dito Afonso Peres da vintena do mar ‘em que se é posto por galiote, e não o podendo tirar da dita vintena, e havendo aqui armadas algumas assim de el-rei como doutras quaisquer, a que o dito Afonso Peres seja chamado, que a dita Senhora e as suas sucessoras sejam teúdas a o tirar e livrar das ditas armadas.’ 2

A influência da abadessa seria naturalmente tanto maior quanto ela, para além do seu cargo, fosse influente devido às suas ligações familiares, que fosse pessoalmente conhecida das pessoas altamente colocadas.

E assim, ao tentar estabelecer a lista das primeiras abadessas de Lorvão, parti do princípio, que havia que as procurar entre a primeira nobreza do seu tempo. E mais, tinha a convicção, que elas seriam de preferência membros daquelas famílias que gozassem então de maior prestígio e tivessem mais influência na sociedade coeva. Conjugando e comparando os dados dos Livros de Linhagem e as informações dos documentos, foi possível estabelecer, com razoável certeza, a filiação das primeiras abadessas, e provar que todas elas tinham de facto pertencido à primeira nobreza do reino. E que, sem excepção, eram filhas de homens de grande nascimento, com influência pessoal na Corte, e que, na sua maioria, eram homens de posses.

Dona Sancha, a que reputo por segunda abadessa de Lorvão, tendo sucedido à abadessa Vierna, era uma Sousa, filha de D. Gonçalo Mendes de Sousa, que, na primeira metade do século XIII, era chefe da linhagem dos Sousas, e foi em Portugal um dos homens mais poderosos do seu tempo.

Dona Maria Afonso, a terceira abadessa, que, tal como a primeira, viria do mosteiro de Gradefes em Leon, era de extracção real, neta de D. Sancho I, pela sua mãe D. Teresa Sanches. A sua sucessora, dona Marina Gomes, era uma Briteiros. Eleita já depois da morte da rainha D. Teresa, seria a primeira abadessa a sê-lo sem a intervenção da padroeira do mosteiro. Era filha de Gomes Mendes de Briteiros, e pertencia a uma família que se encontrava em franca ascensão social, apoiada nos Sousas, a quem estava ligada por laços de amizade e de parentesco. Dona Marina Gomes foi sucedida por uma prima sua, dona Urraca Rodrigues, filha de Ruy Gomes de Briteiros. Às duas Briteiros, sucede de novo uma Sousa, a muito rica dona Maria Anes, filha de D. João Garcia de Sousa, senhor de Alegrete por sua mulher. Em fins do século XIII, depois de sessenta anos de governo de Sousas e Briteiros, as religiosas de Lorvão elegem finalmente uma abadessa que não pertencia a nenhuma dessas famílias. Trata-se de dona Constança Soares, filha de D. Sueiro Anes de Paiva. Eleita em 1290, o seu abadessado duraria até 1317. Segue-se-lhe no governo de Lorvão uma filha dos Porto- Carrero. Governou até cerca de 1332, sucedendo-lhe de novo uma Briteiros, Dona Teresa Mendes, filha de D. João Rodrigues de Briteiros e de D. Maria Annes. Esta abadessa introduziria em Lorvão o ‘selo do convento’, que representava a totalidade das religiosas. Dali em diante os documentos notariais seriam- como veremos - legitimados com o selo da abadessa e com o selo do convento. A abadessa seguinte dona Guiomar Fernandes de Panha, foi a primeira das abadessas de Lorvão a usar apelido e patronímico. Rica, administrando ela própria os seus bens, é talvez a esse facto que ela deveu a sua eleição. Não pela ascendência familiar, que era relativamente modesta para a bitola de Lorvão. Dona Guiomar morreu, lê-se ‘no ano da ‘peste grande’, em 1348 ou pouco depois, aparentemente vítima dessa epidemia. Menciona-se que o mosteiro foi então temporariamente regido por uma regedora, e, em seguida, por uma dona Grácia, que provavelmente também foi regedora, seguindo uma abadessa, que deve ter sido igualmente vítima da peste. Fora de novo uma Sousa. Em l395 entramos no período dos abadessados de Cunhas e Eças. A partir desse ano e até 1468, sucedem-se primeiro, quatro abadessas da família Cunha, todas próximas parentes umas das outras. A primeira é dona Mécia Vasques da Cunha, filha de Vasco Martins da Cunha. O reinado das Eças, que seguiu ao das Cunhas, contou unicamente com duas abadessas, mas entre a primeira, dona Catarina d’Eça, e a sua sucessora, dona Margarida d’Eça, Lorvão esteve em mãos de Eças de 1468 a 1537.

A eleição da abadessa era um ponto alto na vida do mosteiro. Assunto do maior interesse para todo o convento, as monjas não seriam humanas se não começassem a pensar na sucessão da sua prelada ao primeiro sintoma de enfraquecimento ou de doença. A abadessa não teria ainda exalado o último suspiro, e já havia decerto uma ou mais candidatas ao grande cargo, e a campanha eleitoral estaria em pleno curo. As religiosas que tinham condições de ser eleitas, tinham suas adeptas - seus partidos -, e não lhes faltava o interesse de parentes e familiares. Ter uma sua parente à testa do poderoso mosteiro de Lorvão não era pouca coisa.

