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De bibliotecas de mulher

>> segunda-feira, 16 de março de 2009


29. De bibliotecas de mulher
Particular? Caseira? Domestica?

Creio que a formação de uma biblioteca própria, uma biblioteca particular, é mais coisa de homem do que de mulher. Mais de homem, mas não exclusivamente. Houve e há bibliotecas particulares de mulheres, e algumas escreveram sobre os espaços onde arrumavam os livros.
No século XIV Cristina de Pisano tinha os seus num pequeno “estúdio”. Di-lo no “Livre de la Cité des Dames”* em um verso de cinco linhas, que me encanta e tentei traduzir:
"une estude petite,
Ou souvent je me délite
A regarder escritures
De diverses aventures,
Si cherchais un livre ou deux"

"Um estúdio pequeno
onde muito me deleito
a olhar as escrituras
de diversas aventuras
e procurar um livro ou dois"

Imaginando uma sociedade onde as mulheres não seriam enaltecidas pelo seu nascimento ou beleza, mas pela suas virtudes e sapiência, Cristina devia ser um bocadinho maçadora. E quem sabe se não um pouco troçada. Em uma das numerosas miniaturas em que ela foi retratada, vimo-la no seu ‘studio’, dormindo uma soneca de livro na mão. Mas o ilustrador era decerto um homem, e, quanto a mim, quem escrevera aquelas cinco linhas merecia encabeçar um artigo sobre bibliotecas de mulheres.
Achei lógico procurar definições do que se tinha dito sobre o que fosse “biblioteca”, e uma das primeiras definições com que deparei, foi esta:
“Biblioteca é um espaço reservado aos livros, recheado de obras escolhidas, cobrindo diversas áreas dos conhecimentos humanos, e periódica e judiciosamente acrescentadas”.
Foi o bastante para me afastar do tema projectado.
Presumo que o autor da definição se estaria referindo a uma biblioteca publica, não a toda e qualquer biblioteca. É verdade que “espaço reservado aos livros, recheado de obras escolhidas, cobrindo diversas áreas dos conhecimentos humanos” são condições a que também uma biblioteca particular pode aspirar, mas “periódica e judiciosamente acrescentada” ?
Desafio qualquer possuidor de uma biblioteca particular a mostrar as judiciosas aquisições com que periodicamente a foi aumentando. Judiciosamente pressupõe que os livros acrescentados tenham sido adquiridos após judiciosa meditação sobre o seu valor e qualidade e a oportunidade de os adquirir. Onde fica a inspiração do momento conhecida de todos os grandes leitores? O apetite por aquele livro e não outro? A biblioteca particular não seria biblioteca particular, se não fosse uma colecção de livros escolhidos por apetite, por amor, raras vezes por terem sido objecto de meditação prévia. Escolha judiciosa das aquisições aplica-se a uma biblioteca publica não à de um particular.
Ainda estava às voltas com isto de “biblioteca judiciosa”, quando me vi enfrentada com a “biblioteca domestica”.
“...... é indisputável a declinação da biblioteca doméstica, da vontade e do orgulho de a ter, e também, valha-nos Deus! das condições para a conservar e aumentar”. lê-se em “A infelicidade pela Bibliografia” de Abel Barros Baptista.**
Talvez seja pouco razoável da minha parte, mas a definição deu-me vontade de rir. Biblioteca domestica? Consultei Cândido de Figueiredo, e lá está: --domestico: “relativo à casa, à vida íntima da família, familiar” etc. .
Em casa dos meus pais havia uma razoável quantidade de livros, mas a ninguém passava pela cabeça chamar biblioteca a uns armários e estantes com livros espalhados pela casa. E menos biblioteca domestica. Biblioteca tem uma conotação de qualidade e grandeza. Acho eu. E exemplifico.
