VII. O Mestre das Tapeçarias de Arzila

>> quarta-feira, 16 de maio de 2018

O nome do homem que fez os cartões para a Guerra de Arzila’ não se conhece Miniaturista de grande qualidade ele desenhava o que lhe pediam para desenhar, usando da sua imaginação. Assim sucedeu em Portugal nas tapeçarias do Assalto e da Rendição, nas quais o artista usou da sua imaginação para render visualmente um acontecimento. Nas tapeçarias do ‘Cerco’ e do ‘Desembarque’ pede-se ao miniaturista de imagens idealizadas que reproduza o real, que desenhe o que vê.. O mandatário quere os objectos reproduzidos com perfeição, e quere, sobretudo, que as figuras se reconheçam. E o homem que ideara figuras da mitologia grega, e de uma crónica medieval, revela-se um grande retratista. Retrata bombardeiros e soldados de pé, retrata o Duque e o Marquês seu irmão, retrata, respeitosamentde de perfil, o Rei e o Principe. E retrata o rapazinho que o olha de uma pequena embarcação, retrata  o homem encostado a um banco, que observa com um sorriso o desembarque dos soldados. É evidente que o faz com gosto, que tem prazer em transmitir o que vê. Viu homens bem dispostos, e soube transmitir a alegria e a boa disposição.

Agora, graças às comparações que as recentes fotografias permitem, sabe-se mais alguma coisa sobre a sua actividade profissional.

Por analogia de um importante elemento – uma banda encarnada com inscrições no topo das imagens - nas duas tapeçarias, prova-se - como atrás se disse - que o cartonnier que veio a Portugal, e aqui fez os cartões para as tapeçarias do duque de Guimarães, agora em Pastrana, foi decerto o mesmo que, anteriormente, fizera os cartões para a série conhecida por ‘Guerre de Troye’ da oficina de Pasquier Grenier. No decorrer desta investigação revelaram-se outras analogias. Um elemento usado pelo cartonnier na tapeçaria do ‘Cerco’ fora anteriormente usado em outra obra. Desta vez, na ilustração de um livro.

Por volta de 1470, um nobre flamengo chamado Louis de Gruuthuse, mandou fazer uma cópia ricamente iluminada das Crónicas de Froissard. Os quatro volumes da obra vieram a conter 112 miniaturas de várias dimensões, todas, lê-se, ‘da mão dos melhores artistas de Bruges’. As sessenta miniaturas dos dois primeiros volumes são da mão de Loyset Liédet, conhecido por trabalhar quase exclusivamente para a Corte de Borgonha. Os dois últimos volumes, ‘mais finos’, foram, segundo se lê, ilustrados por artistas anónimos, designados com os cognomes de ‘Maîte d’Antoinee de Bourgogne’, ‘Maître de Marguerite de York’, e ‘Mâitre du Livre de Prières de Dresde’, assistente do primeiro. E mais não se diz. Ora, em uma das iluminuras da Crónica, o artista desenha o bordo de uma embarcação com os pendões armoriados dos ocupantes, e o mesmo vê-se na barreira que enquadra a imagem na tapeçaria do Cerco. Outra analogia é a forma de desenhar as cordas dos navios, como se pode verificar comparando a miniatura da Crónica com a tapeçaria do ‘Desembarque’.
 










Cronique de Froissard


 


                                        

 

 

 
Tapeçaria do Cerco

É permitida a conclusão de que o homem que, por volta de 1468, fizera os carões da ‘Guerre de Troye’, para a oficina de Pasquier Grenier, que foi um dos três ‘maitres’, que, em 1470, fez miniaturas para a ‘Chronique de Froissard’ de Louis de Gruuthuse, é aquele, que, por volta de 1472, a convite do então Duque de Guimarães, virta a Portugal, e aqui desenhou os cartões para as tapeçarias da ‘Guerra de Troye’

Sabe-se ainda que um dos três miniaturistas que trabalharam para a iluinuras da Crónica de Froissard havia, retratara por variasvezes o seu mandatário. Fora ele, segundo se lê, aquele que se desgnava com o cognome de ‘maitre de Marguerite de York’. Ora naquela data o miniaturista a quem se podia aplicar esse cognome, era o homem que desenhara anteriormente os cartões da ‘Guerra de Tróia’. É verdade que não trabalhara directamente para a Margarida de York, mas aquela tapeçaria, oferecida pela oficina de Pasquier Greneir à cidade de Bruges, veio a ser oferecida pela cidade Bruges a Carlos de Borgonha por ocasião da visita deste à cidade depois do seu casamento, e seria decerto oferecida pelo Duque a Margarida de York, sua jovem esposa. Autor de cartões e desenhador retratista, havia um: o mestre das Tapeçarias de Arzila.