A organização e preparação do acto eleitoral após a morte de uma Abadessa, competia à Prioresa, a religiosa que ocupava o segundo lugar na hierarquia do convento. Ela substituía de imediato a defunta prelada, e o primeiro acto da sua administração era a notificação da morte de Dona Abadessa ao bispo da diocese e ao abade do mosteiro do qual o seu dependia. No caso de Lorvão eram notificados o bispo de Coimbra e o abade de Claraval. A partir do século XV, passou a ser notificado também o abade de Alcobaça. Ao Bispo avisava-se unicamente por cortesia. Era do abade de Claraval e, posteriormente, do de Alcobaça, que viria a autorização para se proceder à eleição da nova abadessa.

A eleição realizava-se na Sala do Capítulo, estando presentes todas as monjas. Iam escolher aquela entre elas que, de ali em diante, e até à sua morte, as ia governar. Todas elas, da mais nova à mais velha, tinham direito a voto. Depois de um cântico implorando a inspiração do Espírito Sant procedia-se à votação. Era voto secreto, um voto por pessoa. Admitia-se a eleição ‘por inspiração’ ou ‘por aclamação’, quando alguém propunha um nome, e este era aceite por unanimidade e aclamado por todas. Uma cartorária do mosteiro que, no seculo XVIII, escreveu o ‘Livro das Preladas’, não recorda caso desses em Lorvão.
Uma vez a eleição concluída, e a abadessa eleita, eram de novo avisadas as mesmas autoridades eclesiásticas. Sem a sua aprovação, a eleição não era canonicamente válida. Tudo isto levava tempo, e sucedia, se bem que não fosse muito vulgar, que o bene-placit não fosse concedido, tendo de se proceder a nova eleição. Sucedia também, e isso, sim, era frequente, haver discórdias entre as monjas quanto à eleição, com violentas disputas e com as diferentes facções querendo impor a sua candidata. Não há testemunho de disputas nas eleições em Lorvão nos primeiros anos. Ou porque na realidade não as tivesse havido, ou, o que é mais provável, por ninguém se ter dado ao trabalho de as anotar. Uma disputa sucedida no século XVII ficou registada. A autora do ‘Livro das Preladas’ escreve a esse respeito, que, querendo fazer eleição, houvera tais bulhas, que o mosteiro estivera nove meses sem abadessa, e que no fim deste tempo ‘para aquietar as oretialidades (sic) viera em Maio dona Francisca de Vilhena, freira de Celas’.

As cistercienses fixavam prudentemente, a idade das candidatas a abadessa, em trinta anos, e cinco de profissão. A duração da sua prelazia era para a vida, eram abadessas ‘perpétuas’. Uns sistemas que seria alterado com as reformas do século XVI, as abadessas passarão a ser trienais, ou seja, eleitas por três anos.

Idealmente a escolha deveria obedecer aos sábios preceitos da Regra de São Bento, e as eleitoras, inspiradas pelo Espírito Santo, considerariam sobretudo a competência e as virtudes da candidata. Tudo indica que a realidade era outra, que a eleição obedecia mais do que seria de desejar a considerações de ordem material e a influências externas. ‘Grandes senhores usavam da sua influência e do seu dinheiro para conseguirem o ambicionado posto para alguém da sua família, e a própria candidata não era avessa a untar as mãos das influentes, ou a pedir apoio no exterior’, escreve Eileen Power no seu livro sobre os mosteiros de mulheres em Inglaterra. Os autores coevos insurgiam-se particularmente contra as influências exteriores, contra as abadessas de ‘sangue’, impingidas pelos seus familiares, e contra as abadessas ‘simoniacas’, que tinham conseguido a eleição com dinheiro ou à custa de benesses prometidos. Excepcionalmente houve casos de abadessas de gestão, designadas para gerir o mosteiro em época de guerra ou devido a problemas de administração, ou por imposição exterior. Em Portugal verificar-se-ia isso sobretudo no século XVI, quando da luta travada entre D.João III e as ordens monásticas, pretendendo o. Rei ser ele a nomear as abadessas dos grandes mosteiros. Adiante se dirá da luta épica que nasceu dessa pretensão com particular acutilância justamente com Lorvão. Nos séculos anteriores não há memória de intervenção real tão violenta, se bem que tanto os reis como os bispos tentassem periodicamente impor as suas vontades às monjas, e influir directamente nas eleições das suas preladas. O que em geral não conseguiam, porque as religiosas protegiam com afinco o direito de elegerem elas a sua abadessa, e não hesitavam em se queixar ao Papa, quando esse, ou qualquer outro dos seus privilégios, estivesse ameaçado.
O Selo abacial

 Logo que canonicamente confirmada, a nova abadessa tomava conta do seu cargo. Recebia o báculo, o castão do pastor, que marcava a sua autoridade, e era-lhe entregue o selo abacial.
 

No seu hábito, a abadessa não se distinguia das outras religiosas. Aliás o hábito pouco se distinguia do traje mulher da classe média vivendo no mundo. Um notário que, em fins do século XIII, descrevia o selo da abadessa de Lorvão, diz, que se via no selo ‘uma figura de mulher com uma baga na mão destra’ 3 

 
Em outro documento lê-se que no selo se via uma ‘mulher ou uma abadessa’. O hábito da religiosa era nas suas peças quase igual ao da mulher que vivia no mundo: Vestia camisa e cogula, e cobria-se com um véu. Para os frios usava manto. A simplicidade no hábito manteve-se na maioria dos mosteiros, mas em alguns as religiosas conseguiram furar o tabu. Exemplo é Arouca, onde as monjas, decidiram no século XVIII, dar uma nota de elegância mundana ao seu hábito.



