Do romance historico
>> segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
O romance histórico
Alguns factos e um dilema
O romance histórico é uma obra de ficção - de amor, de aventura, de mistério – vivida em tempos mais ou menos longínquos, ou tratando de um caso misterioso estreitamente relacionado com o passado. O género brotou em força no século XIX quando se descobriu uma nova forma de encarar a História, e homens que se intitularam de Historiadores, passaram a estudar as fontes originais, e a partir delas procuraram reconstituir os feitos do passado. Poetas e romancistas foram no encalço dos historiadores, aproveitavam-lhes as revelações, ou eram eles mesmos investigadores, e criaram um novo género literário: o romance histórico. Walter Scott (1771-1832) é considerado o criador do género, seguido em França por Vitor Hugo (1802-1885), na Alemanha por Gustav Freyrag (1816-1895) em Portugal por Alexandre Herculano (1810-1877). Em 1895, o polaco Henryk Sienkiewics inaugurou, com o seu “Quo Vadis?”, o romance histórico no cenário da Roma dos Césares.
“Era na altura um tipo de narrativa que devia combinar, cita a Wikipedia: ”a erudição do historiador, necessária para a minuciosa reconstituição de ambientes e costumes de épocas passadas, com a imaginação do literato, que cria ou amplia tramas para compor seus enredos. Dessa forma, o autor situação num tempo passado, procurando reconstituir uma época. Para isso, contribuem descrições pormenorizadas de quadros antigos, como festas religiosas, indumentárias, ambientes e aposentos, topografias de cidades. São frequentes as intervenções do narrador, que tece comentários filosóficos, sociais ou políticos, muitas vezes relacionando o passado narrado com o quotidiano do século XIX.”
Com o tempo o género foi evoluindo, não se escreve hoje o romance histórico como se escrevia no século XIX. As intervenções do narrador, tecendo comentários filosóficos, sociais ou políticos desapareceram, e já não se exige do autor de romances históricos que seja erudito historiador. Não faltam livros em que se poderá informar sobre os costumes da época em que situa a sua narrativa.
Há naturalmente uns tantos pressupostos. O autor deve ter a capacidade e a imaginação de se colocar na época em que situa os acontecimentos do seu romance, e não irá pôr no centro da acção um conflito baseado em problemas que na época não existiam.
Depois há que ter cuidado com o uso de nomes próprios. Não havia Sónias, Vanias, Sabrinas ou Marlenes na Na Idade Média, a filha de um burguês não era Mafalda nem Cunigunda, deixem isso às princesas e senhoras da alta nobreza. Usava-se o patronímico António Feliciano, era filho de Feliciano. José Joanes era filho de João, José Carvoeiro era decerto filho de quem exercia essa função. Se a narrativa se situa em tempos mais recentes, em fins do século XIX por exemplo, há que recordar que só houve Marias de Lourdes e Milús depois dos aparecimentos marianos em Lourdes.
E, goste-se ou não se goste, havia classes, e havia usos que distinguiam as classes. As modas não eram iguais para todos, havia cores e tecidos reservados à alta nobreza, algumas mesmo só aos reis e rainhas. As mulheres trabalhavam nos mais variados ofícios, e a grande maioria, mesmo as mais altamente colocadas, não sabia ler.
Depois há os pormenores de ordem material. A luz artificial era de velas e candeias de azeite, os vidros nas janelas só tarde existiram, as batatas vieram da América, não as havia antes do século XVI.
Quanto ao diálogo. A gíria, e as expressões “da moda” marcam uma época. Em narrativa do século passado ou anterior não se podem usar expressões que sejam nitidamente dos dias de hoje.
Um exemplo crasso daquilo que nessa matéria não se pode fazer, encontramo-lo num livro recente de Isabel Stilwell, no qual lemos como D. Catarina de Bragança, recém casada com Carlos II de Inglaterra, mostrando o seu espanto por uma atenção do marido, se lhe dirige com estas palavras: “Não me diga, Carlos”. A expressão é tão “actual”, que mesmo em romance do século XIX seria descabida, e no século XVII é de um cómico tal, que o “Não me diiiga, Carlos” - o assento nos is é obrigatório -, entrou desde já na minha colectânea de frases de humor involuntário.