Na véspera do dia 1 de Novembro de 1755, o senhor Joaquim José Moreira de Mendonça chegou à janela da sua casa, perto do castelo de São Jorge, e fechou-a rapidamente por achar que vinha de fora um calor estranho. Comentou-o com a família, e no dia seguinte viu-se que o senhor Joaquim José Moreira de Mendonça tinha razão de recear coisa ruim. O homem era grande amador de livros, e logo que o pior do tremor de terra passou, procurou averiguar quais as bibliotecas da cidade que mais tinham sofrido. Podemos ler o que ele viu no livro que depois escreveria, intitulado “História Universal dos Terremotos”*** (que sobressai com vantagem das odes e baladas que então se publicaram chorando a catástrofe)..
“Entre as muitas preciosidades que consumiu o fogo foi muito sensível aos eruditos a perda de muitas e numerosas livrarias, escreve o senhor Joaquim José. “Tem o primeiro lugar a biblioteca real, que era numerosíssima e excelsa. O senhor rei D. João V, o Máximo, a tinha aumentado cm grande número de livros modernos e todos os antigos que se descobriram pela Europa; e uma grande cópia de bons manuscritos, assim originais como cópias bem escritas, tudo efeito da sua sabedoria e magnificência.
A do marques de Louriçal enchia e ornava quatro grandes casas, e era esta selecta em livros raros e excelentes manuscritos. Tinha sido formada pelos Sábios condes da Ericeira e ultimamente aumentada pelo conde D. Francisco Xavier de Meneses, cuja sabedoria e vastíssima erudição ainda depois de morto admira Portugal e toda Europa-
A biblioteca do convento de São Domingos estava em duas grandes casas e tinha muitos livros raros e grande número de manuscritos, que para ela deixou o eruditíssimo beneficiado Francisco Leit\ao Ferreira. Foi obra do padre frei Manuel Gonçalves que a constituiu publica, com assistência de dois bibliotecários e renda grande para o seu aumento
No convento do Espírito Santo havia uma grande e selecta livraria, e outra chamada Mariana, em que se admirava a major colecção de livros que tratavam de Maria Santíssima, obra do padre Domingos Pereira.
Ficaram também reduzidas as cinzas excelentes e antigas livrarias dos conventos do Carmo, São Francisco, Trindade e Boa Hora. Tiveram o mesmo sucesso todas as dos palácios, que arderam em que havia algumas muito estimáveis.
As particulares foram muitas e entre estas era muito preciosa a do inquisidor mor José Silveira Lobo, por numerosa e selecta.
Em cinco casas de mercadores de livros franceses, espanhóis e italianos e 25 lojas e casas de livreiros portugueses se consumaram grandes livrarias de que podiam formar muitas copiosas e excelentes.”
Bibliotecas nas grandes casas, livrarias de mosteiros. livros de particulares. Colecções de livros de qualidade, alguns raros, de manuscritos.
Poucos anos depois, fazia-se em Paris leilão dos livros que haviam sido de Madame de Pompadour, amantíssima companheira de Luís XV de França, mulher culta e grande leitora. “Ela lia os seus livros, não os tinha simplesmente como adorno dos seus quartos”, escreve Nancy Mitford.****. Ao todo leiloaram-se 3525 volumes, divididos nas seguintes categorias:87 traduções dos clássicos, 25 gramáticas e dicionários franceses, italianos e espanhóis. 844 livros de poesia francesa, 718 romances, entre eles romances ingleses em tradução francesa, 32 livros de contos de fadas, 42 obras de história religiosa,738 de história e biografia;235 livros de música 5 livros de sermões, incluindo os de Bourdaloue, Massion e Phénelon; 215 livros de filosofia 75 livros da vida de escritores.
Retirada da venda pelo seu irmão, o marquês de Marigny, foi um livro intitulado “Représentations de M. de Lt. General de la Police sur les Courtisanes a la Mode et les Demoiselles de Bon Ton, par une demoiselle de Bon ton”. Devia ser o que então se designava por livro ‘galante’, e não foi decerto para proteger a fama da irmã que o marquês retirou do leilão as confidências de uma “demoiselle de Bon ton”.
Os livros de madame de Pompadour eram na sua maioria encadernados em marrocain com as suas armas no rosto. Era uma biblioteca particular, pessoal,. Mas era uma biblioteca doméstica?