A abadessa era senhora absoluta no seu mosteiro, mas isso não impedia que, em todas as decisões graves, ela tivesse de se submeter à prévia consulta e ao voto e da sua comunidade, do seu ‘convento’. Em questões menores podia aconselhar-se unicamente com as mais velhas, as anciãs, e as oficiais. Em caso de vulto a abadessa tinha – como se disse - de ouvir ao convento na totalidade, e os contratos tinham de ser feitos com o consentimento de toda a comunidade. O documento frisava sempre que assim sucedia, que o convento dava o seu consentimento. Não punha o seu selo, acrescentava-se, porque na Ordem de Cister o convento não tinha selo, “conventus ad Lorbani sigillum non apponitur quod non est de ordinem Cisterciensem quo sigillum habet”.5 A criação de um selo conventual em Lorvão no tempo da abadessa dona Teresa Mendes iria permitir dali em diante um controle mais apertado das medidas arbitrárias da abadessa, nenhum contrato sendo válido sem os dois selos, o abacial e o conventual.

Os selos  abacial e o conventual
O novo selo era uma ajuda contra as arbitrariedades da abadessa - de todas as tentações do seu cargo, a de governar autocraticamente seria talvez a maior - mas não as evitaria por completo. O nepotismo reinava em todos os mosteiros femininos. Abadessa que se conservasse por alguns anos à cabeça do mosteiro preparava automaticamente a sua sucessão entre as monjas da sua família. Praticado em Lorvão pela maioria das abadessas e desde os primeiros tempos, a coisa tomaria proporções escandalosas nos abadessados das Eças, quando praticamente todos os principais cargos de Lorvão estiveram em mãos de parentes chegadas da abadessa. Em 1512, no abadessado de dona. Catarina d’Eça, assinam uma escritura a prioresa dona Joana d’Eça, a celeireira dona Guiomar d’Eça, a sacristã dona Joana da Guerra - as Guerras eram primas das Eças - e ainda dona Isabel d’Eça, enfermeira: No abadessado seguinte, o de dona Margarida d’Eça, constata-se que, em 1521, a sua prioresa era dona Joana d’Eça, a sub-prioresa dona Guiomar d’Eça e a sacristã continuava a ser dona Joana da Guerra

E não era unicamente no interior do mosteiro, que se observa o favoritismo em relação à família. A abadessa dona Marina Gomes combina em 1264 com seu sobrinho D. João Rodrigues de Briteiros, que este receba de Lorvão uns casais que eram de sua irmã dona Teresa Rodrigues, monja em Lorvão, dando ele ao mosteiro uns casais na Estremadura, que eram de outra sua irmã, monja em Arouca. Esse quinhão, declara o contraente, fora-lhe concedido pela abadessa desse mosteiro.6  A mesma abadessa fez outras transacções do mesmo tipo com outros membros da sua família.

Caso parecido deu-se em 1400, numa troca de terras efectuada por dona Mécia Vasques da Cunha. Nesse ano, a 21 de Dezembro, reuniram-se no mosteiro de Lorvão, às portas da sala do cabido ‘a honrada e religiosa dona Mecia Vasques da Cunha’ e o convento do seu mosteiro. As religiosas tinham sido convocadas - como era costume - pelo toque da campainha ‘por campa tangida’, e, ‘todas juntas chamadas especialmente para isto’, que era, o de ouvir a proposta da abadessa no sentido de se cederem certos bens do mosteiro a seu pai, Vasco Martins da Cunha e ao Prior de Grijó, recebendo o mosteiro outros bens em troca. O que seria, garantia a abadessa, a favor, ‘por prol’, do dito seu mosteiro. As monjas disseram que sim, que ‘lhes prazia de tomarem os ditos casais, que lhes assim dona abadessa dava pelos outros que lhes tomou’, e todas juntamente ‘louvaram e outorgaram o dito escambo’.7 Parece pouco provável que Vasco Martins da Cunha e o Prior de Grijó se dessem ao trabalho de fazer esta troca por puro altruísmo. O facto é que a abadessa ter disposto de bens que eram do mosteiro a favor de homens da sua família.

Se as abadessas não se distinguiam das suas monjas no trajar, distinguiam-se, e muito, em tudo o resto. Pela autoridade que exerciam, e pelas suas regalias. A abadessa tinha casa própria dentro do complexo monástico, fugindo assim à vida em comum, que com o tempo se tornava odiosa à maioria das religiosas. As abadessas tinham maior liberdade em receber visitas, maior liberdade nas saídas.