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Os Cavalos Dourados

>> segunda-feira, 9 de abril de 2018

Os Cavaleiros dourados nas tapeçarias do Desembarque e do Cerco parecem uma incongruidade. No entanto, o facto não foi tido como tal pela maioria dos observadores, tanto os leigos, como os conhecedores. Assim, o Dr. José de Figueiredo, que deu o nome às tapeçarias, achou aparentemente muito natural, que durante o cerco a Arzila o Rei e o Príncipe se apresentassem em cavalos com atavios próprios para torneio. Por sua vez, o Dr. Reynaldo dos Santos, que atribuiu as tapeçarias a Nuno Gonçalves, não se espantou, que este, um pintor de obras sacras, soubesse desenhar - e na perfeição - cavalos piafando. Isto, quando o cavalo, é, reconhecidamente, difícil de desenhar, e um pintor quatrocentista de Arte Sacra não podia ter tido ocasião de o ensaiar, já que na imaginária da Bíblia e do Novo Testamento não encontraria muita ocasião de desenhar um cavalo. Hoje, sabendo quem mandou fazer as tapeçarias, e que se conhece também quem foi o seu cartonnier, já se encontra - creio eu - explicação plausível para a figuração do Rei e do Príncipe daquela forma naquelas duas peças. D. Afonso V, o Príncipe D. João figuram em três das quatro tapeçarias, nas do Desembarque do Cerco, e na do Assalto. A presença das duas figuras régias não se impunha. As tapeçarias não teriam perdido nada do seu valor histórico, se os dois senhores nelas não se vissem. A pé ou a cavalo. E decerto não existiriam se o autor da obra fosse outro que D. Fernando, duque de Guimarães. Ele e D. Afonso V eram amigos de infância, a amizade perdurara pela vida fora, e, segundo frei Jerónimo de S. Romão, na sua ‘História da Sereníssima Casa de Bragança’, [i] “El-rei fazia dele tão alto conceito, que nenhuma coisa meditava nem punha em prática pertencente à guerra sem que ele fosse ouvido”. Não seria só a guerra que eles discutiam, a feitura daquelas tapeçarias, obra tão nova em Portugal, foi forçosamente tema de conversa entre os dois amigos, e na gente da Corte em geral, e a presença das duas figuras nas futuras tapeçarias nunca deve ter sido posto em questão. Considerando a amizade entre o Duque e o Rei, e as inúmeras provas dessa amizade que o Duque recebera do Rei, era impossível não incluir a este nas tapeçarias. E havia, para o Duque, razão que fazia muito desejada a presença do Rei. É que esta implicava de imediato que também o Duque, como condestável, nelas figuraria. Há algumas dúvidas quanto ao exercício desse grande cargo. É que também o marquês de Montemor, irmão do Duque de Guimarães, exercia o cargo. Parece, que o marquês o exercia na Corte e em todos os actos civis, enquanto seu irmão o fazia em campanha. ‘Apesar de ser seu irmão, o marquês de Montemor, o condestável do reino, “o Duque servia sempre este posto nas expedições militares, em que com el-rei se achou,…”: O Duque figuraria portanto junto de D. Afonso nas tapeçarias, se o Rei nelas figurasse. Como sucedeu. Uma primeira figuração de D. Afonso V com seu filho e os seus condestáveis aparece na tapeçaria do ‘Assalto’, mas não se pode dizer que a figuração, com quatro caras na margem inferior da imagem, fosse feliz. Talvez que alguém tenha lembrado que aqueles senhores se distinguiriam melhor dos outros homens se estivessem a cavalo. O mais provável, porém, é que a sugestão partisse do mestre dos cartões. Ele tinha prática na matéria, e já fizera outras sugestões, que tinham sido aceites. Uma rápida pesquisa nas imagens da ‘Guerra de Troia’ prova que a suposição é correcta. Cavalos como aqueles das tapeçarias de Arzila figuraram em pelo menos uma das na peças da ‘Guerre de Troye’.

