DAS CARTAS AOS MAILS

>> segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009


Das cartas aos mails
“Você tem correio”
Julgava eu que acabara para sempre a emoção de receber uma carta quando um filme encantador me veio provar o contrário. “You have mail” (o título parece ser este ) mostra como a carta electrónica de hoje pode ser tão emocionante como o era nos tempos passados a carta que o correio trazia. O que talvez tenha acabado para sempre são os livros de cartas de gente que primou na arte epistolar. Ou será que alguém publicará um dia as cartas electrónicas de dois escritores, de dois políticos dos nossos dias? E de dois anónimos que só se conhecem pela Net? Será preciso esperar para ver.
No século XVII um inglês (Lord Chesterfield) indicava ao filho, como exemplos dignos de estudar e de imitar, as cartas de Cícero, do cardeal d'Ossat, de Bussy Rabutin, e as de Madame de Sévigné.
Não conheço a correspondência de Ossat, e provavelmente já ninguém o recomendará pela sua arte epistolar. Os nomes de Cícero e de Madame de Sévigná é que nunca podem faltar quando se trata de arte de escrever cartas. Em princípio, creio que nem um nem outro escreveram para serem lidos por outros que não os destinatários das suas cartas. Em princípio! Porque no caso de madame de Sévigné, não tardou que as suas cartas passassem de mão em mão lidas na roda íntima dos seus conhecidos.
. A escrita de cartas era uma arte cultivada por uma elite culta, além missiva pessoal. a carta era exercício literário. E no seu tempo, reconhecido por todos, nem homem nem mulher excedia Madame de Sévigné.
O preciosismo do século XVII foi passando, esperava-se que uma carta fosse bem escrita, mas não se exigia que brilhasse como obra literária. A 3 de Janeiro de 1801 Jane Austen escrevia a sua irmã Cassandra: “Atingi agora aquilo que nos dizem ser a verdadeira arte de escrever cartas, que é o de exprimir no papel exactamente aquilo que diríamos à mesma pessoa por boca”.
. As pessoas escreviam como falavam, ao correr da pena. Cumpriam, decerto sem pensar, a regra principal da boa comunicação epistolar: transmitir ao correspondente, por escrito, como o faria verbalmente, aquilo que não lhe pode dizer directamente.
Em Portugal foi com certeza no século XIX quando elas descobriram a política, e se lhes abriram outros novos horizontes, que as mulheres se tornaram entusiásticas praticantes da arte epistolar. As senhoras tinham o seu dia de correspondência, em que punham, como elas diziam, "a escrita em dia", cobrindo com a sua letra cuidada, em linhas cruzadas e até contra cruzadas, resmas do melhor papel de carta jamais fabricado.
È em parte devido áqueles pormenores triviais, que raras vezes faltam nas cartas de mulher, que estas despretensiosas correspondentes familiares, transmitem como ninguém o espírito da sua época. E é na convicção do que elas revelam do espírito do século XIX, que eu talvez ainda venha a contribuir para a expistolografia feminina portuguesa com a publicação das cartas familiares da minha bisavó materna e das suas filhas.
Penso que um dos atractivos da leitura de volumes de cartas tem alguma coisa a ver com o seu lado indiscreto. O leitor tem a sensação de estar a olhar para dentro duma casa, de estar ouvindo o que lá se está vivendo, entra na intimidade das pessoas. Estou falando das correspondências familiares. Nada disto tem a ver com correspondência diplomática, ou de escritores, de pensadores.
Numa categoria à parte estão as cartas de amor. Há-as sem duvida lindíssimas, de grande valor sentimental e literário, basta lembrar as cartas de Héloise e Abélard, sempre citadas em primeiro lugar. Não sou grande amadora do género. Expressões de amor saídas das penas de grandes figuras das letras ou da política, expressões que a seu tempo decerto deleitaram amados e amadas, deixam-me frias, quando não incomodada por pueris ou de mau gosto. Acho que as cartas de Napoleão a Josefina podiam muito bem ter ficado no segredo dos arquivos, e as cartas de amor de Fernando Pessoa dão vontade de rir. Aqueles "meu bebezinho querido", com certeza recebidos com encanto pela destinatária, soam ligeiramente ridículos aos nossos ouvidos.
Não aprofundei o caso, mas creio que, ao longo da história, as mulheres talvez tenham sido mais felizes que os homens na expressão epistolar dos seus sentimentos. Veja-se, por exemplo, como se exprimiu uma mulher famosa, escrevendo, nos primeiros anos do séc. XIX a um jovem português por quem estava apaixonada. Mesmo quem não aprecia muito o género, sabe apreciar o que é bonito.
"Os cortesãos de Buonaparte não recolhem mais avidamente as suas palavras do que eu traço as vossas no meu coração", escrevia Germaine Necker, baronesa de Stael a D. Pedro de Sousa e Holstein. Ela tinha 40 anos, ele tinha 24. Fora um conhecimento nascido em Itália, onde D. Pedro ocupava um posto diplomático e madame de Stael estava em viagem cultural. Só aquele encontro entre eles e o seu amor por ele, lhe tinham aberto os olhos para as belezas que vira à sua volta, confessaria a apaixonada baronesa: "Só por si é que me foi dado compreender as delícias daquela estadia, a minha imaginação ainda não tinha povoado o deserto, amei-o e tudo se animou para mim, as belas-artes, a natureza e mesmo as recordações do passado".