As cistercienses não tinham estrita clausura, mas esperava-se das monjas que só se ausentassem do mosteiro em casos de grande necessidade ou de óbvia utilidade, de serviço a que o seu cargo as obrigasse. A abadessa, essa, tinha pelo seu cargo, ou por aquilo que ela considerava de seu cargo, frequentes ocasiões de absoluta necessidade que a obrigavam a se ausentar do mosteiro. Dona Vierna, a primeira abadessa de Lorvão, esteve presente em Montemor no ano de 1221, quando aí se reuniu a corte. A abadessa firmou nessa ocasião com a infanta D. Sancha um contrato, que garantia ao mosteiro de Lorvão a futura posse da vila da Esgueira. Foi uma saída que se justificava plenamente Havia uma visita obrigatória anual a Coimbra, à igreja de São Bartolomeu. Era uma obrigação herdada dos monges seus antecessores, e que Lorvão tinha de manter se não queria perder prestígio e a regalia de uma pele e uma ‘colheita de pão, vinho e peixe’, que o cabido de S. Bartolomeu era obrigado a fornecer por ocasião daquela visita. As primeiras abadessas tinham deixado cair este direito, até que a abadessa dona Constança Soares o repôs, juntamente com outros direitos resultantes do desleixo de algumas das suas antecessoras. Outra saída bem documentada e de óbvia utilidade para o mosteirot é a da abadessa dona Teresa Mendes, quando, a 4 de Setembro de l341, acompanhada de tabelião, vai ao local da Pedra do Vento, junto de Coimbra, tratar de um cidral que o mosteiro aí tinha, do qual o rendeiro há quatro anos não só não pagava a renda, como instalara nele um sublocatário. A abadessa tratou directa e pessoalmente do assunto. ‘A honrada religiosa e honesta dona Tareja, pela mercê de Deus abadessa do mosteiro de Lorvão,’ postou-se diante da porta da casa do cidral e ‘fez pergunta a Joam Peres, dito Cidreiro,’ a quem pertenciam o cidral, a casa, a vinha, e o olival que ali estavam. ‘E logo o dito Joam Peres respondeu, que era da dita abadessa e do seu convento do dito mosteiro de Lorvão. E logo outrossim fez pergunta a dita abadessa ao dito Joam Peres, quem no metera no dito logo e de cuja mão o tinha, e o dito Joam Peres respondeu logo, e disse, que o metera ali André Domingues de Requeixo por renda certa que lhe ele havia de dar.’ A isso retorquiu a abadessa, que ela não estava ali para fazer ‘força nem esbulho’ a ninguém, mas que o dito André Domingues não podia arrendar o que não era seu, que aquele lugar era dela e do seu mosteiro, que elas não renunciavam aos seus direitos pelo que, declarou, ‘filhamos esta casa com este cidral e vinha e olival e suas pertenças, e entramos em posse dele em nome do nosso mosteiro’ . Lido isto pelo tabelião que estava presente, a abadessa dirigiu-se ao dito Joam Peres e disse-lhe que visto aquele lugar ser seu e do seu mosteiro, que ‘ele se fosse dele a boa ventura e que saísse ende’. João Peres obedeceu, saiu da casa, e deu ordem aos vindimeiros que lá estavam que também saíssem, o que eles fizeram. E ‘logo, relata o instrumento, os homens da dita abadessa, que ali estavam, filharam terra, e ramos de vides e de cidral, e do olival, e telha da dita casa e meteram na mão da abadessa, e ela disse que por todas aquelas coisas ela filhava posse daquele lugar como de seu, como quer que posse sua posse...’8

No período em que Lorvão teve jurisdição criminal em algumas das suas terras, as abadessas faziam-se em geral representar por um ouvidor seu. Caso excepcional foi abadessa regedora dona Mècia. Essa senhora não perdia ocasião de estar presente em casos de pleito. Em 1351 - Lorvão ainda tinha jurisdição em Abiul, direito que posteriormente lhe seria retirado - houve nessa terra o julgamento de um tal João Monteiro por uso criminoso dum cutelo comprido. Apesar do julgamento ser presidido pelo ouvidor do mosteiro, lá estava também dona Mécia, hospedada ‘na casa sobrada que foi de Joham de Runinaço’,

Outra vez temos a abadessa dona Beatriz da Cunha indo a Coimbra para se assegurar de certos bens que um tal Gonçalo Nunes Torrado tinha em contrato com o mosteiro, e que lhe queria deixar por sua morte. A abadessa não podia deixar fugir tal maná, e deslocou-se a Coimbra, acompanhada da prioresa, da sub-prioresa, da celeireira e da sacristã e ainda de outras religiosas do mosteiro. E não faltou evidentemente o notário para ali mesmo tomar devida nota das palavras do moribundo, autentificando a doação daquilo que depois de sua morte ficaria ao mosteiro. Toda aquela gente entrou na casa onde se encontrava o infeliz Gonçalo Nunes: “jazendo ali o dito Gonçalo Nunes doente em uma cama de dô de enfermidade”.10

A abadessa dona Catarina d’Eça saiu frequentemente do seu mosteiro, sobretudo nos primeiros tempos de seu abadessado. Agindo como qualquer proprietário rural, ela vai em 1471 à Esgueira, vila que era do mosteiro, e aí, em casa de João de Ruão[1], faz um emprazamento a João Pires Delgado. No ano seguinte, ela está no ribeiro da Barroqueira, termos de Penacova, e faz aí o emprazamento de uma vinha que o mosteiro tinha em Sabugosa. Nos últimos anos da sua vida, as saídas são mais raras, e os contratos em geral firmados em Lorvão em seu quarto, em sua ‘câmara’. Mas em 1503 há assunto de grande importância a tratar, e temos notícia de dona Catarina ter saído do mosteiro. Vai à vila de Esgueira para conseguir a composição entre o seu mosteiro e os habitantes dessa vila. Nos últimos anos vivera-se uma verdadeira revolta dos foreiros de Lorvão, a gente de Esgueira revoltando-se contra exigências dos administradores do mosteiro, e não era a primeira vez. Como donatárias de Esgueira as monjas de Lorvão tinham ali direitos que revoltavam os habitantes. Em 1428 houvera uma magna questão por os pescadores da Esgueira retirarem o peixe das redes antes de terem chamado o procurador do mosteiro, o que, segundo a abadessa de Lorvão, não podiam fazer. Ela tinha o direito de escolher o peixe que lhe cabia antes de ser retirado dos barcos. A coisa não ficou por ali, foi-se arrastando com periódicos focos de revolta contra essa obrigação. Em 1503, ambas as partes procuravam o apaziguamento da situação. O povo foia chamado ‘por pregão para esta causa de boa concórdia e amigável composição’, muita gente compareceu, e, por parte de Lorvão, estava lá a sua abadessa. ‘No ano do nascimento de N.S. Jesus Cristo de 1503, aos 23 do mês de Novembro em a vila da Esgueira, terra e jurisdição cível do mosteiro de Lorvão, no outeiro junto da ermida de S. Sebastião, estando ahi a muito vertuosa senhora, a senhora dona Catherina d’Eça de viva memória abadessa do mosteiro de Lorvão.’ 12 O assunto foi debatido, ambas as partes fizeram concessões, e chegou-se a um acordo provisório. Que talvez não se tivesse conseguido sem a presença da abadessa do mosteiro.