Mais ou menos por esses anos temos na Alemanha a duquesa Anna Amália de Weimar fundando a biblioteca que ficaria famosa como uma das mais importantes bibliotecas de literatura alemã e arquitectónicamente, uma das mais bonitas. É que os amadores queriam os seus livros em ambiente digno deles, e achavam-nos por sua vez dignos de os “ornamentar” a eles próprios. Sobretudo a elas, neste caso. Madame de Pompadour quis sempre ser pintada com um livro na mão, e a moda perdurou. Em princípios do século XIX o pintor David imortalizava a bela Madame Récamier com os seus livros como pano de fundo
Eram bibliotecas domesticas um pouco especiais essas que nasceram nos séculos XVII e XVIII nas grandes casas da Europa.
O século XIX trouxe o livro a outras camadas da sociedade. Não deixou de haver bibliotecas particulares de grandes coleccionadores, de bibliófilos, mas mesmo as famílias menos abastadas tinham agora livros em suas casas: os volumes dos clãssicos, os primeiros romances de mulheres para as senhoras, as obras de história e filosofia para o homem da casa. Nas casas havia um ou dois armários com livros “bons” para toda a família, eram verdadeiras bibliotecas familiares.
Nos nossos dias não deixámos de ter colecções de livros, arrumados agora à nossa maneira. Hesitamos em tratar de biblioteca a umas estantes que nem sempre primam pela beleza arrumadas nos espaços em que melhor convém. Parece que são bibliotecas domesticas. Adiante!
Á falta de tratar - como prometera - de bibliotecas de mulheres, cito o que duas leitoras escreveram sonre os seus livros.
A grande leitora que foi a marquesa de Sévigné levava os seus livros atrás de si quando ia para a sua casa de campo. Periodicamente tinha de refazer as finanças, abaladas pela vida de Paris, e recolhia-se - por vezes na companhia do filho, grande leitor também ele - à sua propriedade dos ‘Rochers’ na Bretanha. Levava livros, e dava-lhes um arranjo em local adequado. Descreve-o à filha, em carta de 5 de Junho de 1668
"Trouxe para aqui uma grande quantidade de livros escolhidos; vou arrumá-los daqui a pouco. Não se pega num, seja ele qual for, que não se tenha vontade de logo o ler todo inteiro. Toda uma prateleira de devoção, e que devoção! Meu Deus, que inspiração para honrar a nossa religião. Outra é toda de obras admiráveis de história; outra de moral; outra de poesia e de novelas e de memórias. Aos romances desprezámos, foram relegados para os pequenos armários. Quando entro neste gabinete, não percebo porque de lá saio. É digno de ti, minha filha".
Não sou uma madame de Sévigné, mas também tenho uma filha vivendo longe e também lhe escrevo sobre livros, os meus e os de outros:
“mando-lhe um recorte mostrando o Dr. xxx xxx na sua biblioteca, escrevi-lhe em carta de xx de 2002. Interessam-me imenso as bibliotecas particulares das actuais figuras gradas cá da terra, e a primeira coisa que procuro observar quando vejo fotografias deles, tiradas nos seus interiores, são os arranjos dos seus livros. E o que lhe digo é que me consolam da minha pelintrice. Não vou a férias às ilhas do Pacífico, não tenho Mercedes (com pena), não tenho montes alentejanos. Em resumo, sou uma pelintra ao pé da maioria dos outros possuidores de muitos livros, mas a minha biblioteca, ou livraria, ou quarto de livros, ou o que lhe quiserem chamar, compara-se favoravelmente com aquilo que, em matéria de arrumação de livros, me é dado ver dos interiores de personagens da nossa vida política e social em jornais e revistas”.
Biblioteca particular, familiar, caseira, domestica?
• Christine de Pizan, La Cité des Dames Paris, 1405
** Abel Barros Baptista A Infelicidades pels Ribliografia. Crónicas
***Joachim Joseph Moreira de Mendonça, Historia Universal dos Terremotos...... e as particularidades do ultimo. Lisboa 1758
****Nancy Mitford, Madame de Pompadour Hamish Hamilton, London, 1954

