Expostas em Lisboa em 2010, restauradas em seguida por
obra da Fundação Carlos de Amberes, expostas em seguida em várias cidades da
Europa e dos Estados Unidos, a reacção perante as tapeçarias ditas ‘de
Pastrana’ foi em geral esta: admiração pela vida e o colorido, estupefacção
perante a enormidade, e.... perplexidade. Como não podia deixar de ser, dado que
é obra de inspiração e imaginação pessoal de um mandatário amador, desenhada
por um mestre na sua arte, que desenhava o que lhe mandavam desenhar. Aquilo não
tinha nada a ver com as clássicas grandes tapeçarias flamengas, das quais há
exemplos em palácios, catedrais e museus. Como sucede com obras de imaginação que
são de inspiração muito pessoal, a interpretação depende do observador. A que
se segue é a minha, outros terão possivelmente outra visão. Creio no entanto
que haverá concordância quanto àquilo que me parece ser o ordenamento das quatro
tapeçarias. Creio que é ordenação lógica, e aquela que permite a compreensão. As
quatro peças foram classificadas por José de Figueiredo na seguinte ordem:
1-Cerco de
Arzila
2- Desembarque
3- Assalto a Arzila
4- Rendição de Tanger
A leitura normal
seria de 1 a 4 sem interrupção. Ora lida dessa forma a leitura não faz sentido,
há diferenças significativas entre as diferentes peças. Diferenças que até agora eram inexplicáveis,
porque o gigantismos das tapeçarias não permite as necessárias comparações.
Hoje, com as bandas fotográficas, temos as tapeçarias nas mãos, e detecta-se quase de imediato que não se trata
de uma tapeçaria corrida de quatro peças, mas, sim, de um conjunto de dois
pares: as peças 1 e 2 formam um par, as peças 3 e 4, outro. Os dois pares
distinguem-se nitidamente no estilo e no sentido. 3 e 4 são
factuais, descritivas, pretendem ilustrar de forma real o assalto à cidade de Arzila
e a subsequente rendição de Tanger. As
peças 1 e 2, Cerco e Desembarque, não ilustram de forma real e
factual o cerco e o desembarque, evocam antes os dois feitos. Hoje diríamos que
3 e 4 são a reportagem séria de dois feitos, e que 1 e 2 ilustram
a alegria dos feitos, são os retratos que se tiram depois da vitória.
As peças do
assalto e da rendição foram decerto as primeiras que o artista, o cartonnier, executou quando chegou a
Portugal. Eram provavelmente as duas
únicas que o Duque tinha em mente quando se decidiu por aquela obra. Do artista
pretendia que rendesse aquilo que a ele, Duque, ainda estava na memória. Habituado
a desenhar o que lhe era pedido e indicado, e decerto ainda marcado pelos
desenhos para a ‘Guerra de Troia’, os combatentes da primeira peça, o assalto
não são gregos e troianos, são portugueses
e árabes, mas a diferença parece-me pequena. As bandeiras e as armas é que são
bem reais, o Duque ali estaria em pessoa para dar as necessárias indicações. Nesta
tapeçaria temos os primeiros retratos das quatro figuras que dominam as quatro tapeçarias:
D. Afonso V, seu filho, o príncipe D. João,
o duque de Guimarães, autor da obra, e seu irmão, marquês de Montemor. Vêem-se nesta
tapeçaria em baixo, assistindo ao cerco de Arzila. A cidade foi tomada, saqueada, apesar de se
ter rendido. Era difícil segurar os soldados, porque o saque era
a recompensa tacitamente garantida aos soldados, e em particular, aos
mercenários que sempre constituíam parte do exército medieval. Neste caso, o
saque foi tão terrível, que os habitantes de Tanger, receosos que lhes viesse a
suceder o mesmo, começaram a abandonar a cidade. D. Afonso mandou lá o marquês
de Montemor com uma pequena força de homens a cavalo, e o marquês, constatando
que a cidade estava quase deserta ocupou-a sem problema. A tapeçaria da
‘Rendição’ ilustra esse momento.
Rendição de
Tanger
O
marquês de Montemor diante da cidade
Vejamos agora as tapeçarias
1 e 2. Na
tapeçaria 1, a do Cerco, espanta ver nela a D. Afonso V e a seu filho caracolando
despreocupados nas suas montadas cobertas de mantas doiradas em tão perigosa
situação. Tudo indica que não estão em verdadeiro cerco, estão participando na
encenação que seu primo Fernando imaginara para comemorar o cerco de Arzila.
