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4) O dono do retrato de Camões

>> segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012


Um arquivo de família é, como qualquer outro arquivo, um depósito de documentos. Que neste caso são documentos que interessam àquela família. Há nele contratos de compra e venda de propriedade, contratos matrimoniais, certidões de nascimento e de morte, testamentos, inventários de bens, e, naturalmente, todo e qualquer documento que diga respeito a uma concessão de honra e às regalias materiais, que em geral as acompanhavam. Se algum membro da família exercera cargo oficial, há sem falta papéis dessa actividade no arquivo. E em todos eles surgem papéis dispares, que não parecem ter a ver com a família, e para os quais há que procurar explicação. No arquivo Ponte fui encontrando documentos referentes a propriedades que não tinham a ver com algum dos ramos da família.
Um arquivista oficial – catalogando os documentos pelo seu conteúdo - provavelmente não teria considerado notável haver papéis de gente alheia à família no seu arquivo. Mas eu não era arquivista oficial, estava interessada na história da família e, consequentemente, optara por uma arrumação dos documentos pela sua pertença aos diferentes ramos da família.
Quando me vi com inúmeros papéis de uns senhores chamados ‘Gomes da Silva e Brito’ e outros chamados ‘Mascarenhas Homem’ percebi que aquilo não tinha a ver com a nossa família. Pois foi entre estes papéis que encontrei a menção do retrato de Luís de Camões.
Aqueles documentos tinham pertencido a uma senhora chamada Inês Josefa de Castro, que fora casada com José Gomes da Silva e Brito, e, em segundas núpcias, casada com Luís Saldanha da Gama, de quem por sua vez era segunda mulher. Quando casou com Luís de Saldanha, D. Inês trouxe consigo os papéis do primeiro marido (os Gomes da Silva e Brito) e, naturalmente, os da sua própria família.
D. Inês era filha de Gregório Mascarenhas Homem e D. Isabel de Sousa, vindo a ser, por morte de um único irmão, a herdeira universal de seus pais. O pai morre em 1650 e, tendo deixado filhos menores, houve que abrir um processo orfanológico (creio que é assim que se diz). Para tal fez-se um primeiro apanhado dos bens de Gregório Mascarenhas Homem. O processo definitivo, com a avaliação dos bens, foi feito posteriormente, e sabe-se que estava no cartório de Francisco Madureira Cardoso, escrivão dos órfãos da cidade de Lisboa. Não procurei esse inventário, refiro-me, sempre ao apanhado acima mencionado. É um documento de 15 folhas intitulado: “Rol das coisas que há nesta casa da senhora D. Isabel de Sousa para se declararem no inventário que há-de fazer-se”. O rol não é datado, mas deve ter sido elaborado logo após a morte do Dr. Gregório, portanto ainda em 1650.
A fl.5 e 5v do rol encontram-se enumeradas as seguintes obras de pintura: “seis painéis de fábulas, mais um painel grande com moldura da deosa Venos (sic), o retrato do senhor Vasco Fernandes Homem, o retrato do senhor D. Rodrigo de Castro, o retrato da rainha D. Catarina, o retrato do Camõens (sic), um paiinel de uma fábula. Um pouco abaixo, a obra estaria em outra divisão, mencionam-se ainda “cinco painéis de penturas (sic) de framengos compridos”, dois mapas, mais três painéis mais pequenos de pano pintado..”
Existe uma lista de legados posteriormente deixados por D. Inês a várias pessoas, e uma lista de objectos seus que se venderam para pagamento de despesas, em nenhuma dessas listas figura o retrato de Camões. Este retrato, bem livre e pessoal de D. Inês, não foi por ela legado, e não foi vendido pelos testamenteiros; passou sem sombra de dúvida para o seu enteado e herdeiro João Saldanha da Gama, e deste para seu filho, o 4º conde da Ponte. A filha única deste, D. Leonor Saldanha da Gama, herdeira do título, é 5ª condessa da Ponte. Casa com José António de Saldanha e Sousa, que encontra o retrato de Camões em casa de sua mulher, o aprecia, e escreve no verso – erradamente como se viu – que o quadrinho pertencera ao marquês de Sande.
Na realidade o retrato pertencera a Gregório Mascarenhas Homem, filho de Estevam Homem da Silva Gago e D. Inês de Castro. Era neto materno de D. Rodrigo de Castro e paterno de Vasco Fernandes Homem.
Gregório Homem ocupou de 1634 a 40 interinamente o cargo de guarda-mor da Torre do Tombo, foi desembargador da Casa de Suplicação em 1642, e no mesmo ano deputado canonista no Tribunal da Mesa de Consciência e Ordens. Em 1644 é nomeado contador mor das contas do Reino e Casa da cidade de Lisboa, sucedendo ao Dr. João Pinto Ribeiro. Foi familiar do Santo Ofício, fazendo para isso as suas provas em 1647. No alvará pelo qual D. João IV recompensa a viúva e filhos do Dr. Gregório pelos serviços deste, o rei enumera os numerosos cargos em que este o servira, fora, cito: “outros negócios de grande importância e segredo de que foi encarregado”.
Se o Dr. Gregório tinha o retrato de Camões junto dos retratos dos seus avós era decerto porque o apreciava. Mas o mesmo talvez não se desse com sua mulher. D. Isabel de Sousa enumera os retratos que o marido possuíra, identificando com grande respeito todas as personagens retratadas, com excepção do grande poeta. Temos o retrato da rainha D. Catarina, o retrato do senhor Vasco Fernandes Homem, o retrato do senhor D. Rodrigo de Castro, o retrato do Camões.
Ignora-se se foi por herança, ou de outra forma, que Gregório Mascarenhas Homem obteve o retrato. A hipótese de herança parece-me possível. Como tentarei demonstrar.

