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Livros de Viagem. Através dos Estados Unidos no ‘Great Pacific Railroad’. Fim

>> segunda-feira, 8 de junho de 2009




“A vista de S. Francisco é feiíssima”. É essa a primeira impressão de Maria Theresa, mas depois emenda: “não percebo como, parece feio, quando não é nada. Infelizmente chegámos aqui ao meio dia por virmos atrasados imensíssimo, de modo que não pudemos ouvir missa. ............ Os ‘carros americanos’ aqui são como os de Chicago, postos em movimento como os do elevador da Glória. É muito ratão ver andar uma quantidade de carros, sem se verem puxados por animais; em geral vão dois ou três carros juntos, uns, fechados como os nossos, outros, abertos. Estes últimos têm um corredor ao meio e ao comprido onde está o homem que faz parar e andar o ‘americano’, e dos dois lados há uma linha de bancos em que se está com as pernas para a rua; percebeu a minha explicação? Metemo-nos ontem num dos abertos, e passámos por uma grande parte da cidade. ........Do ‘americano’ passámos para um caminho de ferro, que tem carros abertos e nos levou em vinte minutos à ‘Ocean Beach’ ou ‘Cliff House’.* que me fez lembrar Gibalta*pela situação. ......Em ‘Cliff House’ estava ‘le pouvoir du monde’ a ver o Boyton e as focas, que era o que nós íamos ver. Há dúzias delas, encarrapitadas nos rochedos, fazendo uma tal quantidade de movimentos com a cabeça para diante e para trás que fazem efeito de estarem a fazer cortesias. É muito engraçado.
4 de Maio 1886. Viagem à China em 3 horas. Posso dizer que estive no Império Celeste, pois quem vai ao bairro dos chineses vê a China em pequeno. ...... Fomos com o cônsul português; entrámos numa botica chinesa, conhecida do cônsul; é linda, as portas todas douradas e tudo limpíssimo. Nos tetos estão suspensas lanternas douradas por eles, ao balcão estava então o farmacêutico fazendo os seus remédios. Neste bairro não se vê senão chineses. Sabe quantos há em S. Francisco? Uns 40.000, mas vivem num espaço em que viveriam brancos em número duas ou três vezes menor, pois nós passámos por uma casa, que lhes serve de hotel, e onde estão 1000 pessoas, me parece, e onde caberiam talvez pouco mais de 100 brancos. Mas a razão é que eles em cada quarto fazem duas ou três ordens de andares e aí vivem encarrapitados uns por cima dos outros como sardinha em pilha.”
Os dois turistas tomaran chá à moda chinesa e com um chinês, que andara com eles desde a botica. “Que delícia de chá verde!” Maria Theresa fizera a operação dificílima de deitar o chá para a xícara muito bem e sem se escaldar. “apanhei um elogio do chinês, que não o fez ao papá, que se escaldou e entornou chá. .........”
No dia 4 de Maio foram ao Golden Gate Park, no dia 5 deram um passeio de carruagem com o cônsul português e a mulher, “ao todo 20 léguas, o passeio foi lindo, mas assaz cansado”.
No dia 6, os viajantes vêem fundir oiro e chumbo “A prata já tinham fundido mais cedo, mas vi-a depois em barras enormes e em tal quantidade espalhadas pelo quarto como se fossem batatas ou laranjas ou outra qualquer coisa de pouco valor. Não sei explicar como se faz, o que sei é que se deita em fornalhas em brasa e depois põe-se dentro dumas formas. O oiro depois de consolidado é uma beleza...... Tenho um bocadinho de pedra com algum oiro entremeado, que me deu um dos homens”.
No dia 7 de Maio pai e filha iniciam a viagem de regresso, vão pela linha do Sul e ainda não sabem se irão ao México. Em El Paso é que se há-de decidir.
“El Paso é uma cidade pequena que separa a fronteira americana do México. Daí partem os comboios para a cidade de México. Se o preço dos bilhetes for ao nosso alcance, iremos ver aquele país tão famoso. .......... O país é lindo, vinhas por toda a parte, sem lhe faltar uma cepa, algumas são da grossura duma árvore. Esta manhã passámos por uma verdadeira mata de cactos, principiam por aparecer pequenos, depois um pouco maiores, e pouco a pouco vêm aumentando até haver milhares do tamanho duma árvore; depois vão diminuindo até desaparecerem de todo. Chamam-se ‘Jucca’ e dão uma fruta parecida com banana. Jantámos em Los Angeles, que é bastante grande.”
Ao atravessarem o Arizona pai e filha escrevem cartas que esperam deitar no correio num local chamado "Lisboa" por onde irão passar,
Afinal a tal Lisboa compunha-se “dum barrote espetado no chão com um letreiro em que se lê ‘Lisbon’ a distância a S. Francisco tanto, a el Paso tanto etc. ....pode ser que para o futuro venha a ser um importante centro de povoação e venha a competir com a sua velha homóloga, comenta João Ferrão em carta à sua mulher, e acrescenta:
“Não foi perdido o tempo que estive em S. Francisco. Trouxe de lá informações que podem ser úteis ao nosso país...............Não se passarão muitos anos que a Europa encontre nos vinhos da Califórnia um rival tão poderoso e temível como o têm sido os trigos do Illinois e do Indiana. Na Europa julga-se que são imbebíveis esses vinhos, pois posso por experiência dizer que já os há óptimos.............”
Decidiram-se pela ida ao México “Não me permitem os meus velhos instintos de vagabundagem perder uma ocasião que talvez nunca mais me apareça. Depois de alguma hesitação pusemo-nos outra vez a caminho, aproveitando a facilidade que dão os bilhetes americanos de se parar onde se quer e todo o tempo que se quer, e não perdendo por isso os que tínhamos tomado em S. Francisco para S. Luís. As distâncias aqui são tão grandes, são tão económicas e tão cómodas as viagens, que não nos pareceu nada acrescentar mais 4000 quilómetros aos 10000 da viagem de S. Francisco............”.
Como à sua mulher decerto nada interessaria tanto como o que se referisse à filha, ele repete o que já dissera: não havia melhor companheira de viagem. “Não sabe o que é cansaço, dorme as suas 8 horas a fio e as três comidas fortes que aqui são usadas não são demais para ela”.... “o humor é sempre óptimo, nunca vi génio mais igual, com menos exigências. Quando pode, não perde, já se vê, ocasião para as orações......É impossível, repito, ser melhor e mais fina, e quando digo isto o elogio é principalmente para ti, a quem decerto os nossos filhos devem necessariamente o que são, porque a minha vida atribulada pouco ou nada me tem deixado ocupar da educação deles”.
A 20 de Maio, pai e filha estão de regresso aos Estado Unidos.
“21 de Maio 1886. Texas. Tinha tenção de escrever ontem, mas tivemos um dia tão aventuroso que não tive mesmo ânimo nenhum para pegar no lápis; mais adiante contarei o que nos aconteceu. Partimos de México (tem-me custado a decidir a dizer de México em lugar do México, mas é assim que deve ser. Falando-se do país, é que se diz do México, mas lembra-me sempre a D. Maria a dizer: “fui a palácio”) no domingo, 16, à noite, e pela mesma linha. Pelo facto de ter chuviscado um pouco, o que não acontecera no norte do México há perto de três anos, pareceu-nos o país um poucochinho mais bonito. Chegámos a El Paso na manhã de quarta-feira; de dia voltámos ao México, a El Paso del Norte, para comprarmos umas garrafas de vinho feito lá, e que o papá desejava provar. Entrámos na igreja que estava aberta e onde estavam fazendo o Mês de Maria. A igreja é pequena mas antiquíssima, o teto é de madeira escura bem trabalhada, o que são também as grades do coro, mas infelizmente pintaram-as de branco. Estava bastante gente para uma povoação tão pequena. Que tristeza, quando se pensa que na nossa terra não há uma igreja aberta de dia nem mesmo ao domingo, e que se resume o culto a uma missa de 10 minutos.
Fomos para o ‘sleeping car’ às 2 e meia da manhã........Até ontem ao meio dia não vimos senão descampado, horrendo, seco como um carapau; a essa hora teve-se aviso que estava um comboio de mercadorias descarrilado na frente; duas horas ou três era o mais que imaginávamos ter que esperar, mas faça ideia que não nos mexemos senão às 10 da noite ou mais mesmo.
Durante o dia o calor foi atroz, a seca igualmente, e a fome e sede não pequenas; felizmente tínhamos já almoçado antes, porque não comemos depois senão um pouco de presunto e pão que havia no mesmo comboio. O jantar ficou no tinteiro, pois onde devíamos chegar às 4 para jantar, chegámos à meia noite, e esta manhã almocámos às 8 onde devíamos ter chegado às 7 da manhã. Para mais ajuda, já não havia água para a máquina, de modo que também tivemos de estar à espera que viesse água de longe, e a de beber também estava esgotada. O papá foi a única pessoa que pensou em pôr água dentro duma botija pequena que levávamos, para de vez em quando beber um nico d'água e eu outro. Enfim, depois de termos esperado por tudo quanto há, que passassem dois comboios, que se arranjasse a linha etc, pusemo-nos em marcha, mas em resultado disto chegamos a S. Luís no domingo de manhã em vez de chegar hoje à tarde, sábado. ...........
22 de Maio. Arkansas. Ó maman, que beleza que tem hoje sido o dia todo e parte do de ontem! O que a maman gostaria de ver a floresta que nós principiámos a atravessar ontem ao meio dia e na qual ainda estamos! (quatro da tarde) É uma floresta virgem, a coisa mais bonita que se possa imaginar, composta de árvores altíssimas e grossíssimas, juntas umas às outras dum verde variadíssimo; várias vezes temos passado por cima de uns rios lindos com as bordas cheias de verdura da mesma mata. Não há consolação quando se pensa que daqui a uns anos talvez já não exista uma árvore, pois já estão cortando imensas para poderem cultivar a terra.
Jantámos ontem pessimamente, mas não admira muito porque não éramos esperados e comprámos ceia onde devíamos ter almoçado de manhã, e hoje almoçamos na estação em que devíamos ter ceado ontem”.
*Gibalta. Alto entre Caxias e Boa Viagem, onde a família Mascarenhas tinha uma casa.

