VIDA QUOTIDIANA DAS MONJAS NO MOSTEIRO MEDIEVAL - CAPº XIX INTRODUÇÃO DA DOÇARIA CONVENTUAL MANJAR BRANCO E DOCE D' OVOS , NOTAS FINAIS E BIBLIOGRAFIA
>> quarta-feira, 29 de junho de 2016
A doçaria conventual - aquilo que ainda hoje faz lembrados
os mosteiros femininos portugueses - foi arte que só começou no século XVI. Só
então, com a importação da cana d’açúcar da Índia e do Mediterrâneo e
implantação da produção de açúcar em Portugal, na Ilha de São Tomé e depois no
Brasil, o açúcar se tornou um género acessível. Que os reis até davam em esmola
aos mosteiros seus protegidos. Em 1509, D. Manuel dá dez arrobas de açúcar ao
Convento de Jesus de Aveiro; em 1517 dão-se 8 arrobas de açúcar de esmola à
Santa Clara de Lisboa, e 5 arrobas de açúcar branco a Santa Clara de Beja. Nos
anos do reinado de D. Manuel esmolas dessas vão ainda para a Madre de Deus em
Lisboa, para os conventos de Santa Clara em Lisboa, Portalegre, Beja e outros.
Também as especiarias eram dádiva frequente dos soberanos aos mosteiros: 4.000
reis em especiaria ao convento de Celas, em 1512, especiarias em porção não
especificada a Santa Clara de Portalegre e ao mosteiro de Jesus de Aveiro em
1518; 4000 reis de ‘droga’ ao mosteiro de Santa Clara de Coimbra em 1519. E as
religiosas de todos os mosteiros de Portugal lançaram-se e na produção de uma
arte nova, a arte da doçaria ou pastelaria, alcançando, nesse campo glória
imorredoira. E merecida.
A coisa deve ter evoluído gradualmente, as monjas tiveram de
pensar como melhor aproveitar o doce açúcar que lhes caía em casa e que até ali
praticamente desconheciam. Tinham talvez usado um pouco dele em alguma mesinha
para as suas doentes, nunca na cozinha. Descobriram, provavelmente por acaso, a
cozedura do açúcar em ponto. Deram nomes aos graus de ponto ‘de cabelo, de
pingo.’ Lembraram-se de juntar açúcar aos ovos postos abundância pelas galinhas
que pululavam em todos os mosteiros. Cozida ou em caldo, a galinha era remédio
para todos os males. Os visitadores faziam os seus reparos: que o galinhaço até
entrava pelo coro, que as galinhas sujavam o claustro e originavam brigas entre
as suas donas. Sem efeito. As galinhas continuaram a picotar nos claustros e
pátios dos mosteiros. Enquanto não se lhes torcia o pescoço, se coziam ou
guisavam, as galinhas punham ovos. Ovos e açúcar ligavam bem, monjas e freiras
criaram, com arte e imaginação, inúmeros doces diferentes com os mesmos dois
ingredientes. Juntaram-lhes por vezes especiarias, amêndoas. Lembraram-se de
usar a obreia das hóstias para base de queijinhos d’ovos, de broas d’ovos.
Nos mosteiros havia a matéria-prima, a mão-de-obra, e o
tempo para aquele fabrico. E a criatividade. Entre tantas mulheres, haveria
sempre uma com talento para inventar e inovar. E para dar nomes adequados
àquelas criações: A produção de doçaria por parte das religiosas
desenvolveu-se, mas não era apreciada por todos as autoridades religiosas. Nas
actas dos visitadores encontram-se - a partir do século XVI - constantes
protestos contra os exageros da produção de doçaria, e da venda de doces para
fora, ‘porque o fazerem-se as religiosas tratantes, e da casa de Deus
mercancia, resulta em desserviço do mesmo senhor’. Depois de uma visita ao
mosteiro de Santa Clara da Guarda, os visitadores ordenavam que nenhuma
religiosa fizesse ‘trato em mercancia de doces para fora’, e que a madre
abadessa acabasse de vez com o abuso. O que não aconteceu. Uma vez começada, a
coisa iria tomar proporções de exagero, as monjas esquecendo as rezas na
azáfama de bater ovos e vigiar o ponto de açúcar. Em Arouca faziam-se, em
meados do século XVII, dezoito espécies diferentes de pastéis e doces. E, por
todo o Portugal, as abadessas gratificavam em dias de festa os magistrados que
trabalhavam para o seu convento, e os padres que lhes diziam as missas, com
‘prateleiras’ de doçaria variada.