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3) A revelação de um retrato

>> segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Por ocasião do 4º centenário da publicação dos Lusíadas a Biblioteca Nacional organizou uma exposição de retratos de Camões. Em gravura, pintura e medalhística. Entre as pinturas figurava um pequeno quadro mostrando um homem sentado a uma mesa de pau, “No lado direito da mesa, várias folhas de papel, manuscritas, na primeira das quais se lê ( invertendo a pintura), Canto X…”. O homem tinha cara sulcada, cabelo e barba hirsutos. O retrato era, lia-se, de “Luís de Camões na prisão de Goa”.
A Drª Antonieta Soares de Azevedo revelara o retrato na revista Panorama n.º42/43, da IV série, num artigo no qual dava conta do estudo exaustivo que fizera do quadro. Não restava dúvida a quem a lesse, que aquele homem magro e feio, sentado à sua tosca mesa de pau, era o verdadeiro Luís de Camões.
….e foi do próprio…
A autora baseava a sua convicção em dístico que se lia no verso do pergaminho, que dizia em letra coeva: “Luís de Camões preso e tendo aos pés quem quis perdelo. Pintado na India e foi do próprio.” Por baixo dessas linhas havia um sinal que a Dr. Antonieta não conseguia identificar. Quanto à proveniência do pequeno quadro também havia informação. Em etiqueta colada sob o primeiro dístico lia-se em letra cursiva de fins do séc. XVIII: que pertencera ao “Sr. Marquês de Sande” e que à data o seu possuidor era o 5º conde da Ponte.
Acontecia, escreve Antónia Soares de Azevedo no seu artigo, que se publicara recentemente uma biografia do referido marquês. A biografia desse diplomata da Restauração (da autoria de Theresa S. de Castello Branco) era muito completa, e lia-se nela que o marquês deixara uma grande colecção de pintura. Seria natural, argumentava Antonieta Soares de Azevedo, que se mencionasse naquele contexto a existência de um retrato do poeta. Ora isso não era o caso. Porquê? Pela irreverência da representação do grande poeta? Era mais um dos mistérios que rodeavam a pessoa de Camões.
José António Saldanha de Meneses e Sousa, que era conde da Ponte pelo seu casamento com D. Leonor de Saldanha da Gama Mello e Torres, herdeira do título, deve ter encontrado o retrato de Camões entre os bens de sua mulher. Homem culto, seria um dos fundadores da Academia das Ciências, o conde reconhecera o interesse daquela pintura, e decidiu identificá-la. Argumentou provavelmente que aquilo só podia ter pertencido a pessoa de reconhecida formação intelectual, e na família quem melhor correspondia a esses requisitos era o marquês de Sande e 1º conde da Ponte. Espanta que não tivesse sentido a necessidade de apoiar a sua afirmação em dados concretos. Tivesse ele consultado o arquivo da família de sua mulher, e nele especificamente os papéis do marquês de Sande, e teria podido constatar que neles não existia menção de retrato de Camões.
A Drª Antonieta Soares de Azevedo fala de mistério, de mais um dos mistérios que rodeiam a pessoa de Camões. Não era mais um mistério, era uma desinformação.
Quando a Drª Antonieta Soares de Azevedo publicou este artigo eu estava há muito a tratar da organização do arquivo Ponte, e no decorrer dessa organização encontrara em inventário - alheio à família - a menção de um “retrato do Camõens”. Na altura notei o dado, mas não o considerei de grande importância. Era, e ainda sou, ignorante em problemas camonianos, ignorava que a menção documentada de um retrato do poeta era sempre de interesse e devia ser comunicada. Fui muito criticada por essa omissão, que tratei de remediar logo que soube da existência de um retrato de Camões que tinha uma ligação à casa dos condes da Ponte. Já não bastava porém revelar o documento em questão, havia que explicar a razão de este se encontrar no arquivo Ponte, falar do homem a quem o retrato pertencera, e, se possível, estabelecer a ligação que podia ter havido com o poeta.
Fiz uma comunicação na qual dei conta das conclusões a que tinha chegado, e a comunicação foi publicada pela SNI. Creio que já não devem existir exemplares. Eu própria só tenho um. Tirarei dele algumas das conclusões a que cheguei sobre um dos possuidores do retrato de Camões na prisão de Goa.