Uma barreira de tábuas enfeitada com os pendões do rei e do duque, estende-se a
toda a largura da imagem. Pretende talvez figurar o bordo de uma nau, mas à
direita há uma pequena porta, o que desmente essa versão, pode ser a barreira
de um redondel. No interior desse círculo estão o Rei e o Príncipe, o Duque
condestável-mor está à direita do rei com a espada deste. Junto do Príncipe, o marquês
de Montemor, que exercia o cargo de condestável em determinadas situações. No
mesmo espaço estão simples soldados com suas picas, estão bombardeiros com os
canhões do seu ofício. Numa abertura do espaço central avista-se ao longe uma
pequena cidade. É talvez a imagem figurada da cercada cidade de Arzila. Não é o
Cerco, é a evocação do Cerco num quadro-vivo, e é, coisa que creio única no imaginário medieval e creio que até
da Renascença, um autêntico retrato. O retrato colectivo
dos homens que haviam participado em um mesmo feito. O Rei e o Príncipe identificam-se pelo seu traje
dourado, as caras estão de prefil. Junto do rei, à sua direita, olhando bem em
frente, está como na tapeçaria do assalto, o Duque de Guimarães.
Tapeçaria
do Cerco
Tapeçaria dita
‘do Cerco’ (canto direito)
No palácio ducal de Vila Viçosa, hoje da Fundação Casa
de Bragança, há um número de retratos do 3º Duque, todos obviamente inspirados
no retrato 44 do Duque na tapeçaria do Cerco.
D.Fernando II, 3 duque de Bragança
A tapeçaria do Desembarque, é feita no
mesmo espírito da do Cerco. O que se ilustra na imagem é um desembarque, sim,
mas não é decerto um desembarque arriscado em terra inimiga. É verdade que, à
direita, se avista uma cidade protegida por muro, e, que, diante do muro há um
renque de caras aflitas. Recordam os
muitos homens afogados no desembarque. Mas não é para assustar. Os soldados desembarcam
alegres, as bandeiras flutuam ao vento, e, em baixo, o Rei e o Príncipe,
recém-desembarcados, passeiam nas suas montadas doiradas ao longo da praia. Não
é o desembarque, é a evocação do Desembarque. Um desembarque alegre e um Cerco
alegre. As tapeçarias 1 e 2 são tão diferentes de 3 e 4 que podiam
não pertencer ao mesmo conjunto. O que na realidade era o caso. 3
e 4, de tema marcial realista, são tapeçarias de homem. O Duque tem-nas consigo
durante a campanha de Toro. 1 e 2, enquadradas de verdura e flores, são
tapeçarias de quarto de senhora, são decerto aquelas que o Duque no seu
testamento lega à Duquesa, sua mulher.
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As tapeçarias do Duque de Bragança - Encomendar uma tapeçaria
>> sexta-feira, 26 de maio de 2017
Quando D. Fernando, futuro 3º duque de
Bragança, redigiu o seu testamento, e nele se refere às suas quatro tapeçarias,
estava usando o nome francês dos panos de lã com os quais se enfeitavam
paredes. O uso da expressão francesa era lógico, já que aquilo a que se
designava por tapeçaria era, em fins do século XV, um elemento decorativo praticamente
desconhecido em Portugal. Sabe-se que D. Afonso V possuía uma tapeçaria
flamenga que tinha por tema a ‘Justiça de Trajano’ segundo uma pintura de van
Eyck, peça que fora provavelmemte oferecida ao Rei por sua tia, D. Isabel de
Portugal, duquesa de Borgonha. Provavelmente não existia mais nenhuma. Nos
séculos XVI e ainda na primeira metade do século XVII mencionam-se
frequentemente ‘panos de armar’ e ‘panos de raz’, ou de Arras, nos inventários
de bens móveis de casas abastadas. As paredes cobriam-se de tapeçarias de lã no
inverno e de bonitos panos de seda no verão. Também essa moda passou. As
grandes casas foram abandonando esse elemento decorativo. Queriam pinturas nas suas
paredes, não aquelas velhas peças que a traça por vezes comia. O conde Alba de
Liste ofereceu quatro panos de tapeçarias da série ‘Guerra de Troia’ à Catedral
de Zamora, e, anos mais tarde, os duques do Infantado despacharam generosamente
as suas tapeçarias portuguesas para a Collegiada de Pastrana. Mas isto é
adiantar sobre o tempo, nos anos 70 do século XV a tapeçaria estava na moda. Não
se encontravam feitas, havia que as encomendar.