Em Lorvão havia no século XVII uma ‘sala dos doces’,
presume-se que aí se preparavam doces, mas ignorava-se até há pouco que doces
eram esses. Livros conventuais de receita de doces são raros, se os houve,
desapareceram. As receitas transmitiram-se por tradição oral. Um livro,
recentemente publicado, da autoria do Dr. Nelson Correa Borges, intitulado
‘Doces conventuais de Lorvão’ , contém receitas de doces, conservadas nas
famílias da terra, atribuídos - e decerto com razão - às monjas do mosteiro de
Lorvão. As monjas tinham criadas, mulheres da terra que as ajudavam na
convecção dos doces, que muito naturalmente levaram as receitas para suas
casas, ou as ensinavam a outras mulheres. As receitas iam-se transmitindo, a
sua origem conventual muitas vezes esquecida. Em Lorvão faziam-se entre outros
os ‘Papos d’anjo, o Bolo de Bispo, o Bolo de Santa Teresa, os Bolos das
Infantas, Queijinhos do céu, Capelas de ovos, Fatias do céu’. Tudo doces à base
de ovos e açúcar, em Lorvão como nos outros mosteiros e convento de Portugal
com nomes adequados à sua proveniência: papos d’anjo, pingos de tocha,
queijinhos do céu, tocinho do céu
![]() |
Pingo de tocha de Arouca
|
Um doce conventual que não tem a nada a ver com os doces
d’ovos é aquela curiosa confecção doce, à base de peito de galinha., conhecida
por ‘Manjar Branco’. Aquela papa branca, que, em Lorvão, era apresentada em
toscos discos de barro, é coisa muito mais antiga que os doces d’ovos, e não,
como estes, especificamente português. Um doce com os mesmos ingredientes era
designado em França por ‘blanc manger’, e era uma confecção usada em toda a Europa
medieval. Uma pesquisa Google menciona a existência da receita em um caderno de
ensegnements, de ensino culinário, de fins do blanmangerséculo XIII, inícios de
XIV. O mesmo caderno ensina ainda como confeccionar o ‘blanc-brouet’, também de
peito de galinha, mas com uma diferença, não levava leite.
![]() |
Manjar branco ‘ Blancmange’
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Sabe-se que a receita do manjar branco veio do mosteiro de
Celas para o de Lorvão, ignorando-se contudo como e quando chegou a Portugal.
Talvez tivesse sido trazida por um dos visitadores de Cister, que periodicamente
vinham a Portugal, ou por um qualquer outro viajante de passagem. As monjas de
Lorvão tiveram a ideia de servir o seu branco manjar numas rodelas de barro. O
que faz do seu ‘manjar banco’ uma especialidade laurbanense.
Havia outras confecções doces nos diferentes mosteiros. No
livro de Mordomia de Lorvão de 1659 lê-se que no dia de Santo António havia
‘milhares’ para a merenda desse dia. Compraram-se - em Junho desse ano 145 pães
e 150 queijos, assim como leite para ‘milhares’. ‘Eram papas de milho que, em
Lorvão, quando feitas para a comunidade, levavam 3 arráteis de açúcar e mais de
200 quartilhos de leite. Em 1660, lemos que se tinham comprado para a
enfermaria e para a merenda que se dava no dia de Sº António, além das
habituais cerejas, 150 queijos, 165 pães, 145 pastéis. E ainda leite para
‘arroz doce’, que se dava ao convento no dia de Sº António, e o dos ‘milhares’
da merenda do mesmo dia. Acrescentara-se portanto pastéis e arroz doce à ementa
do ano anterior.
O ‘arroz doce’ que também deve ter entrado nos mosteiros com
os Descobrimentos, designava-se de entrada por ‘arroz de leite’. Numa receita
quinhentista de Lorvão lê-se que se gastavam ali para o ‘arroz de leite para o
Santíssimo Sacramento’- ou seja, para a refeição desse dia – ‘27 arráteis de
arroz, 26 de açúcar, 213 quartilhos de leite’. Em receita mais recente o ‘arroz
doce’ já é enfeitado com canela. Fazia-se com ‘28 arráteis de arroz, 12 de
açúcar, o almude de leite, 1/2 quartilho de água de flor, e 1 onça de canela”
~~FIM~~
NOTAS finais e
BIBLIOGRAFIA
Cheguei ao fim desta minha primeira experiência de
publicação on-line - creio que é assim que se diz. O livro teve à volta de
cinquenta leitores para cada capítulo. O que parece pouco, mas em Portugal não
é mau para um livro deste tipo e sobre este tema. Gostaria de pensar que tenha
ajudado algum estudante proporcionando-lhe informações úteis que não
encontraria facilmente de outra forma. O texto vai agora ser publicado em Pdf.
Farei ainda uma revisão, e agradeço desde já aos leitores que indiquem erros ou
falhas que tenham notado, e que eu possa corrigir.
Umas palavras sobre a Bibliografia que em seguida indico.
Cito unicamente os livros que de alguma forma são pertinentes ao assunto do
livro. Consultei obviamente outros, o tema faz parte da história medieval, e
não se estuda lendo unicamente textos sobre um determinado aspecto dessa época.
Para alguns do livros indicados há uma explicação, que pode
não ocorrer ao leitor. A ‘Crónica Nurembergensis’ de Hartman Schedel é citada
porque foi lá que procurei, e encontrei, uma imagem contemporânea do Porto
medieval. A ‘Crónica’ é considerada útil pelas imagens das cidades alemãs que
reproduz. Quando procurei uma vista da cidade do Porto para o capítulo XVI
consultei a ‘Crónica’, e dei com uma gravura que me pareceu ter a marca de
alguém que esteve na cidade, ou a quem esta foi descrita.