O que dizem outros

Johann Wolfgang Goethte Afinidades electivas
"Pomos de parte as cartas, para nunca mais as lermos, depois destruímo-las por discrição, e assim desaparece o mais belo, o mais imediato sopro de vida, perdido para sempre, para nós e para os outros."

Victor Hugo Journal d'un jeune Jacobite de 1819
".... O género epistolar deve mais à natureza do que à arte. As produções desse tipo são, pode-se dizer, como as flores, que crescem por si, enquanto todas as outras composições do espírito humano se assemelham a edifícios que desde os seus fundamentos têm de ser laboriosamente construídos segundo leis gerais e combinações particulares. A maior parte dos autores epistolares ignorou que eram autores; ........não escreviam por escrever, mas porque tinham parentes e amigos, problemas e afecções. Na sua correspondência não estavam minimamente preocupados com a imortalidade, mas muito burguesmente com os cuidados materiais da vida. O seu estilo é simples como a intimidade............"

Exemplo de uma carta familiar

Carta de Isabel Saldanha da Gama (17 anos) para sua irmã Theresa, datada de Caxias, a 10 de Outubro 1866
“Minha muito querida Theresa recebi ontem, 9, carta sua de parabéns que muito agradeço. Achei imensa graça à sua descrição do dia dos meus anos, é exactíssima. Ao abrir os olhos recebi carta e doces de Resgatinha (sic), um pouco mais tarde, doces do senhor César acompanhados duma carta em prosa poética que, como a menina diz, me pôs de horrível humor. Resmunguei, chamei tolo ao pobre do homem, tive meia hora a pena na mão e afinal escrevi duas palavras sensaboríssimas, mas as sublimidades do Cesário têm a habilidade de me empatetecer”.
A autora da carta era filha dos condes da Ponte, e o pai era nessa ocasião Vedor da Casa Real. A família passava o verão em Caxias, e ali perto, em Linda-a-Velha, era a quinta do pai de Cesário Verde, onde ele produziu óptima fruta. É possível que o senhor César, fornecesse a casa real e daí conhecesse o conde da Ponte e as filhas. Não sei. Mas quem gosta dos versos de Cesário Verde gostará desta prova da sua ascendência poética. E é de uma carta familiar que nos vem a informação.
As cartas acabaram, temos o e-mail e os blogues. Não é nada mau.

2 comentários:

Olga Marques 16 de fevereiro de 2009 às 19:19  

Sinto um pouco de saudades das cartas escritas à mão, enviadas pelo correio, em papéis bonitos e bem escolhidos. Também eu penso que as mulheres souberam fazê-lo com grande mestria e acredito, por mais que queira acompanhar os tempos de hoje, os e.mails ou os blogues nunca as substituirão cabalmente. Talvez me engane mas, como Theresa diz, só daqui a uns anos se saberá.
Até breve um abraço, Olga Marques

theresa S. de Castello Branco 17 de fevereiro de 2009 às 11:42  

Parece-me que o pior de já não recebermos cartas pessoais.é o sermos invadidos por cartas de avisos, anuncios, ofertas, etc. Ainda se fossem bem escritas. Há dias recebi da Galp uma carta para me participar de uma nova forma de pagamento. Li-a duas vezes e não percebi, se, para manter o sistema que até ali usava tinha ou não de fazer....qualquer coisa que não percebi. Telefonei para pedir explicação, e no fim disse à empregada - que não tinha culpa - que sugerisse a quem de direito, que, antes de enviar aqueles avisos os desse a ler a alguém de mediana inteligência, para apurar se aquilo era para mentes normais. É quem nem todos somos Einsteins. Um abraço Theresa

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