VIDA QUOTIDIANA DAS MONJAS NO MOSTEIRO MEDIEVAL - CAPº IX COLHER OS FRUTOS

>> quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Bispos e visitadores fulminavam constantemente contra as excessivas saídas das religiosas, por muito úteis que fossem, e, em 1299, o papa Bonifácio VIII, farto de tantos passeios, emitiu uma bula rigorosíssima, a bula ‘Periculoso’, na qual Sua Santidade apontava, como o título indica, os perigos que as monjas incorriam com as suas frequentes quebras de clausura. Proibia-lhes dali por diante praticamente todas as saídas fora dos mosteiros. A coisa não agradou. No seu livro ‘Medieval English Nunneries’, sobre os mosteiros medievais ingleses, Eileen Power relata o caso das monjas de um mosteiro da diocese de Lincoln, que se recusaram a aceitar a referida Bula. Pretendendo o Bispo depositá-la no mosteiro, as monjas perseguiram-no até à porta, gritando que nunca cumpririam semelhante Bula, e acabando por lançar o documento à cabeça do infeliz prelado. E por toda a parte as monjas continuaram saindo fora do seu mosteiro, encontrando para isso as mais variadas ‘ocasiões de manifesta necessidade’. Em Lorvão algumas das oficiais do mosteiro, como a prioresa e a celeireira, tinham frequentemente justificadas razões para sair do mosteiro. Apesar do mosteiro ter procurador para lhe tratar de negócios no mundo, havia sempre casos que não dispensavam, achavam aquelas senhoras, a presença de uma oficial do mosteiro. Em 1427, a então prioresa, dona Catarina Aires Coelho, vai à Vacariça em substituição de dona Abadessa, protestar contra a construção de uma ermida em terreno que era do mosteiro. O procurador delas já protestara, mas sem resultado. Pelo que a dita prioresa, dona Catarina foi em pessoa tratar do caso. A ermida estava a ser construída por ordem do bispo de Coimbra, disseram os homens que ali estavam trabalhando. O Bispo requeria para si as esmolas e ofertas que ali levavam os romeiros. A prioresa declarou que só permitiria aquela construção, se as benfeitorias revertessem a favor do mosteiro. E logo mandou retirar de lá alguns ‘vendeiros’, que já se tinham instalado no terreno. A celeireira, tendo a seu cargo o armazenamento e a distribuição de tudo quanto era preciso para a padaria e para a cozinha da comunidade, não podia ficar em casa quando a entrega dos géneros demorava. Ia em pessoa a Botão, à quinta que o mosteiro ali tinha, para ver o que se passava com o trigo, lá armazenado que não chegava a tempo a Lorvão. E os legumes e frutas que não vinham a tempo ou em quantidade. A Ordem de Cister, que recomendava aos seus monges os trabalhos no campo, não previra mosteiros femininos, e que as suas monjas viessem a fazer o mesmo que os monges. Não sucederia em todos os mosteiros, mas em Lorvão - com ou sem aprovação da Ordem - as monjas ocupavam-se em trabalhos agrícolas. Não lavravam, semeavam ou plantavam, mas colhiam frutos, e recebiam rendas em frutos do campo. Os mais completos testemunhos encontram-se nas actas notariais tocando a casos de litígio. As partes litigiosas levavam consigo o seu tabelião, que registava no próprio local o que via e ouvia., não omitindo o mais pequeno pormenor. Notavam a assistência deste e daquele, e o que cada um dissera, e a quem acusara. Se uma monja estava presente, isso era devidamente anotado. Um desses documentos, datado de 1321, trata da disputa entre o mosteiro de Lorvão e Lourenço Pais de Molnes sobre a posse de uma almuinha no local da Varzea, junto de Coimbra. Pelo mosteiro testemunharam uns homens que possuíam terra junto dessa almuinha Estes homens declararam ao tabelião, que havia já um ano que eles viam a dita almuinha ser lavrada com os bois da senhora abadessa de Lorvão, que gente dela tinha lá semeado linho canave (sic), e que depois tinham visto ali ‘Tareija Vasques de Azevedo e outras donas, monjas do dito monasterio, e frey Martim Leal’ lavando linho: ‘Qoe lhes viram ende lavar linho para o dito monasterio’.8 Outro documento notarial, esse de 1348, dá conta da presença de duas monjas num local chamado Ouriães. Lorvão achava-se com direito a certo trigo proveniente de um casal que o mosteiro ali tinha. O facto era contestado pelo então Prior do Hospital, e Lorvão resolvera agir. Consequentemente, no dia 19 de Julho de 1348, duas monjas suas apresentaram-se em Ouriães acompanhadas de tabelião. Nesse dia, anota este, jazia trigo debulhado na eira com a palha tirada. Dona Maria Fernandes e Branca Martins, monjas professas do mosteiro de Lorvão, estavam na eira, e declaravam estar na dita eira para fazerem limpar o trigo, que era ração do casal que era do mosteiro. E que o caseiro, Gonçalo Domingos, lavrava e ‘trazia da mão da abadessa e convento do dito mosteiro’. Elas ali estavam, diziam as monjas, para levar o dito trigo do dito casal ‘como seu’. As Donas declaravam ainda, que havia dias que estavam na dita eira, ‘que já tinham partido o trigo em freixes com o dito caseiro, e que, em nome do convento e da sua abadessa, tinham tomado trigo do casal, comido dele, e o vendido. Prova de posse, portanto.

Ora, relata diligentemente o tabelião, ‘estando elas assim na dita eira e casal’, chegou Pero Lourenço, que se dizia escrivão, tabelião e procurador do Prior do Hospital. Vinha acompanhado de nove homens com armas, ‘convém a saber: lanças e arcos e espadas e cutelos’ Um deles trazia uma besta e a sua espada’. O dito Lourenço declarou que estava ali como procurador do Prior do Hospital, para tomar o casal e a eira que era do Prior, que vinha ‘filhar o dito pão do dito casal e ração dele para o dito prior, que dizia que era seu’. E ‘logo o dito Pero Lourenço, e os outros que com ele andavam, filharam forcas e uma pá e começaram a limpar o dito trigo que jazia na dita eira’. Ora, escreve o tabelião de Lorvão, as duas donas ‘estavam ‘na dita eira em cima no dito trigo’ Uma delas, Branca Martins, tinha uma forca na mão, ‘assomando no dito trigo com ela’, dizendo ao dito Pero Lourenço e aos seus homens, ‘que não fizessem força nem mal’, acusando-os de virem armados ‘fasendo assuada sobre elas’. Pero Lourenço ripostou que eles não vinham para lhes fazer mal, nem desonra, que estavam ali porque aquilo era herdade do Prior, e que tinham ordem para ‘partir pão e levar a ração dele para o dito Prior, e que os ditos homens eram do dito Prior e comiam seu pão e sua carne’. Dito isto, Pero Lourenço avançara resoluto sobre a monja que segurava a forca. ‘E logo o dito Pero Lourenço travou da forca que a dita Branca Martins tinha na mão, de guisa que, entre ele, e os outros que com ele andavam, ‘lha tiraram da mão’. Puxando cada um para seu lado, Branca Martins caiu em terra: ‘tirando eles por ela para uma parte, e a dita dona para outra, de guisa que a dita dona agoelhou em terra’.Pero Lourenço e os outros homens do Prior começaram logo a varrer o trigo, e a pô-lo em montes. AS monjas não se davam por vencidas, trepando de novo para cima do trigo. Pero Lourenço também voltou à luta: ‘travava da mão da dita Branca Martins, tirando-a de cima do dito trigo’, declarando que não permitiria que as Donas levassem dali trigo ou qualquer outra coisa. E foi carregando o trigo que conseguia varrer. Depois do dito Pero Lourenço ter posto o trigo que conseguira varrer em cima das suas bestas e de o ter levado, as sobreditas dona Maria Fernandes e Branca Martins ficaram na dita eira, sentadas em cima do trigo, declarando ‘como ficavam em posse do dito casal, e do dito trigo, que era ração dele’. Depois fizeram-no limpar e medir, e mandaram-no a um tal Lourenço Soares a quem o tinham vendido. Branca Martins foi em seguida a um lugar ali perto, onde havia nogueiras e figueiras e um castanheiro, que as monjas diziam serem também pertença do casal que era do mosteiro. Gonçalo Domingues, caseiro, confirmou que assim era. E então escreve o tabelião, Branca Martins, pegou em nozes, figos e folhas de parreira, ‘filhou das nozes das ditas nogueiras, e figos lampos em uma figueira corval (sic), e ramos de castanheiro, e argaço de uma parreira que estava em uma figueira’, e declarou que filhava aquelas coisas porque eram do dito casal, e por isso do mosteiro, que as usava e possuía pacificamente. Por fim as ditas dona Maria Fernandes e Branca Martins ainda foram à casa onde morava o caseiro, disseram-lhe que ele bem sabia que ele há muito tempo - ‘grã tempo havia’ - tinha casa e casal da mão da abadessa e convento do mosteiro de Lorvão, a quem pagava foro e ração. Agora sobreviera homem da parte do Prior do Hospital para lhes tirar o casal, mas elas sabiam que estavam no seu direito e ali mesmo ‘revestiam na dita posse do dito casal o dito Gonçalo Domingues’. Este confessou ser verdade, que o casal era de Lorvão; que há muito tinha sido encartado a ele e a seu pai pela abadessa e convento de Lorvão, e que eles ‘de sua mão ficavam e queriam ficar revestidos’. O tabelião anotou-o, e o documento foi testemunhado por homens de Penacova, da Reboleira e de outros sítios, que ali se encontravam. Dona Maria Fernandes, a quem o tabelião tem o cuidado de nomear sempre em primeiro lugar, e que, mesmo sentada em cima do trigo não largara o Dom, e a aguerrida Branca Martins puderam regressar ao seu mosteiro, conscientes de missão cumprida. Estes e outros documentos dão a entender a forte ligação das monjas de Lorvão à faina agrícola. Longe da cidade e dos mexericos citadinos, que penetravam mesmo através das fortes portas dos mosteiros, o interesse das monjas de Lorvão centrava forçosamente no cultivo da terra. Ao tomarem conta do mosteiro as primeiras monjas tinham encontrado um modo de vida de proprietário rural, que muito naturalmente adoptariam. Muitas delas eram filhas de proprietários de terras, conheciam os altos e baixos do ano agrícola. A alternância das sementeiras e das colheitas, a influência dos elementos sobre a produção do trigo, do vinho, do azeite, coisas vitais para o mosteiro, para as suas próprias pessoas contribuíram talvez para dar às monjas de Lorvão uma arma contra a ‘accidie’, que a monotonia da vida monástica podia provocar, e comprovadamente frequentemente provocou.