Pedido de informação:
Alguém me sabe dizer se o “pouca terra, pouca terra”, que se dizia às crianças ao ver passar o comboio, é um simples dito popular, ou se é tirado de texto literário?

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Livros de Viagem. Através dos Estados Unidos no ‘Great Pacific Railroad’. Contªº

>> sexta-feira, 5 de junho de 2009



Continuação

“Pelas duas começou-se a avistar uma cadeia de montanhas altíssimas cobertas de neve de alto a baixo e brilhando tanto com os raios de sol, que a vista não era inferior, diz o papá, a alguns dos Alpes. Mas pelas 4 horas chegou a recompensa do desapontamento da manhã e da tarde anterior: que beleza, que grandioso, que esplêndido, que encanto e todas as mais expressões lisonjeiras que queiram! Fomos para a plataforma e, como sempre, os primeiros. É impossível descrever. Imaginem montanhas que parecem chegar ao céu, cobertas de neve, deixando de vez em quando aparecer a cabeça dos pinheiros. Depois, rochedos suspensos por artes breliques breloques com uns feitios muito ratões. Uma das coisas mais curiosas naqueles desfiladeiros estreitíssimos é numa montanha muito alta haver um buraco muito fundo desde cima até abaixo, e, dos dois lados, tem dois muros de pedra que parecem ter sido feitos de propósito. Chamam a este buraco: ‘Devil slide’. A beleza que é, depois de sair dum dos túneis, ver, ou as serras por cima da cabeça, se pode dizer, e deixando apenas espaço para se passar, ou então, as torrentes de água saindo dumas grutas e passando para o outro lado por baixo da linha. Não se imagina. Depois de sairmos do último túnel, e o mais célebre, ‘Weber Canon’, entra-se num vale verdíssimo com montes brancos dos lados, e no fim vê-se Ogden, uma cidade dos mormons.
Ogden é muito pequena, mas bonita pela sua situação aos pés dos montes. Vimos aí um homem completamente vestido de branco e com uma espécie de turbante na cabeça que decerto era um dos santos porque temos ideia que alguns deles andam vestidos dessa cor inocente. Também em Ogden vimos um chinês de rabicho caído; era enorme, grossíssimo e atado nas pontas que chegavam a baixo dos joelhos com uma fita preta. Em New York tenho visto bastantes, mas todos trazem o seu querido rabichão enrolado à roda da cabeça.
Saímos d'Ogden com uma hora de atraso por estarmos à espera dum comboio que vinha atrasado, de maneira que não pudemos chegar de dia a Salt Lake. Agora, para ganhar o tempo, estamos andando num tal galope que não posso quase escrever. Como nós descemos as rampas das montanhas rochenses (!) quanto a máquina podia, mas nem por isso deixámos de ver o bonito espectáculo de ontem à tarde.
Esquecia-me dizer que vimos também em Ogden um índio e uma índia. Que figuras! E hoje na estação onde almoçámos vimos imensos: são encarnadíssimos e parecendo muito fortes, uns trazem chapéus de palha com uma grande pena espetada, outros chapéus parecendo tampos de cestos cobertos de paninho encarnado; todos os que vi andam vestidos como toda a gente, só com a diferença de ser esfarrapado e sujíssimo. Alguns têm umas mantas de cores vistosas por cima do fato. Uma mulher tinha uma criança metida numa ‘hotte’ de madeira; não foi possível consentir em ver a criança, apesar de se lhe dar por umas poucas de vezes dinheiro (era o que ela queria); a pobre criaturinha estava metida dentro da tal caixa de madeira de feitio de ‘hotte’ tão amarrada e enrolada que não se podia de todo perceber onde ela tinha a cabeça, mas depois de voltar para dentro vi-a deitar a cabeça fora dos trapicalhos; já era bastante grande. Entramos logo na Sierra Nevada. O tempo lindo.
S. Francisco 3 de Maio 1886
Jantámos antes de ontem em Humboldt, um oásis no meio do deserto. Humboldt tem talvez uma dúzia de casas ou menos mas o ‘restaurant’ é grande e a comida óptima, a água é abundantíssima, de modo que aquele lugar está coberto de erva e árvores; quem dirá que é a mesma terra árida que vimos desde manhã que produz toda aquela verdura, a água faz esse milagre. Passámos ao pé do lago Humboldt, estreito, mas muito comprido e duma cor linda. Ao pé do lago estavam imensos índios, uma mulher andava com um filho às costas e duas pequenas estavam brincando com duas bonecas de trapos metidas numas ‘hottes’ pequenas, mas de palha. O papá estava com vontade de comprar este brinquedo índio, mas afinal não o fez. À noite entrámos na Sierra Nevada; como vínhamos com perto de 3 horas de atraso, passámos às 3 horas e meia da manhã pelos pontos bonitos. O papá, que não dormiu nada nessa noite, levantou-se às 2 e meia, mas os ‘socastes’ (corredores de madeira que fazem em pontos onde há perigo de avalanche) sucedem-se uns aos outros com tão pouco intervalo que nada se pode distinguir. Às 4 foi-me o papá chamar, como eu lhe tinha pedido, porque já havia luz, e a vista já principiava a ser bonita. Descemos de escantilhão aquelas serras cobertas de árvores e de flores, que têm precipícios enormes. Sabe como é feita a linha sua conhecida? Como não puderam fazer o caminho na serra por causa da dureza da rocha, fixaram-no por fora: uns paus enterrados no chão e que na altura da linha foram encaixados na rocha por homens suspensos por cordas sustentam os rails*. A vista desse ponto tão seguro é tudo quanto há de mais bonito.
Depois de passar as serras altas, entra-se na Califórnia que é um verdadeiro parque, por toda a parte se vêem vinhas, pomares, casas de madeira muito engraçadas, com trepadeiras de cima até a baixo e jardins à roda com imensas árvores; enfim, é lindo este país, o papá acha parecido com o nosso Minho. Às 9 almoçámos no Sacramento, que pouco se vê do comboio; pouco depois vê-se o Pacífico e depois a baía, que forma como uns poucos de lagos estreitando e alargando umas poucas de vezes. É muito bonita. Em Oakland, uma cidade diante de S. Francisco passámos para um ‘ferry boat’ .