O cliente interessado na aquisição de uma
tapeçaria contactava uma oficina de tecelagem, e combinava com o mestre a
feitura da peça que pretendia. Podia trazer uma ideia daquilo que desejava ver
reproduzido, podia desejar uma sugestão. Tendo esse primeiro problema
resolvido, o mestre calculava as despesas em lã e talvez em seda, que a peça
exigiria, e estabelecia o aproximado custo final. Faltava designar o desenhador
que se encarregaria dos cartões a partir dos quais se iria tecer. O mestre
consultava a sua lista de desenhadores, e sugeria aquele que lhe parecesse mais
adequado para a peça projectada. O Duque de Bragança não se deslocou decerto em
pessoa a Flandres. Deve ter enviado um emissário com as suas instruções. O
homem contactaria decerto alguém de entre a comitiva portuguesa na corte de
Borgonha, e sabia o que se dizia quanto aos diferentes ateliers, quanto aos
mestres e aos métodos de trabalho, e, naturalmente, quanto às últimas novidades
no ramo. Mas por mais bem informado que estivesse, por mais alto que fosse aquele
a quem representava, no fim, para a feitura e encomenda das suas tapeçarias,
ele teria de percorrer o caminho de qualquer outro cliente. Com uma diferença. D.Fernando
sabia que medidas deviam ter as suas tapeçarias, mas ele não pretendia ver
reproduzido um quadro ou uma gravura existente, queria ver reproduzido algo que
ainda estava na sua imaginação. Precisava antes de tudo de um desenhador. Homem
de gostos requintados, não tendo de olhar a custos, o Duque havia de querer o
melhor artista que houvesse então a trabalhar naquele ramo. Obteve-o, e talvez nem tenha sido difícil. A casa
Pasquier Grenier, já então a mais prestigiada entre os ateliers de tecelagem, acabara de lançar uma série de onze panos
nos quais se representavam os episódios marcantes da guerra de Troya. Não
faltavam nela os feitos guerreiros, se o senhor duque português pretendia quem
lhe desenhasse a sua guerra, ninguém mais apto do que o desenhador que o atelier empregara no desenho e
composição da sua ‘Guerra de Troya’.
Os sinais indicam que a proposta foi
aceite, e que o homem que desenhou as tapeçarias do Duque, ditas da ‘Conquista de
Arzila’ foi o mesmo que terminara pouco tempo antes, os cartões para as
tapeçarias, ditas ‘da Guerra de Troya’.
O artista desenhador medieval não
assinava a sua obra, é pelas características específicas do seu trabalho que
ele era conhecido, e por elas que hoje se pode atribuir determinada obra a
determinado artista. O agigantado das tapeçarias da Conquista de Arzila distrai,
o espectador perde-se, não consegue encontrar o sentido da imagem. Hoje, fotografias
recentes desses panos, reduzindo-os às proporções do primeiro desenho da obra,
permitem fácil leitura das imagens. O que salta desde logo à vista, é o facto
de praticamente todo o espaço da imagem estar coberto por figuras, por uma
imensidade de figuras. Não há céu, horizonte, ao fundo podem surgir umas pequenas
casas. É uma das marcas das tapeçarias da Guerra de Tróia. Há outras
similitudes, o azul do mar com as suas pequenas ondas, as flores espalhadas
pelo chão, a forma de desenhar o cavalo. Tudo é significativo, mas, só por si,
não seria o suficiente para permitir a conclusão que se trata do mesmo
desenhador. Há porém um detalhe que, esse sim, não permite dúvida: nas duas
séries, as tapeçarias têm no topo uma tira de cor de desenho idêntico, com
linhas de texto esclarecendo a imagem. A similitude dessas tiras nas duas
séries não é coincidência. O homem que havia usado esse processo em obra
anterior, sugeriu-o muito naturalmente ao novo patrono para as suas tapeçarias,
e a sugestão foi aceite. Não pode haver dúvida que se trata do mesmo desenhador,
que o homem que desenhou as tapeçarias da Conquista de Arzila para o duque de
Bragança, foi o mesmo que fez os cartões da ‘Guerra de Troya’ para o atelier de Pasquier Grenier
Guerra de Troya
Catedral de Zamora
Conquista de Arzila
Guerra de Arzila
Museu Paroquial de Pastrana
Ainda hoje se discute quem teria sido
esse homem, e, ignorava-se que ele desenhara outra grande obra. E que a
desenhar in loco, que estivera em
Portugal. É óbvio que uma das condições estipulada pelo Duque, quanto ao
desenhador que pertencia, era que ele tivesse disposto a vir a Portugal. Veio.
