As
Tapeçarias de Pastrana do 3º Duque de Bragança
O
Museu Paroquial de Tapeçarias de Pastrana prepara-se para comemorar os 350 anos
de posse das quatro grandes tapeçarias de tema português, que, em 1667, lhes
oram doadas pelos duques do Infantado Está por averiguar se os Duques tinham
obtido as tapeçarias em pagamento de empréstimo, como parte de um dote, ou por
qualquer outra razão. O director do Museu, Rev. Padre Emílio Esteben,
dirigiu-se-me há pouco, dizendo que gostaria de ter alguma contribuição portuguesa
nesta ocasião, e propondo que fosse eu a colaborar nesse sentido. Fora eu quem
revelara ser o 3º duque de Bragança, o mandatário das tapeçarias, era certo que
lhes dissesse mais alguma coisa. Eu? Impossível. Já não tenho idade para isso.
Depois reconsiderei, prometi fazer o que pudesse. O 3º duque de Bragança é uma
figura histórica muito interessante, e o homem - fosse ele quem fosse -
responsável pela realização das quatro tapeçarias, que hoje admiramos, merece
atenção. O duque de Bragança? Não foi D. Afonso V quem as encomendou? Não. Quem
o afirmou, errou.
As
tapeçarias até ali praticamente desconhecidas dos portugueses foram expostas em
Lisboa no MNAA em 2010. O museu deu um nome à Exposição: ‘Invenção da Glória’-
D. Afonso V e as Tapeçarias de Pastrana’. O mandatário das tapeçarias teria
sido portanto D. Afonso V. A oficina onde haviam sido tecidas fora, segundo o
catálogo, a certa oficina de Tournay. Quanto ao desenhador, o Museu hesitava
entre dois nomes. A identificação de D. Afonso V como mandatário daquela obra
pareceu-me muito duvidosa. O Museu não se apoiava em qualquer documento
comprovativo, e D. Afonso V, tanto quanto se sabe dele, não era homem a se
glorificar a si mesmo. E, sobretudo, ele não podia ter meios para pagar as
somas fabulosas que tapeçarias daquela qualidade e daquele tamanho forçosamente
tinham custado. Notoriamente generoso, D. Afonso dera metade do reino aos amigos,
e o reino acabara de custear uma empresa militar muito custosa. Em Portugal só
dois homens estariam então na condição de custear aquelas peças, o 2ºduque de
Bragança, ou seu filho primogénito, D. Fernando, futuro 3º duque de Bragança. O
testamento do então duque de Guimarães, prova que a obra foi sua.
Em
1476, em Bejar de Arevalos, em Espanha, durante a campanha que terminaria com a
batalha de Toro, o Duque faz o seu testamento, e trata muito particularmente da
disposição de quatro tapeçarias.
Sendo pouco provável, que, à data, existissem em Portugal, outras quatro
grandes tapeçarias, a autoria do Duque está provada. O documento foi revelado
por mim durante a Exposição em carta publicada no Expresso. Já não foi a tempo
de evitar que se publicasse um dado errado, mas não duvidei que o Museu daria a
seu tempo a conhecer a informação correcta.
Vim
agora a saber, que isso não sucedeu. Depois da Exposição de Lisboa, as
tapeçarias foram restauradas, e, em seguida, expostas em várias grandes cidades
na Europa e na América. Quando da sua exposição em Washington, o Washington Post
publicou sobre elas um longo artigo de Phillip
Kennicott, seu crítico de arte. Este dá tal valor àquela obra, que procura
a opinião de Barbara von Berghahn,
professora de História de Arte na George Washington
University. Obviamente, o MNAA não dera entretanto a conhecer
o nome do verdadeiro mandatário. O que é que isso importa? Que diferença faz,
se foi D. Afonso V ou o duque de Bragança, quem mandou fazer aquilo? Para
estudar a heráldica, as armas, as bandeiras, não faz grande diferença, é
verdade, mas para a interpretação daquilo que ali se conta, faz toda a
diferença. Aliás a questão que se deve pôr é outra. A questão é esta: a saber-se
o MNAA podia dar, sobre as tapeçarias, uma identificação para a qual não tinha
documentação, que não podia apoiar com argumentos lógicos, e, finalmente, se
era lícito o Museu reforçar a identificação - que sabia não ser correcta - com
dados concretos imaginários. Creio que a esta questão só há uma resposta: Um
Museu não pode saber tudo sobre todas as obras de Arte que lhe tocam, e, quando
assim é, deve dizê-lo. Mas não pode fingir que sabe, dar informações, que pensa
serem certas, esperando que o tempo faça o favor de lhe trazer as provas. Um
museu nacional tem responsabilidade adicional. A sua opinião é ouvida, em caso
de dúvida é dele que se espera a última palavra sobre uma peça de arte nacional
da sua especialidade. Quer esta esteja em Portugal, quer mo Estrangeiro.
O
director do Museu de Pastrana enviou-me as fotografias que o Museu mandou fazer
para esta ocasião. São quatro tiras, de 67 cm de comprimento e 24 cm de altura.
Espantou-me o bem que nelas se veêm os mais pequenos detalhes. Distinguem-se as
figuras, o riso, ou a seriedade nas caras. Parece uma grande pintura, pensei.
Dias depois, contemplando de novo aquelas tiras, digo para comigo: ‘tem graça,
parecem iluminuras’. E abre-se-me uma luz. Não ‘parecem iluminuras’, ‘são iluminuras’.