Em tempos de guerra ou de revoltas no país, também vemos as abadessas saindo dos seus mosteiros. Isolados, em geral afastados de povoações, os mosteiros eram particularmente vulneráveis aos saques da soldadesca, e nessas ocasiões era costume as religiosas refugiarem-se na cidade mais próxima. Há um emprazamento feito em 1385 em Coimbra, estando regedora e monjas alojadas nas casas de Dom Ruy Lourenço, ‘Daiam (sic) da dita cidade, em que pousamos de presente, ‘por necessidade da guerra.’

Saidas desnecessárias, idas à corte, peregrinações a santuários, passeios, de que abadessas de mosteiros ingleses e alemães eram acusadas, não houve em Lorvão, ou não foram tão escandalosas que dessem brado.

A mais frequente critica que na Europa medieval se fazia `às abadessas era a de serem más administradoras dos seus mosteiros. Despesas excessivas, contas que se deviam prestar à comunidade e não se prestavam, arrendamentos imprudentes, vendas de direitos centenários do mosteiro contra moeda sonante, de tudo isso houve em Lorvão.

Contra uma abadessa despesista e má administradora pouco havia a fazer, a não ser dar-lhe depois de morta uma sucessora competente. Como sucedeu em 1288, quando, com o mosteiro em estado de pobreza, ‘paupertate’, as monjas puseram fim fim ao longo governo de compadrio Sousas e Brieiros, e elegeram na abadessa dona Constança Soares, uma grande administradora. Sucedem-se com ela os emprazamentos de parcelas de terras destinadas a olivais, com rigorosas indicações do plantio, com boas e saudáveis plantas e, ‘escavados e cavados e estercados como os bons olivais de Coimbra e ao tempo em que o deve de ser’. Dona Constança procurou também reaver terras perdidas e outros bens alienados, conseguindo até que o bispo de Coimbra, que em geral não era pródigo em cedências, concordasse em que as igrejas de Abiul e do Botão se unissem de novo a Lorvão, coisa até ali muito disputada entre os prévios bispos e as abadessas. No instrumento feito por essa ocasião, o Bispo declarava que, atendendo à pobreza e à carência de que sofria o mosteiro, ‘paupertate et megnam inopitam Conventus Santimonialem Monasterii de Lorbano’, e também em consideração da sua abadessa ‘ab honorem Religiosae Donae Constantiae Sueri’, ele, Bispo Américo, consentia de novo na união das duas igrejas ao mosteiro de Lorvão. A recuperação de direitos abandonados ou perdidos era um dos grandes problemas que as abadessas, que sucediam a uma má administradora, tinham de enfrentar. Nada parecia mais fácil a uma abadessa que precisava urgentemente de dinheiro do que vender uma terra ou um direito.

Dona abadessa - era assim que a partir do século XIV mais comummente se nomeava a superiora do Lorvão – assinava sempre com a sua comunidade ‘Nós Maria Joanis Abbatissa et convento monasterio de Lorbano.’ lê-se em documento de 3 de Maio de 1288. Em 1300, a abadessa Dona Constança Soares dirigia-se ao povo usando o título de Don, e prescindio de quando escrevia ao bispo de Coimbra “Constancia Suery eidem gratia Abatisse de Lorvão et conventus eiusdem” Também a abadessa Urraca Reimundo rescinde do Dom quando se dirige a um bispo. ‘Nós Orraca Reymundo e o convento do mosteiro de Lorvão vos enviamos comendar em vossa graça...’ lê-se em documento datado de Julho de 1328 dirigido ao bispo de Viseu. As abadessas Cunha e Eça, senhoras que não transigiam sobre os seus pergaminhos, usam sempre o Dom, quer se dirijam a bispos quer a leigos. Uma delas, Dona Maria de Cunha, faz mesmo questão de mencionar o seu nascimento, assinando em 1 de Agosto de 1435 um contrato como dona Maria da Cunha, ‘de nobil genere’. ‘Com as Eças não havia que vincar nascimento. Os Eças eram de sangue real, passaram a ser ‘magníficas’: ‘Na câmara da muito magnífica e virtuosa senhora’, lê-se em documento de dona Catharina d’Eça. A sua sucessora foi a ‘muito magnifica senhora, a senhora Dona Margarida d’Essa’

Das abadessas esperava-se qualidades de administradora, e autoridade sobre o seu convento, em privilegiar umas, ou uma, das suas religiosas, e evidentemente um irrepreensível comportamento. Os escritores do século XIX deliciavam-se quando encontravam escândalo amorosos nos mosteiros, e assim nasceu a acusação que a grande dona Catarina d’Eça tivera oito filhos. Coisa absolutamente impossível quando se sabe da periódica, rigorosa visitação de que os mosteiros da Ordem de Custer eram alvo. Porém, como este tipo de boatos notícias têm por vezes uma base de verdade, sugiro que essa mãe de oito filhos, se na verdade existiu, fosse irmã gémea da abadessa dona Catarina. O facto de se dar o mesmo nome a gémeos tem conduzido a mais do que um erro genealógico.