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‘O retrato do Camões’

>> quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

1) Cruzamento de dados
Com a crise e a austeridade entraram novas expressões na linguagem televisiva e jornalística portuguesa. Uma dessas expressões é ‘cruzamento de dados’. Usa-se em geral em relação à actividade do Fisco, e à forma como esta amável entidade descobre as prevaricações dos contribuintes. Quando recentemente fui avisada que na minha declaração de IRS para o ano de 2008 houvera um erro, e o fisco fora lesado em 21, 08 Euros, explicaram-me que o erro fora detectado ‘por cruzamento de dados’.
Sucede que, praticamente na mesma ocasião, me foi dado observar o frontispício da luxuosa edição dos Lusíadas mandada executar em Paris por pelo morgado de Mateus. O frontispício tem a imagem do poeta devidamente coroado de louro. Lembrei-me do tão diferente retrato de Camões na prisão de Goa, de como um dos problemas do retrato seria resolvido pela troca de informações de duas investigadoras, ou seja, como hoje se diria, ‘por cruzamento de dados’.
Fui uma das protagonistas do caso, e houve um momento em que me poderia ter gabado, sem receio de ser desmentida, ser a única pessoa que podia dizer, com prova documental, quem fora um dos primeiros possuidores do dito retrato. Não era aquele indicado no verso do mesmo, mas era por ele que se chegava à verdade. A coisa tem uma certa graça, e creio que merece ser contada. O que tentarei fazer no próximo, ou próximos textos.
2) Coroas de louro
O século XIX gostava de recordar de forma decente os seus poetas. Mesmo que os falecidos em vida tivessem frequentado de preferência as tabernas aos salões eram recordados em efígie de casaca e até de chapéu alto. Para com os poetas do longínquo passado, de quem se desconhecia a fisionomia, imaginava-se esta sempre com respeito. E foi assim que por volta dos anos vinte do século XIX, quando das comemorações camonianas, surgiu em gravura e escultura um Luís de Camões de agradáveis feições e elegantemente ataviado à moda de fins do século XVI. Um perfeito cortesão. A coroa de louro com a qual por vezes o figuravam, não parecia descabida. É esse Camões que todos conhecemos, e raras vezes nos questionamos se ele teria sido de facto assim. Não era. Há um retrato do poeta que mostra um homem muito diferente.

