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Primeira frase

>> segunda-feira, 15 de dezembro de 2008


16. A primeira frase
Tenho um pequeno livro contendo a compilação das melhores respostas recebidas num concurso organizado na Alemanha, no qual os participantes - de crianças a adultos - deviam indicar qual o livro em língua alemã “cuja primeira frase os tinha especialmente encantado e impressionado, ou que lhes tinha provocado mais curiosidade, e que no seguimento tinha cumprido a promessa da primeira frase, proporcionando-lhes o prazer de uma boa leitura”.
Ou seja, os participantes, deviam não só indicar a frase, como explicar o porquê da sua escolha. O concurso teve óptima aceitação, responderam alunos de escola primária, punks, escritores, professores, o presidente do parlamento.
Achei graça constatar nos participantes mais pequenos a predilecção pela frase com uma certa musicalidade. Uma rapariga de oito anos escreve que era por isso, e por causa do nome dos ‘vavuchos’ que gostava da sua primeira frase:
“Era um lindo dia de verão, o sol brilhava na floresta, e na sua montanha os vavuchos escutavam”. Não li o livro, ignoro que criaturas sejam os vavuchos, mas percebo a leitora.
Muito escolhida foi também entre os mais novos a primeira frase do conto “A Transformação” de Kafka, e muito curiosas as explicações para essa escolha. As explicações da opção são talvez a parte mais valiosa do concurso.
Alguns não-concorrentes deram a sua opinião sobre o que lhes importava na primeira frase de um livro. Da parte dos escritores consultados havia unanimidade, todos declaravam dar particular importância à primeira frase. Entre os leitores, havia os que julgavam o livro pela sua primeira frase, e não liam para diante, se esta não lhes agradava, havia outros menos radicais, mas, com uma única excepção, eram todos da opinião que a primeira frase marcava o livro.
Pensei também eu sobre o assunto.
Acho natural dar importância à primeira frase, e nunca comecei um livro sem a ter considerado e escrito. Posso depois modificá-la um pouco, mas na essência não mudará.
Como leitora, é possível que alguma vez tenha escolhido um livro pela excelência da sua primeira frase, mas é o que leio no interior que me guia. Começo por abrir o livro desconhecido ao acaso, leio umas linhas aqui, umas linhas, ali, e só depois vou ao início e leio a primeira frase. Se o livro é bem escrito, a primeira frase decerto também o será. Não necessariamente, memorável, mas decerto adequada. Nessa altura ainda nem sei se vou gostar do livro, ou não. Ora, é depois de ter lido o livro, e gostado dele que fixamos a sua primeira frase. Se ela é digna disso, evidentemente. Há inúmeros livros que lemos com gosto, que até relemos, e que começam com primeiras frases que não nos passa pela cabeça recordar. Dizem aquilo que têm a dizer - cumprem a sua obrigação - são frases perfeitamente adequadas ao texto que se segue, mas não são “memoráveis”.
Há primeiras frases, e primeiras frases.
Há uma ou outra primeira frase de que nos recordamos, por gosto pessoal, sem que ela seja, em si, “memorável”.
Há a modesta primeira frase de um livro preferido em criança.”Natal, não é Natal sem o pai, disse Jo” nas “Quatro Raparigas” de Luísa May Alcott
De algumas primeiras frases podemos ter esquecido o texto completo, mas basta ouvir delas as primeiras palavras, e sabemos de imediato de onde vem. São os prelúdios das grandes obras da literatura.
--“Muita coisa de espantar nos é dita em velhas sagas: de heróis de grande fama, de trabalhos sem conta, de alegrias e altos momentos, de lágrimas e lamentos”
A primeira frase do canto dos Nibelungos

--“No meio do caminho em nossa vida, eu me encontrei por uma selva escura, porque a direita via era perdida”,
da Divina Comédia, agora traduzida por Vasco Graça Moura:

--“As armas e os barões assinalados, que da ocidental praia lusitana, por mares nunca antes navegados, passaram ainda além de Topobama”
dos Lusíadas,

--“Estudei, ah! filosofia, juristeria, medicina e, infelizmente, até teologia com firme empenho”
do Fausto, de Goethe

Em outras obras de ficção, talvez tenhamos fixado a primeira frase, pela sua extraordinária afirmação, como sucede em Ana Karenine de Tolstoi
--“Todas as famílias felizes se assemelham, mas as infelizes são cada uma infeliz à sua maneira.”

Algumas primeiras frases marcam de imediato o tom da obra. Em As Três Irmãs de Anton Tchekow é a nostalgia:
--”Foi exactamente há um ano que nosso pai morreu, neste mesmo dia cinco de Maio, o dia do teu aniversário, Irina.”
O mesmo sucede em Brideshead Revisited de Evelyn Waugh
--“Eu já antes aqui tinha estado”

Algumas traçam em uma linha o retrato do principal protagonista da estória:
--“O meu amigo Jacinto nasceu num palácio com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e olival” As Cidades e As Serras Eça de Queiroz

Algumas primeiras frases questionam:
--“Como se chega a esse misterioso arquipélago?” O Arquipélago Gulag A. Solchenitzyne

Em algumas delas, as palavras têm uma certa cadência:
--“Num fim de tarde excepcionalmente quente, em princípios de Julho, um homem novo saiu do sótão onde vivia na praça S. e dirigiu-se lentamente, como que hesitante, em direcção da ponte de K.”
Crime e Castigo Fyodor Dostoiewsky

--“Desde as quatro horas da tarde, no calor e silêncio do domingo de Junho, o Fidalgo da Torre, em chinelos, com uma quinzena de linho envergada sobre a camisa de chita cor de rosa, trabalhava.” A Ilustre Casa de Ramires Eça de Queiroz
33 palavras em Dostoiewsky, 35 em Eça.

Algumas primeiras frases parecem pequenas para tão grandes obras, e, no entanto...
--“Durante muito tempo deitei-me cedo”
Du Côté de chez Swann” Marcel Proust
--“Era uma noite fria de lua nova”
O Tempo e o Vento Erico Veríssimo

Algumas primeiras frases são irónicas:
“É uma verdade universalmente reconhecida que um homem possuidor de uma boa fortuna tem de estar à procura de mulher”
Orgulho e Preconceito de Jane Austen

Isto, quanto a ficção. A poesia é um caso àparte. Mas também na outra literatura, nas grandes obras de História, nas Memórias, em Biografias, não faltam memoráveis primeiras frases.
--“Como produto do nosso ensino estatal, acabei a escola em 1832 como panteísta, e se não como republicano, em todo o caso com a convicção de que a republica era a forma de governo mais racional, e a reflexão sobre os motivos que levavam milhões de homens a obedecer a um só, enquanto ouvia à gente crescida tantas acerbas ou irónicas críticas aos soberanos.”
Pensamentos e Recordações Otto v. Bismarck

O que todas as primeiras frases que se recordam, que merecem ser lembradas – que são memoráveis - têm em comum, é que todas, de uma ou de outra maneira, dão a entender ao leitor o que o espera na leitura que se segue. E nenhuma memorável primeira frase - seja ela curta ou comprida - tem palavras a mais.
Acho eu. Mas quem sabe se não me podem provar o contrário.
E a sua primeira frase?

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Libri.librorum pretende ser um blogue de leitura e de escrita, de leitores e escritores. Um blogue de temas literários, não de crítica literaria. De uma leitora e escritora

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