As Tapeçarias de Pastrana do 3º Duque de Bragança

>> quinta-feira, 11 de maio de 2017

As Tapeçarias de Pastrana do 3º Duque de Bragança

O Museu Paroquial de Tapeçarias de Pastrana prepara-se para comemorar os 350 anos de posse das quatro grandes tapeçarias de tema português, que, em 1667, lhes oram doadas pelos duques do Infantado Está por averiguar se os Duques tinham obtido as tapeçarias em pagamento de empréstimo, como parte de um dote, ou por qualquer outra razão. O director do Museu, Rev. Padre Emílio Esteben, dirigiu-se-me há pouco, dizendo que gostaria de ter alguma contribuição portuguesa nesta ocasião, e propondo que fosse eu a colaborar nesse sentido. Fora eu quem revelara ser o 3º duque de Bragança, o mandatário das tapeçarias, era certo que lhes dissesse mais alguma coisa. Eu? Impossível. Já não tenho idade para isso. Depois reconsiderei, prometi fazer o que pudesse. O 3º duque de Bragança é uma figura histórica muito interessante, e o homem - fosse ele quem fosse - responsável pela realização das quatro tapeçarias, que hoje admiramos, merece atenção. O duque de Bragança? Não foi D. Afonso V quem as encomendou? Não. Quem o afirmou, errou.
As tapeçarias até ali praticamente desconhecidas dos portugueses foram expostas em Lisboa no MNAA em 2010. O museu deu um nome à Exposição: ‘Invenção da Glória’- D. Afonso V e as Tapeçarias de Pastrana’. O mandatário das tapeçarias teria sido portanto D. Afonso V. A oficina onde haviam sido tecidas fora, segundo o catálogo, a certa oficina de Tournay. Quanto ao desenhador, o Museu hesitava entre dois nomes. A identificação de D. Afonso V como mandatário daquela obra pareceu-me muito duvidosa. O Museu não se apoiava em qualquer documento comprovativo, e D. Afonso V, tanto quanto se sabe dele, não era homem a se glorificar a si mesmo. E, sobretudo, ele não podia ter meios para pagar as somas fabulosas que tapeçarias daquela qualidade e daquele tamanho forçosamente tinham custado. Notoriamente generoso, D. Afonso dera metade do reino aos amigos, e o reino acabara de custear uma empresa militar muito custosa. Em Portugal só dois homens estariam então na condição de custear aquelas peças, o 2ºduque de Bragança, ou seu filho primogénito, D. Fernando, futuro 3º duque de Bragança. O testamento do então duque de Guimarães, prova que a obra foi sua.
Em 1476, em Bejar de Arevalos, em Espanha, durante a campanha que terminaria com a batalha de Toro, o Duque faz o seu testamento, e trata muito particularmente da disposição de quatro tapeçarias.[1] Sendo pouco provável, que, à data, existissem em Portugal, outras quatro grandes tapeçarias, a autoria do Duque está provada. O documento foi revelado por mim durante a Exposição em carta publicada no Expresso. Já não foi a tempo de evitar que se publicasse um dado errado, mas não duvidei que o Museu daria a seu tempo a conhecer a informação correcta.
Vim agora a saber, que isso não sucedeu. Depois da Exposição de Lisboa, as tapeçarias foram restauradas, e, em seguida, expostas em várias grandes cidades na Europa e na América. Quando da sua exposição em Washington, o Washington Post publicou sobre elas um longo artigo de Phillip Kennicott, seu crítico de arte. Este dá tal valor àquela obra, que procura a opinião de Barbara von Berghahn, professora de História de Arte na George Washington University. Obviamente, o MNAA não dera entretanto a conhecer o nome do verdadeiro mandatário. O que é que isso importa? Que diferença faz, se foi D. Afonso V ou o duque de Bragança, quem mandou fazer aquilo? Para estudar a heráldica, as armas, as bandeiras, não faz grande diferença, é verdade, mas para a interpretação daquilo que ali se conta, faz toda a diferença. Aliás a questão que se deve pôr é outra. A questão é esta: a saber-se o MNAA podia dar, sobre as tapeçarias, uma identificação para a qual não tinha documentação, que não podia apoiar com argumentos lógicos, e, finalmente, se era lícito o Museu reforçar a identificação - que sabia não ser correcta - com dados concretos imaginários. Creio que a esta questão só há uma resposta: Um Museu não pode saber tudo sobre todas as obras de Arte que lhe tocam, e, quando assim é, deve dizê-lo. Mas não pode fingir que sabe, dar informações, que pensa serem certas, esperando que o tempo faça o favor de lhe trazer as provas. Um museu nacional tem responsabilidade adicional. A sua opinião é ouvida, em caso de dúvida é dele que se espera a última palavra sobre uma peça de arte nacional da sua especialidade. Quer esta esteja em Portugal, quer mo Estrangeiro.
O director do Museu de Pastrana enviou-me as fotografias que o Museu mandou fazer para esta ocasião. São quatro tiras, de 67 cm de comprimento e 24 cm de altura. Espantou-me o bem que nelas se veêm os mais pequenos detalhes. Distinguem-se as figuras, o riso, ou a seriedade nas caras. Parece uma grande pintura, pensei. Dias depois, contemplando de novo aquelas tiras, digo para comigo: ‘tem graça, parecem iluminuras’. E abre-se-me uma luz. Não ‘parecem iluminuras’, ‘são iluminuras’. Aquilo é obra de um daqueles artistas que desenhavam com a sua pena afiada as cenas da vida religiosa e secular. Só um homem dessa arte poderia ter fixado com tanta perfeição, em detalhe, cenas de com dezenas, talvez centenas, de figuras individuais. O fotógrafo que o Museu de Pastrana encarregou destas novas reproduções, usou naturalmente os novos processos, e conseguiu - não realizando decerto o que estava fazendo, e de forma que só um profissional saberá explicar - esta coisa impensável: que se viesse a conhecer o desenho a partir do qual se partira para os cartões que os tecelões usaram para tecer as tapeçarias que hoje conhecemos, desenhado em pergaminho ou velino, serviu para que em Flandres se tecessem as tapeçarias. O desenho inicial seria gradualmente agigantado até atingirem os 15m de largura e 7m de altura que se pretendia para cada tapeçaria.