O livro ‘Religioese Frauenbewegungen im Mittelalter’, ou
seja sobre os movimentos religiosos femininos na Idade Média, que me foi
indicado na Livraria Histórica Ultramarina pelo Dr. Berkmeier foi essencial
para a compreensão do que se passava no século XIII em matéria de religião
quando os monges foram expulsos de Lorvão e substituídos nesse grande mosteiro
por monjas de Cister.
Os livros ‘As freiras de Lorvão e ‘o mosteiro de Lorvão’ de
T. Lino d’Assunção deram o impulso a este livro. Quando iniciei este trabalho
esses livros eram considerados fonte da história do mosteiro de Lorvão, e
praticamente os únicos livros que tratavam dos mosteiros femininos. Pensei que
as muitas mulheres que, por vocação ou obrigação, viveram as suas vidas nos
mosteiros de Portugal, e muitas vezes aí se realizaram como administradoras,
mestras de letras e canto, e em muitos outros ofícios, mereciam ser recordadas
de outra forma do que com a superficial ligeireza que Lino d’Assunção
considerou adequada ao tema.
BIBLIOGRAFIA
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Memória e Fundação dos Mosteiros das Religiosas da Ordem de
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TORRE DO TOMBO (TT)
GAVETAS da Torre do Tombo
CARTAS MISSIVAS
EITURA NOVA. Lº 3, 6, 9, 11, 12 da Extremadura Lº 2 de Além
Douro Lº 7 de Odianna
ARQUIVOS MONÁSTICOS
Mosteiro de Santa Maria de Arouca
Vols. 2, 4, 5, 7, 107, 135, 150, 161
Mosteiro de Santa Maria de Coz
Mosteiro de Jesus de Aveiro
Mosteiro de Jesus de Setúbal
Mosteiro de Santa Maria de Almoster,
Mosteiro de Santa Maria de Celas, Maços IV a Maço IX
Mosteiro de Santa Maria de Lorvão,
COLECÇÃO ESPECIAL, Lº 40, Maços 2 a 9.
Lº 313 Privilégio e Prazos
Lº 359
Livro das Preladas
Colecção de maços de Doc. Avulsos
Mosteiro da Madre de Deus dm Lisboa
Fundação do mosteiro da Madre de Deus Livro Mss
Mosteiro de Odivelas
Mosteiro de Chelas
Convento de Santa Clara da Guarda
Vol. 3 Livro de Visitações
Convento de Santa Clara do Porto
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Memórias do mosteiro de Cellas
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ASSUNÇÃO, T.Lino d’ , As Monjas de Lorvão
Os mosteiros de Lorvão e Santa Clara e o templo da Sé Velha
Coimbra, Tipografia do Seminário, 1893
BACKHOUSE, Janet
The
Illuminated Manuscript
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Oxford. 1979
BORGES DE FIGUEIREDO, A. C. O Mosteiro de Odivelas, Livraria
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BRANCO, Manuel Bernardes
História das Ordens Monásticas em Portugal 3 vols. Lisboa,
Livraria Editora de Cardoso & Irmão MDCCCXXXVIII
BRONSEVAL, Frère Claude
Peregrinatio Hispanica 1531-1533, 2 vol.
Paris, Presses Universitaires de France 1970
BUEHLER,
Johannes
Klosterleben
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Insel Verkag, Leipzig, 1923
CASADO, Concha. CEA, António
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Leon, editones Lancia
COCHERIL, P. Maur
Les Abbesses de Lorvão au xv. siècle
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COCHERIL, P. Maur
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Livraria Bertrand, Lisbonne. 1966
--Notes sur l’architecture et le décor dams les Abbayes
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New York. Port-Chester.Melborne.Sidney
--Medieval English Nunneries
REGRA DOGLORIOSO PATRIACHA S. BENTO, tirada de latim em
linguagem Portuguesa por indústria do reuerendilsimo P. Fr. Thomas do Socorro
Geral nesta congregação de Portugal, segunda ves impressa com todas as licenças
necessárias. Impressa em Coimbra em casa de Nicolao carvalho impressor da
Universidade no Anno de 1632. A custa da Congregação de S. Bento
SCHEDEL, Hartman Cronica Nuerembergensiss
Fac-simile
SITWELL,
Sacheverell
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and Monasteries
Weidenfeld
and Nicolso
20, New
Bond Street,London. WI
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WHITEFIELD,
Peter History of European Art, Naxos AudioBooks, 2012
DICIONÁRIOS
-CAPELLI, Ulrico Aoepli
Abreviaturi Latini ed italiane
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LOPEZ E DE TORO, José
Abreviaturas Hispanicas
Madrid, 1957
OlIVEIRA MARQUES, A.H.