1 T.T. Lorvão . Lº 40-206v
2 T.T. Lorvão. Lº 40-69v
Vintena do mar, ou da marinha, designava, segundo Viterbo, designava o arrolamento de jovens para servirem a bordo dos navios das armadas. Dos homens de uma vila ou aldeia postos em ala, era tomado de cada vinte, um. Eram os ‘vintaneiros’ do mar, da marinha ou das galés. Ver-se livre da vintena valia bem uma marinha de fazer sal.
 3 T.T. Lorvão. Gavetas 06-Mº1
5 TT. Lorvão Col. Esp,. Mº9-Nr.17,18
Jacinto Vieira, um artista bracarense, esculpiu estátuas em tamanho natural das monjas de Arouca com esse elegante hábito
6 TT. Lorvão. Col. Esp.. Mº10-Nr.14
7 T.T. Lorvão Gavetas06-Mº 7
8 T.T. Lorvão. Livro 40-233,233v
10 T.T. Lorvão. Gavetas2-Mº 2-Nr.22
11. João de Ruão ou Jean de Rouen (Ruão, 1500 – Portugal, 1580 foi um escultor e arquiteto de origem francesa ativo em Portugal entre aproximadamente 1528 e 1580
12 T.T. Lorvão Livro 313

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VIDA QUOTIDIANA DAS MONJAS NO MOSTEIRO MEDIEVAL - CAPº V UMA INSTITUIÇÃO ARISTOCRÁTICA

>> terça-feira, 19 de janeiro de 2016

O ideal do monacato, ideado por homens para homens, inspirou mulheres de fé a seguir o exemplo. Nasceram pequenos cenóbios de mulheres vocacionadas para a severa vida ‘em religião’, rezando e trabalhando. Por aí devia e podia ter ficado, se a sociedade civil não tivesse descoberto e usado o mosteiro para seu uso particular. Os mosteiros abriram as portas a postulantes,que para lá entravam - ou para lá eram enviadas - sem vocação, e por razões puramente materiais. Os reis descobriram a utilidade dos mosteiros para arrumar uma princesa a quem seus pais não conseguissem casar à altura da sua condição.

Maria de Aragão e Castela, Rainha de Portugal
No seu testamento, a rainha D. Maria, segunda mulher de D.Manuel, pede ao marido em espanhol aportuguesado, que ele procure bons casamentos para as filhas, e que, caso não o consiga, que as meta freiras, mesmo contra sua vontade: “Suplico al Rey meu senhor, que a nossas filhas em ninguna manera não las case sinon con Reis e filhos de reis legitimos, e quando esto non possa ser, que as meta freiras, ainda que elas non quieran, porque melhor serviran a Dios, que não casalas en el reyno, e bien lo sabe Sua Alteza quantas fortunas tiene pasadas sua hermana por casar en el Reyno y a elas ruego e peço, que non casen senon como aqui digo, ainda que Sua Alteza se lo mande sob pena de minha bênção". Mosteiro nesses moldes eram uma aberração. Aberração que proliferou e se manteve durante séculos.

Antes de ser aceite, a jovem candidata a professa no mosteiro era examinada quanto a qualidades morais, intelectuais e físicas. E atendia-se discretamente ao dote que dela se podia eventualmente esperar A Regra de São Bento partia do princípio, que um convento possuiria bens suficientes para sustentar a sua comunidade. Pelo que, idealmente, não seria requerido dote. São Bento não pudera prever a avalanche de mulheres que os próximos séculos iriam levar para os mosteiros. O dote era agora uma necessidade. Não se podia exigir à futura religiosa contribuição em dinheiro, mas nenhuma abadessa em seu pleno juízo recusava uma terra, um pomar, uma casa na cidade, que os pais quisessem oferecer à filha que entrava em religião. A monja era dona dos bens que trouxera em dote, subentendendo-se que estes seriam por ela legados ao mosteiro, ou doados em vida a outra monja, que por sua vez disporia a favor do mosteiro. Foram muitas as terras que Lorvão herdou das suas monjas Em 1260, a abadessa de Lorvão afora um casal em Vila Quebrada, vila que depois, como lemos, se chamaria da Cerveira, com a menção de que este casal fora de Estevania Rodrigues, sua monja. Em 1264, a abadessa dona Marina Gomes, uma Briteiros, troca com João Rodrigues de Briteiros uma terra que fora trazida para Lorvão por outra Briteiros. Em 1272, os visitadores de Claraval, que estavam então em Portugal, tiveram de conciliar as abadessas de Lorvão e de Arouca, que disputavam para os seus respectivos mosteiros os bens de uma monja que de Lorvão, fora para Arouca. Em 1291, Estevaninha Vasques, monja de Lorvão, faz partilhas com seu irmão Fernão Vasques de Figueiredo, e por ela irão ficar a Lorvão dois casais que então herdara. Em 1311, Pedro Afonso Ribeiro doa a Aldonça Pires ‘dona confessa do mosteiro de Lorvão’, uma almuinha no termo de Coimbra, ao pé do mosteiro de São Francisco. Almoinha que, depois de sua morte, ficará ‘sem contenda nenhuma’ para o mosteiro. Por almoinha entendendia-se, segundo Viterbo, uma ‘horta fechada sobre si, terra de pomar, parreiras e hortaliça, frutos, ervas e árvores que servem de matar a fome’. Outra almoinha perto de Coimbra vem parar ao mosteiro pela monja Urraca Pais, filha de Pedro de Molnes. Outra almoinha ainda, denominada de São Lourenço, que em 1317 era já de Lorvão, viera para o mosteiro por morte de Dona Maria Afonso. Em 1326, Gonçalo Pires doa a Guiomar Gomes a sua quinta do Carapinhal no termo de Mortágua, e por morte da dita Guiomar Gomes, a quinta fica para Lorvão O mosteiro tinha propriedades na Pampilhosa, em Cernadelo, em S.João de Loure, em Urgães perto de Tomar, em Carnide junto de Lisboa, tudo herdado de monjas suas. No termo de Tábua as monjas de Lorvão tinham a quinta da Portela, que fora dos Cunha, e na Rebordinha em Coimbra tinham mais ainda.