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Os gostos dos autores

>> segunda-feira, 18 de julho de 2011

Realizei um dia, não sei a que propósito, que em todos os meus livros se fala por sua vez, de uma forma ou de outra, de livros. A coisa sucedeu espontaneamente, não porque fosse necessário à acção. Deu-se, creio eu, porque o livro faz de tal forma parte da minha pessoa, que tinha de surgir na minha escrita.
Decerto, pensei, que daí se poderia concluir que todo o autor que trouxesse a leitura para os seus livros – estou a falar em ficção – seria também um leitor, e que, por outro lado, se podia concluir que aquele autor que nunca sentisse a necessidade de utilizar o livro como assunto ou objecto da sua narrativa, que esse provavelmente não era um grande apreciador de outros livros.
Examinei o caso. Constatei com espanto que há autores em cujos livros o objecto ‘livro’ não aparece.
Porque não sentiam a necessidade de o mencionar? Ou por o autor não ser um ‘leitor’, não ser apaixonado da leitura? Creio que é esta a razão. Não falam de livros, porque não são leitores.
Veja-se Agatha Christie. Não me lembro se ela fala de leituras na sua Autobiografia, mas nos seus policiais ‘o livro’ não aparece. Miss Marple faz croché e tricot, é apaixonada de jardinagem, mas não lê. Mr. Poirot, o seu outro detective, reflecte sorvendo um licor adocicado, nunca pega num livro. Os criminosos que Miss Marple e Mr. Poirot desmascaram, são em geral pessoas respeitáveis, bem inseridas na sua comunidade, têm as mais variadas ocupações e distrações, mas a leitura não faz parte delas.
Apostaria que a grande Agatha era apaixonada jardineira, mas não uma leitora.
E Simenon? O inspector Maigret, o detective que Simenon criou, não lê. Mesmo quando ele e Madame Maigret estão de férias, eles não lêem.
O mesmo porém não se dá com os criminosos que o Inspector persegue. Entre estes, e na maioria são de modesta condição, há um ou outro leitor, um deles é um encadernador de obras de grande qualidade. Concluo que Simenon era conhecedor de livros, e talvez ’leitor’.
Passemos a outro género de ficção, e outros autores. Basta ler A Cidade e as Serras e a Ilustre Casa de Ramires para saber com absoluta certeza que Eça de Queiroz era um apaixonado leitor. Gonçalo Ramires escreve um livro e discorre sobre leituras. Jacinto tem em Paris uma grande biblioteca, e lê Homero em Tormes.
Umberto Eco, que põe uma biblioteca no centro de uma sua obra é fatalmente um grande leitor.
E o que é que isso tem? Perguntarão. Nada, mas a mim diverte-me. Assim como me diverte concluir, que Agatha Christie só devia conhecer a cozinha inglesa, e a essa na perfeição, já que muitos dos crimes que ela imagina, são de envenenamento, e em geral servido em produtos culinários. E algumas dessas especialidades, como as sanduíches de “egg and sardines”, que Miss Marple aprecia, não falam muito a favor da cozinha britânica. Parece-me que Mr. Poirot não a apreciava, mas Agatha Christie não fala em algum bom prato que este estrangeiro apreciasse. Porque não conhecia outra cozinha que a da sua Ilha.
Que diferença entre ela e Simenon e os respetivos detectives. Cassoulet, omelette aux fines herbes, crème anglaise onctueuse, cada crime, cada prato.
E, na outra literatura, lá temos Eça de Queiroz e o lirismo com que gaba os pratos da cozinha portuguesa.
Quer o queiram ou não, os autores revelam nos seus livros alguns dos seus gostos, e eu gosto de os descobrir.
Bem sei que não interessa a ninguém mas a mim diverte-me.