* Este ‘cabo’ era uma parede rochosa de 2.700 pés de altura, que subia a pique do ‘American River’ e que praticamente não oferecia um único ponto de apoio. Mas os chineses teceram grandes cestos de vime, marcaram-nos com sinais coloridos para afastar os espíritos, e ao apito anunciando o nascer do sol, marchavam silenciosamente para o topo do abismo. Nos paus de bambu de transporte de carga, levavam em uma das pontas os seus cestos e na outra ponta barris com chá. Eram baixados centenas de pés ao longo do penhasco nos seus cestos, cortavam lascas da rocha, formando as pequenas cavidades onde inseriam pólvora negra, depois trepavam lestamente pelas cordas acima até ao topo, puxando os seus cestos atrás de si. (traduzº de transcontinental_rr.ppt ) Continua na Segunda-feira, 8

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Livros de Viagem. Através dos Estados Unidos no ‘Great Pacific Railroad’. Contªº

>> quarta-feira, 3 de junho de 2009




“Ontem, 27, chegámos a Chicago às 8 e meia da manhã. Antes de entrar na cidade costeia-se durante meia hora talvez o lago Michigan, que parece o Oceano pelo tamanho. Fomos deixar as bagagens à estação onde devíamos embarcar à noite, e depois de almoçarmos pusemo-nos a percorrer a cidade sem parar um instante. Parece incrível que em meia dúzia de anos se possa fazer uma tão bela cidade como Chicago é hoje. O pavimento das ruas é um horror como o de New York, mas há edifícios soberbos, entre outros o da Câmara é esplêndido. Metemo-nos no americano, fomos a Lincoln Park, que é o melhor da cidade e dizem mesmo da América; está situado sobre o Michigan, é muito grande e bem traçado, as árvores já têm bastantes folhas e o gazon dos canteiros está agora verdíssimo. Em suma, achámos este parque superior ao Central-Park de New York. Vimos por fora o edifício onde estão as máquinas e o túnel que traz água do fundo do lago (para ser mais pura) para Chicago. Não entrámos dentro por ignorarmos o que se pagava, mas também, não se vendo o túnel, não valia a pena ir ver as máquinas, o que vimos por fora menos mal. Foi só para dizermos que tínhamos visto os ‘water works’ de Chicago. Depois fomos à catedral, que é bonita, mas não tem nada de especial. Queríamos ir ver uma igreja que dizem muito bonita, mas por causa dum engano de americano achámo-nos bem longe dela, e já era tão noite que não tivemos pernas que nos levassem lá, todo o dia não tínhamos parado. Jantámos na estação e, às 9 e meia, fomos para o ‘sleeping car’ esperar que o comboio partisse às 10 e meia. Depois de estar deitada ainda vi uma cidade bastante grande, que atravessámos pelo meio sem o menor cumprimento. Aqui consideram o vapor como um cavalo qualquer.
Almoçámos hoje, 28, no comboio e temos passado o dia nas famosas ‘prairies’ do centro da América que dizem tão feias; não temos achado isso, não são tão planas como se diz, e o campo é tão verde e a terra parece tão rica que faz gosto ver. O papá tem estado encantado com a fertilidade e riqueza do solo. Além disso ainda há muitas florestas com pequenos rios cortando-os a cada minuto. São mais de cinco horas da tarde e ainda não acabámos de passar estes campos. Só vendo, se faz ideia do tamanho deste país, que os americanos chamam o mundo, pois quando perguntam a alguém de que estado é, perguntam: "de que parte do mundo é você?"
Chegamos a Counsil-bluff sobre o Missouri à noite. Estamos lá uma hora e depois seguimos para diante. Infelizmente os pontos mais bonitos e mais altos das Montanhas Rochosas e Sierra Nevada passamo-os de noite. A maman lembra-se de ver num livro do papá uma vista da Sierra Nevada, em que o caminho de ferro passa quase em cima do monte a 4000 m de altura e dá uma volta curva e que a maman não quis continuar a ver? Pois passamos por aí de noite. Mas como o papá quer ver esses pontos altos, à volta voltamos pela mesma linha para os ver então de dia e depois vamos mais pelo sul para ver as ‘Mamouth Caves’. (Nota: 2 de Junho New York. Afinal vimos tudo de dia à ida)
Os bilhetes de ida para S. Francisco custaram 28 dollars em vez de 160, mas soubemos que tinham subido a 72, de modo que à volta não tomamos bilhetes directamente para New York, mas só até Washington, me parece que é, e depois compramos então ‘excursion tickets’ que são muito mais baratos. Não podemos ir ao Niágara de passagem para S. Francisco como imaginávamos, mas é fácil ir depois mais tarde de New York. Pode-se ir e voltar em dois dias.
Quinta feira, 29, à tarde.