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VIDA QUOTIDIANA DAS MONJAS NO MOSTEIRO MEDIEVAL - CAPºVIII PÃO PEIXE VINHO

>> quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016


No capítulo em que São Bento na sua Regra tratava ‘da quantidade das iguarias e qualidade do comer’, o autor especificava o que, em seu entender, devia ser o comer de cada dia. Podia haver a cada refeição - ‘a todas as mesas’ - duas iguarias, ‘pelas infirmidades e fraquezas de muitos, para que o que não poder comer de uma, coma da outra’. Destas duas iguarias, o religioso ou a religiosa escolheria uma, à qual poderia juntar fruta ou um legume, havendo-os. Quanto a carne, não era permitida. Frangos, patos, pombos não eram tidos como carne, e eram tidas como salutares em caso de doença e fraqueza, e eram permitidos e até aconselhados nesses casos. Normalmente, porém, as bases da refeição eram peixe e pão, água e vinho. Dava-se em geral por refeição uma ’peixota’, uma pescada, na opinião da maioria dos autores. Uma pescada média, decerto, ou, talvez outro peixe de médio tamanho quando não havia a obrigatória pescada. Alimento principal era o pão. O pão de trigo, que se foi generalizando com um maior plantio de trigo, com bom fermento designava-se por ‘pão de convento’. Havia o ‘pão raçoeiro’, de trigo e centeio. Havia pães pequenos e grandes de todas as qualidades. Havia os ‘michos’, havia pães redondos, pequenos ou grandes., feitos de trigo e milho, e por fim as broas, só de milho. A distribuição dos pães cabia à tulheira e não era tarefa fácil. As ‘soldadas’ eram em parte pagas em pão, os pães não eram os mesmos para as monjas e os apaniguados, nem os mesmos para todos os apaniguados. A partir da Páscoa e até à festa do Espírito Santo, na Primavera portanto, a ‘comida’ - a principal refeição - era à sexta hora, ao meio dia de hoje, portanto. E assim se continuaria pelo verão fora, tendo em consideração o calor dessa estação. Nos dias de jejum, a ‘comida’ era à Noa, ou seja às três da tarde. Era também a essa hora que, a partir dos primeiros dias de Setembro e até ao princípio da Quaresma, se tomava a principal refeição. Na Quaresma, até à Páscoa, a ‘comida’ era a vésperas, ou seja à tarde, recomendando São Bento que se comesse ainda com luz do dia para poupar a iluminação artificial, para que os ‘que comerem não tenham necessidade de candeia’
">As religiosas tinham pois por dia uma única refeição forte. Podiam comer fora de horas algum bocado do pão que lhes era distribuído, mas só se sentavam à mesa uma vez por dia, para a refeição forte, ‘a comida’. Gradualmente passou a ser usual e permitido haver uma segunda refeição sentada no fim do dia, distinguindo-se a partir daí entre ‘comida’ e ‘ceia’.
De mosteiro para mosteiro, e de Ordem para Ordem, as expressões usadas para as refeições e horas delas podiam variar. Na tradução para português da Regrade São Bento feita por Frei Tomás do Socorro, lê-se: ‘a hora da ceia ou da comida’, dando a ambas as designações o mesmo significado. Nas constituições das freiras de São Domingos, traduzidas no século XV, lê-se, que a sacristã tocaria a campainha ‘antes do jantar ou da ceia à hora convinhal’, e que logo se davam ‘as coisas necessárias para refeição das irmãs’. À pequena porção de comida que se dava em tempo do jejum, designava-se por ‘colação’: ‘No tempo do jejum, à hora conveniente, faça a sacristã sinal para a colação’.
Em certos dias havia uma melhoria no volume das refeições com ‘pitanças’ legadas por devotos do mosteiro. Eram legados com condições devidamente refustadas. Designavam-se por ‘pitança’. Em 1241 a abadessa de Lorvão e seu convento comprometem-se a comprar uma propriedade no valor de 200 aureos, ‘áureos vetens’, que lhes deixara a rainha D. Branca para que, com os rendimentos dessa propriedade, tanto elas como as suas sucessoras, pudessem ter ‘pitança’ de pão e vinho e peixe fresco no dia de seu aniversário, ‘bono pane et vino et piscibus recentibus’.Houve muitas dessas pitanças, e sempre mais do mesmo: mais pão e mais peixe.

A Regra partia do princípio que q comida dos monges - e portanto as monjas, que haviam adoptado a mesma Regra - deviam comer à mesma mesa a sua refeição. Nos mosteiros femininos o costume não tardou a mudar. A Regra autorizava, como se leu, duas iguarias em todas as mesas, para que aqueles que não podiam comer certa iguaria, pudessem escolher outra. Com esta consideração ia ser dada uma das primeiras machadadas na tão apregoada vida em comum. Em alguns mosteiros seria criada uma divisão separada – uma ‘misericórdia’- na qual comiam as monjas, que por razões de saúde tinham comida mais substancial ou mais delicada. A partir daqui nasceu a ideia da divisão das religiosas em pequenos grupos, comendo separadas mesmo sem razões de saúde, e que cozinhavam para si as suas próprias refeições.
 
A opção da comida separada, em vez da refeição em comum, não se explicava só pelo muito humano desejo de mais privacidade, porque a ser essa a razão, as monjas teriam conseguido o relaxamento da vida em comum também no dormitório. Onde isso mais tarde também se viria a dar, mas nunca como na comida. As aristocráticas filhas de família que professavam em Lorvão estavam mais que habituadas a dormir com uma ou mais mulher no mesmo quarto. Em suas casas não se fazia outra coisa, privacidade era coisa que não havia nas casas, grandes ou pequenos. Dormir em comum não era sacrifício. Duro era ter de comer comida cozinhada para muitas bocas, fatalmente menos cuidada do que os cozinhados feitos para duas, três, ou mesmo quatro pessoas. E, mais difícil que tudo, era o ter de aturar os hábitos de comer menos cuidados de uma ou outra companheira. E assim, pouco a pouco, foi-se instalando entre as monjas o hábito de cozinhar e comer separadamente. Foi hábito que por toda a Europa os visitadores e reformadores se esforçaram por erradicar, mas com pouco êxito. E por vezes causando revolta declarada, como a das monjas do mosteiro de Wenningen perto de Hannover na Alemanha, onde, em 1455, as monjas se revoltaram por as quererem a obrigar a comer em comum. Algumas entregaram, relutantemente os pratos, copos e facas e os utensílios de cozinha próprios, mas outras ‘deixaram cair os pratos para os partir’.5

Em Lorvão a coisa foi menos belicosa. Em 1534, respondendo aos reparos do visitador, que não se habituava àquela flagrante quebra da Regra, as monjas alegariam que não podiam comer em comum, porque o mosteiro não tinha pessoal suficiente para o efeito. O visitador, cansado de bater sem efeito na mesma tecla, desistiu de impor o impossível, e descarregou’ a consciência, e a de ‘dona abba e monjas e religiosas’ permitindo o novo hábito. Causando um trabalho insano à celeireira e às suas oficiais. É que as monjas recebiam não só quantidades definidas em pão, peixe e condimentos para os seus cozinhados, como essas quantidades diferiam conforme as datas em que eram dadas.