Guia do Estudante da História Medieval Portuguesa
Eduções Cosmos, Lisboa
VITERBO, frei Joaquim de Santa Rosa de
Elucidário das palavras, termos, e frases anticuadas da
língia portugues
Em casa do Editor A.J.Fernabdes Lopes rua Áurea 132-34
Lisboa
MLCCCLXV
VIDA QUOTIDIANA DAS MONJAS NO MOSTEIRO MEDIEVAL - CAPº XVIII LIVROS ILUMINADOS E OUTROS
>> quarta-feira, 8 de junho de 2016
Os mosteiros de mulheres na sua maioria não marcaram pelo seu
nível intelectual. Eileen Power, falando dos mosteiros ingleses, escreve, que
das monjas inglesas não ficou obra escrita, que nem mesmo alguma pequena
crónica das coisas do seu mosteiro saiu de suas mãos. A autora contrasta esta
pobreza literária dos mosteiros ingleses com a produção de obras saídas dos
mosteiros femininos da Alemanha. No século IX, a abadia de Geldersheim na
Saxónia era famosa pela sua literacia. No século XII, a abadessa Herrad, do
mosteiro de Hohenberg compoz e iluminou uma enciclopédia. E nesse século, duas
místicas, Hildegard de Bingen e Elisabeth de Schoenau escreveram sobre as suas
visões. No século XIII, o convento de Helfta na Saxónia, era famoso pela sua
vida cultural. AS suas monjas iluminavam e colecionavam livros, escreviam e
aprendiam latim.
As monjas portuguesas, sem se poderem gabar do nível cultural das
monjas alemãs, foram - literariamente - um pouco mais produtivas que as
inglesas. Há que mencionar para a época de que nos ocupamos, e um pouco depois,
o livro de uma freira do convento de Jesus em Aveiro, e outro de uma religiosa do
mosteiro da Madre Deus de Xabregas. Primeiro em data, e em valor, é a ‘Crónica
da Fundação do mosteiro de Jesus de Aveiro’, ao qual está apenso o ‘Memorial da
Infanta Santa Joana’. A autora teria sido uma religiosa chamada Margarida
Pinheiro. O livro é obra histórica de valor, uma verdadeira crónica com dados
documentados. Contém considerações sobre a fundação do mosteiro e seus
primeiros tempos, e dá um importantíssimo relato da entrada da infanta Dona
Joana no mosteiro, e com a análise da sua pessoa.
O livro intitulado ‘Notícia da Fundação do convento da Madre de
Deus de Lisboa de Religiosas descalças da primeira regra de Nossa Madre Santa
Clara’. Data de 1639,e trata, segundo informa a autora, ‘de algumas coisas que
ainda se puderam descobrir das vidas e mortes de muitas madres Santas que houve
nelas’.
Sobre os objectivos do seu livro escreve a autora: ‘Sempre depois
que entrei para esta casa, tenho ouvido queixas às que vivemos nela, de não
haver alguma memória da sua fundação e das religiosas santas que daqui foram
para o céu. Porque, ainda que no arquivo haja papeis que de tudo dão notícia,
não é em forma que possamos ler quando queremos’. E no que tocava as
religiosas, escreve ela, havia no arquivo muito pouco em comparação do que
sabiam as religiosas mais velhas, com quem ela conversara. E mesmo elas diziam,
‘que não era nada o que me contavam pelo muito que lhes esquecia do que tinham
ouvido a outras mais antigas que conheceram. De modo que se houvera feito caso
de tudo o que se pudera escrever, se fizera um grande livro, e de muita
edificação. ’Receando que se viesse a esquecer o que devia ser tão vivo, a
autora metera mãos á obra. Não se achava com engenho para um livro na forma
usual, diz ela, pelo que decidira escrever o livro em forma de diálogos entre
algumas freiras. Era costume naquela casa, continua, festejar o Natal com
aquilo que elas designavam por fogueiras de Natal. Eram reuniões que se faziam
na casa onde estava o presépio, e em que se falava de coisas antigas, de
freiras de cuja santidade se conservara a tradição, e de muita outra coisa que
se dera no convento. A autora decide pois idear para o seu livro conversas
realizadas em algumas dessas fogueiras. Os diálogos seriam entre uma madre
abadessa, uma madre vigária e várias religiosas de nomes fictícios, tais como
Fibronia, Maurícia, Malvina, Marcela, Sabina, Eufrazia, e outros do mesmo
género.
Para o leitor de hoje, o livro é ilegível, mas a autora tinha veia
de escritora, e a sua obra interessa à história monástica, e, evidentemente, à histórico
daquele mosteiro. Em uma das ‘fogueiras’ fala-se da fundação do mosteiro pela
rainha D.Leonor, e ficamos a saber muita coisa sobre obras que subsequentemente
ali foram feitas, em particular por D. João III. Segundo uma das intervenientes,
o rei deliciava-se com a perfeição religiosa que reinava na Madre Deus,
encontrava ali o seu ideal de convento. Encantava-se, dizia outra interveniente,
com os rigores que ali se observavam. Julgando agradar a Deus, as religiosas da
Madre de Deus sujeitavam-se de vontade própria a terríveis mortificações, e
viviam num constante regime de fome, que, ou as levava muito cedo deste mundo,
ou as fazia morrer muito velhas As mortificações que aquelas mulheres se impunham
a si próprias, os sacrifícios que desafiavam a razão, que a outros repugnariam,
a D. João III agradavam. Se não tivessem outro valor, estes diálogos teriam
sempre interesse pelo que revelam de certos aspectos da pessoa de D.João III.