Evocação do Cerco de Arzila









Desembarque







Guerra de Arzila







Rendição de Tânger








As duas primeiras tapeçarias parecem ser um par. Enquadradas de verdura e flores, eram tapeçarias para quarto de senhora, são decerto aquelas que o Duque no seu testamento, destinava a sua mulher. A terceira e quarta destas peças são tapeçarias realistas, de guerra. O assalto a Arzila e a conquista de Tânger são tapeçarias de homem. O Duque tem as consigo durante a campanha de Toro.
A primeira tapeçaria representa, segundo José de Figueiredo, o cerco de Arzila, e não me passou pela cabeça duvidar da classificação. Espantava-me um pouco ver a D. Afonso V e seu filho caracolando nas suas montadas quando estavam no perigoso cerco de Arzila. De facto não estavam. Estavam naqueles ricos trajes em seus grandes cavalos cobertos de mantas doiradas para tomar parte na encenação que seu primo Fernando imaginara para comemorar o cerco e a conquista de Arzila. Na miniatura salta aos olhos que é disso que se trata. Uma barreira de tábua enfeitada com os pendões dos combatentes estende-se a toda a largura da imagem. À direita tem uma porta. No interior da barreira, do redondel - provavelmente aquele onde se realizavam as justas - estão o Rei e o Príncipe e os grandes senhores, o condestável-mor, o alferes-mor. Junto com eles, no mesmo espaço, estão simples soldados com suas picas, estão bombardeiros com os canhões do seu ofício. É o retrato colectivo de companheiros de armas. Numa abertura do espaço central avista-se ao longe uma pequena cidade. É decerto a imagem figurada de Arzila, a cidade cuja conquista se está comemorando. O artista enquadrou a tapeçaria de alguma verdura à direita, e de algumas flores, à esquerda.
A segunda tapeçaria representaria, sempre segundo José de Figueiredo, o desembarque em Arzila. Creio antes que representa o desembarque em Lisboa no regresso de Arzila. Um pouco de água muito azul diz-nos que se está no rio. Vê-se um mastro de nau caído sobre a areia. Em terra há aqui e ali verdura no chão, as bandeiras flutuam ao vento. Não se vêm os grandes senhores. Deixaram o campo livre aos seus homens de armas. Tudo exprime a alegria. Vêem-se casas brancas com telhados encarnados ao fundo. É Lisboa, dizemos, mas se está ali a torre de uma mesquita? Como explicá-lo? Parece-me que nesta tapeçaria se trata como na primeira de uma encenação, da encenação de desembarque. Só se saberá ao certo quando for lida a inscrição que há no topo desta e das outras tapeçarias.
O MNAA deu um nome à Exposição: ‘A Invenção da Glória - D. Afonso V e as tapeçarias de Pastrana’. Ou seja, as tapeçarias teriam sido criadas por D. Afonso V para comemorar a glória por ele alcançada com as empresas de Arzila e Tanger. E, desta forma, ‘inventara a glória’. É demasiado subtil para a minha compreensão. D. Afono V foi sem dúvida o inspirador da conquista de Tânger. Para conquistar glória? Está-se em 1471, o tempo dos cavaleiros, que iam de terra em terra em busca de ‘honra‘ já passou, e não eram os reis que se empenhavam nessas aventuras. Podiam partir em guerra pelos mais variados motivos, alegando as mais variadas razões, não podiam declarar que iam em busca de glória para a sua pessoa. As empresas de Arzila e Tânger tinham como objectivo uma razão muito concreta, conseguir uma ‘base naval’ na costa atlântica de Marrocos para proteger o lucrativo comércio da Guiné. O rei podia alegar mais elevados propósitos, mas a razão inequívoca era sabida, e não se lhe perdoaria se fosse outra. Dos Príncipes exigiam-se empresas de ordem racional, de proveito para o seu reino. Se isso lhes assegurava alguma glória, tanto melhor. Mas não era o fim a que deviam aspirar, e do qual se iriam vangloriar. Os tempos eram realistas. O homem descobrira que a sua vida na terra era importante, que não estava no mundo unicamente para ganhar o céu. Os homens empenhavam-se em negócios produtivos, nasciam grandes casas de comércio. Descobrira-se o valor do dinheiro. Vivia-se no mundo do humanismo, do realismo. A Europa abrira-se a um mundo novo. Discutiam-se novas ideias, descobriam-se as artes greco-romanas e a sua literatura. Em Itália os arquitectos imitavam a vila romana, os pintores esqueciam santos e santas e pintavam homens e mulheres. Em 1450 em Mogúncia, na Alemanha, um homem conseguira imprimir livros com letras móveis. As antigas ideias são reproduzidas por métodos novos. O duque de Bragança é homem do seu tempo, concebe uma coisa absolutamente nova, umas tapeçarias nas quais se contavam feitos reais vividos por ele. As quatro tapeçarias contam em uma espécie de banda desenhada a guerra de Arzila.
O próximo artigo será sobre o Duque e o seu artista.