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“Na praia”

>> segunda-feira, 14 de março de 2011

Não fui grande leitora de ficção cientifica, mas li Wells e Julio Verne. Sei que a imaginação de autores dotados souberam imaginar e descrever cenários do futuro, que um dia provariam ser correctos. Menos conhecido que Verne e Wells é um autor mais recente chamado Nevil Shute. Este autor imagina no seu livro “On the Beach” o espalhar de uma nuvem radioactiva e a chegada das suas consequências à Austrália, o último ponto do mundo a ser atingido. São os últimos dias vividos naquela praia. Reli-o mais de que uma vez e recordei-o agora com a tragédia do Japão e a ameaça da fusão nos reactores da central de Fukoshima. O livro não é pesado, mas é terrivelmente convincente. Só se pode esperar que o autor não tenha, como o tiveram Julio Verne e Wells, o dom de imaginar correctamente cenários futuros.

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Livro de autor

>> segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

A expressão tem algo de desprestigiante. Subentende-se que o autor não encontrou editor para o seu livro. O que em geral era o caso. O editor enganava-se por vezes e deixava escapar uma obra prima. Mas não se contam muitos casos desses. A edição de um livro era trabalhosa e cara. O autor entregava um manuscrito que tinha de ser emendado e recopiado mais de uma vez, o editor não era altruísta, escolhia o que lhe parecia ter qualidade. Ter qualidade e ser vendável.
As coisas mudaram. Agora o que vende não é a qualidade. É o nome do autor. E a edição do seu livro, bom ou mau, é pouco dispendiosa. O texto vem num disco, é só preciso escolher capa adequada e a coisa está feita. Se o livro vender bem, fazem-se mais cópias, se não vender, não se fazem. A grande maioria dos livros que todos os anos se editam em Portugal são livros que em outros tempos não seriam aceites por um editor. São” livros de autor” com a chancela de uma editora. Assim sendo, por que não editar o nosso livro sem passar por um editor? Preparo-me para o fazer. Vou publicar dessa forma a correspondência da minha bisavó e das suas quatro filhas, desde 1834 a 1910. Entrego o texto a uma firma que se encarrega desse tipo de edição, aviso os membros da família, que o livro ali está e como o podem adquirir. Pronto. Há anos a publicação de livro de autor seria de tal maneira dispendioso, que se tornaria impossível. Agora é possível e vou aproveitar.
Livros de cartas familiares são olhados com desconfiança pelos editores. Quando eu mostrei uma amostra do livro ao meu editor , disseram que tinha poucos nomes conhecidos. Ora o índice onomástico tem mais de 400 nomes: de políticos de todas as cores, de réus, rainhas e príncipes em abundância, de senhoras bem comportadas e mal comportadas, de homens de nomes históricos e menos históricos, não faltam com certeza nomes “conhecidos”. Foi uma desculpa para explicar a rejeição. Que do seu ponto de vista é compreensível. Em França, por exemplo, um livro como este teria muita aceitação, entre o público leitor português não tem, e uma editora edita para o seu público. Vou por isso publicar um “livro de autora”.

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Artigos de jornal. Curtos, por favor.

>> quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Quando constatei que o catálogo da Exposição das tapeçarias de Pastrana, publicado pelo MNAA era uma mina de desinformação escrevi um artigo que enviei ao jornal Expresso com pedido de publicação.
Sempre critiquei artigos de jornal demasiado longos e fiz aquilo que sempre criticara. Tempos depois recebo um mail do jornal. Que abreviasse aquilo para 35000 caracteres se queria ter uma possibilidade de publicação.
Pareceu-me impossível, mas tentei. Enviei uma primeira versão de 35000 mil e alguns caracteres.
Novo mail. Ainda era grande demais. Tinha de contar caracteres e espaços. Emagreci o pobre artigo para os requeridos caracteres.
Foi aceite. E sabem uma coisa? O artigo ficou muito melhor. Aprendi. Nunca se é demasiado velho para aprender.