Porque era cá que estava o Duque, que podia dizer ao desenhador como as coisas
se tinham passado. As extraordinárias tapeçarias da Conquista de Arzila são
fruto da colaboração de artista e patrono, e tiveram de ser desenhadas em
Portugal.
As Tapeçarias de Pastrana do 3º Duque de Bragança
>> quinta-feira, 11 de maio de 2017
As
Tapeçarias de Pastrana do 3º Duque de Bragança
O
Museu Paroquial de Tapeçarias de Pastrana prepara-se para comemorar os 350 anos
de posse das quatro grandes tapeçarias de tema português, que, em 1667, lhes
oram doadas pelos duques do Infantado Está por averiguar se os Duques tinham
obtido as tapeçarias em pagamento de empréstimo, como parte de um dote, ou por
qualquer outra razão. O director do Museu, Rev. Padre Emílio Esteben,
dirigiu-se-me há pouco, dizendo que gostaria de ter alguma contribuição portuguesa
nesta ocasião, e propondo que fosse eu a colaborar nesse sentido. Fora eu quem
revelara ser o 3º duque de Bragança, o mandatário das tapeçarias, era certo que
lhes dissesse mais alguma coisa. Eu? Impossível. Já não tenho idade para isso.
Depois reconsiderei, prometi fazer o que pudesse. O 3º duque de Bragança é uma
figura histórica muito interessante, e o homem - fosse ele quem fosse -
responsável pela realização das quatro tapeçarias, que hoje admiramos, merece
atenção. O duque de Bragança? Não foi D. Afonso V quem as encomendou? Não. Quem
o afirmou, errou.
As
tapeçarias até ali praticamente desconhecidas dos portugueses foram expostas em
Lisboa no MNAA em 2010. O museu deu um nome à Exposição: ‘Invenção da Glória’-
D. Afonso V e as Tapeçarias de Pastrana’. O mandatário das tapeçarias teria
sido portanto D. Afonso V. A oficina onde haviam sido tecidas fora, segundo o
catálogo, a certa oficina de Tournay. Quanto ao desenhador, o Museu hesitava
entre dois nomes. A identificação de D. Afonso V como mandatário daquela obra
pareceu-me muito duvidosa. O Museu não se apoiava em qualquer documento
comprovativo, e D. Afonso V, tanto quanto se sabe dele, não era homem a se
glorificar a si mesmo. E, sobretudo, ele não podia ter meios para pagar as
somas fabulosas que tapeçarias daquela qualidade e daquele tamanho forçosamente
tinham custado. Notoriamente generoso, D. Afonso dera metade do reino aos amigos,
e o reino acabara de custear uma empresa militar muito custosa. Em Portugal só
dois homens estariam então na condição de custear aquelas peças, o 2ºduque de
Bragança, ou seu filho primogénito, D. Fernando, futuro 3º duque de Bragança. O
testamento do então duque de Guimarães, prova que a obra foi sua.
Em
1476, em Bejar de Arevalos, em Espanha, durante a campanha que terminaria com a
batalha de Toro, o Duque faz o seu testamento, e trata muito particularmente da
disposição de quatro tapeçarias.[1]
Sendo pouco provável, que, à data, existissem em Portugal, outras quatro
grandes tapeçarias, a autoria do Duque está provada. O documento foi revelado
por mim durante a Exposição em carta publicada no Expresso. Já não foi a tempo
de evitar que se publicasse um dado errado, mas não duvidei que o Museu daria a
seu tempo a conhecer a informação correcta.