 
 
 
 
Tapeçaria da ‘Guerre de Troye’

 

 
 
  Tapeçaria do Cerco


 
 
 
 
 
 

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As tapeçarias dos homens d’armas

>> quarta-feira, 20 de dezembro de 2017


Tapeçarias muito pessoais, imaginadas pelo seu mandatário, são raras, e a sua interpretação pode ser difícil. A mais conhecida, e mais controversa, é a tapeçaria dita da ‘Dame a la Licorne’, no museu de Cluny em Paris. Ainda hoje especialistas e amadores curiosos procuram adivinhar o que estava na mente do criador daquela obra. No caso das tapeçarias de Pastrana, essa questão não se põe. Ninguém pode duvidar que se trata de recordar um acontecimento dominante no Portugal dos anos 70 do século XV: a guerra de Arzila e a subsequente rendição de Tânger. A questão que se põe é o que teria levado o Duque D. Fernando a abandonar a forma convencional de reproduzir um acontecimento, tal como usado nas tapeçarias do ‘Assalto’ e da ‘Rendição’, fazendo-o de forma totalmente diferente nas tapeçarias do ‘Cerco’ e do ‘Desembarque’. Uma primeira resposta é simplista, mas não deixa de ser pertinente: “provavelmente porque lhe apeteceu.” Porque lhe veio a vontade de pôr a sua marca muito pessoal naquelas peças. Mas há sem dívida mais. Toda a obra, a começar pela ideia de mandar fazer tapeçarias flamengas desenhadas em Portugal, de contratar para o efeito um mestre flamengo de categoria, tudo era obra de homem que tinha determinado projecto, que lhe dava seguimento, e que o fazia de forma racional. É, pois, lógico supor que houve um propósito racional naquela forma de tratar as tapeçarias do ‘Cerco’ e do ‘Desembarque’ e que, sendo assim, deve haver, na obra acabada, dados esclarecedores daquela opção. Contemplando atentamente as duas tapeçarias em questão, verifica-se o seguinte:
1º Nas duas tapeçarias retratam-se predominantemente homens de armas, sendo eles soldados de pé de picas e lanças na tapeçaria do ‘Desembarque’, e bombardeiros com sua arma na tapeçaria do ‘Cerco’.
2º As armas, tanto as de guerra, como heráldicas, são reproduzidas com grande cuidado, no mínimo pormenor.
3.º Os homens não são figuras anódinas; salta à vista que eles foram desenhados ao vivo. Olham bem em frente, para que o desenhador, o cartonnier, os possa retratar. Foram verdadeiramente ‘retratados’. Os homens que riem, que nos parecem acenar, estavam, em 1472, naquela posição, naquele mesmo local.
4ºNas duas tapeçarias figuram o Rei e o Príncipe a cavalo e vestidos de trajes de gala.
5º As bandeiras que se vêem são: bandeiras e pendões com as armas reais, a enigmática flâmula de D. Afonso V e, com estas, vêem-se unicamente bandeiras e pendões com as armas do Duque D. Fernando. Não se vê uma única bandeira com as armas de outro fidalgo, e muitos participaram, e alguns deram a vida, naquela empresa.
O ponto 4, a presença do Rei e do Príncipe, será tratado em capítulo separado. É um pormenor muito interessante, mas não tem a ver com a questão da novel forma de apresentar o tema nas imagens daquelas tapeçarias. O elemento mais elucidativo Para esclarecer essa questão, é a ausência de sinais heráldicos de outros que o Rei e o Duque. É verdade, que a tapeçaria não era objecto de caracter público, que era móvel particular, destinado a decorar as paredes de uma casa particular, neste caso, a do Duque, o Paço ducal de Guimarães. Mas, mesmo isso, não autorizava o dono da casa a mandar executar tapeçarias, ou quadros de tema histórico nacional omitindo as armas de outros participantes naquele feito. A coisa já se compreende, e se explica, caso a contratação dos homens a pé, e dos bombardeiros, que são fixados nas duas tapeçarias, tivessem sido coisa própria do Duque, que – por alguma razão - se devessem unicamente a ele. Ora sabe-se, que, em 1461, na empresa daquele ano contra Tânger, D. Fernando - que então ainda não tinha título de Duque - participara com cem homens a pé e cem homens a cavalo pagos do seu bolso. Para além da contribuição que certamente lhe cabia como grande proprietário. É muito provável que, em 1471, tenha havido igual participação. E que, nesse ano, a contribuição tenha sido de homens a pé e de bombardeiros. Se assim foi, é a resposta à questão posta. Não tinha que haver sinais heráldicos de outro que o Duque em tapeçarias que retratavam homens seus. Ruy de Pina, autor da crónica de D. Afonso V, não menciona uma contribuição do Duque. Mas a sua crónica foi redigida no reinado de D. João II, e se as bombardas de Arzila tinham saído do bolso do futuro 3º duque de Bragança, o cronista não se atreveria a mencioná-lo, elogiando - indiretamente, que fosse - o homem que D. João II mais odiava. Os cronistas que seguiram Ruy de Pina, apoiaram-se nas suas informações, e, se as tapeçarias não existissem, pouco ou nada se sabia sobre as armas bélicas usadas em Arzila.
Considere-se agora a forma como se resolveram os problemas que a feitura das imagens daquelas duas tapeçarias decerto levantou. O Duque não orquestrou uma fantasia artística, o que pretendia, era mostrar ‘como a coisa era’. Fê-lo de forma inédita, criando quadros vivos, que o desenhador reproduziria. Escolheu locais adequados. Que, para a tapeçaria do Desembarque, foi sem dúvida uma praia do Tejo, muito provavelmente aquela onde D. Fenando gostava de passear com os amigos, conhecida, devido a isso, por ‘praia do Duque’. No canto inferior direito da imagem vê-se um mastro caído, marcando o desembarque. Junto, um renque de pequenas cabeças recorda os homens afogados nessa ocasião, e, por detrás de um pequeno muro, avista-se um casario, que deve figurar a cidade sitiada. Nada daquilo tem ar de risco, os homens desembarcam risonhos com as suas armas e as suas bandeiras. Alguns observadores contemplam-os sorridentes. O Rei e o Príncipe deambulam nas suas montadas ao longo da praia. O desenhador consegue indicar o movimento dos cavaleiros repetindo as suas imagens por mais de uma vez. É indiscutivelmente uma composição destinada a recordar homens de armas ligeiras.
 