Chegámos ontem a Counsil-bluffs às 6 e meia e vou contar um episódio curioso e engraçadíssimo. Na hora que ali estivemos havia muitas coisas a fazer: cear, compra de bilhetes para o ‘sleeping-car’, e troca dos caminhos de ferro, e despachar as nossas bagagens que o tinham sido só até ali. Nesta terra, em qualquer estação que parece insignificante, há tanto movimento como em Lisboa. Não digo mais para não se “escandalizarem”. Milhares de malas havia ontem no quarto das bagagens, e apesar de estar tudo muito bem organizado sempre leva tempo. Como o papá se demorou na compra dos bilhetes, já tínhamos dito o número das nossas coisas quando o papá chegou, e por mais que dissesse, que estava vendo as malas, e que partia daqui a minutos não havia meio de o atenderem. Mas, por felicidade, ao pé do papá estava uma senhora a quem tinha acontecido o mesmo, e a quem serviram logo assim como todas as outras. O papá, vendo isto, corre chamar-me para ver se conseguia o que se queria. Foi ‘l'affaire d'un instant’. Rimos depois imenso desta aventura; aqui são polidíssimos com as sanhoras. Daqui em diante ponho-me à frente quando houver qualquer dificuldade, mas também teve graça o homem das malas não querer ouvir as respostas que o papá fazia às perguntas dele, mas esperar que eu respondesse.
Atravessámos o Missouri - que nesse ponto é larguíssimo - numa ponte que parece de papelão. Esta manhã almoçámos bastante bem numa estação e jantámos às 7 e meia em Sidney. Continua a prairie, mas menos bonita por ser completamente plana, o que faz parecer um mar. Assim mesmo é bastante povoada, nunca se deixa de ver ao pé ou ao longe casinhotas de imigrantes e o gado é abundantíssimo, mas assaz feio. Decerto sabe que nestas regiões há uma quantidade de cães bravos muito curiosos a que chamam ‘prairie dogs’, temos visto imensos. Fazem uns montinhos como as formigas (são do tamanho dum esquilo) e aí se metem nos buracos que estão feitos no meio dos montes. São cinzentos e parecem focas; quase todos estão em cima das suas ‘tanières’ sobre as patas detrás, é engraçadíssimo. Em cada buraco há uma coruja e dizem também uma serpente que vive com eles; é ratão. O papá, lendo o que eu escrevi até agora, deu-lhe vontade de rir eu dizer, que não é nada ir de New York ao Niágara, e diz que a maman decerto vai dizer que eu estou uma americana; não estou, nem nunca o virei a ser, esteja certa, mas na verdade o modo de viajar é tão cómodo que dois dias de caminho de ferro nada cansam. Já estamos aqui há quase cinco dias e não sentimos o menor incómodo, a comida, ou dentro, ou na estação, é boa geralmente, as camas são óptimas, e de dia está-se o mais confortável possível: uns lêem, outros trabalham e conversam, outros põem almofadas nos canapés, que de noite se transformam em camas, e fazem o seu sono, alguns escrevem - o que eu estou fazendo agora - sobre uma mesa que se arma no intervalo dos canapés. Para distrair vem a cada instante um homensinho vender laranjas, bananas, barretes de viagem para homens, jornais, revistas etc. Não há nada que o infeliz não ofereça ao viajante, mas só jornais tem vendido, de resto só vendeu um livro a uma senhora e um guia e duas bananas a nós. Também não admira muito que não faça bom negócio, faça ideia que três laranjas custam 25 cents, isto é 225 reis, e tudo mais em proporção. Desde Chicago tem vindo connosco uma senhora americana com quem temos conversado; vai para Salt Lake City, o que nos fez imaginar que ela era uma das noivas do Brigham Young*, mas depois, pela conversa e pelo bilhete, vimos que não. Tivemos ontem durante o jantar uma trovoada bem boa, mas fora isso temos tido um tempo lindo e o céu parece de Lisboa. São quase 4 horas, estamos a avistar as Montanhas Rochosas, vou-me pôr a ver. “
1 de Maio 1886
É sem igual o desapontamento que tivémos com a primeira parte das montanhas que, como disse, principiámos a ver antes d'ontem. Como já há dois dias estávamos subindo, os primeiros montes não faziam efeito algum, nem uma árvore ou uma ervinha era visível. Só pelas 8 horas da noite principiámos a ver os montes cobertos de neve e a juntarem-se uns aos outros. Fomos para a plataforma e durante meia hora talvez, foi linda a vista; passámos por uma ponte chamada Dale Creek Bridge**, que não tem a largura senão a necessária para por os rails e rodeada dos dois lados de precipícios enormes cobertos de neve e de pinheiros, assim como alguns montes pequenos ao pé. Depois começaram os montes a desaparecer, e achámo-nos de novo na planície apesar de estarmos a uma elevação imensa acima do nível do mar. Toda a manhã de ontem foi feia, a aridez dos montes não pode ser maior, mas têm uns feitios os mais curiosos possível, tanto os montes como os rochedos. Uns parecem ruínas de castelos, outros colunas, esfinges, leões deitados e mil outros feitios muito estrambólicos.
* Brigham Young era o presidente da igreja de “Latter Day Saint’s” da seita Mórmon. Os mormons praticavam poligamia, e a Brigham Young são atribuídas 55 mulheres, tendo 57 filhos de 16 delas.
**A ponte tinha 200 m de comprimento e 38m de altura no seu ponto mais alto. Originalmente construida em Madeira, foi depois substituida por uma estrutura de ferro. Era a passagem mais perigosa em toda a linha. (Wikipeda)

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Livros de Viagem. Atraves dos Estados Unidos no 'Great Pacific Railroad'