Acerca das mesas às quais se sentavam os pequenos grupos de monjas, há uma curiosa recomendação por parte de um visitador. Exigia ele que as mesas fossem redondas. Com o que se eliminavam as cabeceiras, o que evitava as questões de precedência, a discussão de quem tinha mais direito à cabeceira e à presidência da mesa, e quem ficava à sua direita e esquerda. Na linguagem monástica nasceu também uma nova e mais elegante expressão para designar o local das refeições. O refeitório passou a ser designado por ‘sala de jantar’ Em 1536 as monjas de Lorvão assinam um documento em a ‘sala de jantarem’.

 Os cozinhados individuais permitiam a inspiração, criavam-se variantes com os mesmos elementos, e tentavam-se novas combinações. Deve ser o resultado de uma dessas experiências o caldo qual se conservou a receita, que as monjas de Lorvão tomavam na Sexta-Feira-Santa. Fazia-se com 4 alqueires de tremoços, alqueire e meio de grão e alqueire e meio de ameixas. Ou seja, aproximadamente, 2 kg de tremoços 750 g de grão e 750g de ameixas.

Houve que esperar pelas Descobertas para conseguir combinações mais atrativas, mas antes disso já se tinha conseguido variar a monotonia de pão, peixe e conduto, fugindo à Regra dentro da Regra. Havia dias de consoada em que a comida era especial,
Já só existem livros de contas do século XVII, os mais antigos sendo gradualmente destruídos, mas os usos pouco mudavam nos mosteiros, e o que se usava a em matéria de consoada no século XVII não diferia decero do que se dava nas mesmas ocasiões nos anos anteriores. Os dias de Jejum - que não eram poucos do ano religioso - eram compensados com uma consoada, uma ligeira refeição à noite. No austero mosteiro da Madre Deus em Lisboa, as religiosas gabavam-se de consoar com ‘dois bocados de pão e umas folhas de hortelã’6 . Em Lorvão era-se menos frugal. Nos meses de Junho e Julho compravam-se grandes quantidades de cerejas para as consoados dos dias de Santo António e São João. O “Livro da Mordomia” de Lorvão do ano de 1659 diz que para as consoadas das vésperas de Stº António, S. Joâo Baptista, e da Visitação, e merenda de Stª António’, se tinham comprado nesse ano 735 arráteis de cerejas.

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VIDA QUOTIDIANA DAS MONJAS NO MOSTEIRO MEDIEVAL - CAPº VII HORAS OFICINAS E OFICIAIS

>> quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016


O mosteiro era casa de oração, centrada na igreja e nas devoções. E era a casa de habitação de uma comunidade, um ‘convento’, de mulheres unidas na oração e no trabalho. Que tinham de ser alimentadas e vestidas, tratadas quando doentes e cuidadas na velhice. O seu dia estava dividido em períodos de seis ‘Horas’ de oração, de forma a realizar em perfeita harmonia o ideal monástico de oração e trabalho. Eram a hora de véspera ao fim da tarde, antes das monjas se deitarem. O que podia ser às oito no inverno, e às nove no verão. No coro agradecia-se ao Senhor o fim do dia e do trabalhos. Às 24 horas, era a hora de ‘Prima’ a primeira hora de um novo dia. No coro cantava-se ‘Saudadte Domibe in caelis’ saudando a aurora de um novo dia. Às 6 da manhã, ‘Hora  Sexta’ era a hora de levantar, de cantar ‘ Laudes,’ hino de louvor ao início de um novo dia de trabalho. A Hora Média podia ser celebrada às 9h00, chamada de ‘Terça’, às 12h00 ‘Sexta’ ou às 15h00 ‘Noa’ ou ‘Nona’.

O governo da casa era de relativa simplicidade quando o mosteiro era pequeno como a Regra recomendara. Uma comunidade reunida debaixo do mesmo tecto para fazer oração, alimentando-se de pão, vinho, peixe, fruta e hortaliça, dormindo no mesmo dormitório, e tomando as suas refeições em torno da mesma mesa, não exigia uma organização complicada. Tudo se modificava quando o número de religiosas era grande, por vezes exageradamente grande. Havia que fazer ajustes, arranjos, a casa já nada tinha a ver com a simplicidade original do monsaterio.

No entanto, grande ou pequeno, a divisão dos trabalhos domésticos era o mesmo. Dividia-se em ‘oficinas’ geridas por ‘oficinas’ escolhidas para o respectivo cargo No mosteiro pequeno as oficinas eram poucas, no mosteiro grande eram muitas. Em 1536, havia no mosteiro de Lorvão dezassete cargos e funções distintas dentro do mosteiro. Mas havia mais.

              A abadessa, ocupada com a administração, delegava o governo da casa na prioresa. Em grandes mosteiros podia haver uma sub-prioresa. Era o caso de Lorvão. No sector espiritual, a primeira oficial era a ‘cantor’, ou cantor-mor. Em Lorvão, ela tinha duas ou mais auxiliares. A cantor entoava e dirigia o coro, ensinava música e canto às noviças, e preparava a parte musical das procissões e dos ofícios solenes. Tinha outra incumbência. Talvez por se partir do princípio, que uma cantor tinha forçosamente boa dicção, era ela quem fazia a leitura da acta de recomendações que o Visitador deixara à comunidade após a sua visita e exame. A cantor-mor era naturalmente responsável pelos livros destinados aos ofícios divinos: livros de coro e de canto, que eram guardados na própria igreja, junto do altar, ou no coro. Livros levavam muito tempo a copiar custavam muito dinheiro em peles e tintas, em pagamento aos escribas e copistas, quando o livro não era produzido no ‘scriptórium’ do próprio mosteiro. Havia que ter os maiores cuidados com essas obras. Em Lorvão as monjas tinham herdado obras valiosas dos seus antecessores, e era a cantor a responsável pela sua conservação. Limpava-os, cosia ou mandava coser alguma folha solta, vigiava que não saíssem dos seus locais e que para lá voltassem depois de usados. Se os preciosos livros manuscritos do mosteiro de Lorvão sobreviveram às vicissitudes dos anos, se resistiram à humidade que sempre permeou aquelas paredes, isso deve-se com certeza aos cuidados constantes de gerações de´ cantores’.

A autora do ‘Livro das Preladas’, escreve que o ‘Livro dos Passarinhos’ - o célebre ‘Livro das Aves’ - estava na ‘Livraria do Canto Chão entregue às cantores’ .

Outra oficial ligada ao serviço divino era a sacristã. Ocupava-se da igreja, dos vasos sagrados, das vestes litúrgicas, das toalhas do altar e de tudo o resto que, de longe ou de perto, se ligava à igreja do mosteiro. Era ela a sineira

Era ela quem tocava o sino, ela a responsável pela limpeza da igreja. Era também ela quem se encarregava da iluminação, não só da igreja, como de toda a casa monástica. Comprava a cera para as velas, fabricava-as, ou mandava fabricá-las, e distribuía-as às outras oficinas. A oficina que se veio a designar por ‘sacristia’ foi criada nos primeiros anos do sec.XIV. Até lá os vasos e vestes sagrados tinham sido guardados em arcas e armários nas capelas onde eram usados.1 A sacristã era em geral coadjuvada por uma ou mais monjas, e teve muito cedo ajudantas pagas para fazer a limpeza da igreja. No mosteiro de Arouca encontramo-las entre os servidores do mosteiro já em meados do século XV.

À sacristã de Lorvão cabia uma curiosa tarefa: o fabrico d’água dos danados’. Era uma água - decerto com fama de curativa - confeccionada fervendo nela a caveira de um abade de santa memória.

No sector temporal a primeira oficial era a ‘bolseira’. Seguiam-na, em ordem de importância, a ‘celeireira’, a ‘tulheira’, a ‘despenseira’, a ‘refeitoreira’, a ‘enfermeira’, a ‘boticária’ e a ‘porteira’. Em Lorvão, onde tudo era em grande, havia duas bolseiras, auxiliadas por uma escrivã; havia duas celeireiras, a principal e a sub-celeireira, ambas por sua vez auxiliadas por uma escrivã. Havia mais que uma enfermeira, mais que uma porteira e, como já se disse, mais que uma sacristã e cantor.


Todos os anos as oficiais juravam sobre os Evangelhos, que cumpririam o seu cargo ‘com toda fidelidade e diligência e caridade’. Por essa ocasião, aquelas oficiais que estavam à cabeça de oficinas onde se lidasse com dinheiro, davam conta das respectivas receitas e despesas. As contas eram apresentadas à abadessa e às anciãs, as monjas mais velhas do convento. Que não hesitavam em destituir uma oficial, e nomear outra em seu lugar, caso julgassem a oficina mal regida.

Quando da visitação de 1536, os visitantes não encontraram em Lorvão nada a dizer no que tocava ao lado espiritual do mosteiro ‘nas coisas sptriais (sic) e ofícios divinos se cumprem mui bem’, mas no campo administrativo da casa encontraram fortes razões de crítica. O que nos valeu uma acta com reparos explícitos sobre as obrigações e da maioria das oficinas e suas oficiais.