A coisa não podia durar, os reis não viam com bons olhos o enriquecimento dos mosteiros em detrimento dos particulares. Foram, promulgadas leis, proibido a aquisição de bens de raiz por parte de religiosos e mosteiros, assim como doações e disposições testamentárias a favor de institutos religiosos. Lei que os reis frequentemente ajudavam a violar. Em Lorvão dar-se-ia disso um flagrante exemplo. Uma certa Maria da Panha, ‘dona filha dalgo e de bom logo’ tinha ‘muitas herdades e bens’, que desejava dar em vida a sua filha, dona Guiomar, monja em Lorvão. Eis se não quando D.Diniz resolve promulgar a lei proibindo as monjas de herdarem bens de raiz. Dona Maria da Panha não vacila. Entra também ela como monja para o mosteiro de Levando trazendo consigo todos os seus grandes bens. Pede ao rei - conclui-se que o fez em pessoa – que fosse permitido a sua filha herdar esses bens. D.Diniz, atendeu o pedido, ‘fez-lhes graça e mercê, e permitiu que os seus bens ficassem a sua filha, e, consequentemente, dela passassem a Lorvão. Os bens de dona Maria da Panha estendiam-se por montes e vales, com terras e casas em Paredes de Gestaçô, em Sobrado de Paiva, em Linhares, e de lá até à Guarda, em Torres Vedras e em muitos outros sítios.

Os mosteiros de mulheres não foram entusiasticamente aceites pelas Ordens. Mas era escusado protestarem. À cabeça dos mosteiros de mulheres estavam abadessas de grandes famílias, mulheres influentes que eram ouvidas na Corte por elas, ou, se necessário, por alguma das monjas que tivesse laços de família com a personagem de quem podia depender uma decisão importante. E os soberanos, que periodicamente se insurgiam contra os ditos mosteiros, fundavam outros. Odivelas foi fundação de D. Diniz. Seu filho bastardo, D.Afonso Sanches, fundou o mosteiro de Santa Clara em Vila do Conde, deixando uma verba destinada a lá manter duas religiosas, que tinham por missão rezar por ele e por sua mulher. O exemplo dos reis foi seguido por famílias nobres, fundando pequenos mosteiros nas suas terras, ou perto delas, colocando neles as suas filhas para que rezassem pelos pais e lhes alcançarem o perdão das suas culpas. Em geral reservavam para si o direito de lá se hospedarem. O que faziam com tal frequência e tanta demora que acabavam por ser a ruina da sua própria fundação

Grandes ou pequenos, os mosteiros medievais de mulheres foram necessariamente instituições aristocráticas. Para a rapariga nobre, era ‘desonesto’ não era aceitável, exercer uma profissão. Casava, ou à falta disso, entrava em religião.

Nas famílias de mercadores e obreiras na cidade e no campo, o problema não se punha. Se as filhas não encontravam marido, não lhes faltavam ocupações e profissões que podiam exercer e exerciam. Na cidade, as filhas dos pequenos comerciantes e artesãos trabalhavam, vendendo e fabricando. No campo, as filhas ajudavam os pais nos trabalhos da lavoura. Se não casava, era mais um braço para trabalhar. E havia, então como sempre, os trabalhos domésticos, em casa, ou para fora.

Houve alguns conventos abertos às famílias da alta burguesia. O mosteiro de Chelas, da ordem de São Domingos, junto a Lisboa, foi por excelência, e, pelo menos, até à primeira metade do século XV, convento das filhas da alta burguesia lisboeta.

A classe dos mercadores ricos e os altos magistrados rivalizava com a fidalguia, possuidora de bens patrimoniais nem sempre muito produtivos. Essa gente de dinheiro e de letras não tinha grande hipótese de colocar as filhas em mosteiro fundado, ou há muito dominado, pela alta nobreza. Teve em Chelas o seu convento. Encontram-se entre as suas religiosas filhas de magistrados, como as Alvernazes, filhas e sobrinhas de grandes mercadores, uma das prioresas era sobrinha direita do riquíssimo João Palhavã. Há em Chelas filhas de famílias estrangeiras estabelecidas em Lisboa, como as Reineis e as Donteis. Chelas abria as portas a mulheres viúvas, e a mulheres separadas de seus maridos. Chelas é um curioso caso, talvez um dos mais interessantes mosteiros português, e, para a história de Lisboa, uma mina de informações. Mas quando se fala de vida monástica feminina no Portugal medieval, está-se falando dos grandes mosteiros, fundados pelo rei ou por membro da família real. Está-se falando de Arouca, de Celas, de Santa Clara de Vila do Conde, e, evidentemente, de Lorvão, o nec plus ultra em mosteiro de mulheres.