Aquilo é obra de um daqueles artistas que desenhavam com a sua pena afiada as
cenas da vida religiosa e secular. Só um homem dessa arte poderia ter fixado
com tanta perfeição, em detalhe, cenas de com dezenas, talvez centenas, de
figuras individuais. O fotógrafo que
o Museu de Pastrana encarregou destas novas reproduções, usou naturalmente os
novos processos, e conseguiu - não realizando decerto o que estava fazendo, e
de forma que só um profissional saberá explicar - esta coisa impensável: que se
viesse a conhecer o desenho a partir do qual se partira para os cartões que os
tecelões usaram para tecer as tapeçarias que hoje conhecemos, desenhado em
pergaminho ou velino, serviu para que em Flandres se tecessem as tapeçarias. O desenho inicial seria gradualmente
agigantado até atingirem os 15m de largura e 7m de altura que se pretendia para
cada tapeçaria.
Evocação do Cerco de Arzila
Desembarque
Guerra de Arzila
Rendição de Tânger
As
duas primeiras tapeçarias parecem ser um par. Enquadradas de verdura e flores, eram
tapeçarias para quarto de senhora, são decerto aquelas que o Duque no seu
testamento, destinava a sua mulher. A terceira e quarta destas peças são
tapeçarias realistas, de guerra. O assalto a Arzila e a conquista de Tânger são
tapeçarias de homem. O Duque tem as consigo durante a campanha de Toro.
A
primeira tapeçaria representa, segundo José de Figueiredo, o cerco de Arzila, e
não me passou pela cabeça duvidar da classificação. Espantava-me um pouco ver a
D. Afonso V e seu filho caracolando nas suas montadas quando estavam no
perigoso cerco de Arzila. De facto não estavam. Estavam naqueles ricos trajes
em seus grandes cavalos cobertos de mantas doiradas para tomar parte na encenação
que seu primo Fernando imaginara para comemorar o cerco e a conquista de
Arzila. Na miniatura salta aos olhos que é disso que se trata. Uma barreira de
tábua enfeitada com os pendões dos combatentes estende-se a toda a largura da
imagem. À direita tem uma porta. No interior da barreira, do redondel -
provavelmente aquele onde se realizavam as justas - estão o Rei e o Príncipe e
os grandes senhores, o condestável-mor, o alferes-mor. Junto com eles, no mesmo
espaço, estão simples soldados com suas picas, estão bombardeiros com os
canhões do seu ofício. É o retrato colectivo de companheiros de armas. Numa
abertura do espaço central avista-se ao longe uma pequena cidade. É decerto a imagem
figurada de Arzila, a cidade cuja conquista se está comemorando. O artista
enquadrou a tapeçaria de alguma verdura à direita, e de algumas flores, à
esquerda.
A
segunda tapeçaria representaria, sempre segundo José de Figueiredo, o
desembarque em Arzila. Creio antes que representa o desembarque em Lisboa no
regresso de Arzila. Um pouco de água muito azul diz-nos que se está no rio. Vê-se
um mastro de nau caído sobre a areia. Em terra há aqui e ali verdura no chão, as
bandeiras flutuam ao vento. Não se vêm os grandes senhores. Deixaram o campo
livre aos seus homens de armas. Tudo exprime a alegria. Vêem-se casas brancas
com telhados encarnados ao fundo. É Lisboa, dizemos, mas se está ali a torre de
uma mesquita? Como explicá-lo? Parece-me que nesta tapeçaria se trata como na
primeira de uma encenação, da encenação de desembarque. Só se saberá ao certo
quando for lida a inscrição que há no topo desta e das outras tapeçarias.
O
MNAA deu um nome à Exposição: ‘A Invenção da Glória - D. Afonso V e as
tapeçarias de Pastrana’. Ou seja, as tapeçarias teriam sido criadas por D. Afonso
V para comemorar a glória por ele alcançada com as empresas de Arzila e Tanger.
E, desta forma, ‘inventara a glória’. É demasiado subtil para a minha compreensão.
D. Afono V foi sem dúvida o inspirador da conquista de Tânger. Para conquistar
glória? Está-se em 1471, o tempo dos cavaleiros, que iam de terra em terra em
busca de ‘honra‘ já passou, e não eram os reis que se empenhavam nessas aventuras.
Podiam partir em guerra pelos mais variados motivos, alegando as mais variadas
razões, não podiam declarar que iam em busca de glória para a sua pessoa. As
empresas de Arzila e Tânger tinham como objectivo uma razão muito concreta,
conseguir uma ‘base naval’ na costa atlântica de Marrocos para proteger o
lucrativo comércio da Guiné. O rei podia alegar mais elevados propósitos, mas a
razão inequívoca era sabida, e não se lhe perdoaria se fosse outra. Dos
Príncipes exigiam-se empresas de ordem racional, de proveito para o seu reino.
Se isso lhes assegurava alguma glória, tanto melhor. Mas não era o fim a que
deviam aspirar, e do qual se iriam vangloriar. Os tempos eram realistas. O
homem descobrira que a sua vida na terra era importante, que não estava no
mundo unicamente para ganhar o céu. Os homens empenhavam-se em negócios
produtivos, nasciam grandes casas de comércio. Descobrira-se o valor do dinheiro.
Vivia-se no mundo do humanismo, do realismo. A Europa abrira-se a um mundo
novo. Discutiam-se novas ideias, descobriam-se as artes greco-romanas e a sua
literatura. Em Itália os arquitectos imitavam a vila romana, os pintores
esqueciam santos e santas e pintavam homens e mulheres. Em 1450 em Mogúncia, na
Alemanha, um homem conseguira imprimir livros com letras móveis. As antigas
ideias são reproduzidas por métodos novos. O duque de Bragança é homem do seu
tempo, concebe uma coisa absolutamente nova, umas tapeçarias nas quais se
contavam feitos reais vividos por ele. As quatro tapeçarias contam em uma
espécie de banda desenhada a guerra de Arzila.
O
próximo artigo será sobre o Duque e o seu artista.
Read more...