No mesmo diálogo fala-se de obras que se tinham feito no mosteiro, e que, por
ordem do rei, se tinham aberto, umas janelas no ‘pináculo’. Era uma sala
redonda sobre a capela-mor, de onde se gozava de uma larga vista. Algumas
religiosas não gostaram da ideia, ajoelharam diante do rei, e - ‘extremos
notáveis’, como observa a autora - pediram a Sua Alteza que tapasse as ditas
janelas. D. João, encantado, ‘para lhes dar gosto’ - de se sacrificarem ainda
mais - fez-lhes a vontade. Com o resultado, que, a partir daquela data a única
coisa que se avistava do pináculo, era a horta da casa. O que se podia
dispensar, observou Ludovina, uma das fictícias dialogantes, já que à horta
viam elas quando lá iam. Ludovina achava que aquelas santas podiam ao menos ter
deixado no pináculo uma fresta colocada a altura de poderem ver por ela. Só
lhes tinham deixado uma fresta ‘muy altíssima’, à qual só chegavam pondo-se se
em bicos dos pés. Nem todas as religiosas apreciavam as constantes visitas do
rei, diz-se no diálogo. Certa vez uma anciã até empurrara Sua Alteza pela porta
fora, aos gritos de “Rei fora, Rei fora”.
O mosteiro gabava-se de ser um dos mais nobres conventos do reino.
Estava-se em tempo dos Filipes, e três das intervenientes - Metildes, Malvina,
e Macária - lamentavam que já não houvesse em Lisboa nem Rei nem Paço, porque,
quando ainda os havia, sucedia muitas vezes que damas do Paço ali tomassem o
hábito. O que, segundo Metildes fora coisa de muita edificação e uma grande e
poderosa ajuda para se sustentar o costume que havia naquele mosteiro de só se
receber nele pessoas de muita qualidade e nobreza. Malvina concordava, era isso
que sustentava a perfeição daquela casa, ‘porque a nobreza é mais briosa, e a
conservação dela necessita de que o brio acompanhe o espírito. Porque quando
este não é muito, ‘a honra procura arremedá-lo.’ Macária era da mesma opinião.
E, quanto a ela, a autoridade delas era sustentada pelo que se dizia e sabia
delas da porta afora. Aquilo de elas não falarem, nem as verem, nem querem ser
vistas ‘nem com parentes mais chegados’ contribuía, achavam elas, para a sua
boa fama.
Lorvão também se podia gabar da qualidade e nobreza das suas
religiosas, mas não consta que estas pugnassem por serem conhecidas pelos seus
sacrifícios e rigores. A
Ordem de Cister não favorecia mortificações, queria oração e
trabalho. No arquivo de Lorvão encontram-se dois manuscritos de memórias de
algum interesse, se bem que muito diferentes. Datam os dois do século XVII. São
eles: o ‘’Livro das Preladas’, uma pequena obra sobre os acontecimentos mais ou
menos curiosos sucedidos nos diversos abadessados desde a fundação de Lorvão
como mosteiro cisterciense de mulheres. A autora serviu-se com certeza da
documentação do arquivo, mas é pouco provável que conseguisse ler os documentos
mais antigos. Tem o mérito de ter respeitado e transmitido a tradição oral,
sempre de atender em história monástica. O seu interesse, como diz o título do
livro, estava na vida das Preladas de Lorvão, e é uma valiosa fonte nesse
campo.
Bem diferente é o ‘Livro de apontamentos de soror Joana de Jesus’.
São as memórias dessa religiosa desde o dia em que, muito nova, saiu de casa de
seus pais, e entrou para o mosteiro de Lorvão. Memórias que não escondem experiências
místicas de natureza erótica. Que a autora provavelmente bão avaliava como
tais.
Não é por estas obrinhas que Lorvão é hoje conhecido. Quando no
sec. XIX se deu a extinção das Ordens religiosas, e os seus bens foram
confiscados, revelaram-se ao público laico tesouros artísticos desconhecidos, e
em particular, livros iluminados, quatro deles datando do século XII, que foi
por toda a Europa o grande século do manuscrito iluminado. Era nos mosteiros que
se centrava a vida cultural, foi nos mosteiros que se produziram os grandes
livros iluminados. Esperava-se de um grande mosteiro que fosse rico em livros
litúrgicos, e os próprios monges encarregavam-se da feitura desses livros.
Os monges negros de Lorvão seguiram decerto esse preceito. É
provável que, ao serem forçados a abandonar o seu mosteiro, os monges tenham
levado consigo alguns dos seus livros litúrgicos, deixando para trás aqueles
que não se destinavam aos ofícios divinos. Ficaram em particular duas obras de
excepcional qualidade. São eles o ‘Livro da Apocalipse’ e o ‘Livro das Aves’, ou
‘dos Passarinhos’. É uma cópia da obra De Avibus, da autoria de Hugues
de Fouilloy frade da Ordem de Santo Agostinho entre 1132 e 1172. Data também desse século a ‘Exposição de Santo Agostinho sobre salmos’.
Quando em 1211 as monjas da Ordem de Cister substituíram em Lorvão
os frades negros, a rainha D.Teresa, sua protectora, teve forçosamente de
preencher alguma lacuna em livros litúrgicos.