Vim
agora a saber, que isso não sucedeu. Depois da Exposição de Lisboa, as
tapeçarias foram restauradas, e, em seguida, expostas em várias grandes cidades
na Europa e na América. Quando da sua exposição em Washington, o Washington Post
publicou sobre elas um longo artigo de Phillip
Kennicott, seu crítico de arte. Este dá tal valor àquela obra, que procura
a opinião de Barbara von Berghahn,
professora de História de Arte na George Washington
University. Obviamente, o MNAA não dera entretanto a conhecer
o nome do verdadeiro mandatário. O que é que isso importa? Que diferença faz,
se foi D. Afonso V ou o duque de Bragança, quem mandou fazer aquilo? Para
estudar a heráldica, as armas, as bandeiras, não faz grande diferença, é
verdade, mas para a interpretação daquilo que ali se conta, faz toda a
diferença. Aliás a questão que se deve pôr é outra. A questão é esta: a saber-se
o MNAA podia dar, sobre as tapeçarias, uma identificação para a qual não tinha
documentação, que não podia apoiar com argumentos lógicos, e, finalmente, se
era lícito o Museu reforçar a identificação - que sabia não ser correcta - com
dados concretos imaginários. Creio que a esta questão só há uma resposta: Um
Museu não pode saber tudo sobre todas as obras de Arte que lhe tocam, e, quando
assim é, deve dizê-lo. Mas não pode fingir que sabe, dar informações, que pensa
serem certas, esperando que o tempo faça o favor de lhe trazer as provas. Um
museu nacional tem responsabilidade adicional. A sua opinião é ouvida, em caso
de dúvida é dele que se espera a última palavra sobre uma peça de arte nacional
da sua especialidade. Quer esta esteja em Portugal, quer mo Estrangeiro.
O
director do Museu de Pastrana enviou-me as fotografias que o Museu mandou fazer
para esta ocasião. São quatro tiras, de 67 cm de comprimento e 24 cm de altura.
Espantou-me o bem que nelas se veêm os mais pequenos detalhes. Distinguem-se as
figuras, o riso, ou a seriedade nas caras. Parece uma grande pintura, pensei.
Dias depois, contemplando de novo aquelas tiras, digo para comigo: ‘tem graça,
parecem iluminuras’. E abre-se-me uma luz. Não ‘parecem iluminuras’, ‘são iluminuras’.
Aquilo é obra de um daqueles artistas que desenhavam com a sua pena afiada as
cenas da vida religiosa e secular. Só um homem dessa arte poderia ter fixado
com tanta perfeição, em detalhe, cenas de com dezenas, talvez centenas, de
figuras individuais. O fotógrafo que
o Museu de Pastrana encarregou destas novas reproduções, usou naturalmente os
novos processos, e conseguiu - não realizando decerto o que estava fazendo, e
de forma que só um profissional saberá explicar - esta coisa impensável: que se
viesse a conhecer o desenho a partir do qual se partira para os cartões que os
tecelões usaram para tecer as tapeçarias que hoje conhecemos, desenhado em
pergaminho ou velino, serviu para que em Flandres se tecessem as tapeçarias. O desenho inicial seria gradualmente
agigantado até atingirem os 15m de largura e 7m de altura que se pretendia para
cada tapeçaria.
As duas primeiras tapeçarias parecem ser um par. Enquadradas de verdura e flores, eram tapeçarias para quarto de senhora, são decerto aquelas que o Duque no seu testamento, destinava a sua mulher. A terceira e quarta destas peças são tapeçarias realistas, de guerra. O assalto a Arzila e a conquista de Tânger são tapeçarias de homem. O Duque tem as consigo durante a campanha de Toro.
A
primeira tapeçaria representa, segundo José de Figueiredo, o cerco de Arzila, e
não me passou pela cabeça duvidar da classificação. Espantava-me um pouco ver a
D. Afonso V e seu filho caracolando nas suas montadas quando estavam no
perigoso cerco de Arzila. De facto não estavam. Estavam naqueles ricos trajes
em seus grandes cavalos cobertos de mantas doiradas para tomar parte na encenação
que seu primo Fernando imaginara para comemorar o cerco e a conquista de
Arzila. Na miniatura salta aos olhos que é disso que se trata. Uma barreira de
tábua enfeitada com os pendões dos combatentes estende-se a toda a largura da
imagem. À direita tem uma porta. No interior da barreira, do redondel -
provavelmente aquele onde se realizavam as justas - estão o Rei e o Príncipe e
os grandes senhores, o condestável-mor, o alferes-mor. Junto com eles, no mesmo
espaço, estão simples soldados com suas picas, estão bombardeiros com os
canhões do seu ofício. É o retrato colectivo de companheiros de armas. Numa
abertura do espaço central avista-se ao longe uma pequena cidade. É decerto a imagem
figurada de Arzila, a cidade cuja conquista se está comemorando. O artista
enquadrou a tapeçaria de alguma verdura à direita, e de algumas flores, à
esquerda.