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José Saramago

>> terça-feira, 29 de junho de 2010

Morreu José Saramago. Oiço dizer “ah, mas recebeu o Nobel”. “Recebeu o Nobel, e quem recebe o Nobel é o melhor do mundo”. “Por ele a língua portuguesa chegou a todo o mundo”, “até o Bispo tal já diz que foi uma figura impar da cultura portuguesa”. Ainda não ouvi ninguém dizer: “Que bem que ele escrevia”, “O que eu gostei do livro de Saramago”. “Que prosa a de Saramago”. “Escrevia maravilhosamente bem”. Também é curioso que não haja críticos literários que analisem a sua obra, pelo seu valor literário, esquecendo o Nobel. E alguém que explique a razão de uma escrita sem pontuação e nos explique a nós, simples mortais, o porquê dessa forma.

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Um bom romance

>> terça-feira, 18 de maio de 2010

Num destes sábados ‘à hora nobre’ ouvi no segundo canal, as últimas frases de uma conversa da locutora com José Rodrigues dos Santos. Pareceu-me que o assunto fora uma série de dez entrevistas que José Rodrigues dos Santos vai fazer, ou já fez a dez romancistas. A entrevistadora pediu no fim ao seu convidado, que lhe dissesse como definia um ‘bom romance’. José Rodrigues dos Santos respondeu sem hesitar: “um bom romance é uma boa história, bem contada”.
Que simples. Que fácil. Que bom deve ser, pode responder com tanta confiança, tanta firmeza, a tão difícil pergunta.
A definição não é errada, é até óbvia, mas o que nos diz ela? Suponhamos que alguém, talvez a minha filha, me perguntava, como muitas vezes o fez, que tal era o livro – romance – que eu estava lendo.
“Lê-se muito bem, uma óptima história”, responderia, ou talvez: “Gosto. A história é Interessante, e está muito bem contada.” A interlocutora perceberia, que eu estava lendo um ‘bom romance’. Um dos milhares de livros que anualmente são editados, que nos contam bem – com habilidade - uma boa história.
Fosse a resposta à mesma pergunta um pouco diferente, se respondesse, por exemplo: “Um grande livro”, ou “este sim, este vai ficar”, então a minha filha perceberia que, em minha opinião, havia naquele livro qualquer coisa, que fazia dele mais que uma boa leitura, mais do que ‘um bom romance’.
Alguém pode falar de “O Tempo e o Vento” de E. Veríssimo como um bom romance? Ou de “O Pavilhão dos Cancerosos’ de Soljenytsine? Ou de ‘O Primeiro Círculo’ do mesmo autor?
São todos eles boas histórias, bem contadas. Mas não são aquilo que correntemente entendemos por bons romances. O que são é grandes livros.
O que distingue uns dos outros? Dois livros podem ter o mesmo tema, os seus autores podem, um e outro, tratar o tema com grande habilidade, dando-nos uma história bem contada, pode suceder que um dos livros seja só um ‘bom romance’ e o outro seja um ‘grande livro’. Dois exemplos:
‘Kim’ de Kipling e ‘The Far Pavillions’ de T. F. Kaye. O tema é o mesmo, o rapaz inglês que nasce na Índia, e que, por acidente, vive desde criança como hindu e se considera tal, só muito tarde vindo a saber que é inglês. Os dados são os mesmos. ‘The Far Pavillions’, é empolgante. Enorme, lê-se de um fôlego. ‘Kim’ também é empolgante. Mas lê-se mais lentamente. Também queremos saber o que se vai passar na página seguinte, mas temos de saborear página por página. ‘Kim’ é um grande livro.’ The Far Pavillions’ é só um óptimo romance.
Consideremos duas obras mais recentes: ‘O primeiro Círculo ‘ de Soljenytsine e ‘Doutor Jivago’ de Pasternak. O último é um grande romance, o ‘Primeiro Círculo’ é um grande livro.
Quem os lê, sente que são diferentes. Que um deles nos dá mais do que o prazer de uma boa leitura. Porque nos faz sentir e pensar. E admirar.
Observação à margem
O verbo ‘estar’ conjuga-se agora da seguinte forma:
Eu tou
Tu tas
Ele tá
Nós tamos
Vós tais
Eles tão. Não esquecer