São do século XIII, quando começou a haver copistas e iluminadores
trabalhando fora dos mosteiros, os livros necessários para os ofícios
religiosos que se encontraram em Lorvão. São também do século XIII, e talvez
doados ao mosteiro pela Rainha, ou por algum devoto, os códices ‘régios’ - assim
nomeados pela sua riqueza, - que o mosteiro possuía. São eles: um ‘Livro da
Sagrada Escritura’, com inúmeras iluminuras de cenas sagradas e profanas; um
‘Testamento Velho’, com cenas bíblicas iluminadas a cores e oiro vivíssimo, e
com muitas das suas páginas cuidadosamente protegidas por pedaços de seda.
Ainda do século XIII são um Antifonário, e um Saltério, e dos séculos XIII ou
XIV um livro de ‘Responsos do Canto-chão’, um ‘Evangelário’, e um livro da
‘Definição da Ordem de Cister’. Este datado de 1308. Datando do século XV há um
missal, o conhecido por ‘Missal antigo de Lorvão’, mais um livro de ‘Responsos
de Canto-chão’. Este último, datado da era de 1451, ano de 1412, portanto. Foi
mandado executar por uma monja, e por ela oferecido ao mosteiro. Como se lê a
fl. 5v do livro. ‘A muito honrada e virtuosa empobrecida em virtudes Inês
Lourença Machada mandou fazer este livro aa (sic) honra de Deus e de seus
santos, para serviço do mosteiro de Santa Maria de Lorvão. Feito na era do
nascimento de mil quatrocentos e cinquenta e um anos’. ‘E por este livro deu
dois nicos (sic) e meio de prata’. No século XVI houve de novo uma dádiva do
mesmo género. Trata-se dos ‘Capítulos e Colecta que não tem o Breviário’,
escritos ‘no ano do N.de J.C. de 1503 por frei Tomé, capelão do mosteiro de
Lorvão’. A doadora é lembrada: ‘a muito virtuosa Margarida coelho, monja deste
mosteiro mandou fazer este livro’, lê-se. Havia ainda do século XVI um ‘Processionário’
de 1504, livro de canto-chão para ser cantado em procissão segundo o rito
cisterciense, um ‘Livro dos Hinos de Lorvão’, também de canto chão. Ainda do
sec XVI são: um ‘Psaltério e Breviário’, uma ‘Regra do Glorioso Padre São
Bento’, e um ‘Ritual Monástico’, este datado de 1547. Contem o cerimonial e
ofício da recepção das noviças. Todas estas obras são ricas em iniciais
fantásticas, em bordaduras de arabescos, e, no caso do ‘Ritual’ ornado de cenas
figurando gente comum, homens e mulheres, trabalhando. Lorvão entrava com este
livro nos tempos modernos. No primeiro milénio a arte cristã abandonara a
figura humana, o homem era o veículo de uma alma, vivia para se livrar dos seus
pecados e a sua alma alcançar o céu e a vida eterna. Ora, começando em Itália
nos primeiros anos do século XV, com Beunelesqui, Donatello e Massaggio dera-se
uma viragem na arquitetura, e na pintura. Descobrem-se de novo as artes da
Grécia e da Roma antiga, grega, reconhecia-se que o homem era uma figura única,
e que merecia ser reconhecida como tal. O artista pode finalmente pintar outra
coisa que figuras de santos e santas, delicia-se em mostrar homens e mulheres
em todos os momentos da vida. Os próprios livros de culto, e, em particular, os
livros de Horas enchem-se de figuras seculares, de homens e mulheres nos seus
lazeres e nas suas ocupações. Prefeito exemplo disso é o citado ‘Ritual de
Lorvão’.
As monjas de Lorvão não se distinguiram por grandes obras
literárias da sua mão, mas forram suficientemente cultas para saber apreciar os
grandes livros que tinham à sua guarda, de cuidar da sua conservação - a
humidade que permeava o mosteiro devia exigir contínua atenção - e de contribuíre-las
mesmas para o seu enriquecimento do seu mosteiro com dádivas pessoais.
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VIDA QUOTIDIANA DAS MONJAS NO MOSTEIRO MEDIEVAL - CAPº XVII O CASO DE D. FILIPA D'EÇA - PARTE 4 - O CASO DE D. FILIPA EM ROMA
>> quarta-feira, 25 de maio de 2016
Parece coisa tão ínfima para um rei, e no entanto assim foi. D. João
III teve em Roma quatro homens de grande nível ocupados em demonstrar que num
solitário mosteiro em Portugal uma mulher que fora eleita sua abadessa, não o
devia ser. Mas as diligências pouco adiantavam. Baltasar de Faria, que desde
1543 era ‘enviado’ de Portugal em Roma, o homem quem obtivera do Papa Paulo III
a Bula que estabelecera em Portugal o Santo Ofício da Inquisição, fora agora encarregado
do caso de D.Filipa. Estava encontrando inesperadas dificuldades. A 25 de Março
de 1546, oito anos depois do fatídico dia da eleição de dona Filipa, e depois
ca recente confirmação dessa eleição pelo Papa, o Rei recebe carta de Faria
narrando detalhadamente aquilo que e passava naquilo que designa por ‘caso de
Lorvão’.