A bolseira, como o nome indica, era a mulher dos dinheiros, aquela que tinha a bolsa deles. Recebia o dinheiro que entrava no mosteiro, e era ela quem o distribuía pelas outras oficinas para compras e pagamentos. À bolseira recomendava-se que exigisse sempre recibos, e desse por sua vez quitações. Devia anotar todos os dinheiros recebidos e distribuídos. Os visitadores recomendavam que todo o dinheiro recebido na bolsaria fosse depositado na ‘Arca do Depósito’ e que também se guardasse aí o Livro da Bolsaria, em que se deviam anotar as despesas e receitas. Para a dita arca devia haver duas chaves, ordenavam os visitadores. Pela mesma ocasião recomendavam que todos os pagamentos fossem devidamente anotados, que a escrivã das bolseiras desse sempre quitações, e que estas fossem assinadas por ambas as bolseiras, pela abadessa, pela oficial responsável pela entrega, e pela própria escrivã. E todos esses recibos deviam ser devidamente tresladados no Livro da Bolsaria. Era provavelmente uma ordem periodicamente repetida e constantemente desatendida ou mal executada, e os visitadores não deviam ter grandes esperanças de serem obedecidos na matéria.

              A bolseira arrecadava também o dinheiro que as monjas tivessem recebido por algum trabalho de suas mãos, em particular fio fiado por elas. Também cabia à bolseira o pagamento dos salários aos trabalhadores que eram pagos em dinheiro.

A verdadeira dona de casa era a celeireira. Era ela quem encomendava e comprava os géneros, que os mandava vir e recebia das propriedades do mosteiro, e ela que fazia a sua distribuição. Contratava, pagava, e, se necessário, despedia o pessoal que trabalhava para o mosteiro dentro de casa. Este era pago, segundo tabela estabelecida, em e dinheiro e em géneros: comida e fato. Quando um mosteiro tinha quinta própria, o que era o caso de Lorvão com a sua quinta do Botão, era a celeireira que superintendia o seu bom governo, que nomeava o feitor. Era responsável por que os produtos da quinta: ‘trigo e farinha e azeite e vinho e vinagre e legumes e todas as cousas que em Botão se recolhiam’ viessem a tempo. Devia também tomar nota de tudo o que se gastava na quinta ‘em pão, vinho, azeite, aves, linho, dinheiro e qualquer outra cousa’.

              As abadessas de Lorvão e algumas das religiosas passavam por vezes largos tempos em Botão. Visitantes de passagem também lá eram recebidos. Era a celeireira que provia que fossem bem tratados. Competia também às celeireiras zelar por que não faltasse farinha no mosteiro, tratando a tempo com os moleiros. Se a farinha faltava na tulha não era de quem tinha os moinhos da casa, que se murmurava, mas das celeireiras. Em 1536 os visitadores notaram que as religiosas tinham muitas vezes que esperar pela cozedura do pão: ‘por não ter farinha feita’. Não podia ser, escreve o visitador, as celeireiras que fizessem o possível para que isso não sucedesse. O mosteiro tinha boas arcas para guardar a farinha produzida pelos seus moinhos, e se estes não produzissem o necessário, as celeireiras que dessem ordem ao feitor de Botão para que este mandasse também trabalhar as azenhas que o mosteiro lá tinha

Cabia igualmente à celeireira cuidar dos géneros para velhas e doentes. O visitador de 1536 fora informado que muitas vezes faltava o necessário às religiosas velhas. Que eram elas que tinham de comprar as suas mezinhas e remédios, pagando-os com o seu dinheiro. Muitas, além de velhas, eram doentes, não podiam trabalhar, e não tinham parentes que lhes dessem dinheiro. Não era de admitir que passassem necessidade. Os visitadores deram estritas ordens às celeireiras para se ocuparem disso, para que houvesse ‘provisão e mantimentos de suas enfermidades, fraquezas e velhices’.

Por ocasião daquela visita havia muitas doentes no mosteiro, o que o visitador atribuía à situação pouco salubre do mosteiro, ‘má disposição da casa e terra e aposentos’, mas também ao facto de não se acudir a tempo às doentes ‘com medicinas e sangrias’. Era preciso, frisava o visitador, que a enfermeira tivesse mais cuidado, e que abadessa e celeireira fornecessem a tempo, e com abundância, tudo que as doentes necessitassem ‘em mezinhas, purgas ou sangrias ou mantimentos, ou serviços para as ditas enfermas’. Era de novo à celeireira que se recomendava o cuidado de aprovisionar regularmente a enfermaria, de ‘aves, carneiro, vinho, frângões, cabrito e todas as outras cousas necessárias para dita enfermaria. Para que tudo isto se fizesse convenientemente e a tempo, ordenava-se-lhe que se contratasse um homem, ‘um bom moço’, para chamar médico ou sangrador e levar e trazer ‘aves, cabritos, frangões e ovos’. Com todo este trabalho à sua conta, não é de espantar que a celeireira de Lorvão tivesse uma sub-celeireira e duas escrivãs para a ajudar.

Adiante se dirá de outra incumbência da celeireira e suas ajudantes e talvez a mais árdua: a distribuição das rações aos homens que trabalhavam para o mosteiro no exterior.

              Para serviços e recados fora do mosteiro, a celeireira tinha vários homens sob as suas ordens. Que todos, inclusive o padre que cuidava dos moinhos, juravam, quando eram contratados, ‘na mão da celeireira’, que cumpririam bem e fielmente as suas obrigações. Provando-se que algum desses homens não era ‘fiel do que tratava’, a celeireira devia despedi-lo. Devia ser ‘quitado dos ditos seus ofícios e cargos e corrigido de seus delitos e faltas’

As aristocráticas monjas de Lorvão deram - cremos que muito cedo - a palaciana designação de ‘Mordomia’ à oficina dirigida pela celeireira. Em Lorvão era portanto nos ‘Livros de Mordomia’ que se anotavam as aquisições e os pagamentos feitos pelas celeireiras. Em meados de Setecentos designam-se os mesmos livros como ‘Livro da Feitoria’.

Os mosteiros tinham usos e costumes próprios, que sucessivas gerações de celeireiras foram anotando: Não eram usos no sentido de ritos diferentes. Tratava-se do que era uso a casa fabricar, aquilo que, em determinado dia ou por determinada ocasião se distribuía, ou se oferecia - em espécie e em quantidade - a determinada pessoa ou entidade. As designações desses livros de apontamento diferem de mosteiro para mosteiro. Em Lorvão consultava-se o ‘Regulamento da Celeireira’.e o ‘Regulamento da Sala’, vezes designado por ‘Alcorão da Sala’ para saber como e a quem fazer determinada oferta ou fabricar determinado alimento. Em Arouca, mosteiro cisterciense como o de Lorvão, havia também, o ‘Alcorão da Tulha’

              Para anotar os pagamentos aos servidores da casa, a celeireira tinha o ‘Livro das Soldadas’. Não existem muitos. Sucedeu-lhes decerto o que sucedia aos livros de contas de outras donas de casa, eram destruídos no fim de um ou dois anos.

Quando o preceito da vida em comum, era tomado no verdadeiro sentido da palavra, as monjas comiam em comum, às mesmas horas à mesma mesa. Quando por volta de quatrocentos o preceito foi praticamente abandonado, e se introduziu o costume das monjas cozinharem ou mandarem cozinhar a sua própria comida, havia que lhes dar diariamente os necessários géneros. A tarefa cabia também à celeirieia.

Abaixo da celeireira, se bem que não dependentes dela, estavam a tulheira, a despenseira e a refeitoreira. A tulheira recebia as farinhas que a celeireira comprara, ou que viera dos foreiros e rendeiros. Arrecadava-a na ‘tulha’. A tolheria superintendia o fabrico do pão, e fazia a distribuição deste às monjas e àqueles que eram pagos em pão, os ‘apaniguados’

              Havia duas outras oficiais ligadas à alimentação: a despenseira e a refeitoreira. A primeira era responsável pela arrecadação dos outros géneros que não o pão, e pela sua distribuição às cozinhas. A refeitoreira ocupava-se do refeitório. Comprava, ou mandava tecer, as toalhas de mesa, punha as mesas, e estava incumbida de recolher os restos das refeições para serem aproveitados em outras comidas, ou dados aos servidores da casa e aos pobres. Cabia–lhe manter limpo o lavatório -  que nos grandes mosteiros se situava junto do refeitório - onde as monjas lavavam as mãos antes e depois das refeições.

                        Uma oficial pouco recordada é a ‘Vestiária’. A Regra dispunha que houvesse um monge, que mandasse tecer e coser as roupas e fabricar os sapatos dos religiosos. O mesmo se devia aplicar a mosteiros de religiosas, mas nestes instalou-se muito cedo um costume mais individualista, cada religiosa recebendo anualmente uma soma para se vestir.

Em Lorvão encontra-se muito cedo menção de servidoras vindas do exterior. forneiras, de criadas de tulha, e de auxiliares da sacristã. São já mencionadas em contrato da rainha D. Teresa, em que estipula que as ‘servidoras’ , entre as quais uma sua protegida, que iria viver na cerca de Lorvão, comessem o mesmo que as servidoras do convento. De início esse pessoal seria reduzido, mas com o decorrer dos tempos as monjas foram encontrando pretextos para a introdução de mais auxiliares. Em um rol das ‘soldadas e mimos’ que, no século XVI, se davam em Lorvão às ‘criadas da Ordem’ enumeram-se nada menos de cinquenta dessas serviçais. As sacristãs também requereram ajuda. Passou a haver uma moça para fazer hóstias, outra para lavar as ‘sanguinhas’ - os pequenos panos com que o sacerdote enxuga o cálice Para o refeitório havia uma criada, para a botica três criadas de ‘fora’. Havia uma criada que acendia as lâmpadas do mosteiro e três encarregadas de abrir as portas das cercas.