[1] D. António Caetano De Sousa, Provas da História Genealógica da Casa Real Portuguesa, Tomo III, II Parte, pag. 216 – 228, Coimbra, 1949

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VIDA QUOTIDIANA DAS MONJAS NO MOSTEIRO MEDIEVAL - LIVRO EM PDF

>> quarta-feira, 7 de setembro de 2016

VIDA QUOTIDIANA DAS MONJAS NO MOSTEIRO MEDIEVAL


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VIDA QUOTIDIANA DAS MONJAS NO MOSTEIRO MEDIEVAL - CAPº XIX INTRODUÇÃO DA DOÇARIA CONVENTUAL MANJAR BRANCO E DOCE D' OVOS , NOTAS FINAIS E BIBLIOGRAFIA

>> quarta-feira, 29 de junho de 2016

A doçaria conventual - aquilo que ainda hoje faz lembrados os mosteiros femininos portugueses - foi arte que só começou no século XVI. Só então, com a importação da cana d’açúcar da Índia e do Mediterrâneo e implantação da produção de açúcar em Portugal, na Ilha de São Tomé e depois no Brasil, o açúcar se tornou um género acessível. Que os reis até davam em esmola aos mosteiros seus protegidos. Em 1509, D. Manuel dá dez arrobas de açúcar ao Convento de Jesus de Aveiro; em 1517 dão-se 8 arrobas de açúcar de esmola à Santa Clara de Lisboa, e 5 arrobas de açúcar branco a Santa Clara de Beja. Nos anos do reinado de D. Manuel esmolas dessas vão ainda para a Madre de Deus em Lisboa, para os conventos de Santa Clara em Lisboa, Portalegre, Beja e outros. Também as especiarias eram dádiva frequente dos soberanos aos mosteiros: 4.000 reis em especiaria ao convento de Celas, em 1512, especiarias em porção não especificada a Santa Clara de Portalegre e ao mosteiro de Jesus de Aveiro em 1518; 4000 reis de ‘droga’ ao mosteiro de Santa Clara de Coimbra em 1519. E as religiosas de todos os mosteiros de Portugal lançaram-se e na produção de uma arte nova, a arte da doçaria ou pastelaria, alcançando, nesse campo glória imorredoira. E merecida.
A coisa deve ter evoluído gradualmente, as monjas tiveram de pensar como melhor aproveitar o doce açúcar que lhes caía em casa e que até ali praticamente desconheciam. Tinham talvez usado um pouco dele em alguma mesinha para as suas doentes, nunca na cozinha. Descobriram, provavelmente por acaso, a cozedura do açúcar em ponto. Deram nomes aos graus de ponto ‘de cabelo, de pingo.’ Lembraram-se de juntar açúcar aos ovos postos abundância pelas galinhas que pululavam em todos os mosteiros. Cozida ou em caldo, a galinha era remédio para todos os males. Os visitadores faziam os seus reparos: que o galinhaço até entrava pelo coro, que as galinhas sujavam o claustro e originavam brigas entre as suas donas. Sem efeito. As galinhas continuaram a picotar nos claustros e pátios dos mosteiros. Enquanto não se lhes torcia o pescoço, se coziam ou guisavam, as galinhas punham ovos. Ovos e açúcar ligavam bem, monjas e freiras criaram, com arte e imaginação, inúmeros doces diferentes com os mesmos dois ingredientes. Juntaram-lhes por vezes especiarias, amêndoas. Lembraram-se de usar a obreia das hóstias para base de queijinhos d’ovos, de broas d’ovos.
Nos mosteiros havia a matéria-prima, a mão-de-obra, e o tempo para aquele fabrico. E a criatividade. Entre tantas mulheres, haveria sempre uma com talento para inventar e inovar. E para dar nomes adequados àquelas criações: A produção de doçaria por parte das religiosas desenvolveu-se, mas não era apreciada por todos as autoridades religiosas. Nas actas dos visitadores encontram-se - a partir do século XVI - constantes protestos contra os exageros da produção de doçaria, e da venda de doces para fora, ‘porque o fazerem-se as religiosas tratantes, e da casa de Deus mercancia, resulta em desserviço do mesmo senhor’. Depois de uma visita ao mosteiro de Santa Clara da Guarda, os visitadores ordenavam que nenhuma religiosa fizesse ‘trato em mercancia de doces para fora’, e que a madre abadessa acabasse de vez com o abuso. O que não aconteceu. Uma vez começada, a coisa iria tomar proporções de exagero, as monjas esquecendo as rezas na azáfama de bater ovos e vigiar o ponto de açúcar. Em Arouca faziam-se, em meados do século XVII, dezoito espécies diferentes de pastéis e doces. E, por todo o Portugal, as abadessas gratificavam em dias de festa os magistrados que trabalhavam para o seu convento, e os padres que lhes diziam as missas, com ‘prateleiras’ de doçaria variada.
Em Lorvão havia no século XVII uma ‘sala dos doces’, presume-se que aí se preparavam doces, mas ignorava-se até há pouco que doces eram esses. Livros conventuais de receita de doces são raros, se os houve, desapareceram. As receitas transmitiram-se por tradição oral. Um livro, recentemente publicado, da autoria do Dr. Nelson Correa Borges, intitulado ‘Doces conventuais de Lorvão’ , contém receitas de doces, conservadas nas famílias da terra, atribuídos - e decerto com razão - às monjas do mosteiro de Lorvão. As monjas tinham criadas, mulheres da terra que as ajudavam na convecção dos doces, que muito naturalmente levaram as receitas para suas casas, ou as ensinavam a outras mulheres. As receitas iam-se transmitindo, a sua origem conventual muitas vezes esquecida. Em Lorvão faziam-se entre outros os ‘Papos d’anjo, o Bolo de Bispo, o Bolo de Santa Teresa, os Bolos das Infantas, Queijinhos do céu, Capelas de ovos, Fatias do céu’. Tudo doces à base de ovos e açúcar, em Lorvão como nos outros mosteiros e convento de Portugal com nomes adequados à sua proveniência: papos d’anjo, pingos de tocha, queijinhos do céu, tocinho do céu
Pingo de tocha de Arouca
Um doce conventual que não tem a nada a ver com os doces d’ovos é aquela curiosa confecção doce, à base de peito de galinha., conhecida por ‘Manjar Branco’. Aquela papa branca, que, em Lorvão, era apresentada em toscos discos de barro, é coisa muito mais antiga que os doces d’ovos, e não, como estes, especificamente português. Um doce com os mesmos ingredientes era designado em França por ‘blanc manger’, e  era uma confecção usada em toda a Europa medieval. Uma pesquisa Google menciona a existência da receita em um caderno de ensegnements, de ensino culinário, de fins do blanmangerséculo XIII, inícios de XIV. O mesmo caderno ensina ainda como confeccionar o ‘blanc-brouet’, também de peito de galinha, mas com uma diferença, não levava leite.
Manjar branco                   ‘ Blancmange’