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| D. João III |
O Papa consentira que o caso fosse reexaminado, escreve
Faria. Dera ordens ao seu Núncio em Lisboa para que se informasse pessoalmente
do caso. Que ouvisse testemunhas, e que o referisse para Roma para que se
resolvesse finalmente o Negócio. Havia três anos, que ele andava naquilo,
escreve Faria, todos os dias insistindo com o Papa, até que este concedera
agora este re-exame. Muito contrariado, porém, ‘com grandíssima dificuldade’.
El-rei conhecia a natureza do Papa, já sabia que ele era ‘humbrioso’(sic).
O Papa era influenciado pelos que trabalhavam a favor de
dona Filipa, escrevia Faria, e que lhe diziam que el-rei favorecia ‘don’Ana por
alguns respeitos’. Ele provara que isso não era verdade, e conseguira que a
nova solução se mantivesse em segredo até partir a carta para o Núncio. ‘Os de
dona Filipa’ continuavam contudo a insistir junto do Papa, ‘todos os dias dão gritos
ao Papa’. Era necessário que em Portugal se conseguissem prova convincentes
‘com a qual espero que Sua Santidade se quietará e dará fim a esta lide, que há
sido a mais renhida de quantas há na Rota’. O cardeal Santa Frol trabalhara
muito bem naquele assunto, acrescentava Faria, seria bom que o rei lho
agradecesse.6
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| Papa Paolo III E os sobrinhos Ottavao e Alessssandro Farnese (Tiziano) |
Dois
anos depois tudo estava na mesma. Eram precisos mais esforços da parte de
Lisboa, escrevia Faria a 15 de Junho de 1548. Seria bom que o el-Rei ou a
Rainha escrevessem aos cardeais Farnese e Santa Frol, dando-lhes conta que dona
Filipa não queria a concórdia na forma que Sua Santidade ordenara.7 Um mês depois, nova paragem no negócio. O Papa
insistia em que tinha de se fazer justiça, e justiça era, na opinião da Rota,
julgar a favor de dona Filipa.8 ‘Poucos
dias há que avizei Vossa Alteza como tendo Sua Santidade dado comissão para que
se procedesse na causa de Lorvão a instância da parte adversa’, escreve
Baltasar de Faria a 8 de Julho de 1548. Ele acudira logo, fazendo revocar o que
a parte adversa adiantara. Mas Sua Santidade, ‘ou movido por más informações,
ou por lhe parecer que nisso mostrava seu valor, ou por qualquer outro
respeito’, ordenara que o juiz da causa procedesse, dizendo que, ao agir assim,
obedecia aos desejos de D. João III. Ironia, que arrasava Faria: ‘De modo que
debaixo deste nome se quis justificar, e não bastou fazer-se nisso tudo aquilo
que se pode imaginar para o desviar deste propósito, porque não ficou nada por
fazer de minha parte, metendo nisso cardeais servidores de Vossa Alteza,
acreminando-lhes (sic) o caso como era necessário, e tudo o mais que me pareceu
a propósito’.
O embaixador de
Portugal, D.João de Meneses, também trabalhava no ‘negócio’, tanto junto do
Papa, como junto dos cardeais Farnese e Santa Frol, ‘mas nenhuma coisa
aproveitou, o Papa escusando-se sempre que justiça havia de haver seu lugar’. O
embaixador explicava-se sobre o decorrer da causa, e o que ele fizera para adiantar.
Já escrevera a Sua Alteza sobre o que se passava no negócio de Lorvão, agora
podia informar que, tendo o Papa regressado de Frescata, ele lhe pedira audiência, e se queixara da pouca atenção
que se haviam dado aos desejos e às razões de el-rei D. João III. Não era
possível que Sua Santidade não soubesse ‘o que, entre turcos e mouros, era tão
notório’, que eram o zelo e o cuidado do rei de Portugal na reformação dos
mosteiros do Reino. Fizera-o em todos os mosteiros, e o mesmo queria fazer em
Lorvão. Ora, se Sua Santidade acreditava que assim era, porque é que admitia ouvir
naquela causa a dois ‘fugidos da Inquisição?’. A isso, e ao mais que ele
dissera ao Papa, a resposta de Sua Santidade fora, ‘que não podia deixar de
mandar à Rota que fizesse o que fosse justiça’. Ao que ele retorquira, que era
isso mesmo que o seu Rei queria. Se ele não o quisesse por justiça, não estaria
há tantos anos tratando daquela causa em Roma. Ele lembrara também ao Papa os
escândalos que se poderiam seguir, se dona Filipa fosse abadessa Ao que o Papa
respondera, que a Rota vira todos os pontos de uma parte e da outra, e julgara
o caso da forma que lhe parecia ser justiça. O mais que podia fazer, era fechar
os olhos, se D. João ‘como senhor e Rei da terra, que vê claramente os
escândalos e inconvenientes dessa mulher ser abadessa’ não o consentisse, e
fizesse o que lhe parecesse mais ‘serviço de Deus’.