>> segunda-feira, 1 de junho de 2009




Em meados do século XIX inicia-se a era da viagem do comboio. A novidade era naturalmente comentada em cartas e conversas, mas havia viagens que mereciam um pouco mais, e, quando em 1886, uma rapariga portuguesa da minha família foi com o pai aos Estados Unidos, e o acompanhou numa viagem no ‘Great Pacific Railroad’, que os levou de Nova-York à costa do Pacífico, o caso foi digno de ser recordado em diário.
A par das cartas que ela então escrevia e deitava no correio em todos os pontos em que isso era fazível, Maria Theresa, a rapariga em questão, - bem à moda do tempo - ia redigindo o seu ‘diário de viagem’, que depois passará a limpo e enviará à mãe.
Consultei o site do “Central Pacific Railroad Photographic History Museum”. para saber o que se tinha escrito sobre aquele famoso comboio. Há inúmeros livros sobre a construção da via férrea, as suas enormes dificuldades, os problemas de engenharia de construção, e de mão de obra, mas não são muitos os testemunhos dos primeiros viajantes, e pouquíssimos os de mulheres. Menciona-se um pequeno caderno, o diário de bordo, chamemos-lhe assim, de Gretchen Schaeffer, uma rapariga alemã de 21 anos, que ia procurar trabalho na Califórnia. Vai fazendo curtos apontamentos diários sobre as distâncias percorridas, sobre paisagem e passageiros, explica como de duas cadeiras se fazia uma cama. Pouco mais.
O outro testemunho da viagem, esse impresso, é um artigo publicado na revista Scribners Monthly em Maio de 1873, no qual a autora, Susan Coolidge, que já fizera a viajem, aconselha as mulheres que a planeiem sobre a melhor época de viagem, o vestuário a levar etc: ”O melhor tempo para aquelas que desejem ver a Califórnia na sua verde perfeição, coberta do seu maravilhoso manto de flores selvagens, é o fim de Março ou princípio de Abril, quando é de prever que já não há perigo de haver neve no Pacific Railroad”. *
Quando a custos, o preço do bilhete de ida e volta a São Francisco era um pouco menos de trezentos dollares, havendo que contar com a despesa das refeições durante sete a oito dias. Também havia que pensar na bagagem, o uso de grandes malas não era aconselhável, porque cada passageiro só tinha direito a cinquenta quilos, cada quilo a mais era pago. A bagagem grande seguia em wagon especial, recomendava-se portanto uma pequena mala com os artigos de toilette para uso diário. Deviam-se escolher botas velhas e cómodas. O pó era o grande inimigo do conforto. A autora vira senhoras que cobriam a cabeça com uma toca que apertavam com um elástico para protegerem o cabelo, “um processo admirável, que eu aconselho”.
“Espanta às vezes, escreve ela, que aos viajantes que a fizeram se oiça falar tão pouco do inevitável cansaço de tão longa viagem. Mas o facto é que o cansaço é muito menor do que seria de esperar. Em parte devido ao grande conforto dos Pallmans” e também devido á agradável locomoção dos comboios. “É notável a falta de solavancos, de choques ao arrancar e ao parar dos comboios”.
De resto, esqueciam-se os desconfortos, o calor e o pó, e as pequenas irritações, enquanto a novidade, as lindas vistas o largo horizonte ficavam para sempre. Em resumo, a autora recomendava vivamente a viagem.
O diário de Maria Theresa parece-me mais completo que qualquer destes textos. Hesitei em publicá-lo aqui. A quem interessaria? Mas essa duvida existe em relação a todos os posts. Tenho estado a escrever sobre livros de viagem, e o que é este diário senão um desses livros? Como o diário é demasiado comprido para ser publicado de uma só vez, distribuirei o texto por cinco ou seis posts: o de hoje, seguido de um post na quarta-feira, dia 3, outro na sexta, dia 5, e o último, ou penúltimo, na segunda-feira 8 de Junho.
*Susan Coolidge A few hints on the Califórnia Journey Scribner’s Monthly May 1873

Algumas notas:
A construção do Pacific Railroad iniciou-se em 1863 e estava dividida em dois troços. Um dos troços partia de Sacramento na Califórnia., trabalhando-se nele em direcção a leste, o outro, dirigindo-se para oeste ao encontro do primeiro, partia de Omaha no Estado de Nebraska. A junção dos dois troços deu-se em Maio de 1869, em ‘Promontory Point’ no Utah e o comboio começou de imediato a funcionar.

Maria Theresa, a autora do diário que em seguida transcrevo, tinha dezanove anos, era a filha mais velha de João Ferrão de Castello Branco e de D. Theresa Saldanha da Gama (Ponte). O tratamento de “papá e maman”, que ela dá a pai e mãe, assim como o frequente uso de outros francesismos, eram então hábito comum nas famílias portuguesas mais educadas.
Pai e filha partiram de Lisboa a 7 de Março de 1886, e estão em Nova York a 22 do mês. De todos os pontos Maria Thereza manda notícias à mãe: a 9 de Março, de Paris, a 12 de Março, de Liverpool, onde irão embarcar e - uma última vez da Europa - quando já estão instalados no navio ‘Servia’, da Cunard Lines. A 22 estão em Nova York, instalados no HOTEL ESPANOL e HISPANO AMERICANO na 14th Street, "near 5th Avenue", escreve Maria Theresa na sua primeira carta, na segunda emenda “afinal não é perto da quinta é perto da sexta avenida, é "near 6th Avenue".
O pai estava nomeado para um posto consular, e enquanto não começava a exercer as suas funções decide empreender a viagem à Califórnia no famoso novo comboio. Isto apesar de ser um homem doente, e que o sabia, como se lê da carta que escreverá a sua mulher durante a viagem: “Ando estafado e mal em todo o sentido, poucas esperanças tenho de melhorar, mas gosto entretanto de ir vendo e conhecendo o que há por este mundo e comsola-me a ideia de não morrer sem ter diminuido o número das belezas que ainda me eram desconhecidas.”

DIÁRIO DA VIAGEM

29 de Abril (1886) à tarde
Já temos três dias de viagem, mas só hoje posso principiar a descrevê-la. Saímos de New York no domingo de Páscoa à meia noite num ‘ferry boat’ que nos levou à estação de caminho de ferro, que fica do outro lado do porto. Não nos foi possível arranjar ‘sleeping car’ nessa noite. Não havia senão os ‘berths’ de cama, o que não quisemos por ser incómodo trepar para lá estando qualquer vizinho já deitado em baixo. Não tivemos outro remédio senão sujeitar-nos a passar a noite nas carruagens simples. Como sabe, não há diferença de classes na América, só para os emigrantes há carruagens à parte. O papá nessa noite não pregou olho, está bem entendido, o que não me sucedeu a mim. Passámos por New Jersey, a que se pode chamar um bairro de New York, e por Filadélfia, mas nada se podia distinguir,
Na segunda feira, 26, almoçámos em Baltimore, onde mudámos de comboio e arranjámos ‘sleeping car’. A cidade é bastante grande e bonita pela sua situação sobre um rio cujo nome ignoro. O caminho deste Baltimore até Cumberland, uma cidade pequena onde lanchámos, é bonito. É uma série não interrompida de casas de madeira de apetite, de campos verdes e de matas cortadas por imensos riosinhos lindos. Pelo meio dia começou a vista a ser realmente encantadora Durante duas ou três horas fomos seguindo as imensas voltas (e dando-as com tanta rapidês que mesmo o papá achou uma brutalidade) do rio Potomac; a cada passo se vêem ilhas pequenas cheias de verdura e dos lados do rio são montanhas cobertas de árvores com verdes em todos os tons e, como para diminuir a monotonia do verde, de espaço a espaço estão espalhados uns arbustos com uma flor encarnada bem bonita. Que mal que estou explicando isto, mas também não é fácil. Um dos pontos mais bonitos é a ‘Harper's Ferry’ (uma ponte) por onde passámos e onde se junta o rio Potomac com outro. Pelas 2 da tarde entrámos nos Alleghenys, a beleza dos quais não me parece possível que possa ser descrita de modo a poder dar uma leve ideia dela a quem não viu, e então descritas por mim, faça ideia! Puseram-se duas locomotivas por se subir muito. Por que precipícios que nós passámos, minha querida maman, há uns três pontos em que apenas há o espaço para a linha, e quando se põe a cabeça de fora, e se vê a terra a faltar, parece que se está suspensa por cima do abismo. Aos pés vê-se sempre água a correr por meio do arvoredo, de que estão cobertos também os montes dum feitio variadíssimo. Estivemos todo o dia embasbacados para a beleza da vista e também muito encanitados, porque um alemão e a mulher não fizeram todo o tempo senão dormir. Nos intervalos do dormir faziam uma partidinha e depois ó-ó outra vez, e a mulher espetava a gâmbia muito bem espetadinha, o que nos fez rir a mim e ao papá o que não se crê.
Não fazíamos ideia da beleza das Alleghenys, não são inferiores aos Pirenéus decerto. Depois há um intervalo menos bonito, onde já estão cortando muitas árvores para se poder cultivar o terreno; vem depois uma parte bem bonita onde se passa por uma quantidade de pontes sobre rios, dando uma tal quantidade de voltinhas que tornam a viagem encantadora. À noite jantámos no ‘dining car’ e durante uma hora imaginámo-nos no ‘Servia’! Como nos montes diminuem um pouco a rapidez, para ‘retrappaer le temps perdu’, põem-se numa tal pressa, num caminho que é um zig zag contínuo, que o balanço foi tal que enjoámos. A tristeza e melancolia em que passámos essa hora não se imagina, de modo que não pudemos gozar do cómodo de jantar aqui mesmo. Como disse, tínhamos ‘sleeping car’. As camas não podem ser melhores, são exactamente tão largas e tão compridas como as que se têm em casa e felizmente o papá dormiu perfeitamente. (Continua)