A
segunda tapeçaria representaria, sempre segundo José de Figueiredo, o
desembarque em Arzila. Creio antes que representa o desembarque em Lisboa no
regresso de Arzila. Um pouco de água muito azul diz-nos que se está no rio. Vê-se
um mastro de nau caído sobre a areia. Em terra há aqui e ali verdura no chão, as
bandeiras flutuam ao vento. Não se vêm os grandes senhores. Deixaram o campo
livre aos seus homens de armas. Tudo exprime a alegria. Vêem-se casas brancas
com telhados encarnados ao fundo. É Lisboa, dizemos, mas se está ali a torre de
uma mesquita? Como explicá-lo? Parece-me que nesta tapeçaria se trata como na
primeira de uma encenação, da encenação de desembarque. Só se saberá ao certo
quando for lida a inscrição que há no topo desta e das outras tapeçarias.
O
MNAA deu um nome à Exposição: ‘A Invenção da Glória - D. Afonso V e as
tapeçarias de Pastrana’. Ou seja, as tapeçarias teriam sido criadas por D. Afonso
V para comemorar a glória por ele alcançada com as empresas de Arzila e Tanger.
E, desta forma, ‘inventara a glória’. É demasiado subtil para a minha compreensão.
D. Afono V foi sem dúvida o inspirador da conquista de Tânger. Para conquistar
glória? Está-se em 1471, o tempo dos cavaleiros, que iam de terra em terra em
busca de ‘honra‘ já passou, e não eram os reis que se empenhavam nessas aventuras.
Podiam partir em guerra pelos mais variados motivos, alegando as mais variadas
razões, não podiam declarar que iam em busca de glória para a sua pessoa. As
empresas de Arzila e Tânger tinham como objectivo uma razão muito concreta,
conseguir uma ‘base naval’ na costa atlântica de Marrocos para proteger o
lucrativo comércio da Guiné. O rei podia alegar mais elevados propósitos, mas a
razão inequívoca era sabida, e não se lhe perdoaria se fosse outra. Dos
Príncipes exigiam-se empresas de ordem racional, de proveito para o seu reino.
Se isso lhes assegurava alguma glória, tanto melhor. Mas não era o fim a que
deviam aspirar, e do qual se iriam vangloriar. Os tempos eram realistas. O
homem descobrira que a sua vida na terra era importante, que não estava no
mundo unicamente para ganhar o céu. Os homens empenhavam-se em negócios
produtivos, nasciam grandes casas de comércio. Descobrira-se o valor do dinheiro.
Vivia-se no mundo do humanismo, do realismo. A Europa abrira-se a um mundo
novo. Discutiam-se novas ideias, descobriam-se as artes greco-romanas e a sua
literatura. Em Itália os arquitectos imitavam a vila romana, os pintores
esqueciam santos e santas e pintavam homens e mulheres. Em 1450 em Mogúncia, na
Alemanha, um homem conseguira imprimir livros com letras móveis. As antigas
ideias são reproduzidas por métodos novos. O duque de Bragança é homem do seu
tempo, concebe uma coisa absolutamente nova, umas tapeçarias nas quais se
contavam feitos reais vividos por ele. As quatro tapeçarias contam em uma
espécie de banda desenhada a guerra de Arzila.
O
próximo artigo será sobre o Duque e o seu artista.
[1]
D. António Caetano De Sousa, Provas
da História Genealógica da Casa Real Portuguesa, Tomo III, II Parte, pag. 216 –
228, Coimbra, 1949
VIDA QUOTIDIANA DAS MONJAS NO MOSTEIRO MEDIEVAL - LIVRO EM PDF
>> quarta-feira, 7 de setembro de 2016
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