Na cozinha e forno trabalhavam forneiras, e havia criadas de tulha. Posteriormente, haveria uma conserveira encarregada de fazer os doces.

A cozinha da abadessa era separada. Havia nela duas criadas, e na hospedaria, uma. E não se contam aqui as criadas que serviam algumas monjas, que sentiram a necessidade de serem servidas pessoalmente. Às observações dos visitadores apresentavam argumentos desta ordem: que ‘sem ajuda de criadas não podiam cumprir as suas obrigações religiosas, como seja cantar e rezar em louvor do Senhor’. Implantara-se também gradualmente o hábito das criadas das monjas dormirem no próprio dormitório destas. O que os visitadores constantemente - se bem que sem resultado aparente - proibiam.

Assim como proibiam, com o mesmo resultado, os criados e os escudeiros, que dona abadessa passou a ter a seu serviço. A designação original de ‘homens’ da abadessa vai desaparecendo, generalizando-se, a partir do século XV, para aqueles que ocupavam a mesma posição, a designação de ‘criado de Dona Abadessa’. Em 1416, dona Mécia Vasques da Cunha afora um olival, estando presentes ao acto ‘Pero Nunes e Domingos Gonçalves e Gonçalo Nunes, criados da dita senhora’. Ao emprazamento, que se realizou em 1432 em Botão ‘diante das pousadas de dona abadessa’, assistiram como testemunhas ‘Vicente Annes de Aveiro, Gonçalo Martins e Gonçalo Domingues creligo (sic) e Gonçalo Coutinho, criados da dita senhora.’ Em 1500, uma procuração da abadessa dona Catarina d'Eça, é testemunhada por ‘Luís de Mendonça, criado da senhora abadessa e outros’  No século XVI surge a designação de ‘escudeiro’ da abadessa. Primitivamente, o escudeiro era o homem que servia um cavaleiro levando o seu escudo e tratando das suas armas, e viria a ser um criado nobre. Que acompanhava o senhor em serviço de guerra ou outro. O rol dos pagamentos de Arouca menciona pagamentos aos escudeiros que acompanhavam o abade visitador quando este vinha em visita ao mosteiro. Em resumo, os escudeiro estavam ao serviço de homens. Ora as abadessas de Lorvão não se achavam menos que estes senhores, passaram também elas a ter a seu serviço criados a quem designavam por escudeiros. Quando da composição feita em 1503 entre Dona Catarina d'Eça e os moradores da vila da Esgueira, uma das testemunhas é ‘Pero Vaz escudeiro da dita senhora’. E, em 1515, no acto de emprazamento de um olival, realizado no próprio mosteiro e na ‘câmara da muito magnífica e virtuosa senhora, a senhora dona Catarina D’eça’ uma das testemunhas foi ‘Alvaro de Morais escudeiro, criado da senhora abadessa e em casa da dita senhora morador’. Uma oficial sempre escolhida com especial cuidado era a porteira, a monja que estava na portaria, que aí recebia quem vinha em visita às religiosas. Alguns visitantes podiam entratra no interior do mosteiro. Eram excepções devidamente especificadas. Em outros casos ficava ao critério da porteira se o, ou a, visitante seria conduzido ao parlatório, onde poderiam conversar com a monja a quem vinham visitar. Estando esta sempre acompanhada de uma companheira, e a conversa realizando-se através de uma grade que dividia o quarto. A grade era particular aos mosteiros de homens, as primeiras monjas não a encontraram quando se instalaram em Lorvão. As cistercienses não tinham clausura, contactavam com gente de fora do mosteiro quando trabalhavam no campo, pelo que é difícil de perceber a necessidade de haver uma grade que as separava dos vistantes. ´E difícil apurar exactamente quando esta doi introduzida em Lorvão. Mas existiu. Sendo provavelmente utilizada com mais rigor a partir das severas medidas de reforma do século XVI. Em l533.2 um contrato notarial foi assinado ‘Na casa do palratório da grade de baixo, lugar acostumado onde semelhantes autos se soem fazer’. Outro contrato é assinado em l538.3 ‘em a varanda que está à portaria do dito mosteiro, ahi na grade do palrlatorio que ahi está, que é lugar acostumado para se fazerem tais autos.’ Quando em meados do século XVI se dá a revolta das monjas contra a imposição de uma abadessa alheia ao mosteiro, houve um incidente presenciado pelo Juiz chamado pela abadessa, o notário descreve, que estavam na casa da grade e separados por duas grades, uma de ferro, outra de pau.’




2 T.T. Lorvão Gavetas-3-6
3 T.T. Lorvão . Lº 40-229v

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VIDA QUOTIDIANA DAS MONJAS NO MOSTEIRO MEDIEVAL - CAPº VI AS ABADESSAS

>> quarta-feira, 27 de janeiro de 2016


As abadessas dos grandes mosteiros eram personagens importantes na sociedade medieval, ‘mulheres de considerável posição social, habituadas ao poder e gostando de o exercer’, assim define W.M. Labarge as superioras dos mosteiros no seu livro sobre as mulheres na Idade Média. ‘Pessoa importante não só no seu próprio convento, como no mundo exterior. Era vizinha, senhoria, e filantropa nas vizinhanças da sua casa’, escreve a mesma autora. A autoridade da abadessa exercia-se com efeito, não só sobre as suas religiosas, como sobre a gente que vivia em torno e nos arredores do mosteiro. Mais longe até, em toda a parte onde a casa monástica possuía terras e bens. Quanto maior e mais rico fosse o mosteiro, maiores eram a posição e a influência da sua superiora. No caso das abadessas de Lorvão, que eram senhoras donatárias de várias vilas, e com jurisdição própria em algumas delas, que apresentavam os párocos em numerosas igrejas, que eram donas de inúmeras terras das quais podiam dispor, arrendando-as ou aforando-as, e de quem dependia uma infinidade de gente ligada à administração dos bens monásticos, pois dessas senhoras facilmente se entende que, na região conimbricense, só o bispo de Coimbra e, talvez, o Prior de Santa Cruz, tivessem maior posição e influência que dona abadessa de Lorvão.

Naturalmente, também se esperava de uma abadessa, que ela, como cabeça do seu mosteiro ou, em determinados casos, pela influência da sua família, obtivesse benesses para o seu mosteiro, que protegesse à sua gente, e que estendesse, se necessário, a sua protecção a outros, impondo-se aos bispos e outros grandes senhores e, se necessário, ao próprio soberano. As abadessas de Lorvão fizeram-no frequentemente. Em 1288, ao arrendar uma propriedade do seu mosteiro aos frades de Santa Cruz, a abadessa dona Maria Joanis promete, no contrato que firma com os frades crúzios, que, no caso de o rei vir de qualquer forma a incomodar os frades, ela, abadessa, e seu convento, os protegeriam com as suas cartas e privilégios e à sua custa, ‘per nostras literas, cartas, privilegius et expensas debemus vobis defendere...’.1

Dois séculos mais tarde, a influência da abadessa de Lorvão ainda era tão reconhecida que, em 1416, um tal Afonso Peres não hesitava em dar à abadessa dona Mécia Vasques da Cunha, para ela e seu convento, uma ‘marinha de fazer sal’, com a condição de ela e as suas sucessoras tirarem, ou fazerem tirar, o dito Afonso Peres da vintena do mar ‘em que se é posto por galiote, e não o podendo tirar da dita vintena, e havendo aqui armadas algumas assim de el-rei como doutras quaisquer, a que o dito Afonso Peres seja chamado, que a dita Senhora e as suas sucessoras sejam teúdas a o tirar e livrar das ditas armadas.’ 2

A influência da abadessa seria naturalmente tanto maior quanto ela, para além do seu cargo, fosse influente devido às suas ligações familiares, que fosse pessoalmente conhecida das pessoas altamente colocadas.

E assim, ao tentar estabelecer a lista das primeiras abadessas de Lorvão, parti do princípio, que havia que as procurar entre a primeira nobreza do seu tempo. E mais, tinha a convicção, que elas seriam de preferência membros daquelas famílias que gozassem então de maior prestígio e tivessem mais influência na sociedade coeva. Conjugando e comparando os dados dos Livros de Linhagem e as informações dos documentos, foi possível estabelecer, com razoável certeza, a filiação das primeiras abadessas, e provar que todas elas tinham de facto pertencido à primeira nobreza do reino. E que, sem excepção, eram filhas de homens de grande nascimento, com influência pessoal na Corte, e que, na sua maioria, eram homens de posses.

Dona Sancha, a que reputo por segunda abadessa de Lorvão, tendo sucedido à abadessa Vierna, era uma Sousa, filha de D. Gonçalo Mendes de Sousa, que, na primeira metade do século XIII, era chefe da linhagem dos Sousas, e foi em Portugal um dos homens mais poderosos do seu tempo.