Sabe-se que a receita do manjar branco veio do mosteiro de Celas para o de Lorvão, ignorando-se contudo como e quando chegou a Portugal. Talvez tivesse sido trazida por um dos visitadores de Cister, que periodicamente vinham a Portugal, ou por um qualquer outro viajante de passagem. As monjas de Lorvão tiveram a ideia de servir o seu branco manjar numas rodelas de barro. O que faz do seu ‘manjar banco’ uma especialidade laurbanense.
Havia outras confecções doces nos diferentes mosteiros. No livro de Mordomia de Lorvão de 1659 lê-se que no dia de Santo António havia ‘milhares’ para a merenda desse dia. Compraram-se - em Junho desse ano 145 pães e 150 queijos, assim como leite para ‘milhares’. ‘Eram papas de milho que, em Lorvão, quando feitas para a comunidade, levavam 3 arráteis de açúcar e mais de 200 quartilhos de leite. Em 1660, lemos que se tinham comprado para a enfermaria e para a merenda que se dava no dia de Sº António, além das habituais cerejas, 150 queijos, 165 pães, 145 pastéis. E ainda leite para ‘arroz doce’, que se dava ao convento no dia de Sº António, e o dos ‘milhares’ da merenda do mesmo dia. Acrescentara-se portanto pastéis e arroz doce à ementa do ano anterior.
O ‘arroz doce’ que também deve ter entrado nos mosteiros com os Descobrimentos, designava-se de entrada por ‘arroz de leite’. Numa receita quinhentista de Lorvão lê-se que se gastavam ali para o ‘arroz de leite para o Santíssimo Sacramento’- ou seja, para a refeição desse dia – ‘27 arráteis de arroz, 26 de açúcar, 213 quartilhos de leite’. Em receita mais recente o ‘arroz doce’ já é enfeitado com canela. Fazia-se com ‘28 arráteis de arroz, 12 de açúcar, o almude de leite, 1/2 quartilho de água de flor, e 1 onça de canela”

~~FIM~~
                       

NOTAS finais e BIBLIOGRAFIA
Cheguei ao fim desta minha primeira experiência de publicação on-line - creio que é assim que se diz. O livro teve à volta de cinquenta leitores para cada capítulo. O que parece pouco, mas em Portugal não é mau para um livro deste tipo e sobre este tema. Gostaria de pensar que tenha ajudado algum estudante proporcionando-lhe informações úteis que não encontraria facilmente de outra forma. O texto vai agora ser publicado em Pdf. Farei ainda uma revisão, e agradeço desde já aos leitores que indiquem erros ou falhas que tenham notado, e que eu possa corrigir.
Umas palavras sobre a Bibliografia que em seguida indico. Cito unicamente os livros que de alguma forma são pertinentes ao assunto do livro. Consultei obviamente outros, o tema faz parte da história medieval, e não se estuda lendo unicamente textos sobre um determinado aspecto dessa época.
Para alguns do livros indicados há uma explicação, que pode não ocorrer ao leitor. A ‘Crónica Nurembergensis’ de Hartman Schedel é citada porque foi lá que procurei, e encontrei, uma imagem contemporânea do Porto medieval. A ‘Crónica’ é considerada útil pelas imagens das cidades alemãs que reproduz. Quando procurei uma vista da cidade do Porto para o capítulo XVI consultei a ‘Crónica’, e dei com uma gravura que me pareceu ter a marca de alguém que esteve na cidade, ou a quem esta foi descrita.
O livro ‘Religioese Frauenbewegungen im Mittelalter’, ou seja sobre os movimentos religiosos femininos na Idade Média, que me foi indicado na Livraria Histórica Ultramarina pelo Dr. Berkmeier foi essencial para a compreensão do que se passava no século XIII em matéria de religião quando os monges foram expulsos de Lorvão e substituídos nesse grande mosteiro por monjas de Cister.
Os livros ‘As freiras de Lorvão e ‘o mosteiro de Lorvão’ de T. Lino d’Assunção deram o impulso a este livro. Quando iniciei este trabalho esses livros eram considerados fonte da história do mosteiro de Lorvão, e praticamente os únicos livros que tratavam dos mosteiros femininos. Pensei que as muitas mulheres que, por vocação ou obrigação, viveram as suas vidas nos mosteiros de Portugal, e muitas vezes aí se realizaram como administradoras, mestras de letras e canto, e em muitos outros ofícios, mereciam ser recordadas de outra forma do que com a superficial ligeireza que Lino d’Assunção considerou adequada ao tema.