Na outra tapeçaria, a do Cerco, a cena não parece ter sido armada numa praia, e não é movimentada como a anterior. Os homens encaram o desenhador, é óbvio, que estão ali para serem ‘’retratados’. Ao centro da imagem, em lugar de destaque, está um grupo formado com evidente cuidado. São quatro homens, que, por aquilo que têm nas mãos e junto de si, caderno, pena de escrever etc, se identificam claramente como os homens que comandavam as bombardas, que eram seus ‘condestáveis’. Verdadeiros engenheiros da época, deviam saber reparar, e até construir uma bombarda, tinham de ser bons matemáticos, e possuir conhecimentos de química para avaliar a correcta porção e composição da pólvora. Era dos conhecimentos e da perícia dos condestáveis que dependia o êxito do tiro. Espalhados por trás deste grupo, contam-se distintamente oito bombardas com os seus serventes. A cada um dos quatro condestáveis cabia portanto o comando de duas daquelas peças.
Em Portugal não existia, então, corpo de artilharia constituído. Bombardeiros e condestáveis eram contratados para as diversas empresas e vinham em geral do centro e norte da Europa, da Flandres, da Alemanha e França e do Norte de Itália. Em 1446 cita-se um James, em 1449 um Crispim [1] e, anos depois, na Índia, onde o papel dos bombardeiros foi importantíssimo, e muitas vezes decisivo, dominam os nomes da Alemanha e França do Norte, da Flandres. Há então unicamente dois bombardeiros portugueses, um João Rodrigues da ilha da Madeira‘ e um Diogo Dinis, português, todos os outros eram homens com nomes - mais ou menos estorpiados - de flamengos e alemães, homens da Frísia, de Bremen. Condestáveis e bombardeiros eram compensados por bons tiros e resultados eficazes. Assim, em 1510, após a tomada de Benasterim,   o capitão-mor recompensou com trinta cruzados a Guilherme de taçill, condestável da nau Nazaré, por ter feito tão bons tiros na fortaleza de Benasterim e o fazer muito bem e derrubar muito lanço de muro. O mesmo que em Benasterim sucedera decerto em Arzila, o Duque, conhecido pela sua generosidade, não deixaria de gratificar os condestáveis pelos seus  bons tiros das suas peças. As duas tapeçarias são verdadeiros documentos visuais dos homens de armas no séc. XV. E o mais curioso é que - tudo o indica - estas duas peças tão masculinas, eram aquelas que o Duque, no seu testamento, destinava à sua mulher. Uma dessas tapeçarias, a do ‘Desembarque’, é mais curta que a outra, destinava-se provavelmente a figurar na parede em que encostava a cama do casal, e por cima desta. A tapeçaria do ‘Cerco’ colocada na parede oposta, bem à vista do seu criador, que com ela se podia deliciar logo que abria os olhos.