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Livros de viagem. Ao Amazonas no sec.XIX

>> segunda-feira, 18 de maio de 2009


Ao Amazonas no séc. XIX
Não sei quando e como nasce em nós, que gostamos de livros de viagem, o gosto por esse género de literatura. Não é coisa que se nos ensine na escola, nem mesmo em lições de geografia algum professor se lembrou de nos sugerir um livro de viagem. Os livros de aventura da nossa juventude é que nos abriram os longínquos horizontes. A história de Robinson Crusoe na sua ilha, os livros de Júlio Verne. de Rafael Sabatini. de R.L.Stevenson. E para as crianças que sabiam alemão, os livros de Karl May
O autor nunca saíra da sua nativa cidade de Dresden, mas tinha a habilidade de estudar tão bem as terras e os percursos, que mesmo os melhores geógrafos não encontravam por onde lhe pegar. Nós, jovens leitores, não pensávamos se aquilo estava mais ou menos certo, acompanhávamos com entusiasmo - muitas vezes com o atlas – os heróis dos livros através dos desertos da Arábia, dos desfiladeiros do Curdistão, das montanhas dos Balcãs. Passávamos o Atlântico, estávamos no Far West, conhecíamos as suas pradarias. Íamos ao rio de la Plata.
Talvez que seja nesses livros de aventura da juventude que assenta a futura leitura de livros de viagens. Mas passa muito tempo antes de lá se chegar. Porque depois deles se entra no mundo encantado do romance, e durante anos não se sairá dele.
Alguns nunca dele saem, outros descobrem um dia que ainda há outras formas de literatura e, entre elas, e porque não, a literatura de viagem.
O século XIX, que viu nascer aqueles nossos livros de aventura em países remotos, foi também o grande século da literatura de viagem. A Europa queria finalmente saber como eram as coisas em outros continentes, como era a sua flora, a sua fauna, como eram os costumes dos habitantes dessas terras desconhecidas, que línguas por lá se falavam, que literatura havia. Nasciam por toda a parte os Institutos Científicos, as Sociedades de Geografia, as Academias de Línguas Orientais, os Museus de História Natural. Algumas dessas instituições, generosamente financiadas, podiam pagar as viagens de estudo dos seus cientistas, e havia mecenas que, não podendo eles ir, mandavam outros para lhes contar como era aquilo por lá. Alguns viajantes iam pelos seus próprios meios, e, todos em geral com um fim em vista: de estudar a fauna, a flora, a natureza. E como para o viajante do século XIX tudo que via era novo, tudo lhe parecia digno de recordar, e de narrar, de explicar aos que tinham ficado em casa. Todos os anos se publicavam na Europa novos livros narrando as impressões de viajantes.
Há tempos comprei, através de dois diferentes catálogos, dois desses livros de viagem publicados no século XIX. Um, ‘The Naturalist on the Amazons’, de Henry Walter Bates*, o outro, ‘Narrative of Travels on the Amazon and Rio Negro’, de Alfred Wallace**. Só depois de os ter lido, e de me ter interessado pelos autores, de quem ignorava tudo antes de os ler, é que realizei que os dois livros se completavam.
Alfred Wallace era professor num colégio de Leicester. e ai encontrou Henry Walter Bates, um jovem e entusiástico entomologista (que é, segundo me informam, como se designa o zoologista que se dedica em particular ao estudo dos insectos). Os dois homens descobriram que partilhavam o mesmo gosto pela História Natural, que ambos tinham lido o mesmo género de livros, entre outros - lê-se em Wikipedia, henry Bates - “o anónimo Vestiges of the Natural History of Creation***, que fizera da evolução um assunto de debate diário entre a gente letrada”.
ambém tinham lido o livro de William H. Edwards sobre a sua expedição ao Amazonas, e foi essa leitura, segundo se lê em Wallace, que os fez pensar numa ida àquela região. Edwards escrevera que o acesso não era difícil, e quanto às despesas da viagem podiam cobri-las, achavam eles, coleccionando plantas e animais para os museus inglesas. O interesse pela história natural era geral em toda a Europa, e pagavam-se bons preços por exemplares desconhecidos de flora e fauna.
A coisa decidida, os amigos passaram um tempo em Londres onde procuraram ver tudo o que havia a ver de plantas e animais da Amazonia já coleccionados. Contactaram museus e colecionadores de quem obtiveram listas com os respectivos desejos de espécimes, e, em Abril de 1848, embarcaram em Liverpool chegando ao Pará a 26 de Maio. Bates tinha 23 e Wallace 25 anos.
Bates não dá as razões que o levaram àquela decisão, mas Alfred Wallace explica, na introdução ao seu livro, que aquilo que o levara a empreender aquela viagem fora “um intenso desejo de visitar um país tropical, de contemplar a luxuriante vida animal e vegetal que se dizia existir lá, e de ver com os meus próprios olhos todas aquelas maravilhas, das quais lera com tanto prazer nas narrativas de viajantes”. Haviam sido estes os motivos que o tinham levado “a partir para
“uma terra distante onde reina um verão eterno”