Em romance histórico, o título do livro também é importante para o colocar na época e dar o tom do género de história que será. Exemplo daquilo que não se fará na matéria, é mais uma vez o citado livro de Isabel Stilwell. Ela intitulou-o “D.Catarina de Bragança, unica portuguesa que foi rainha de Inglaterra......”. Perante o título, e a vasta bibliografia citada no livro, o leitor estava no direito de pensar que se tratava da vida, historicamente estudada, dessa personagem real, que se estava perante a biografia daquela D. Catarina, que fora rainha de Inglaterra.
Só quando folheei o livro e li as conversas inventadas, e a infanta, dirigindo-se a seu futuro marido com o fatídico: “Não me diga, Carlos”. percebi que aquilo era, não uma biografia de D. Catarina de Bragança, mas um romance histórico à base da sua vida.
Das entrevistas que depois da publicação do livro fizeram à autora, conclui que ela se considera uma espécie de detective, de investigadora, da História, e, neste caso, da história de Dona Catarina de Bragança. Ora, querida Isabel Stilwell, os “detectives” do seu romance foram aqueles que lhe forneceram os dados sobre os quais pode arquitectar a sua semi-biografia, ou semi-romance, foram os autores das obras que cita na bibliografia. Conto-me entre elas. Decifrei, primeiro no arquivo da minha família materna, depois em arquivos e bibliotecas de Londres, Paris, Lisboa e Vila Viçosa perto de vinte volumes manuscritos da correspondência do homem que fez aquele casamento, e sem o qual nada se saberia das suas negociação, da ida da Infanta, dos seus primeiros tempos de casada etc etc Depois escrevi sobre essa investigação. Essa esteve em primeiro lugar. Deixe aos investigadores o que é deles, e bem pouco é.
Em Portugal, o romance histórico, praticamente adormecido desde Alexandre Herculano, renasceu com Fernando de Campos, e o género proliferou quando - perante o sucesso do livro de Dan Brown - se provou que era fácil escrever um romance histórico. E como há por cá uma certa tendência para o exagero deu-se entre os autores portugueses este curioso fenómeno, que é confundir um romance histórico com obra de História.
Dito isto, apetece-me falar de questão de outro género e bastante mais interessante. É questão nascida da leitura de um post publicado no blogue “Arte de Ler”. Trata-se de saber, se é fazível apresentar um facto histórico inédito em obra de ficção.
Peço desculpa aos autores se abrevio nos seus respectivos textos, as apreciações de estilo etc. que não adiantam para a questão que para mim é central.
O livro que dá origem à questão é “O Cavaleiro da Ilha do Corvo” de Joaquim Fernandes (Círculo de Leitores / Temas e Debates), e o crítico que originou o debate foi Luís Carlos Silva.
Depois de uma apreciação da qualidade literária da obra, Luís Carlos Silva escreve:
“Essencialmente, o romance anda à volta de uma hipotética estátua encontrada pelos navegadores portugueses na Ilha do Corvo, decorria o reinado de D. Manuel I e que, juntamente com outros achados, provaria que as ilhas haviam sido descobertas muitos séculos antes dos navegadores portugueses. A descrição desta estátua é feita por Damião de Góis, o que, para o autor, é suficiente como garantia de veracidade. Ou seja, Damião de Góis é, para o autor, uma fonte autorizada e irrefutável. Contudo, e apesar de termos em grande conta o prestigiado humanista português, temos de relembrar que é o mesmo Damião de Góis que dedica várias linhas na sua Descrição da Cidade de Lisboa à existência de tritões, nereidas e sereias nas águas limítrofes à cidade.”