Dona Maria Afonso, a terceira abadessa, que, tal como a primeira, viria do mosteiro de Gradefes em Leon, era de extracção real, neta de D. Sancho I, pela sua mãe D. Teresa Sanches. A sua sucessora, dona Marina Gomes, era uma Briteiros. Eleita já depois da morte da rainha D. Teresa, seria a primeira abadessa a sê-lo sem a intervenção da padroeira do mosteiro. Era filha de Gomes Mendes de Briteiros, e pertencia a uma família que se encontrava em franca ascensão social, apoiada nos Sousas, a quem estava ligada por laços de amizade e de parentesco. Dona Marina Gomes foi sucedida por uma prima sua, dona Urraca Rodrigues, filha de Ruy Gomes de Briteiros. Às duas Briteiros, sucede de novo uma Sousa, a muito rica dona Maria Anes, filha de D. João Garcia de Sousa, senhor de Alegrete por sua mulher. Em fins do século XIII, depois de sessenta anos de governo de Sousas e Briteiros, as religiosas de Lorvão elegem finalmente uma abadessa que não pertencia a nenhuma dessas famílias. Trata-se de dona Constança Soares, filha de D. Sueiro Anes de Paiva. Eleita em 1290, o seu abadessado duraria até 1317. Segue-se-lhe no governo de Lorvão uma filha dos Porto- Carrero. Governou até cerca de 1332, sucedendo-lhe de novo uma Briteiros, Dona Teresa Mendes, filha de D. João Rodrigues de Briteiros e de D. Maria Annes. Esta abadessa introduziria em Lorvão o ‘selo do convento’, que representava a totalidade das religiosas. Dali em diante os documentos notariais seriam- como veremos - legitimados com o selo da abadessa e com o selo do convento. A abadessa seguinte dona Guiomar Fernandes de Panha, foi a primeira das abadessas de Lorvão a usar apelido e patronímico. Rica, administrando ela própria os seus bens, é talvez a esse facto que ela deveu a sua eleição. Não pela ascendência familiar, que era relativamente modesta para a bitola de Lorvão. Dona Guiomar morreu, lê-se ‘no ano da ‘peste grande’, em 1348 ou pouco depois, aparentemente vítima dessa epidemia. Menciona-se que o mosteiro foi então temporariamente regido por uma regedora, e, em seguida, por uma dona Grácia, que provavelmente também foi regedora, seguindo uma abadessa, que deve ter sido igualmente vítima da peste. Fora de novo uma Sousa. Em l395 entramos no período dos abadessados de Cunhas e Eças. A partir desse ano e até 1468, sucedem-se primeiro, quatro abadessas da família Cunha, todas próximas parentes umas das outras. A primeira é dona Mécia Vasques da Cunha, filha de Vasco Martins da Cunha. O reinado das Eças, que seguiu ao das Cunhas, contou unicamente com duas abadessas, mas entre a primeira, dona Catarina d’Eça, e a sua sucessora, dona Margarida d’Eça, Lorvão esteve em mãos de Eças de 1468 a 1537.

A eleição da abadessa era um ponto alto na vida do mosteiro. Assunto do maior interesse para todo o convento, as monjas não seriam humanas se não começassem a pensar na sucessão da sua prelada ao primeiro sintoma de enfraquecimento ou de doença. A abadessa não teria ainda exalado o último suspiro, e já havia decerto uma ou mais candidatas ao grande cargo, e a campanha eleitoral estaria em pleno curo. As religiosas que tinham condições de ser eleitas, tinham suas adeptas - seus partidos -, e não lhes faltava o interesse de parentes e familiares. Ter uma sua parente à testa do poderoso mosteiro de Lorvão não era pouca coisa.

A organização e preparação do acto eleitoral após a morte de uma Abadessa, competia à Prioresa, a religiosa que ocupava o segundo lugar na hierarquia do convento. Ela substituía de imediato a defunta prelada, e o primeiro acto da sua administração era a notificação da morte de Dona Abadessa ao bispo da diocese e ao abade do mosteiro do qual o seu dependia. No caso de Lorvão eram notificados o bispo de Coimbra e o abade de Claraval. A partir do século XV, passou a ser notificado também o abade de Alcobaça. Ao Bispo avisava-se unicamente por cortesia. Era do abade de Claraval e, posteriormente, do de Alcobaça, que viria a autorização para se proceder à eleição da nova abadessa.

A eleição realizava-se na Sala do Capítulo, estando presentes todas as monjas. Iam escolher aquela entre elas que, de ali em diante, e até à sua morte, as ia governar. Todas elas, da mais nova à mais velha, tinham direito a voto. Depois de um cântico implorando a inspiração do Espírito Sant procedia-se à votação. Era voto secreto, um voto por pessoa. Admitia-se a eleição ‘por inspiração’ ou ‘por aclamação’, quando alguém propunha um nome, e este era aceite por unanimidade e aclamado por todas. Uma cartorária do mosteiro que, no seculo XVIII, escreveu o ‘Livro das Preladas’, não recorda caso desses em Lorvão.
Uma vez a eleição concluída, e a abadessa eleita, eram de novo avisadas as mesmas autoridades eclesiásticas. Sem a sua aprovação, a eleição não era canonicamente válida. Tudo isto levava tempo, e sucedia, se bem que não fosse muito vulgar, que o bene-placit não fosse concedido, tendo de se proceder a nova eleição. Sucedia também, e isso, sim, era frequente, haver discórdias entre as monjas quanto à eleição, com violentas disputas e com as diferentes facções querendo impor a sua candidata. Não há testemunho de disputas nas eleições em Lorvão nos primeiros anos. Ou porque na realidade não as tivesse havido, ou, o que é mais provável, por ninguém se ter dado ao trabalho de as anotar. Uma disputa sucedida no século XVII ficou registada. A autora do ‘Livro das Preladas’ escreve a esse respeito, que, querendo fazer eleição, houvera tais bulhas, que o mosteiro estivera nove meses sem abadessa, e que no fim deste tempo ‘para aquietar as oretialidades (sic) viera em Maio dona Francisca de Vilhena, freira de Celas’.

As cistercienses fixavam prudentemente, a idade das candidatas a abadessa, em trinta anos, e cinco de profissão. A duração da sua prelazia era para a vida, eram abadessas ‘perpétuas’. Uns sistemas que seria alterado com as reformas do século XVI, as abadessas passarão a ser trienais, ou seja, eleitas por três anos.

Idealmente a escolha deveria obedecer aos sábios preceitos da Regra de São Bento, e as eleitoras, inspiradas pelo Espírito Santo, considerariam sobretudo a competência e as virtudes da candidata. Tudo indica que a realidade era outra, que a eleição obedecia mais do que seria de desejar a considerações de ordem material e a influências externas. ‘Grandes senhores usavam da sua influência e do seu dinheiro para conseguirem o ambicionado posto para alguém da sua família, e a própria candidata não era avessa a untar as mãos das influentes, ou a pedir apoio no exterior’, escreve Eileen Power no seu livro sobre os mosteiros de mulheres em Inglaterra. Os autores coevos insurgiam-se particularmente contra as influências exteriores, contra as abadessas de ‘sangue’, impingidas pelos seus familiares, e contra as abadessas ‘simoniacas’, que tinham conseguido a eleição com dinheiro ou à custa de benesses prometidos. Excepcionalmente houve casos de abadessas de gestão, designadas para gerir o mosteiro em época de guerra ou devido a problemas de administração, ou por imposição exterior. Em Portugal verificar-se-ia isso sobretudo no século XVI, quando da luta travada entre D.João III e as ordens monásticas, pretendendo o. Rei ser ele a nomear as abadessas dos grandes mosteiros. Adiante se dirá da luta épica que nasceu dessa pretensão com particular acutilância justamente com Lorvão. Nos séculos anteriores não há memória de intervenção real tão violenta, se bem que tanto os reis como os bispos tentassem periodicamente impor as suas vontades às monjas, e influir directamente nas eleições das suas preladas. O que em geral não conseguiam, porque as religiosas protegiam com afinco o direito de elegerem elas a sua abadessa, e não hesitavam em se queixar ao Papa, quando esse, ou qualquer outro dos seus privilégios, estivesse ameaçado.
O Selo abacial

 Logo que canonicamente confirmada, a nova abadessa tomava conta do seu cargo. Recebia o báculo, o castão do pastor, que marcava a sua autoridade, e era-lhe entregue o selo abacial.
 

No seu hábito, a abadessa não se distinguia das outras religiosas. Aliás o hábito pouco se distinguia do traje mulher da classe média vivendo no mundo. Um notário que, em fins do século XIII, descrevia o selo da abadessa de Lorvão, diz, que se via no selo ‘uma figura de mulher com uma baga na mão destra’ 3 

 
Em outro documento lê-se que no selo se via uma ‘mulher ou uma abadessa’. O hábito da religiosa era nas suas peças quase igual ao da mulher que vivia no mundo: Vestia camisa e cogula, e cobria-se com um véu. Para os frios usava manto. A simplicidade no hábito manteve-se na maioria dos mosteiros, mas em alguns as religiosas conseguiram furar o tabu. Exemplo é Arouca, onde as monjas, decidiram no século XVIII, dar uma nota de elegância mundana ao seu hábito.