Uma vez chegados a esse paraíso de verão eterno, os amigos instalaram-se numa pequena casa térrea fora da cidade, compram tachos e panelas e outros utensílios de cozinha, mesa, bancos e redes para servirem de cama, e começam de imediato a coleccionar. O que era fácil, os primeiros espécimens - lagartixas e formigas - tinham-nos na própria casa, a floresta nascia à sua porta, era só olhar com atenção e apanhar ou colher, e quando a gente da vizinhança soube daquele estranho gosto, trazia constantemente novo material.
O que mais havia nos arredores eram lagartos e formigas: “Lagartos há-os por toda a parte, alguns são cor de cobre, outros têm costas do mais brilhante e sedoso azul e verde, outros estão marcados com delicadas sombras e linhas castanhas e amarelas”, escreve Wallace. E formigas de todos os tamanhos por todos os lados, “a flor que se colhe, o fruto que se apanha estão cobertos delas”. Pelos caminhos encontravam-se umas formigas gigantescas, de perto de três centímetros “passeando gravemente só ou em par”. Mas o que maior impressão lhe causara, escreve Wallace, fora o seu primeiro contacto com o macaco. Uma espécie pequena, muito engraçada e aliás muito boa de comer.
Bates também comenta a abundância de lagartos e formigas, mas pasma sobretudo com o número e variedade de borboletas. “Dar-lhes-ei uma ideia dessa diversidade, se disser, que aqui, no perímetro de uma hora a pé, se contam 700 variedades de borboletas, enquanto em Inglaterra, nesse mesmo espaço se contam 66, e em toda a Europa, só 321”
Os dois companheiros fizeram uma primeira excursão ao rio Tocantins até aos rápidos de Arroyos, regressaram a Pará, e, ao fim de um ano, decidiram coleccionar cada um por seu lado. Wallace viajou pelo rio Negro e chegou à boca do Amazonas: “Dois dias depois estávamos no próprio Amazonas. e foi com um misto de admiração e de respeito que contemplámos a corrente daquele enorme e famoso rio”.
Quanto a Bates, percorreu de novo o rio Tocantins, e aventurou-se até ao Amazonas Superior, à região conhecida pelos Solimões, ou Maranhão, onde ficaria durante quatro anos e meio: “uma magnífica terra selvagem, onde o homem civilizado ate agora practicamente não pôs o pé.” Bates ignorava a existência de um livro intitulado ‘História dos animais do arvores e do Maranhão’, do padre frei Cristovam de Lisboa, mas isso é outra história.
Cada um por seu lado, os dois naturalistas iam coleccionando e conservando os seus espécimes e fazendo as suas observações sobre o que viam. Não tinham as facilidades de transporte que hoje se lhes ofereceriam, serviam-se dos transportes dos habitantes, viviam com eles a vida do rio.
Wallace interessa-se muito pelos costumes dos nativos, a sua língua, os seus artefactos, e faz constantes observações sobre a curiosa facilidade de adaptação dos animais. “Em todas as obras de História Natural encontramos detalhas da maravilhosa adaptação dos animais à comida, aos hábitos e aos locais onde se encontram. Mas o naturalista começa a olhar um pouco para além disto, e a ver que têm de haver algum princípio regulando a infinita variedade da vida animal”.
Bates concentra-se na sua especialidade, mas não deixa de fazer também ele as suas observações sobre a vida indígena e da gente com que tem contacto: os indianos, os portugueses - originalmente na sua maioria gente da classe baixa, que se misturara facilmente com os indianos - os escravos negros. Fala dos canoeiros do rio e dos cantos com que quebravam a monotonia da viagem:
“A lua está saindo
mãe, mãe
A lua está saindo
mãe, mãe
As sete estrelas estão chorando
mãe, mãe
por s’acharem desamparadas
mãe, mãe”
cantavam. “Há naquelas melodias uma selvajaria e uma tristeza, escreve ele, que harmonizam bem com as circunstâncias das suas vidas, e que em parte decerto nasceram delas: os escuros canais do rio com os seus ecos, a infinidade daquela sombria floresta, a solenidade das noites”.
“…o coro dos gritos dos animais do fim da tarde começou, tendo os macacos como principais actuantes. O seu grito arrepiante, extraterrestre, faz acrescer a sensação de solidão que nos envolve ao anoitecer….”

Wallace demorou-se três anos na Amazónia, Bates onze. Finalmente, com a saúde abalada e cansado da falta de contacto com gente com quem pudesse trocar impressões, decidiu o regresso a Inglaterra. Recordou o que a gente do Pará dizia da sua terra “Quem vai para o Pará para”, e sentiu que também ele estivera prestes a sucumbir, mas o desejo de ver de novo os seus pais e, sobretudo, de gozar de novo os prazeres do convívio intelectual, decidiram-no. Lembrado do que sucedera a Wallace, que perdera tudo que coleccionara quando o seu navio se incendiou durante a viagem para Inglaterra, Bates despachou as suas colecções em três diferentes navios. Tudo chegou a salvo. “Quando ele, passados onze anos, regressou a Inglaterra em 1869, trazia - ou tinha já mandado - mais de 14,000 espécimens (sobretudo de insectos) dos quais 8,000 eram cientificamente desconhecidos.”(Wikipeda)

O que, para um leitor dos nossos dias, faz a diferença entre o relato de um viajante do século XIX sobre a sua viagem e estadia na Amazónia e, digamos, um artigo sobre o mesmo tema num National Geographic Magazine, é que, já não falando na diferença de estilo, o artigo de hoje nos dá só mais uma visão de coisa que já conhecemos. Conhecemos o Amazonas por dentro e por fora e até por baixo em fotografias subaquáticas. Mas ao lermos as impressões do viajante do século XIX, passamos a ver aquilo pelos olhos de alguém para quem tudo era novo, e tudo para nós é novo também.

Observações à margem
Wikipedia.Henry Walter Bates
Deu o primeiro relato científico de mímica entre animals.
Como outros cientistas ingleses daquele tempo, Bates não teve uma educação formal em ciência, foi um auto didacta. Deixou a escola com doze anos para trabalhar, e enquanto trabalhava, ensinou-se a si próprio pela leitura. Nos tempos livres colecionava insectos.

Observações à margem
Reflectindo sobre os seus cinco anos de exploração, Darwin escreveu: “Aconselharia eu outros a fazer tão arriscadas jornada? Sim, mas só se tivessem um particular interesse – zoologia ou geologia - de outra forma o prazer é abafado pelos sofrimentos, pelas pequenas irritações que assumem proporções gigantescas – a falta de espaço, de privacidade, de descanço – a sensação de constante pressa, a privação de pequenos luxos, de confortos da civilização, e, pior que tudo, o constante enjôo. E os viajantes não devem ter unicamente interesses de diletante. Têm de usar a colheita das suas observações, têm de tirar dela algum fruto conclui.****
* Dent & Sons, London and New Yotk
** Fac símile da 1ª edição
*** Wikipedia Vestiges of the Natural History of Creation era uma importante controversica teoria de História Natural publicado anonimamente em 1844 defendendo uma evolução a natural ou evolucionada
****Adrian Desmond & James Mooore DARWIN