A análise toca em outros pontos discutíveis, inspiração no livro de Dan Brown, erros como o confundir meridianos com paralelos, etc, mas “ainda assim, prossegue o crítico, trata-se de um livro que satisfaz bastante, enquanto obra de ficção, pois tem um enredo bem encadeado e cativante...............”
A partir dali seguiu-se, escreve Luís Carlos Silva, uma amistosa troca de e-mails entre ele e o Prof. Joaquim Fernandes, e este aceitara o desafio de escrever um texto como “resposta” à recensão crítica da sua obra.
Eis o que o autor disse:
“O objectivo do meu romance, ‘O Cavaleiro da Ilha do Corvo’, não foi produzir obra-prima ficcional, “mas sim colocar à disposição dos leitores, pela primeira vez sobre a matéria, um painel documental sobre a hipótese da verosimilhança da polémica estátua corvina. Sendo antes de mais historiador, procurei atestar essa competência na confortável bibliografia, reunida ao longo de mais uma década, com intermitências, e exposta no final da obra. Sinceramente, nunca me preocupei com o modelo do “Código da Vinci”, ainda que logicamente o “esqueleto” ficcional da obra o torne comparável. Mas aqui nem pretendi ser original: bastou-me o insólito do acervo documental, ignorado pela generalidade dos leitores – incluindo muitos colegas académicos – para superar as eventuais fraquezas do enredo................................................
O que tentei fazer no meu despretensioso “romance” (modalidade por que optei em lugar de um porventura maçador ensaio) foi colectar e oferecer aos leitores “comuns” toda a informação disponível sobre o tema – que considero fascinante e tem ligações, como se sabe, a toda uma tradição do imaginário ocidental atlântico e “atlântido”, onde se fundem literatura e história.”
Até aqui o professor Joaquim Fernandes.
Pessoalmente, o que desde logo me interessou foi a questão que os dois textos indirectamente levantavam: a saber, se um facto ou caso histórico inédito, e possivelmente controverso, pode ser apresentado por meio de uma obra de ficção , ou se há que seguir as vias académicas, dando primeiro a conhecê-lo por meio de um ensaio -“possivelmente maçador” - ou outro tipo de estudo.
O prof. Joaquim Fernandes optou pelo romance. O qual, segundo ele, existia apenas para apresentar uma teoria e a vasta bibliografia em que esta se apoiava.
À primeira vista, a opção do autor pareceu-me inadmissível. Se ele estava razoavelmente convencido de que havia provas de ter existido na Ilha do Corvo a estátua de um cavaleiro, datada de muitos anos antes das descobertas portuguesas, então o assunto era de interesse histórico, e em minha opinião devia ser tratado primeiro em ensaio, ou estudo, com argumentos bem documentados, quite a ser depois usado de outra forma, de ser o pano de fundo de um romance detectivesco ou histórico, por exemplo.
Em seguida reconsiderei. Não havia duvida que aquilo que se impunha era um estudo e não um romance. Mas... estamos em Portugal. Quem iria ler o dito estudo? Quem o analisaria e criticaria com competência e isenção?
E depois, e aí é que bate o ponto: recordei o meu próprio, recente, dilema.
Estando em posse de um facto, que me parecia, e parece, relevante para a solução de um problema histórico, optei por o revelar em romance histórico (ainda por publicar). E fi-lo por ter a certeza que como “estudo” não seria lido e comentado, e que, incluído em romance, talvez o fosse. Ou seja, eu fizera exactamente a mesma coisa que o professor Joaquim Fernandes.
E mais. Tendo eu estudado em profundidade –nas fontes – a vida monástica das mulheres em Portugal, e terminado um estudo a esse respeito, imaginei as longas duvidas das editoras, e decidi não esperar pelas suas decisões. Aproveitei os meus conhecimentos em romance histórico. Fiz bem. O romance 'O Mosteiro e a Coroa' foi publicado e premiado, o ‘estudo’ ainda está à espera que os editores se decidam. Estamos em Portugal, professor Joaquim Fernandes.