Os Condestáveis
 
 

Os Bombardeiros

 

 

 




[1] RUBIM, NUNO JOSÉ VARELA, A Artilharia Portuguesa nas tapeçarias de Pastrana, A Tomada de Arzila em 1471, revista de artilharis, Separta, 1987, p. 29

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Ordenamento das quatro tapeçarias

>> terça-feira, 5 de setembro de 2017

Expostas em Lisboa em 2010, restauradas em seguida por obra da Fundação Carlos de Amberes, expostas em seguida em várias cidades da Europa e dos Estados Unidos, a reacção perante as tapeçarias ditas ‘de Pastrana’ foi em geral esta: admiração pela vida e o colorido, estupefacção perante a enormidade, e.... perplexidade. Como não podia deixar de ser, dado que é obra de inspiração e imaginação pessoal de um mandatário amador, desenhada por um mestre na sua arte, que desenhava o que lhe mandavam desenhar. Aquilo não tinha nada a ver com as clássicas grandes tapeçarias flamengas, das quais há exemplos em palácios, catedrais e museus. Como sucede com obras de imaginação que são de inspiração muito pessoal, a interpretação depende do observador. A que se segue é a minha, outros terão possivelmente outra visão. Creio no entanto que haverá concordância quanto àquilo que me parece ser o ordenamento das quatro tapeçarias. Creio que é ordenação lógica, e aquela que permite a compreensão. As quatro peças foram classificadas por José de Figueiredo na seguinte ordem:

1-Cerco de Arzila
2- Desembarque
3- Assalto a Arzila    
4- Rendição de Tanger

A leitura normal seria de 1 a 4 sem interrupção. Ora lida dessa forma a leitura não faz sentido, há diferenças significativas entre as diferentes  peças. Diferenças que até agora eram inexplicáveis, porque o gigantismos das tapeçarias não permite as necessárias comparações. Hoje, com as bandas fotográficas, temos as tapeçarias nas mãos, e  detecta-se quase de imediato que não se trata de uma tapeçaria corrida de quatro peças, mas, sim, de um conjunto de dois pares: as peças 1 e 2 formam um par, as peças 3 e 4, outro. Os dois pares distinguem-se nitidamente no estilo e no sentido. 3 e 4 são factuais, descritivas, pretendem ilustrar de forma real o assalto à cidade de Arzila e a subsequente rendição de Tanger.  As peças 1 e 2, Cerco e Desembarque, não ilustram de forma real e factual o cerco e o desembarque, evocam antes os dois feitos. Hoje diríamos que 3 e 4 são a reportagem séria de dois feitos, e que 1 e 2 ilustram a alegria dos feitos, são os retratos que se tiram depois da vitória.
As peças do assalto e da rendição foram decerto as primeiras que o artista, o cartonnier, executou quando chegou a Portugal.  Eram provavelmente as duas únicas que o Duque tinha em mente quando se decidiu por aquela obra. Do artista pretendia que rendesse aquilo que a ele, Duque, ainda estava na memória. Habituado a desenhar o que lhe era pedido e indicado, e decerto ainda marcado pelos desenhos para a ‘Guerra de Troia’, os combatentes da primeira peça, o assalto não são gregos e troianos,  são portugueses e árabes, mas a diferença parece-me pequena. As bandeiras e as armas é que são bem reais, o Duque ali estaria em pessoa para dar as necessárias indicações. Nesta tapeçaria temos os primeiros retratos das quatro figuras que dominam as quatro tapeçarias: D. Afonso V, seu filho, o príncipe  D. João, o duque de Guimarães, autor da obra, e seu irmão, marquês de Montemor. Vêem-se nesta tapeçaria em baixo, assistindo ao cerco de Arzila.  A cidade foi tomada, saqueada, apesar de se ter rendido. Era difícil segurar os soldados, porque o saque era a recompensa tacitamente garantida aos soldados, e em particular, aos mercenários que sempre constituíam parte do exército medieval. Neste caso, o saque foi tão terrível, que os habitantes de Tanger, receosos que lhes viesse a suceder o mesmo, começaram a abandonar a cidade. D. Afonso mandou lá o marquês de Montemor com uma pequena força de homens a cavalo, e o marquês, constatando que a cidade estava quase deserta ocupou-a sem problema. A tapeçaria da ‘Rendição’ ilustra esse momento. 