BIBLIOGRAFIA
FONTES MANUSCRITAS
BIBLIOTECA NACIONAL DE LISBOA (BNL) Col. Pombalina
Visitações de D. Jorge de Ataíde. Bº de Viseu,
CHAGAS, Frei Hilário
Memória e Fundação dos Mosteiros das Religiosas da Ordem de São Bernardo neste Reyno de Portugal Códice Alcobaça 92
TORRE DO TOMBO (TT)
GAVETAS da Torre do Tombo
CARTAS MISSIVAS
EITURA NOVA. Lº 3, 6, 9, 11, 12 da Extremadura Lº 2 de Além Douro Lº 7 de Odianna
ARQUIVOS MONÁSTICOS
Mosteiro de Santa Maria de Arouca
Vols. 2, 4, 5, 7, 107, 135, 150, 161
Mosteiro de Santa Maria de Coz
Mosteiro de Jesus de Aveiro
Mosteiro de Jesus de Setúbal
Mosteiro de Santa Maria de Almoster,
Mosteiro de Santa Maria de Celas, Maços IV a Maço IX
Mosteiro de Santa Maria de Lorvão,
COLECÇÃO ESPECIAL, Lº 40, Maços 2 a 9. 
Lº 313 Privilégio e Prazos
Lº 359
Livro das Preladas
Colecção de maços de Doc. Avulsos
Mosteiro da Madre de Deus dm Lisboa
Fundação do mosteiro da Madre de Deus Livro Mss
Mosteiro de Odivelas
Mosteiro de Chelas
Convento de Santa Clara da Guarda
Vol. 3 Livro de Visitações
Convento de Santa Clara do Porto

FONTES IMPRESSAS,
INVENTÁRIO dos códices iluminados até 1500. Secretaria do Estado da Cultura,1994
LIVROS IMPRESSOS
ANDRADE, José Maria d’
Memórias do mosteiro de Cellas
Coimbra, Imprensa Académica, 1892
ASSUNÇÃO, T.Lino d’ , As Monjas de Lorvão
Os mosteiros de Lorvão e Santa Clara e o templo da Sé Velha
Coimbra, Tipografia do Seminário, 1893
BACKHOUSE, Janet
The Illuminated Manuscript
Phaydon, Oxford. 1979
BORGES DE FIGUEIREDO, A. C. O Mosteiro de Odivelas, Livraria Ferreira 1889
BRANCO, Manuel Bernardes
História das Ordens Monásticas em Portugal 3 vols. Lisboa, Livraria Editora de Cardoso & Irmão MDCCCXXXVIII
BRONSEVAL, Frère Claude
Peregrinatio Hispanica 1531-1533, 2 vol.
Paris, Presses Universitaires de France 1970
BUEHLER, Johannes 
Klosterleben im deutschen Mittelater
Insel Verkag, Leipzig, 1923
CASADO, Concha. CEA, António
El Monasterio de Santa Maria de Gradefes
Leon, editones Lancia
COCHERIL, P. Maur
Les Abbesses de Lorvão au xv. siècle
Louvain, 1960
COCHERIL, P. Maur
Recherches sur l’ordre de Citeaux au Portugal. Livraria Bertrand, 1960
- Études sur le monachisme en Espagne et au Portugal. Livraria Bertrand, Lisbonne. 1966
--Notes sur l’architecture et le décor dams les Abbayes cisterciennes du Portugal
Paris, Fundação Calouste Gulbenkian 1972
CONSTITUIÇÕES das Religiosas da Ordem dos Eremitas de São Agostinho….
Coimbra, no Real Collegio das Artes da Companhia de Jesus, anno 1734
CORREIA BORGES, Nelson
Mosteiro de Lorvão
EPARTUR Edições Portuguesas de Arte e Turismo  Ltd. Coimbra 1982
-- Doçaria conventual de Lorvão
Penacova, Município
COULTON, G.G. Medieval Village, manor and monastery
New York, Evanstonand London
Harper’s &Row publisher
--Five Centuries of Religiom. Vol.V. The last days of Medieval Monasticism
Cambridge University Press 1950
-COUSIN, Patrice
Précis d’Histoire Monastique
Bloud&Gay
CRÓNICA da Fundação do Mosteiro de Jesus de Aveiro, e Memorial da Infanta Santa Joana filha de Dom Afonso V, Leitura e revisão de António Gomes da Costa Madahil Aveiro, 1939
FAIRBANK, Alfred
History of Handwriting
Origins and development
Fabaer & Faber Ltd, London, WCi
GRIEP, Hans Joachim
Deschichte des Essems
Wissenschaftliche Buchgesellschaft
Darmstadt
DU HAMEL, Christopher de
 Scribes and Iluminators
Edward Arnold. London
LABARGE, Margaret Wade
Women in Medieval Life
Hamish Hamilton, London
MATTOSOS, José Portugal Medieval. Notas Interpretações
Imprensa Nacional Casa da Moedas
-----O Ideal de Pobreza e as Ordens Monásticas em Portugal durante os séculos XI-XIII
Lisboa, 1973
---Documentos beneditinos da Tore do Tombo
Lisboa /1970
NOBILIÁRIO de D Pedro conde de Barcelos, hijo del rey D. Dinis de Portugal
……En Roma. Por Estevan Paolino MDCXL
POWER, Eileen
Medieval Women
Cambridge University Press
Cambridge. New York. Port-Chester.Melborne.Sidney
--Medieval English Nunneries
REGRA DOGLORIOSO PATRIACHA S. BENTO, tirada de latim em linguagem Portuguesa por indústria do reuerendilsimo P. Fr. Thomas do Socorro Geral nesta congregação de Portugal, segunda ves impressa com todas as licenças necessárias. Impressa em Coimbra em casa de Nicolao carvalho impressor da Universidade no Anno de 1632. A custa da Congregação de S. Bento
SCHEDEL, Hartman Cronica Nuerembergensiss
Fac-simile
SITWELL, Sacheverell
Monks Nuns and Monasteries
Weidenfeld and Nicolso
20, New Bond Street,London. WI