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>> segunda-feira, 26 de janeiro de 2009


De bibliotecas
22. Os livros de Afonso de Torres

Talvez exista algum catálogo da biblioteca de português quinhentista ou seiscentista, mas se há não o conheço Para poder falar da biblioteca de um leitor seiscentista português recorro por isso a um documento intitulado: “Inventario dos bens que ficaram por morte do senhor Affonso de Torres Telles.............os quais foram avaliados por Pedro Lingues, juiz do ofício de livreiro”-
Ou seja, para efeito de partilhas, os livros que haviam sido do falecido Afonso de Torres, tinham sido inventariados e avaliados por Pedro Lingues, livreiro. Afonso de Torres era cabeça do morgado dos Torres, teve uma vida de aventuras e acabou os dias em Montemor, escrevendo uma obra de genealogia, que deixou ao morgado.
Os seus livros ficaram à filha mais velha, e por ela teve-os seu marido Francisco de Melo Torres. Este, um dos conjurados de 1640, que viria a ser o 1º conde da Ponte e Marquês de Sande, deixou nas ultimas páginas de um dos seus códices a anotação de algumas obras emprestadas nos anos de 1648/49 a amigos seus. Ao escrever a sua biografia – “A Vida do Marquês de Sande” - eu parti do princípio, que se tratava de aquisições do próprio Francisco de Melo, mas pude entretanto constatar, que parte dos livros que Melo anotara naquela ocasião, vinham da biblioteca que fora de seu sogro, Afonso de Torres.
A respeito desta anotação, e o que dela se podia concluir - para além do facto de Melo ter o mau hábito de emprestar livros - escrevi na dita biografia o seguinte : “Estava-se em 1649, em Inglaterra dera-se a revolução que levara Carlos I à morte. Aceitando a ideia que os problemas históricos do passado interessam os homens sobretudo pelo que iluminam dos problemas do seu próprio tempo, e cientes que os homens de Seiscentos ainda eram humanistas no sentido de procurarem a chave de todos os seus problemas nas obras dos antigos, é certamente significativo encontrar entre os mencionados livros emprestados por Melo, e portanto discutidos por ele e seus amigos, a "Republica" de Cícero, na qual um grupo de amigos discute as condições da vida política, a maneira de uma nação ser grande e forte, as causas da grandeza e prosperidade romana e os meios de atacar a sua decadência, e a "Pharsala" de Lucanio, poema épico de fundo filosófico, que canta a guerra civil e a luta entre Pompónio e César.” Lá está também a "Conservação da Monarquia", estudo de Pedro Fernandes Navarrete sobre os males de que enfermava a monarquia, e a maneira de os remediar. Através destes livros emprestados visualizam-se os leitores de então procurando o que teria levado à queda da monarquia em Inglaterra, ou ainda uma explicação àquilo de que sofria a sua própria pátria".
Tivesse eu lido a lista dos livros de Afonso de Torres, e saberia que já nos seus dias se discutiam as ideias que iriam ocupar os homens da Restauração. Mas a essa conclusão só cheguei agora, quando fiz o que então devia ter feito, ou seja estudar o inventário dos livros de Afonso de Torres. A verdade é que durante anos fugi de um documento, no qual se está praticamente face a uma adivinha, ou antes uma série de adivinhas, já que o avaliador dos livros tanto dá deles aquilo que se afigura ser um título, como aquilo que talvez seja o nome do autor, e que cada título, cada nome de autor pode estar, e em geral está, deturpado. O livreiro, que sabia do que falava, não se dava ao trabalho de especificar correctamente a obra, e menos em soletrar algum título mais difícil. Dizia um nome, ou um título, que para ele definiam perfeitamente de que obra se tratava, e indicava o valor em que a avaliava. O valor é que interessava. O escrivão que nada devia saber de livros, escrevia o que lhe parecia ter ouvido. Dessa forma surgem designações como esta: “Viagem Dermundo de sevalhos”.
Paulo Achmann, amigo bibliófilo, a quem pedi ajuda, e eu, procurámos cada um a seu modo, decifrar o que se escondia por detrás daquele dermundo.
Paulo foi por: ‘sevalhos’. “Chegar lá, escreve ele “não foi tão fácil como parece, porque sem o "Ordóñez" recusava-se a aparecer”
Eu preferi procurar por: ‘viagens em torno do mundo (dermundo)’ e, depois de aliciantes propostas de viagens de luxo em volta do mundo, também cheguei a bom porto. O livro é:
“Historia y viage del mundo del clerigo agradecido don Pedro Ordoñes de Zevallos … a las cinco partes de Europa, Asia, Africa, America y Magalanice. Contem 3 libros Vasconso, José ed. Juan Garcia imp. Madrid 1614