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Livros de viagem

>> segunda-feira, 4 de maio de 2009


Livros de Viagem
Há anos um articulista do Diário de Notícias confundia - para grande indignação minha - os livros que se lêem em viagem com os livros que nos falam de viagens. Não desprezo os livros que se compram nos aeroportos para nos entreterem durante a viagem, mas não são eles os "livros de viagem": os relatos de viagens. E de descobrimentos, e de explorações.
Muitos viajantes e muitos exploradores deixaram testemunho escrito daquilo que viram, e fizeram, e sofreram. E porque o fizeram podemos viajar com os viajantes, descobrir e explorar com os descobridores. Assim, vivi os calores húmidos da Amazónia, experimentei as noites geladas e os dias tórridos dos planaltos da Ásia Central. Percorri a rota da seda com as grandes caravanas que iam à China em busca da seda e da especiaria e as traziam para os portos do Mar Negro. Descobri o deserto de Gobi com Sven Hedin, e mais tarde errei durante três anos pela Sibéria com o capitão Clemens Forell, prisioneiro de guerra alemão fugido das terríveis minas de chumbo de extremo leste da Sibéria. De onde ninguém saía vivo. Com Heinrich Harrar, outro fugitivo, estive sete anos no Tibete. Em 1849, coleccionei no Amazonas. plantas e insectos com Henry Walter Bates, e com ele parei em Óbidos e em Santarém. Os de lá, lugarejos ali plantados por portugueses anónimos, saudosos das suas longínquas terras. Em 1832 estive com o capitão Bonneville nas Montanhas Rochosas. Vi as grandes manadas de búfalos nas planícies do oeste americano. Dobrei várias vezes o cabo da Boa Esperança e o aterrador cabo Horn. Com Ibn Batúta, percorri as costas da Índia. Com o piloto Paulo Rois da Costa descobri as costas da Ilha de São Lourenço, com Magalhães circum-naveguei a terra, Fui com Cook à Austrália, e com Darwin aos Galápagos, atravessei a imensidade do Pacífico no Kon Tiki, aportei nas suas ilhas desertas, vi as suas praias e as suas lagunas. Atravessei a África com Ivens e Capelo. Vivi as perigosas calmas e as terríveis tempestades de todos os mares. Fiz incómodas viagens de comboio com Bill Bryson. Viajei calma e pachorrentamente a pé, a cavalo, em caleche, comboio e automóvel por terras de Portugal, Alemanha, Castela.
Conheci descobridores, exploradores e naturalistas, viajantes de estudo e de recreio, viajantes fugitivos e pacatos viajantes nas suas terras. Acompanhei a todos desde o momento da sua partida. E até vivi interessada os preparativos da viagem. Viajei muito. Vi muito. Sem sair de casa. Devo-o aos livros de viagem. Tenho alguns e espero escrever sobre eles em mais pormenor no andamento deste blogue. Considero a literatura de viagem uma das leituras mais satisfatórias entre tantas outras.

Observações à margem
Na mesa em que escrevo tenho um globo terrestre. Coisa modesta, globo de escola. Tenho um globo, sei quando se fez o primeiro globo, mas não pensara até hoje no que a visão de um globo teria significado para quem o viu pela primeira vez.
Em “The last voyage of Columbus” o autor, Martin Dugard, lembra que foi em 1493, ano em que Colombo regressou da sua primeira viagem, que um homem chamado Martin Behaim produziu o primeiro globo. A noção da terra ser redonda já era geralmente aceite, mas era ainda um conceito abstracto. “O globo de Behaim iria permitir, tanto a pensadores como ao comum mortal, ver o mundo de forma táctil, tridimensional”, escreve Dugard.
Martim Behaim, alemão, natural de Nueremberga, vivia em Portugal onde constituíra família, casando com uma senhora dos Açores. Em Nueremberga dizia-se que ele fazia parte dum grupo de homens encarregado pelo rei de Portugal de estudar os problemas de ordem científica da navegação e, em 1492, a cidade convidou-o a fabricar um globo terrestre. Já que ele não se cansava de afirmar que a terra tinha a forma duma esfera, pois então, que mostrasse como era, Nueremberga pagava.
Cidade aberta às grandes questões culturais e científicas do tempo, cidadãos e governadores da cidade rivalizavam uns com os outros no patrocínio das manifestações culturais. Em 1492, Hartmann Schedel, autor da Crónica Nurembergensis, obra também ali patrocinada e produzida, escrevia à margem de um dos seus livros uma pequena nota com o título: "De Globo sperico terre", onde falava do fabrico do globo por Martim Behaim, dando a entender que ele próprio participara no estudo que se fizera antes de passar à composição final e que a sua biblioteca estivera à disposição dos estudiosos. Nela tinham sido consultados, escrevia Schedel, cosmógrafos antigos como "Strabone, Pomponio Mella, Diodoro Siculo, Herodotus, Plinio secundo Novo(comensi), Dyuonisio etc," e modernos, tais como "Paulo Veneto, Petro de Eliaco (sic)" assim como os peritos do rei de Portugal, "et peritissimis viris regis Portugaliae".
Parece que há erros de distâncias no globo de Behaim, e é disso que em geral se fala. Em Portugal o homem era invejado, incomodava, e a coisa perdurou. O que importava era apontar os erros nas distâncias geográficas do seu globo. Mas o globo como objecto não mais se deixou de fabricar, e ainda hoje não há melhor forma de visualizar o mundo de terra e mar em que vivemos. Eu tenho o meu.

Das cartas à minha filha
8 de Novembro 1999
“Há dias comprei através do catálogo do Carlos Bobone dois livros óptimos. Ele não tem obras de bibliófilo, mas nos catálogos tem coisinhas variadas e muitas vezes com interesse. Um dos livros que comprei chama-se ‘The Naturalist on the Amazone’ e é da viagem e estadia de 12 anos de Henry Walter Bates, um naturalista inglês, na Amazónia no fim do século passado. A edição é de 1914 e é da EVERYMAN'S, que, apesar de ser para divulgação popular, imprimia em papel fino e bom. É interessantíssimo e as descrições são óptimas. O texto é acompanhado de pequenas gravuras tiradas do original. Confirmam aquilo que acho há muito tempo, ou seja, que os desenhos daqueles viajantes, na sua simplicidade. são mais elucidativas - ou melhor, mais evocativas - do que as maravilhosas fotografias de agora.
O outro livro é uma história da arqueologia, que ainda não comecei.

17-X-2008
“Através do catálogo da Livraria Académica do Porto comprei ........ e um livro de outra qualidade, o “Naturalist on the Amazon and the Rio Negro”, de Alfred Wallace. É uma óptima edição fac-similada do original de 1848 quando a Europa queria saber como eram as coisas em outros continentes, e, oficial e particularmente, se exploravam as terras desconhecidas. Havia mecenas que, não podendo eles ir, mandavam outros para lhes contar como era aquilo por lá. O autor deste livro colecciona animais que prepara para os museus londrinos. É agradável ler de insectos de todas as cores, tamanhos, e maior ou menor perigo para o homem, sem ter contacto directo com eles. Outros viajantes contam aventuras, este passeia-se pelas aguas do Amazonas e Rio Negro, bebendo chá e apanhando borboletas, e até agora não sofrendo grandes perigos.

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Sobre este blogue

Libri.librorum pretende ser um blogue de leitura e de escrita, de leitores e escritores. Um blogue de temas literários, não de crítica literaria. De uma leitora e escritora

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