Áudio livros
WHITEFIELD, Peter History of European Art, Naxos AudioBooks, 2012



DICIONÁRIOS
-CAPELLI, Ulrico Aoepli
Abreviaturi Latini ed italiane
Milano
LOPEZ E DE TORO, José
Abreviaturas Hispanicas
Madrid, 1957
OlIVEIRA MARQUES, A.H.
Guia do Estudante da História Medieval Portuguesa
Eduções Cosmos, Lisboa
VITERBO, frei Joaquim de Santa Rosa de
Elucidário das palavras, termos, e frases anticuadas da língia portugues
Em casa do Editor A.J.Fernabdes Lopes rua Áurea 132-34 Lisboa
MLCCCLXV




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VIDA QUOTIDIANA DAS MONJAS NO MOSTEIRO MEDIEVAL - CAPº XVIII LIVROS ILUMINADOS E OUTROS

>> quarta-feira, 8 de junho de 2016

Os mosteiros de mulheres na sua maioria não marcaram pelo seu nível intelectual. Eileen Power, falando dos mosteiros ingleses, escreve, que das monjas inglesas não ficou obra escrita, que nem mesmo alguma pequena crónica das coisas do seu mosteiro saiu de suas mãos. A autora contrasta esta pobreza literária dos mosteiros ingleses com a produção de obras saídas dos mosteiros femininos da Alemanha. No século IX, a abadia de Geldersheim na Saxónia era famosa pela sua literacia. No século XII, a abadessa Herrad, do mosteiro de Hohenberg compoz e iluminou uma enciclopédia. E nesse século, duas místicas, Hildegard de Bingen e Elisabeth de Schoenau escreveram sobre as suas visões. No século XIII, o convento de Helfta na Saxónia, era famoso pela sua vida cultural. AS suas monjas iluminavam e colecionavam livros, escreviam e aprendiam latim.
As monjas portuguesas, sem se poderem gabar do nível cultural das monjas alemãs, foram - literariamente - um pouco mais produtivas que as inglesas. Há que mencionar para a época de que nos ocupamos, e um pouco depois, o livro de uma freira do convento de Jesus em Aveiro, e outro de uma religiosa do mosteiro da Madre Deus de Xabregas. Primeiro em data, e em valor, é a ‘Crónica da Fundação do mosteiro de Jesus de Aveiro’, ao qual está apenso o ‘Memorial da Infanta Santa Joana’. A autora teria sido uma religiosa chamada Margarida Pinheiro. O livro é obra histórica de valor, uma verdadeira crónica com dados documentados. Contém considerações sobre a fundação do mosteiro e seus primeiros tempos, e dá um importantíssimo relato da entrada da infanta Dona Joana no mosteiro, e com a análise da sua pessoa.
O livro intitulado ‘Notícia da Fundação do convento da Madre de Deus de Lisboa de Religiosas descalças da primeira regra de Nossa Madre Santa Clara’. Data de 1639,e trata, segundo informa a autora, ‘de algumas coisas que ainda se puderam descobrir das vidas e mortes de muitas madres Santas que houve nelas’.
Sobre os objectivos do seu livro escreve a autora: ‘Sempre depois que entrei para esta casa, tenho ouvido queixas às que vivemos nela, de não haver alguma memória da sua fundação e das religiosas santas que daqui foram para o céu. Porque, ainda que no arquivo haja papeis que de tudo dão notícia, não é em forma que possamos ler quando queremos’. E no que tocava as religiosas, escreve ela, havia no arquivo muito pouco em comparação do que sabiam as religiosas mais velhas, com quem ela conversara. E mesmo elas diziam, ‘que não era nada o que me contavam pelo muito que lhes esquecia do que tinham ouvido a outras mais antigas que conheceram. De modo que se houvera feito caso de tudo o que se pudera escrever, se fizera um grande livro, e de muita edificação. ’Receando que se viesse a esquecer o que devia ser tão vivo, a autora metera mãos á obra. Não se achava com engenho para um livro na forma usual, diz ela, pelo que decidira escrever o livro em forma de diálogos entre algumas freiras. Era costume naquela casa, continua, festejar o Natal com aquilo que elas designavam por fogueiras de Natal. Eram reuniões que se faziam na casa onde estava o presépio, e em que se falava de coisas antigas, de freiras de cuja santidade se conservara a tradição, e de muita outra coisa que se dera no convento. A autora decide pois idear para o seu livro conversas realizadas em algumas dessas fogueiras. Os diálogos seriam entre uma madre abadessa, uma madre vigária e várias religiosas de nomes fictícios, tais como Fibronia, Maurícia, Malvina, Marcela, Sabina, Eufrazia, e outros do mesmo género.