Pedro Ordoñes de Zevallos (1517 -1627), era natural de Jaen, fora soldado, corsário e mas tarde padre, passou, segundo afirma, 35 anos de sua vida viajando. “Nos dejo a sua vez libros cargados de aventuras, aunque principalmente dedicados as Americas”, escreve o autor da notícia.
O livro, e possivelmente o próprio autor, diriam alguma coisa a Afonso de Torres, já que os Torres eram de origem espanhola, gente que se instalara em Portugal depois da tomada de Granada, e era, tal como Pedro de Zevallos, oriunda de Jaen. Afonso de Torres também levara uma vida de aventuras, devia sentir afinidades com Zevallos. Talvez que o facto do livro ser o primeiro mencionado queira dizer qualquer coisa, quem sabe se não se encontrava à mão quando o livreiro iniciou o inventário. É obra que deve ter tido várias reedições, a estampa que reproduzo é o frontispício da edição de 1691.
Sobre a ordenação dos livros, só podemos concluir que não seguiam qualquer ordem, já que as ‘Viagens del mundo’ são seguidas de um Virgílio, este das ‘cartas do Japão’, estas da ‘Vida de D.Teotónio duque de Bragança’, e este da curiosa e ainda não decifrada: “Primeira parte del par nosso de ouvidio” por 180 rs
Paulo Achmann declarou-se derrotado: “Primeira parte del pai nosso de Ouvidio? Que diabo (releve-me a incontrolável linguagem blasfema) é que o Ovídio tem a ver com o Pai Nosso ? Ainda tentei o português Santo Ovídio, mas revelou-se isento deste delito literário. E o velho Ovídio nem nas Metamorfoses, nem na Ars Amatoria rezava o Padre Nosso ...”
E que fazer com o “Reis de abran Porteleyo Piqueno”? perguntei-me eu. Será Abraham Ortelius?
E o que dizer da “Historia do Principe Polosisisue”?
Espantou-me também a presença de tantos livros italianos naquela lista, até que recordei que Afonso era filho de João Rodrigues de Torres, e que este fora estudante em Pádua. Ainda existe o documento comprovativo da licença que lhe foi dada pela Signoria de Veneza.
“A 14 de fevereiro de 1567, o doge Petrus Lauredanus concede a João Rodrigues de Torres, gentil-homem português, estudante em Pádua, licença de porte de armas e autorização de manter no território da ‘Signoria’ dois criados a seu serviço”. (Vida do Marquês de Sande pg. 23 e nota). O problema dos livros italianos que figuram na lista dos livros de Afonso de Torres estava resolvido, tinham entrado ali pela mão de um estudante português em Pádua.
Não me quero adiantar em outras conclusões, primeiro há que terminar a decifração. O que procurarei fazer a pouco e pouco. Só quando isso estiver feito, se poderá fazer – e tentarei fazer - uma apreciação das leituras de um leitor seiscentista português, e deduzir se possível os interesses proeminentes do homem culto desse tempo.
A Paulo Achmann, que decifrou os primeiros vinte e cinco livros, não queria pedir mais ajuda, e eis que ele me escreve dando conta de novas descobertas, o que prova que ainda não abandonou. E não serei eu que o convide a desistir. Exemplo da sua colaboração é este mail:
“Penso ter resolvido o enigma do "Porteleyo Pequeno". Um portulano, como confirmei com o dicionário, tanto podia ser o códice com as cartas náuticas, como cada uma delas individualmente (são aquelas orientadas pelo norte magnético, com várias rosas dos ventos, e rumos que se entrecruzam sobre o mapa). Ora um desses códices, por pequeno que fosse, não podia valer uns miseráveis 200 rs. Tratar-se-ia certamente de um só mapa ...
---Reis de abran ?? ... abran ??... será o velho Abraão Ortélio ?? ... deixa cá ver o que é que há dele na Biblioteca Nacional ... BINGO !!! :
Abraham Ortelius - "Regni hispaniae post omnium editiones locupleitissima descriptio" (várias edições do séc. XVI e princípio de XVII).
O nosso amigo Lingues (que suspeito se chamaria "Línguas", não de apelido, mas de alcunha, por falar tantas e tão bem ) , com a sua proverbial competência, traduziu Reinos por Reis, e toca a andar ...
Fico ancioso pelos seus elogios. Paulo”
Minha resposta:
“Eu tinha pensado em Ortelius, mas não encontrava ligação entre Reys e Ortelius.. Mil parabéns agradecidos. Já não esperava que continuasse nesta tarefa, mas já que ‘insiste’, não sou eu que o vou dissuadir.”
Participo-lhe a que resolvi mais algumas charades. Entre outras
Nr. 96 – Historia de Mariana 500 rs
Juan de Mariana 1536 – 1623 jesuita, teólogo e historiador espanhol
“Historia general de Espanha” 1601
Nr. 220 – Adevertencia Italiano 20 rs
Deve ser Pedro Mantuano “Advertencias a la Historia de Juan de Mariana” Milano 1611, 2º ed. 1613
Observação à margem
Caso algum leitor esteja interessado em colaborar na decifração, terei muito gosto em lhe mandar uma cópia do inventário