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Recordar poemas

>> terça-feira, 11 de maio de 2010

Nos meus tempos de escolaridade, aprendiam-se versos. Aprendi versos em alemão e português, em francês, em inglês. E tínhamos de os recitar. Em festa escolar, era sabido, fazia parte do programa que um aluno recitasse uma poesia. Não nos fez mal.
Sei as primeiras linhas de inúmeras poesias, e muitas sei por inteiro. Gosto de as relembrar e recitar para mim, e agora mais do que nunca, que não as posso ler.
E o gosto não é só de agora. Em viagens de automóvel, ao volant5, sempre recitei para mim. Em voz alta. Poesias fáceis, que não me distraíssem. Confesso que tenho pena das crianças a quem não ensinam versos. Não sabem o que perdem. Porque os versos que se aprendem em criança nunca mais se esquecem por completo. Alguma coisa deles fica, nem que seja só uma estrofe, ou só duas ou três linhas. Um dia vêm-nos à memória, e é uma alegria.
Quando há não muito tempo uma leitura me fez recordar a peça ‘Wallenstein’ de Schiller, veio-me de imediato, sem pensar, a lembrança dos versos que toda a nossa classe, rapazes e raparigas, recitava com entusiasmo, sem sermos obrigados. Para nós, porque gostávamos do ritmo empolgante daqueles versos: “Vamos, camaradas, a cavalo, a cavalo” “Wohlauf, Kameraden. Aufs Pferd, aufs Pferd, ins Feld, in die Freiheit geritten”. E por aí fora.
Há poesias para todas as emoções, todas as impressões, todas as ocasiões. Há poesias alegres e poesias tristes, românticas e realistas, profundas e ligeiras, é só escolher. E lembrar.
A propósito da muito falada crise, lembrei-me da fábula de La Fontaine sobre a cigarra e a formiga. Aprendi-a nas aulas de francês. Em Portugal já não se aprende francês, La Fontaine deve ser pouco conhecido. Não importa. Tenho vontade de recordar ‘La Cigale et la Fourmi’, Acho que vem a propósito a história da cigarra que cantou durante todo o verão sem pensar em juntar qualquer coisa para o inverno. E a laboriosa formiga, que se nega a lhe emprestar, aconselhando-a a dançar, já que passou o verão a cantar. Aqui vai, portanto:
“La clgale, ayant chanté tout l’été,
Se trouva fort dépourvue
Quand la bise fut venue.
Elle alla crier famine
Chez la fourmi, sa voisine,
La priant, de lui prêter
Quelques grains pour subsister
Jusqu’á la saison nouvelle.
La fourmi n’est point préteuse,
C’est lá son moindre défaut.
Que faisiez vous au temps chaud?
Demanda-t-elle à la quéteuse.
Au temps chaud?
Je chantait, ne vous déplaise.
Vous chantiez? J’en suis fort aise.
Et bien, dansez maintenant.

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Biografia ou romance histórico?