A abadessa era senhora absoluta no seu mosteiro, mas isso não impedia que, em todas as decisões graves, ela tivesse de se submeter à prévia consulta e ao voto e da sua comunidade, do seu ‘convento’. Em questões menores podia aconselhar-se unicamente com as mais velhas, as anciãs, e as oficiais. Em caso de vulto a abadessa tinha – como se disse - de ouvir ao convento na totalidade, e os contratos tinham de ser feitos com o consentimento de toda a comunidade. O documento frisava sempre que assim sucedia, que o convento dava o seu consentimento. Não punha o seu selo, acrescentava-se, porque na Ordem de Cister o convento não tinha selo, “conventus ad Lorbani sigillum non apponitur quod non est de ordinem Cisterciensem quo sigillum habet”.5 A criação de um selo conventual em Lorvão no tempo da abadessa dona Teresa Mendes iria permitir dali em diante um controle mais apertado das medidas arbitrárias da abadessa, nenhum contrato sendo válido sem os dois selos, o abacial e o conventual.

Os selos  abacial e o conventual
O novo selo era uma ajuda contra as arbitrariedades da abadessa - de todas as tentações do seu cargo, a de governar autocraticamente seria talvez a maior - mas não as evitaria por completo. O nepotismo reinava em todos os mosteiros femininos. Abadessa que se conservasse por alguns anos à cabeça do mosteiro preparava automaticamente a sua sucessão entre as monjas da sua família. Praticado em Lorvão pela maioria das abadessas e desde os primeiros tempos, a coisa tomaria proporções escandalosas nos abadessados das Eças, quando praticamente todos os principais cargos de Lorvão estiveram em mãos de parentes chegadas da abadessa. Em 1512, no abadessado de dona. Catarina d’Eça, assinam uma escritura a prioresa dona Joana d’Eça, a celeireira dona Guiomar d’Eça, a sacristã dona Joana da Guerra - as Guerras eram primas das Eças - e ainda dona Isabel d’Eça, enfermeira: No abadessado seguinte, o de dona Margarida d’Eça, constata-se que, em 1521, a sua prioresa era dona Joana d’Eça, a sub-prioresa dona Guiomar d’Eça e a sacristã continuava a ser dona Joana da Guerra

E não era unicamente no interior do mosteiro, que se observa o favoritismo em relação à família. A abadessa dona Marina Gomes combina em 1264 com seu sobrinho D. João Rodrigues de Briteiros, que este receba de Lorvão uns casais que eram de sua irmã dona Teresa Rodrigues, monja em Lorvão, dando ele ao mosteiro uns casais na Estremadura, que eram de outra sua irmã, monja em Arouca. Esse quinhão, declara o contraente, fora-lhe concedido pela abadessa desse mosteiro.6  A mesma abadessa fez outras transacções do mesmo tipo com outros membros da sua família.

Caso parecido deu-se em 1400, numa troca de terras efectuada por dona Mécia Vasques da Cunha. Nesse ano, a 21 de Dezembro, reuniram-se no mosteiro de Lorvão, às portas da sala do cabido ‘a honrada e religiosa dona Mecia Vasques da Cunha’ e o convento do seu mosteiro. As religiosas tinham sido convocadas - como era costume - pelo toque da campainha ‘por campa tangida’, e, ‘todas juntas chamadas especialmente para isto’, que era, o de ouvir a proposta da abadessa no sentido de se cederem certos bens do mosteiro a seu pai, Vasco Martins da Cunha e ao Prior de Grijó, recebendo o mosteiro outros bens em troca. O que seria, garantia a abadessa, a favor, ‘por prol’, do dito seu mosteiro. As monjas disseram que sim, que ‘lhes prazia de tomarem os ditos casais, que lhes assim dona abadessa dava pelos outros que lhes tomou’, e todas juntamente ‘louvaram e outorgaram o dito escambo’.7 Parece pouco provável que Vasco Martins da Cunha e o Prior de Grijó se dessem ao trabalho de fazer esta troca por puro altruísmo. O facto é que a abadessa ter disposto de bens que eram do mosteiro a favor de homens da sua família.

Se as abadessas não se distinguiam das suas monjas no trajar, distinguiam-se, e muito, em tudo o resto. Pela autoridade que exerciam, e pelas suas regalias. A abadessa tinha casa própria dentro do complexo monástico, fugindo assim à vida em comum, que com o tempo se tornava odiosa à maioria das religiosas. As abadessas tinham maior liberdade em receber visitas, maior liberdade nas saídas.

As cistercienses não tinham estrita clausura, mas esperava-se das monjas que só se ausentassem do mosteiro em casos de grande necessidade ou de óbvia utilidade, de serviço a que o seu cargo as obrigasse. A abadessa, essa, tinha pelo seu cargo, ou por aquilo que ela considerava de seu cargo, frequentes ocasiões de absoluta necessidade que a obrigavam a se ausentar do mosteiro. Dona Vierna, a primeira abadessa de Lorvão, esteve presente em Montemor no ano de 1221, quando aí se reuniu a corte. A abadessa firmou nessa ocasião com a infanta D. Sancha um contrato, que garantia ao mosteiro de Lorvão a futura posse da vila da Esgueira. Foi uma saída que se justificava plenamente Havia uma visita obrigatória anual a Coimbra, à igreja de São Bartolomeu. Era uma obrigação herdada dos monges seus antecessores, e que Lorvão tinha de manter se não queria perder prestígio e a regalia de uma pele e uma ‘colheita de pão, vinho e peixe’, que o cabido de S. Bartolomeu era obrigado a fornecer por ocasião daquela visita. As primeiras abadessas tinham deixado cair este direito, até que a abadessa dona Constança Soares o repôs, juntamente com outros direitos resultantes do desleixo de algumas das suas antecessoras. Outra saída bem documentada e de óbvia utilidade para o mosteirot é a da abadessa dona Teresa Mendes, quando, a 4 de Setembro de l341, acompanhada de tabelião, vai ao local da Pedra do Vento, junto de Coimbra, tratar de um cidral que o mosteiro aí tinha, do qual o rendeiro há quatro anos não só não pagava a renda, como instalara nele um sublocatário. A abadessa tratou directa e pessoalmente do assunto. ‘A honrada religiosa e honesta dona Tareja, pela mercê de Deus abadessa do mosteiro de Lorvão,’ postou-se diante da porta da casa do cidral e ‘fez pergunta a Joam Peres, dito Cidreiro,’ a quem pertenciam o cidral, a casa, a vinha, e o olival que ali estavam. ‘E logo o dito Joam Peres respondeu, que era da dita abadessa e do seu convento do dito mosteiro de Lorvão. E logo outrossim fez pergunta a dita abadessa ao dito Joam Peres, quem no metera no dito logo e de cuja mão o tinha, e o dito Joam Peres respondeu logo, e disse, que o metera ali André Domingues de Requeixo por renda certa que lhe ele havia de dar.’ A isso retorquiu a abadessa, que ela não estava ali para fazer ‘força nem esbulho’ a ninguém, mas que o dito André Domingues não podia arrendar o que não era seu, que aquele lugar era dela e do seu mosteiro, que elas não renunciavam aos seus direitos pelo que, declarou, ‘filhamos esta casa com este cidral e vinha e olival e suas pertenças, e entramos em posse dele em nome do nosso mosteiro’ . Lido isto pelo tabelião que estava presente, a abadessa dirigiu-se ao dito Joam Peres e disse-lhe que visto aquele lugar ser seu e do seu mosteiro, que ‘ele se fosse dele a boa ventura e que saísse ende’. João Peres obedeceu, saiu da casa, e deu ordem aos vindimeiros que lá estavam que também saíssem, o que eles fizeram. E ‘logo, relata o instrumento, os homens da dita abadessa, que ali estavam, filharam terra, e ramos de vides e de cidral, e do olival, e telha da dita casa e meteram na mão da abadessa, e ela disse que por todas aquelas coisas ela filhava posse daquele lugar como de seu, como quer que posse sua posse...’8

No período em que Lorvão teve jurisdição criminal em algumas das suas terras, as abadessas faziam-se em geral representar por um ouvidor seu. Caso excepcional foi abadessa regedora dona Mècia. Essa senhora não perdia ocasião de estar presente em casos de pleito. Em 1351 - Lorvão ainda tinha jurisdição em Abiul, direito que posteriormente lhe seria retirado - houve nessa terra o julgamento de um tal João Monteiro por uso criminoso dum cutelo comprido. Apesar do julgamento ser presidido pelo ouvidor do mosteiro, lá estava também dona Mécia, hospedada ‘na casa sobrada que foi de Joham de Runinaço’,