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De bibliotecas

>> segunda-feira, 12 de janeiro de 2009





20. A biblioteca de Hartmann Schedel
Os bibliófilos conhecem o nome de Hartmann Schedel pela sua “Crónica Nuerembergensis”, publicada pela primeira vez em 1493. O impressor foi Anton Koberger e os primeiros exemplares sairam a 14 de julho desse ano. Com as suas 1809 gravuras, é a obra mais ilustrada dos primórdios da impressão. Das gravuras têm especial valor as vistas de cidades, sobretudo de alemãs, mas também de algumas das mais importantes cidades da Europa. Entre elas há uma do Porto, talvez um pouco fantasiada, mas curiosa. Vê-se qualquer coisa, que parece grade ou rede atravessando o rio, como que a fechá-lo naquele local. É questão à parte, para especialistas em história do Porto. O que torna Hartmann Schedel atraente para o amador de livros, é a extraordinária biblioteca que ele constituiu, e a forma como o fez.
Cada biblioteca nasceu e cresceu da sua maneira, tanto as públicas como as privadas. É uma verdade de La Palisse, que não deixa de ser pertinente. As bibliotecas particulares são um espelho do seu criador ou da sua criadora, outra verdade conhecida . Que no passado não foram sempre as bibliotecas dos soberanos e dos príncipes as melhores e maiores, é que talvez nem todos saibam. O riquíssimo D. Manuel I, tinha à data da sua morte, em 1521, cerca de 49 livros. Os duques de Borgonha eram mais dados a livros, em 1467 possuíam uma biblioteca de 900 obras. Por esses anos a biblioteca de Hartmann Schedel, modesto médico de Nueremberga, tinha quase tantas.
Schedel herdou algumas obras, comprou muitas aos copistas e depois aos primeiros impressores, encomendou algumas obras em Itália, mas uma parte da sua biblioteca é constituída por livros que ele próprio copiou. Mesmo depois da invenção dessa arte, os livros impressos eram caros, e os impressores nem de longe conseguiam cobrir a procura dos amadores. Estes copiavam então - tal como aliás até ali o tinham feito - os livros que lhes interessavam. Na cidade de Augsburg (Augusta) havia um grupo de homens, que se reunia para escrever para seu próprio uso - provavelmente sob o ditado de um dos membros do grupo - os livros que os outros tinham, e eles não. Um primo de Hartmann Schedel pertencia a esse grupo, e forneceu-lhe algumas cópias de livros do seu grupo. As bibliotecas dos mosteiros eram ricas, os monges eram os grandes depositários da literatura latina e grega. O doutor Hartmann Schedel pedia licença aos abades para copiar, copiava. Livros de poetas e pensadores gregos e latinos, livros de medicina, de ciência, outros. Copiava.
.O médico tinha de ser astrólogo, da astrologia passava-se à astronomia. Em 1469, Hartmann Schedel inicia a cópia e a aquisição de tratados de astronomia e astrologia. No seu catálogo encontram-se umas trinta e cinco obras relacionadas com o assunto.
O tópico máximo da época era a terra como esfera, e a possibilidade da sua circum-navegação. Numa das margens do seu exemplar da "Ásia" de Eaneas Sylvius Picolomini (o futuro Papa Pio II), publicado em Veneza em 1477, Schedel escreveu a pergunta que ocupava toda a gente culta do tempo: "An terra circumnavigari posit?" "Poder-se-há circum-navegar a terra?"*
E que instrumentos se necessitariam para o efeito? Vários livros tratam desse apaixonante tema:
--Tractatis de astrolabio et -Spere solide et Turketum.
--Tractatus Spere cum figuris Euclidis;
--Astronomicon Iginii. Alcabicius cum commento. Abraham judeus de nativitatibus. Composicio astrolabii. Repertorium de mutatione aeris.