Para o leitor de hoje, o livro é ilegível, mas a autora tinha veia de escritora, e a sua obra interessa à história monástica, e, evidentemente, à histórico daquele mosteiro. Em uma das ‘fogueiras’ fala-se da fundação do mosteiro pela rainha D.Leonor, e ficamos a saber muita coisa sobre obras que subsequentemente ali foram feitas, em particular por D. João III. Segundo uma das intervenientes, o rei deliciava-se com a perfeição religiosa que reinava na Madre Deus, encontrava ali o seu ideal de convento. Encantava-se, dizia outra interveniente, com os rigores que ali se observavam. Julgando agradar a Deus, as religiosas da Madre de Deus sujeitavam-se de vontade própria a terríveis mortificações, e viviam num constante regime de fome, que, ou as levava muito cedo deste mundo, ou as fazia morrer muito velhas As mortificações que aquelas mulheres se impunham a si próprias, os sacrifícios que desafiavam a razão, que a outros repugnariam, a D. João III agradavam. Se não tivessem outro valor, estes diálogos teriam sempre interesse pelo que revelam de certos aspectos da pessoa de D.João III. No mesmo diálogo fala-se de obras que se tinham feito no mosteiro, e que, por ordem do rei, se tinham aberto, umas janelas no ‘pináculo’. Era uma sala redonda sobre a capela-mor, de onde se gozava de uma larga vista. Algumas religiosas não gostaram da ideia, ajoelharam diante do rei, e - ‘extremos notáveis’, como observa a autora - pediram a Sua Alteza que tapasse as ditas janelas. D. João, encantado, ‘para lhes dar gosto’ - de se sacrificarem ainda mais - fez-lhes a vontade. Com o resultado, que, a partir daquela data a única coisa que se avistava do pináculo, era a horta da casa. O que se podia dispensar, observou Ludovina, uma das fictícias dialogantes, já que à horta viam elas quando lá iam. Ludovina achava que aquelas santas podiam ao menos ter deixado no pináculo uma fresta colocada a altura de poderem ver por ela. Só lhes tinham deixado uma fresta ‘muy altíssima’, à qual só chegavam pondo-se se em bicos dos pés. Nem todas as religiosas apreciavam as constantes visitas do rei, diz-se no diálogo. Certa vez uma anciã até empurrara Sua Alteza pela porta fora, aos gritos de “Rei fora, Rei fora”.
O mosteiro gabava-se de ser um dos mais nobres conventos do reino. Estava-se em tempo dos Filipes, e três das intervenientes - Metildes, Malvina, e Macária - lamentavam que já não houvesse em Lisboa nem Rei nem Paço, porque, quando ainda os havia, sucedia muitas vezes que damas do Paço ali tomassem o hábito. O que, segundo Metildes fora coisa de muita edificação e uma grande e poderosa ajuda para se sustentar o costume que havia naquele mosteiro de só se receber nele pessoas de muita qualidade e nobreza. Malvina concordava, era isso que sustentava a perfeição daquela casa, ‘porque a nobreza é mais briosa, e a conservação dela necessita de que o brio acompanhe o espírito. Porque quando este não é muito, ‘a honra procura arremedá-lo.’ Macária era da mesma opinião. E, quanto a ela, a autoridade delas era sustentada pelo que se dizia e sabia delas da porta afora. Aquilo de elas não falarem, nem as verem, nem querem ser vistas ‘nem com parentes mais chegados’ contribuía, achavam elas, para a sua boa fama.
Lorvão também se podia gabar da qualidade e nobreza das suas religiosas, mas não consta que estas pugnassem por serem conhecidas pelos seus sacrifícios e rigores. A
Ordem de Cister não favorecia mortificações, queria oração e trabalho. No arquivo de Lorvão encontram-se dois manuscritos de memórias de algum interesse, se bem que muito diferentes. Datam os dois do século XVII. São eles: o ‘’Livro das Preladas’, uma pequena obra sobre os acontecimentos mais ou menos curiosos sucedidos nos diversos abadessados desde a fundação de Lorvão como mosteiro cisterciense de mulheres. A autora serviu-se com certeza da documentação do arquivo, mas é pouco provável que conseguisse ler os documentos mais antigos. Tem o mérito de ter respeitado e transmitido a tradição oral, sempre de atender em história monástica. O seu interesse, como diz o título do livro, estava na vida das Preladas de Lorvão, e é uma valiosa fonte nesse campo.
Bem diferente é o ‘Livro de apontamentos de soror Joana de Jesus’. São as memórias dessa religiosa desde o dia em que, muito nova, saiu de casa de seus pais, e entrou para o mosteiro de Lorvão. Memórias que não escondem experiências místicas de natureza erótica. Que a autora provavelmente bão avaliava como tais.
Não é por estas obrinhas que Lorvão é hoje conhecido. Quando no sec. XIX se deu a extinção das Ordens religiosas, e os seus bens foram confiscados, revelaram-se ao público laico tesouros artísticos desconhecidos, e em particular, livros iluminados, quatro deles datando do século XII, que foi por toda a Europa o grande século do manuscrito iluminado. Era nos mosteiros que se centrava a vida cultural, foi nos mosteiros que se produziram os grandes livros iluminados. Esperava-se de um grande mosteiro que fosse rico em livros litúrgicos, e os próprios monges encarregavam-se da feitura desses livros.
Os monges negros de Lorvão seguiram decerto esse preceito. É provável que, ao serem forçados a abandonar o seu mosteiro, os monges tenham levado consigo alguns dos seus livros litúrgicos, deixando para trás aqueles que não se destinavam aos ofícios divinos. Ficaram em particular duas obras de excepcional qualidade. São eles o ‘Livro da Apocalipse’ e o ‘Livro das Aves’, ou ‘dos Passarinhos’. É uma cópia da obra De Avibus, da autoria de Hugues de Fouilloy frade da Ordem de Santo Agostinho entre 1132 e 1172. Data também desse século a ‘Exposição de Santo Agostinho sobre salmos’.