O embaixador contestara, replicando ‘mil coisas’, até que Sua
Santidade, ‘desejando achar uma tábua a que se acolhesse’, lhe dissera que,
possivelmente, não estava bem informado, mas que o que lhe parecia era que
aquilo não devia tocar muito ao rei, a não ser por querer favorecer a dona Ana
Coutinho. ‘Isto, indigna-se o embaixador, quando Baltazar de Faria gastara os
bofes com gritos e lamentos, e dito e feito naquele caso tudo quanto podia. Era
de perder a cabeça. E não havia ‘causa mais publica na Rota nem nela coisa mais
referida’.9
Finalmente Baltazar de Faria julga ver luz no horizonte. A 4 de
Setembro de 1549 o enviado informa D. João III, que o caso de Lorvão se
resolvera. Só até certo ponto, era verdade. ‘Depois de muito trabalho, e
fadiga, que seria para nunca acabar haver-se de dar contas’, o negócio de
Lorvão resolvera-se da seguinte maneira: Decidira-se, que o caso era afinal um
caso de direito à posse dos bens do mosteiro, e, como a esses, dona Filipa de
facto não tinha direito, dona Ana podia ficar no mosteiro. Era um compromisso,
e muito duvidoso. ‘Ainda não havia a certeza da solução ser aceite por parte de
dona Filipa’. E ela já agira. ‘Da parte de dona Filipa, como disto tiveram
notícia, vendo desbaratado seu desenho, fizeram grandes clamores a Sua
Santidade e todavia o vão informando com advogados consistoriais, ajudando-se
de todo o favôr que podem’.
O caso de facto ainda se arrastaria, e não foi nunca resolvido
declaradamente a favor de D. João III. Não pode haver duvida que D.Filipa teve
poderosos apoios em Roma, mas quem foram? Não encontrei resposta. Baltasar
Faria fala em ‘os de dona Filipa,’ o
embaixador do rei dizia que ela tinha o apoio de ‘fugidos da Inquisição.’ O que
é possível, considerando que era preciso dinheiro para ganhar apoios influentes
em Roma, e a própria D. Filipa não o tinha de certeza. E não podia ter os
conhecimentos necessários para a partir do mosteiro de Celas contactar gente
influente em Roma. Consta que ela teve um conselheiro activo no abade Pedro de
São Paulo de Almavisa, pequeno mosteiro de monges cistercienses perto de
Coimbra. E talvez esteja nessa ajuda do abade de Almaviza a D. Filipa a
explicação para que D. João III tivesse pedido a Júlio III, sucessor de Paulo
III, que os bens
de S. Paulo de Almaziva fossem transferidos para o instituição de ensino em Coimbra. O novo
Papa acedeu e no ano de 1555, o mosteiro de onde o abade Pedro aconselhara D. Filipa
d’Eça, era anexado ao Colégio do Espírito Santo em Coimbra.
Quanto ao fundo da questão
do rei contra D. Filipa d’Eça, tem decerto explicação na falsa ideia que D. João
III fazia da vida monástica. Em uma das suas cartas dirigidas ao Papa o
embaixador de Portugal escreve, que não era possível, que Sua Santidade não
soubesse, ‘o que, entre turcos e mouros, era tão notório’, que eram ‘o zelo e o
cuidado’ do rei de Portugal na reformação dos mosteiros do Reino. Fizera-o em
todos os mosteiros, e o mesmo queria fazer em Lorvão. Ora, se Sua Santidade
acreditava que assim era, porque é que admitia ouvir naquela causa a dois
‘fugidos da Inquisição?’.
É
que Paulo III, educado no Humanismo, era menos inquisidor que D. João III. Ele
teria compreendido que o rei favorecesse Dona Ana Coutinho por consideração
pessoal - mesmo amorosa - mas não via razão para afastar D. Filipa pelo facto
de ela, como as suas duas antecessoras, não favorecerem excessivos rigores no
seu mosteiro.
Dona
Filipa não veio a ocupar o lugar de abadessa em Lorvão, mas as coisas
apaziguaram com o abadessado de dona Catarina de Albuquerque, que governaria
até à sua morte. Foi a última abadessa perpétua em Lorvão. No ‘Livro das
Preladas’ lê-se que, no ano de 1605, tendo morrido a abadessa dona Catharina de
Albuquerque, e o Dom abade de Alcobaça, ‘estando presente no dito mosteiro à
grade da igreja dele, para efeito de eleger nova prelada’, ele perguntara à
madre prioresa e convento, se ‘eram contentes’ de elegerem prelada trienal, ou
se queriam que esta fosse perpétua como até então tinha sido. Prioresa e
convento tinham respondido, ‘de voto comum e sem discrepância alguma’, que
queriam que as preladas, que dali em diante se elegessem, fossem trienais, e
que dessa forma se começasse logo naquela eleição. E declararam mais, que
renunciavam a ‘qualquer direito e accão, se algumas tinham, na eleição das
abadessas perpétuas, por entenderem em suas consciências ser assim mais serviço
de Deus e proveito espiritual e temporal do mosteiro.’ E assim sucedeu. Uma
nova era começou no mosteiro de Santa Maria de Lorvão.
Nota: Na próxima semana não haverá publicação, retomaremos daqui 15 dias
6 T.T. G25 de Março de 1546, oito
anos depois do fatídico dia da eleição de dona Filipa, o Rei recebe carta de avetas da Torre
do Tombo II, 5.45
9
T.T. Gavetas da Torre do Tombo II,5-50
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