--Astrolabium Messahali cum figuris quadrans profacii judei, de Turketo. Chilindro etc.
--Descripio Astrolabii. Julius Firmicus. Astrologia Arati. Geometria Euclides per Boethium traducta .etc.
E por fim temos uma obra que Schedel regista como: “Astrolabium planum in tabulis. Algorismos. Computus. Tractatus de Spera Jo(annis) de Sacrobosco. Liber quadrantis. Astrolabium".
Trata-se sem dúvida do livro que veio a ser conhecido em Portugal por "REGIMENTO DO ESTROLÁBIO E DO QUADRANTE. TRACTADO DA SPERA DO MUNDO”, e com o registo desta obra na sua biblioteca, Hartman Schedel passa a ser um dos protagonistas do enigma histórico-literário que podemos designar por “Caso dos Guias Náuticos”.
O caso surgiu em 1865 quando um jornal de Évora publicou o texto da carta de um tal Jerónimo Muenzer, alemão, dirigira a D.João II no ano de 1493. Em 1883 o doutor Luciano Cordeiro dava a conhecer o livro onde vinha a dita carta. Ficou-se a saber que o referido livro - pertencente à biblioteca de Évora - continha, além da carta de Muenster, umas tábuas náuticas, um resumo do “Tratado da Esfera” de Sacrobosco e um “Regimento do Astrolábio e do Quadrante”, tudo em português.
Em 1890 um matemático alemão revelava a existência na Biblioteca Real de Munique de uma obra que parecia idêntica à de Évora. E, em 1914, o doutor Joaquim Bensaúde pegou no assunto e, comparando os dois livros, o de Évora e o de Munique constatou que tanto o exemplar de Évora como o de Munique continham a mesma tradução do “Tratado da Esfera” de Sacrobosco, e que em ambos os livros havia um “Regimento”, uma instrução para o uso do Astrolábio. A diferença era que o exemplar de Munique continha explicações minuciosas, nitidamente destinadas a navegadores novatos “da forma de calcular as latitudes pelo conhecimento da altura do sol” , e que a obra de Évora não continha essas informações, pelo que a última se destinava decerto a navegadores mais experientes. Os dois livros davam as latitudes de pontos já descobertos, mas enquanto o exemplar de Munique abrangia somente locais da costa africana atlântica até ao Equador, o de Évora abrangia já Java e as Molucas. O exemplar de Évora era portanto mais moderno que o de Munique, e era esse, o mais antigo , que devia ser estudado.
Foi o que o Dr. Joaquim Bensaúde fez, tendo publicado os seus estudos em várias obras. Seguiram-se estudos de outros investigadores, e, em 1998, entrei também eu para essa lista com um pequeno estudo sobre a possível proveniência e data do referido livro. Dá-se agora o caso de eu querer corrigir uma das afirmações que fiz no trabalho original - cujas conclusões não se modificam por isso - e acrescentar um novo dado, e lembrei-me de publicar essa versão revista e emendada na Net.
Não sei se haverá entre os possíveis leitores do meu ‘libri.librorum’ alguém que se interesse por um caso de investigação histórica e literária como o dos “Guias Náuticos”. É uma das incógnitas deste novo meio de comunicação. Mas basta haver um leitor interessado para já me considerar compensada. Decidi portanto divulgar aqui em PDF o dito estudo numa segunda ‘edição’.
Primeiro tenho de ver como isso se processa, pode demorar tempo. Avisarei logo que a coisa estiver feita.

*Stauber, Dr. Richard Die Schedelsche Bibliothek Herdersche Verlagsbuchhandlung 1908

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Libri.librorum pretende ser um blogue de leitura e de escrita, de leitores e escritores. Um blogue de temas literários, não de crítica literaria. De uma leitora e escritora

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