Tapeçarias muito pessoais, imaginadas pelo seu
mandatário, são raras, e a sua interpretação pode ser difícil. A mais
conhecida, e mais controversa, é a tapeçaria dita da ‘Dame a la Licorne’, no museu
de Cluny em Paris. Ainda hoje especialistas e amadores curiosos procuram
adivinhar o que estava na mente do criador daquela obra. No caso das tapeçarias
de Pastrana, essa questão não se põe. Ninguém pode duvidar que se trata
de recordar um acontecimento dominante no Portugal dos anos 70 do século XV: a
guerra de Arzila e a subsequente rendição de Tânger. A questão que se põe é o
que teria levado o Duque D. Fernando a abandonar a forma convencional de
reproduzir um acontecimento, tal como usado nas tapeçarias do ‘Assalto’ e da
‘Rendição’, fazendo-o de forma totalmente diferente nas tapeçarias do ‘Cerco’ e
do ‘Desembarque’. Uma primeira resposta é simplista, mas não deixa de ser pertinente:
“provavelmente porque lhe apeteceu.” Porque lhe veio a vontade de pôr a sua
marca muito pessoal naquelas peças. Mas há sem dívida mais. Toda a obra, a
começar pela ideia de mandar fazer tapeçarias flamengas desenhadas em Portugal,
de contratar para o efeito um mestre flamengo de categoria, tudo era obra de
homem que tinha determinado projecto, que lhe dava seguimento, e que o fazia de
forma racional. É, pois, lógico supor que houve um propósito racional naquela forma
de tratar as tapeçarias do ‘Cerco’ e do ‘Desembarque’ e que, sendo assim, deve
haver, na obra acabada, dados esclarecedores daquela opção. Contemplando
atentamente as duas tapeçarias em questão, verifica-se o seguinte:
1º Nas duas tapeçarias
retratam-se predominantemente homens de armas, sendo eles soldados de pé de
picas e lanças na tapeçaria do ‘Desembarque’, e bombardeiros com sua arma na tapeçaria
do ‘Cerco’.
2º As armas, tanto as de guerra,
como heráldicas, são reproduzidas com grande cuidado, no mínimo pormenor.
3.º Os homens não são figuras
anódinas; salta à vista que eles foram desenhados ao vivo. Olham bem em frente,
para que o desenhador, o cartonnier,
os possa retratar. Foram verdadeiramente ‘retratados’. Os homens que riem, que nos
parecem acenar, estavam, em 1472, naquela posição, naquele mesmo local.
4ºNas duas tapeçarias figuram o Rei
e o Príncipe a cavalo e vestidos de trajes de gala.
5º As bandeiras que se vêem são: bandeiras e pendões
com as armas reais, a enigmática flâmula de D. Afonso V e, com estas, vêem-se
unicamente bandeiras e pendões com as armas do Duque D. Fernando. Não se vê uma
única bandeira com as armas de outro fidalgo, e muitos participaram, e alguns
deram a vida, naquela empresa.
O ponto 4, a presença do Rei e do Príncipe, será
tratado em capítulo separado. É um pormenor muito interessante, mas não tem a
ver com a questão da novel forma de apresentar o tema nas imagens daquelas
tapeçarias. O elemento mais elucidativo Para esclarecer essa questão, é a
ausência de sinais heráldicos de outros que o Rei e o Duque. É verdade, que a tapeçaria
não era objecto de caracter público, que era móvel particular, destinado a
decorar as paredes de uma casa particular, neste caso, a do Duque, o Paço ducal
de Guimarães. Mas, mesmo isso, não autorizava o dono da casa a mandar executar
tapeçarias, ou quadros de tema histórico nacional omitindo as armas de outros
participantes naquele feito. A coisa já se compreende, e se explica, caso a
contratação dos homens a pé, e dos bombardeiros, que são fixados nas duas
tapeçarias, tivessem sido coisa própria do Duque, que – por alguma razão - se
devessem unicamente a ele. Ora sabe-se, que, em 1461, na
empresa daquele ano contra Tânger, D. Fernando - que então ainda não tinha
título de Duque - participara com cem homens a pé e cem homens a cavalo pagos
do seu bolso. Para além da contribuição que certamente lhe cabia como grande
proprietário. É muito provável que, em 1471, tenha havido igual participação. E
que, nesse ano, a contribuição tenha sido de homens a pé e de bombardeiros. Se assim foi, é a resposta à questão posta.