Quando em 1211 as monjas da Ordem de Cister substituíram em Lorvão os frades negros, a rainha D.Teresa, sua protectora, teve forçosamente de preencher alguma lacuna em livros litúrgicos.
São do século XIII, quando começou a haver copistas e iluminadores trabalhando fora dos mosteiros, os livros necessários para os ofícios religiosos que se encontraram em Lorvão. São também do século XIII, e talvez doados ao mosteiro pela Rainha, ou por algum devoto, os códices ‘régios’ - assim nomeados pela sua riqueza, - que o mosteiro possuía. São eles: um ‘Livro da Sagrada Escritura’, com inúmeras iluminuras de cenas sagradas e profanas; um ‘Testamento Velho’, com cenas bíblicas iluminadas a cores e oiro vivíssimo, e com muitas das suas páginas cuidadosamente protegidas por pedaços de seda. Ainda do século XIII são um Antifonário, e um Saltério, e dos séculos XIII ou XIV um livro de ‘Responsos do Canto-chão’, um ‘Evangelário’, e um livro da ‘Definição da Ordem de Cister’. Este datado de 1308. Datando do século XV há um missal, o conhecido por ‘Missal antigo de Lorvão’, mais um livro de ‘Responsos de Canto-chão’. Este último, datado da era de 1451, ano de 1412, portanto. Foi mandado executar por uma monja, e por ela oferecido ao mosteiro. Como se lê a fl. 5v do livro. ‘A muito honrada e virtuosa empobrecida em virtudes Inês Lourença Machada mandou fazer este livro aa (sic) honra de Deus e de seus santos, para serviço do mosteiro de Santa Maria de Lorvão. Feito na era do nascimento de mil quatrocentos e cinquenta e um anos’. ‘E por este livro deu dois nicos (sic) e meio de prata’. No século XVI houve de novo uma dádiva do mesmo género. Trata-se dos ‘Capítulos e Colecta que não tem o Breviário’, escritos ‘no ano do N.de J.C. de 1503 por frei Tomé, capelão do mosteiro de Lorvão’. A doadora é lembrada: ‘a muito virtuosa Margarida coelho, monja deste mosteiro mandou fazer este livro’, lê-se. Havia ainda do século XVI um ‘Processionário’ de 1504, livro de canto-chão para ser cantado em procissão segundo o rito cisterciense, um ‘Livro dos Hinos de Lorvão’, também de canto chão. Ainda do sec XVI são: um ‘Psaltério e Breviário’, uma ‘Regra do Glorioso Padre São Bento’, e um ‘Ritual Monástico’, este datado de 1547. Contem o cerimonial e ofício da recepção das noviças. Todas estas obras são ricas em iniciais fantásticas, em bordaduras de arabescos, e, no caso do ‘Ritual’ ornado de cenas figurando gente comum, homens e mulheres, trabalhando. Lorvão entrava com este livro nos tempos modernos. No primeiro milénio a arte cristã abandonara a figura humana, o homem era o veículo de uma alma, vivia para se livrar dos seus pecados e a sua alma alcançar o céu e a vida eterna. Ora, começando em Itália nos primeiros anos do século XV, com Beunelesqui, Donatello e Massaggio dera-se uma viragem na arquitetura, e na pintura. Descobrem-se de novo as artes da Grécia e da Roma antiga, grega, reconhecia-se que o homem era uma figura única, e que merecia ser reconhecida como tal. O artista pode finalmente pintar outra coisa que figuras de santos e santas, delicia-se em mostrar homens e mulheres em todos os momentos da vida. Os próprios livros de culto, e, em particular, os livros de Horas enchem-se de figuras seculares, de homens e mulheres nos seus lazeres e nas suas ocupações. Prefeito exemplo disso é o citado ‘Ritual de Lorvão’.

As monjas de Lorvão não se distinguiram por grandes obras literárias da sua mão, mas forram suficientemente cultas para saber apreciar os grandes livros que tinham à sua guarda, de cuidar da sua conservação - a humidade que permeava o mosteiro devia exigir contínua atenção - e de contribuíre-las mesmas para o seu enriquecimento do seu mosteiro com dádivas pessoais. 

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