Os superiores das Ordens tiveram cedo consciência dos problemas inerentes à vida em comum de muitas mulheres. A mulher é mais suscetível que o homem, irrita-se mais que este com modos e maneiras do seu semelhante. A irritação podia tomar proporções explosivas. Em consequência, na admissão de uma religiosa olhava-se muito à condição física da candidata. O defeito físico podia incomodar, meter nojo e causar grandes problemas. No mosteiro da Madre de Deus de Lisboa foi muito discutida a entrada de uma noviça, natural da Guarda, por as religiosas não lhe poderem avaliar a condição física com os próprios olhos: ‘nos pareceu em os primeiros combates cousa ridícula tomar uma mulher de setenta ou oitenta léguas daqui, de quem não podíamos saber se era torta ou aleijada, ou alguma selvagem, que é ainda pior aleijão".2 Em Lorvão não encontramos menção de mulheres aleijões, ou surdas, ou com outro defeito físico incomodativo, mas encontram-se numerosos casos de irmãs gémeas, o que no tempo era considerado uma anormalidade, mas não um defeito incomodativo.

Requeria-se também que as monjas tivessem boas maneiras e uma razoável cultura para que não se incomodassem umas às outras. O ensino de boas maneiras era tomado muito a sério, seguindo com variações pontuais a regra que Santo Agostinho redigira para a ordem fundada por sua irmã. Para poder haver um relacionamento pacífico e agradável das religiosas entre si, Santo Agostinho recomendava que a mestra de noviças instruísse a jovem professa nesse sentido. Além de ensinar a ler às que não o sabiam - o que era a maioria delas - a mestra devia informar as noviças dos costumes do seu mosteiro e incutir-lhes modéstia e boas maneiras. Devia admoesta-las a que não se gabassem de parentesco com pessoas graves, ‘nem se jactem de fidalguia ou nobreza da sua geração’. E que não se ‘ensoberbeçam com as honras do século, ou riqueza dos pais, ou parentes.’ ‘E que as ricas ponham em comum o que tenham; as pobres não queiram ter no mosteiro o que não tinham fora dele. E que as pobres não se enalteçam por ter trato com aquelas às quais lá fora se não atreveriam a chegar´.

 
Santo Agostinho

Os séculos não apagaram o valor dos preceitos de Santo Agostinho sobre a melhor forma de viver em comum, ‘em sociedade’, e a sociedade civil adoptaria gradualmente para si alguns dos preceitos de ‘boas maneiras’ estabelecidos para religiossas.

A par de disciplina religiosa, a noviça aprendia regras de comportamento. Às monjas de um mosteiro inglês era ensinado que, à mesa, as religiosas não se deviam encostar com os cotovelos, não deviam comer de boca aberta, não deviam escolher para si os melhores bocados Nos mosteiros alemães havia igual preocupação com boas maneiras. Na Alemanha o ‘Novizenspiegel4, ou “Espelho de noviças”, recomendava à noviça: que não coma com a rapidez da gula, como se receasses que não chegasse para ela. Que não se inclinasse sobre a comida, que não olhasse em redor para ver se não haveria outra que tivesse mais e melhor que ela. Ao sentarem-se, as monjas deviam fazê-lo bem direitas, segurando as extremidades dos seus mantos ou cogula, dizia-se às monjas inglesas. Nos locais de silêncio deviam manter as mãos nas mangas da cogula. Não deviam estender demasiado as pernas nem cruzar os joelhos, um sobre o outro. Deviam cobrir os pés honestamente sob as suas vestes e não brincar com eles. Quando sentada entre duas companheiras, a monja devia fazê-lo de modo a não ter a cara virada só para uma, ou só para a outra das suas vizinhas, e não estar de costas viradas para uma ou para outra, nem virando a cabeça alternadamente de um lado para outro. E nada de sonoras gargalhadas. A mestra das noviças devia ensinar as suas pupilas a ‘não serem fáceis em rir, e menos com risos acompanhados de vozes altas.’, A religiosa ‘não devia rir em demasiado nem a despropósito”, ensinava-se também às inglesas. Contudo, caso o soberano, ou alguma das irmãs mais idosas, rissem, a brincar, de alguma outra irmã, ou irmãs, então, ‘cortesmente, por amor à qualidade, deverão sorrir ou rir modestamente também’.

 O estar de pé também tinha os seus preceitos. Não se devia estar só sobre um pé, com o outro encostado, nem com um cruzado sobre o outro, diziam as mestras inglesas a suas pupilas. A monja manter-se-ia em pé, direita, ligeiramente encostada na cadeira do coro, com as mãos diante de si, dentro dos mantos ou das mangas da cogula.

O andar não devia ser de cabeça no ar, recomendava-se às monjas portuguesas, mas sim ‘com os olhos postos em terra e as mãos recolhidas debaixo do escapulário ou dentro das mangas do hábito junto à cintura’.

Quando professava - com a pompa devida, com ofício religioso próprio - a noviça fora ensinada a ler, escrever e cantar, e estava formada em boas maneiras. E -idealmente - não irritaria as suas companheiras.

 


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