>> terça-feira, 4 de maio de 2010

Aos sábados, das 10 da manhã ao meio-dia, há na Antena 1, um programa intitulado ‘Hotel Babilónia’. Nos meus tempos de leitora, não o ouvia, agora, que sou sobretudo auditora, oiço o ’Hotel Babilónia’. Na sua segunda parte, quando os anfitriões, João Goberne e Luís Delgado, conversam com uma convidada. Neste sábado, a conversa foi com Isabel Stilwell, e sobre livros seus. Três livros sobre três rainhas: D.Filipa de Lancastre, D. Catarina de Bragança e D.Amélia de Orléans. Isabel Stilwell narra as suas vidas sob a forma de romance histórico. Uma opção perfeitamente aceitável.
Ora sucede, que em todos os três livros se vê na capa o nome da respectiva rainha e o seu retrato. Vendo isso, o leitor, que pega no livro, pensa naturalmente que se trata da biografia daquela personagem. Foi o meu caso, quando há tempos peguei numa livraria no ‘D.Catarina de Bragança’ da autora. Com curiosidade e simpatia, já que o meu primeiro livro fora a biografia do marquês de Sande, o homem que negociara o casamento daquela infanta portuguesa com Carlos II de Inglaterra, e que depois conduzira a futura rainha, e lhe aturara os maus humores. Abri portanto o livro de Isabel Stilwell, curiosa de ver como ela pegara naquela pouco simpática figura. Abri o livro ao acaso para ter uma ideia. E li, com algum espanto, confesso, como D.Catarina, falando a seu marido, lhe dirige estas palavras: “não me diga, Carlos”. Para já não falar no pouco provável uso de uma expressão que tem muito poucos anos, por alguém do século XVII, era impossível em biografia, onde o discurso directo não existe, a não ser numa citação. Era forçoso concluir que aquele livro, intitulado ‘D.Catarina de Bragança’ e com o retrato da rainha na capa, não era afinal o que parecia ser. Não era uma biografia daquela rainha. Pois não, disseram-me, era um romance histórico.
Agora saiu o ‘D. Amélia de Orléans’, que é, da mesma autora, que, tal como os dois livros precedentes, é um romance histórico. Que tal como estes, aparenta ser - pela capa e título - uma biografia.
Tratando-se de um romance histórioco, ou seja de um romance, no qual aquela senhora é evocada de forma lúdica, então isso devia ser percebido. Por exemplo, dando-lhe um título deste tipo: ‘Uma Orléans?’ Já que aquela rainha de Portugal ainda sofria do estigma de ser uma Orléans, dava-se a entender que o livro trataria de D. Amélia, mas ninguém pensaria estar a comprar uma biografia da rainha.
Uma ninharia, dirão. Não é. O editor está a atrair o público com um engano literário. E o engano é duplo. Está oferecendo uma coisa que não é o que a capa e o título prometem, e leva o leitor menos conhecedor a pensar que uma biografia se escreve em forma de romance histórico. Tudo vale para vender livros? Assim é, pelos vistos.

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Escrever a um autor.

>> terça-feira, 27 de abril de 2010

Vou escrever a Ludger Saffranski para lhe agradecer o seu livro que ouvi em disco, lido por ele, sobre a amizade entre Goethe e Schiller, os dois grandes poetas alemães. O livro teve críticas magníficas, e o autor provavelmente cartas em abundância, pouco lhe pode interessar mais uma carta. Não impede que lhe escreva. Por mim, porque lhe quero dizer o prazer enorme que me deu com o seu livro.
Não é a primeira vez que escrevo a um autor, mas é a primeira vez que me pergunto, o que me leva a escrever. A perfeição? Não só, porque li muitos livros que admirei pela perfeição de estilo e interesse de assunto, e não escrevi aos autores. Olhando para trás vejo que, quando escrevi, foi porque se conjugavam vários factores. No caso deste livro sobre a amizade dos dois poetas, ele não só me satisfez plenamente, como veio quando pensava que já não me seria dada essa sensação de prazer e satisfação num livro novo. Veio no momento exacto, e talvez seja por isso que sinto vontade de escrever ao autor. Talvez não seja só a excelência da obra, a sua qualidade, mas também o momento em que ela é lida, que façam da leitura um momento tão especial, que o queiramos comunicar a outra pessoa, e de preferência a quem nos proporcionou esse momento.
. Lembro-me de outra ocasião em que escrevi ao autor, e concluo agora que o fiz pelo facto do livro dele ter vindo tão a propósito. Acabara de ler dois livros sobre a guerra franco-alemã de 1870. Um, alemão, de Theodor Fontane. outro, francês, um romance, mas considerado de grande exactidão histórica, lA Débacle’de Zola. Tive vontade de ter ainda uma outra opinião. Li ‘The Franco Prussian War’ de Geoffrey Wawro . O livro provou ser tão exactamente aquilo que eu procurava, no equilibrio da avaliação dos acontecimentos políticos e das acções militares, que peguei na pena e escrevi ao autor.

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Sobre este blogue

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