Não tinha que haver sinais heráldicos de outro que o Duque em tapeçarias que
retratavam homens seus. Ruy de Pina,
autor da crónica de D. Afonso V, não menciona uma contribuição do Duque. Mas a sua crónica foi redigida no reinado de D. João II, e se as
bombardas de Arzila tinham saído do bolso do futuro 3º duque de Bragança, o
cronista não se atreveria a mencioná-lo, elogiando - indiretamente, que fosse -
o homem que D. João II mais odiava. Os cronistas que seguiram Ruy de Pina,
apoiaram-se nas suas informações, e, se as tapeçarias não existissem, pouco ou nada
se sabia sobre as armas bélicas usadas em Arzila.
Considere-se agora a
forma como se resolveram os problemas que a feitura das imagens daquelas duas
tapeçarias decerto levantou. O Duque não orquestrou uma fantasia artística, o
que pretendia, era mostrar ‘como a coisa era’. Fê-lo de forma inédita, criando
quadros vivos, que o desenhador reproduziria. Escolheu locais adequados. Que,
para a tapeçaria do Desembarque, foi sem dúvida uma praia do Tejo, muito
provavelmente aquela onde D. Fenando gostava de passear com os amigos,
conhecida, devido a isso, por ‘praia do Duque’. No canto inferior direito da
imagem vê-se um mastro caído, marcando o desembarque. Junto, um renque de pequenas
cabeças recorda os homens afogados nessa ocasião, e, por detrás de um
pequeno muro, avista-se um casario, que deve figurar a cidade sitiada. Nada
daquilo tem ar de risco, os homens desembarcam risonhos com as suas armas e as
suas bandeiras. Alguns observadores contemplam-os sorridentes. O Rei e o Príncipe
deambulam nas suas montadas ao longo da praia. O desenhador consegue indicar o
movimento dos cavaleiros repetindo as suas imagens por mais de uma vez. É
indiscutivelmente uma composição destinada a recordar homens de armas ligeiras.
Na outra tapeçaria, a do Cerco, a cena não parece ter sido
armada numa praia, e não é movimentada como a anterior. Os homens encaram o
desenhador, é óbvio, que estão ali para serem ‘’retratados’. Ao centro da
imagem, em lugar de destaque, está um grupo formado com evidente cuidado. São
quatro homens, que, por aquilo que têm nas mãos e junto de si, caderno, pena de
escrever etc, se identificam claramente como os homens que comandavam as bombardas, que eram seus ‘condestáveis’.
Verdadeiros engenheiros
da época, deviam saber reparar, e até construir uma bombarda, tinham de ser
bons matemáticos, e possuir conhecimentos de química para avaliar a correcta
porção e composição da pólvora. Era dos conhecimentos e da perícia dos
condestáveis que dependia o êxito do tiro. Espalhados por trás deste grupo,
contam-se distintamente oito bombardas com os seus serventes. A cada um dos
quatro condestáveis cabia portanto o comando de duas daquelas peças.
Em Portugal não existia, então, corpo de artilharia
constituído. Bombardeiros e condestáveis eram contratados para as diversas
empresas e vinham em geral do centro e norte da Europa, da Flandres, da
Alemanha e França e do Norte de Itália. Em 1446 cita-se um James, em 1449 um Crispim
e, anos depois, na Índia, onde o papel dos bombardeiros foi importantíssimo, e
muitas vezes decisivo, dominam os nomes da Alemanha e França do Norte, da
Flandres. Há então unicamente dois bombardeiros portugueses, um
João Rodrigues da ilha da Madeira‘ e um Diogo Dinis, português, todos os outros
eram homens com nomes - mais ou menos estorpiados - de flamengos e alemães,
homens da Frísia, de Bremen. Condestáveis e bombardeiros eram compensados por
bons tiros e resultados eficazes. Assim, em 1510, após a tomada de Benasterim, o capitão-mor recompensou com trinta
cruzados a Guilherme de taçill, condestável
da nau Nazaré, por ter feito tão bons
tiros na fortaleza de Benasterim e o fazer muito bem e derrubar muito lanço de
muro. O mesmo que em Benasterim sucedera decerto em Arzila, o Duque, conhecido
pela sua generosidade, não deixaria de gratificar os condestáveis pelos seus bons tiros das suas peças. As duas tapeçarias
são verdadeiros documentos visuais dos homens de armas no séc. XV. E o mais curioso é que - tudo o indica - estas
duas peças tão masculinas, eram aquelas que o Duque, no seu testamento,
destinava à sua mulher. Uma dessas tapeçarias, a do ‘Desembarque’, é mais curta
que a outra, destinava-se provavelmente a figurar na parede em que encostava a
cama do casal, e por cima desta. A tapeçaria do ‘Cerco’ colocada na parede
oposta, bem à vista do seu criador, que com ela se podia deliciar logo que
abria os olhos.
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