Rendição de Tanger

                  O marquês de Montemor diante da cidade

Vejamos agora as tapeçarias 1 e 2. Na tapeçaria 1, a do Cerco, espanta ver nela a D. Afonso V e a seu filho caracolando despreocupados nas suas montadas cobertas de mantas doiradas em tão perigosa situação. Tudo indica que não estão em verdadeiro cerco, estão participando na encenação que seu primo Fernando imaginara para comemorar o cerco de Arzila. Uma barreira de tábuas enfeitada com os pendões do rei e do duque, estende-se a toda a largura da imagem. Pretende talvez figurar o bordo de uma nau, mas à direita há uma pequena porta, o que desmente essa versão, pode ser a barreira de um redondel. No interior desse círculo estão o Rei e o Príncipe, o Duque condestável-mor está à direita do rei com a espada deste. Junto do Príncipe, o marquês de Montemor, que exercia o cargo de condestável em determinadas situações. No mesmo espaço estão simples soldados com suas picas, estão bombardeiros com os canhões do seu ofício. Numa abertura do espaço central avista-se ao longe uma pequena cidade. É talvez a imagem figurada da cercada cidade de Arzila. Não é o Cerco, é a evocação do Cerco num quadro-vivo, e é, coisa que creio única no imaginário medieval e creio que até da Renascença, um autêntico retrato. O retrato colectivo dos homens que haviam participado em um mesmo feito. O Rei e o Príncipe identificam-se pelo seu traje dourado, as caras estão de prefil. Junto do rei, à sua direita, olhando bem em frente, está como na tapeçaria do assalto, o Duque de Guimarães. 


Tapeçaria do Cerco


Tapeçaria dita ‘do  Cerco’ (canto direito)

No palácio ducal de Vila Viçosa, hoje da Fundação Casa de Bragança, há um número de retratos do 3º Duque, todos obviamente inspirados no retrato 44 do Duque na tapeçaria do Cerco.


D.Fernando II, 3 duque de Bragança

           A tapeçaria do Desembarque, é feita no mesmo espírito da do Cerco. O que se ilustra na imagem é um desembarque, sim, mas não é decerto um desembarque arriscado em terra inimiga. É verdade que, à direita, se avista uma cidade protegida por muro, e, que, diante do muro há um renque de  caras aflitas. Recordam os muitos homens afogados no desembarque. Mas não é para assustar. Os soldados desembarcam alegres, as bandeiras flutuam ao vento, e, em baixo, o Rei e o Príncipe, recém-desembarcados, passeiam nas suas montadas doiradas ao longo da praia. Não é o desembarque, é a evocação do Desembarque. Um desembarque alegre e um Cerco alegre. As tapeçarias 1 e 2 são tão diferentes de 3 e 4 que podiam não pertencer ao mesmo conjunto. O que na realidade era o caso. 3 e 4, de tema marcial realista, são tapeçarias de homem. O Duque tem-nas consigo durante a campanha de Toro. 1 e 2, enquadradas de verdura e flores, são tapeçarias de quarto de senhora, são decerto aquelas que o Duque no seu testamento lega à Duquesa, sua mulher. 

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