Outra vez temos a abadessa dona Beatriz da Cunha indo a Coimbra para se assegurar de certos bens que um tal Gonçalo Nunes Torrado tinha em contrato com o mosteiro, e que lhe queria deixar por sua morte. A abadessa não podia deixar fugir tal maná, e deslocou-se a Coimbra, acompanhada da prioresa, da sub-prioresa, da celeireira e da sacristã e ainda de outras religiosas do mosteiro. E não faltou evidentemente o notário para ali mesmo tomar devida nota das palavras do moribundo, autentificando a doação daquilo que depois de sua morte ficaria ao mosteiro. Toda aquela gente entrou na casa onde se encontrava o infeliz Gonçalo Nunes: “jazendo ali o dito Gonçalo Nunes doente em uma cama de dô de enfermidade”.10

A abadessa dona Catarina d’Eça saiu frequentemente do seu mosteiro, sobretudo nos primeiros tempos de seu abadessado. Agindo como qualquer proprietário rural, ela vai em 1471 à Esgueira, vila que era do mosteiro, e aí, em casa de João de Ruão[1], faz um emprazamento a João Pires Delgado. No ano seguinte, ela está no ribeiro da Barroqueira, termos de Penacova, e faz aí o emprazamento de uma vinha que o mosteiro tinha em Sabugosa. Nos últimos anos da sua vida, as saídas são mais raras, e os contratos em geral firmados em Lorvão em seu quarto, em sua ‘câmara’. Mas em 1503 há assunto de grande importância a tratar, e temos notícia de dona Catarina ter saído do mosteiro. Vai à vila de Esgueira para conseguir a composição entre o seu mosteiro e os habitantes dessa vila. Nos últimos anos vivera-se uma verdadeira revolta dos foreiros de Lorvão, a gente de Esgueira revoltando-se contra exigências dos administradores do mosteiro, e não era a primeira vez. Como donatárias de Esgueira as monjas de Lorvão tinham ali direitos que revoltavam os habitantes. Em 1428 houvera uma magna questão por os pescadores da Esgueira retirarem o peixe das redes antes de terem chamado o procurador do mosteiro, o que, segundo a abadessa de Lorvão, não podiam fazer. Ela tinha o direito de escolher o peixe que lhe cabia antes de ser retirado dos barcos. A coisa não ficou por ali, foi-se arrastando com periódicos focos de revolta contra essa obrigação. Em 1503, ambas as partes procuravam o apaziguamento da situação. O povo foia chamado ‘por pregão para esta causa de boa concórdia e amigável composição’, muita gente compareceu, e, por parte de Lorvão, estava lá a sua abadessa. ‘No ano do nascimento de N.S. Jesus Cristo de 1503, aos 23 do mês de Novembro em a vila da Esgueira, terra e jurisdição cível do mosteiro de Lorvão, no outeiro junto da ermida de S. Sebastião, estando ahi a muito vertuosa senhora, a senhora dona Catherina d’Eça de viva memória abadessa do mosteiro de Lorvão.’ 12 O assunto foi debatido, ambas as partes fizeram concessões, e chegou-se a um acordo provisório. Que talvez não se tivesse conseguido sem a presença da abadessa do mosteiro.

Em tempos de guerra ou de revoltas no país, também vemos as abadessas saindo dos seus mosteiros. Isolados, em geral afastados de povoações, os mosteiros eram particularmente vulneráveis aos saques da soldadesca, e nessas ocasiões era costume as religiosas refugiarem-se na cidade mais próxima. Há um emprazamento feito em 1385 em Coimbra, estando regedora e monjas alojadas nas casas de Dom Ruy Lourenço, ‘Daiam (sic) da dita cidade, em que pousamos de presente, ‘por necessidade da guerra.’

Saidas desnecessárias, idas à corte, peregrinações a santuários, passeios, de que abadessas de mosteiros ingleses e alemães eram acusadas, não houve em Lorvão, ou não foram tão escandalosas que dessem brado.

A mais frequente critica que na Europa medieval se fazia `às abadessas era a de serem más administradoras dos seus mosteiros. Despesas excessivas, contas que se deviam prestar à comunidade e não se prestavam, arrendamentos imprudentes, vendas de direitos centenários do mosteiro contra moeda sonante, de tudo isso houve em Lorvão.

Contra uma abadessa despesista e má administradora pouco havia a fazer, a não ser dar-lhe depois de morta uma sucessora competente. Como sucedeu em 1288, quando, com o mosteiro em estado de pobreza, ‘paupertate’, as monjas puseram fim fim ao longo governo de compadrio Sousas e Brieiros, e elegeram na abadessa dona Constança Soares, uma grande administradora. Sucedem-se com ela os emprazamentos de parcelas de terras destinadas a olivais, com rigorosas indicações do plantio, com boas e saudáveis plantas e, ‘escavados e cavados e estercados como os bons olivais de Coimbra e ao tempo em que o deve de ser’. Dona Constança procurou também reaver terras perdidas e outros bens alienados, conseguindo até que o bispo de Coimbra, que em geral não era pródigo em cedências, concordasse em que as igrejas de Abiul e do Botão se unissem de novo a Lorvão, coisa até ali muito disputada entre os prévios bispos e as abadessas. No instrumento feito por essa ocasião, o Bispo declarava que, atendendo à pobreza e à carência de que sofria o mosteiro, ‘paupertate et megnam inopitam Conventus Santimonialem Monasterii de Lorbano’, e também em consideração da sua abadessa ‘ab honorem Religiosae Donae Constantiae Sueri’, ele, Bispo Américo, consentia de novo na união das duas igrejas ao mosteiro de Lorvão. A recuperação de direitos abandonados ou perdidos era um dos grandes problemas que as abadessas, que sucediam a uma má administradora, tinham de enfrentar. Nada parecia mais fácil a uma abadessa que precisava urgentemente de dinheiro do que vender uma terra ou um direito.

Dona abadessa - era assim que a partir do século XIV mais comummente se nomeava a superiora do Lorvão – assinava sempre com a sua comunidade ‘Nós Maria Joanis Abbatissa et convento monasterio de Lorbano.’ lê-se em documento de 3 de Maio de 1288. Em 1300, a abadessa Dona Constança Soares dirigia-se ao povo usando o título de Don, e prescindio de quando escrevia ao bispo de Coimbra “Constancia Suery eidem gratia Abatisse de Lorvão et conventus eiusdem” Também a abadessa Urraca Reimundo rescinde do Dom quando se dirige a um bispo. ‘Nós Orraca Reymundo e o convento do mosteiro de Lorvão vos enviamos comendar em vossa graça...’ lê-se em documento datado de Julho de 1328 dirigido ao bispo de Viseu. As abadessas Cunha e Eça, senhoras que não transigiam sobre os seus pergaminhos, usam sempre o Dom, quer se dirijam a bispos quer a leigos. Uma delas, Dona Maria de Cunha, faz mesmo questão de mencionar o seu nascimento, assinando em 1 de Agosto de 1435 um contrato como dona Maria da Cunha, ‘de nobil genere’. ‘Com as Eças não havia que vincar nascimento. Os Eças eram de sangue real, passaram a ser ‘magníficas’: ‘Na câmara da muito magnífica e virtuosa senhora’, lê-se em documento de dona Catharina d’Eça. A sua sucessora foi a ‘muito magnifica senhora, a senhora Dona Margarida d’Essa’

Das abadessas esperava-se qualidades de administradora, e autoridade sobre o seu convento, em privilegiar umas, ou uma, das suas religiosas, e evidentemente um irrepreensível comportamento. Os escritores do século XIX deliciavam-se quando encontravam escândalo amorosos nos mosteiros, e assim nasceu a acusação que a grande dona Catarina d’Eça tivera oito filhos. Coisa absolutamente impossível quando se sabe da periódica, rigorosa visitação de que os mosteiros da Ordem de Custer eram alvo. Porém, como este tipo de boatos notícias têm por vezes uma base de verdade, sugiro que essa mãe de oito filhos, se na verdade existiu, fosse irmã gémea da abadessa dona Catarina. O facto de se dar o mesmo nome a gémeos tem conduzido a mais do que um erro genealógico.




1 T.T. Lorvão . Lº 40-206v
2 T.T. Lorvão. Lº 40-69v
Vintena do mar, ou da marinha, designava, segundo Viterbo, designava o arrolamento de jovens para servirem a bordo dos navios das armadas. Dos homens de uma vila ou aldeia postos em ala, era tomado de cada vinte, um. Eram os ‘vintaneiros’ do mar, da marinha ou das galés. Ver-se livre da vintena valia bem uma marinha de fazer sal.
 3 T.T. Lorvão. Gavetas 06-Mº1
5 TT. Lorvão Col. Esp,. Mº9-Nr.17,18
Jacinto Vieira, um artista bracarense, esculpiu estátuas em tamanho natural das monjas de Arouca com esse elegante hábito
6 TT. Lorvão. Col. Esp.. Mº10-Nr.14
7 T.T. Lorvão Gavetas06-Mº 7
8 T.T. Lorvão. Livro 40-233,233v
10 T.T. Lorvão. Gavetas2-Mº 2-Nr.22
11. João de Ruão ou Jean de Rouen (Ruão, 1500 – Portugal, 1580 foi um escultor e arquiteto de origem francesa ativo em Portugal entre aproximadamente 1528 e 1580
12 T.T. Lorvão Livro 313

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