As fontes

>> segunda-feira, 20 de abril de 2009


Os documentos como fontes

Quando a revolução francesa confiscou os bens das casas nobres e das instituições religiosas, o estado francês viu-se a braços com a riqueza documental dos arquivos seculares das famílias antigas e das instituições religiosas. Percebeu-se que era preciso organizar aquela papelada toda e, em 1821, já depois da restauração da monarquia, nasceu a ‘École des Chartes’, com o fim de formar homens que soubessem ler e interpretar os documentos antigos. E escrever sobre o passado baseados neles.
Em Portugal, onde no séquito da França, se tinham abolido as ordens religiosas, a Torre do Tombo, a Biblioteca Nacional, a da Universidade de Coimbra, e outras, viram-se inundadas do recheio dos arquivos que lhes chegavam às carradas dos conventos e mosteiros. Quando se aboliram por sua vez os morgadios, e os bens patrimoniais passaram a ter de ser divididos por mais que um herdeiro - para em lugar de um rico ou remeado e quatro pobres, ficarem cinco pobres – foi necessário ler os contratos e outros documentos antigos que estavam no cartório da casa para saber o valor das propriedades a dividir. Surgiram outros documentos de interesse histórico, que há séculos dormiam pacificamente o sono dos justos em baús e armários.
Percebeu-se que a história que até ali se escrevera não assentara em bases sólidas, que era agora, com aquela documentação vinda do longínquo passado, que verdadeiramente se podia perceber esse passado, e se podia escrever sobre ele. Porque toda a gente queria agora saber como aquilo tinha sido, e se os reis, aqueles sem vergonha, tinham dito a verdade ou não, quando diziam que tinham feito isto ou aquilo pelo povo.
-E os cronistas?
-Ora, esses escreviam o que os reis lhes mandavam, se calhar é tudo mentira.
Já não se queria escrever sobre o passado sem procurar saber o que os homens desse passado tinham dito e feito, e para isso era preciso consultar os documentos do passado, havia que ir às fontes, aos documentos originais.
Era só querer, documentos não faltavam. Documentos régios, documentos das câmaras, documentos dos mosteiros e conventos, e, para quem sabia procurar, os documentos dos cartórios das antigas famílias, alguns já nos arquivos públicos, outros ainda em mãos de seus antigos possuidores, tudo aquilo ali estava, à espera de ser aproveitado para recrear convincentemente o passado, para poder escrever sobre ele sem fantasia, como até ali sucedia.
Consigo muito bem meterem-me na pele daqueles historiadores que primeiro se abalançaram a escrever história baseados em documentos originais. À minha modesta maneira foi isso que fiz. Fui às fontes para os livros que escrevi. Por necessidade evidentemente, por achar que assim é que se devia fazer, mas também pelo gosto de sentir directamente como as coisas eram, e isso só sucede quando se mexe directamente nos papeis e pergaminhos dos arquivos.
O meu primeiro livro foi sobre a vida de um dos restauradores de 1640, que foi militar, e depois diplomata. Viveu a guerra no Alentejo, negociou como diplomata os casamentos de D. Catarina de Bragança e de D. Afonso VI. Com resultados não totalmente satisfatórios, mas isso não vem para o caso. O que ele tinha escrito enquanto militar e diplomata, não me faltava, no arquivo da minha família materna - que eu organizara - tinha em abundância a sua correspondência e outra documentação, mas era preciso saber o que tinham dito os outros. Saber o que se dissera no tempo sobre as operações multares, ler as actas do Conselho de Guerra, procurar algum relato dos feitos. Com a nomeação do homem para embaixador, era preciso saber o que tinham dito os ministros ingleses e franceses com quem ele tinha negociado e tratado. Candidatei-me a uma bolsa da Gulbenkian, que obtive, e pude consultar nos arquivos ingleses e franceses os documentos dos respectivos ministros e diplomatas.
Para o livro que intitulei ‘Na rota da Pimenta’ não houve problemas de leitura e deslocação, a documentação que mais interessa aos Descobrimentos está na sua maioria impressa.
Também não precisei de grandes deslocações para escrever sobre a vida monástica feminina em Portugal, assunto que muito me interessava, a maioria dos arquivos dos grandes mosteiros encontram-se na Torre do Tombo e na Biblioteca Nacional. Mas era preciso ler documentos com letra bem diferente da letra do século XVII a que me habituara. Fotocopiei, recopiei em casa, e à força de ler os documentos originais fiquei com uma ideia do que era em Portugal, no longínquo passado, a vida das mulheres em religião.
À leitura das fontes, segue-se a sua interpretação critica. Tome-se este caso da vida monástica das mulheres na Idade Média. Em Portugal, os autores do século XIX entusiamaram-se com a possibilidade de encontrar nos arquivos provas das vergonhas que se passavam nos mosteiros. Estudaram os documentos, e não muitos, com esse fim em vista. Há agora outro género de curiosidade sobre a vida monástica.
. Os cartórios monásticos encheram-se pelos anos fora de actas de doação, de contratos de arrendamento e de aforamento, de correspondência com as autoridades religiosas, de contratos com os andarilhos que levavam o correio a Roma. Há periodicamente compilação de documentos que interessavam à administração da grande casa. Abadessas conscenciosas mandavam copiar cartas de doação, pedir treslados de contratos, de arrendamentos, de doações. Abundam nos arquivos esses “apanhados” de documentos antigos para basear ou defender uma pretenção, Os mosteiros albergavam muita gente, os edifícios necessitavam de constantes reparações, guardavam-se os contratos com os mestres das obras, com os fornecedores de bens. E não faltavam os inevitáveis pleitos, com a respectiva documentação.
O autor que hoje pretende escrever sobre a vida nos mosteiros femininos, com o propósito de entender o que se passava e como se passava a vida nos mosteros, e não pró ou ou contra eles, esse vai estudar os contratos de doação, de compra e de venda de terras, os do arrendamento e aforamento destas, vai ler os documentos que tratam do relacionamento por vezes tempestuoso das abadessas com os bispos e reis, e aqueles que referem às questões com os foreiros, com os inúmeros assalariados de um grande mosteiro. Não vai ignorar os problemas de vivência, os escândalos que se deram e o porquê deles. Vai-se meter dentro do tempo e dos condicionamentos daquele tempo, e tirar as suas conclusões. Considerando as coisas como elas eram naquele tempo, não como elas, no seu parecer de autor moderno, deviam ter sido.
Gostava de saber exprimir o prazer da pesquisa das fontes, do momento em que se encontra aquele documento que prova uma suposição, que concluie um raciocínio, que explica uma duvida. Não me esqueço da alegria quando na biblioteca de Évora encontrei logo duas descrições coevas da batalha de Montijo, da qual eu até ali não conseguira perceber os verdadeiros movimentos.
Menos agradável é encontrar algum documento que prova que afinal nos enganámos numa afirmação, num raciocínio. Acontece, e pode obrigar a complicadas modificações.
Uma pergunta que me coloco por vezes é se a correcta e completa consulta das fontes, aliada à seriedade na sua avaliação, aliada à indispensável imaginação histórica, permitem ao escritor mostrar de facto como aquilo “na verdade fora”, segundo a exigência de Ranke. Mostrar como foi segundo os documentos, sim, mas mostrar como realmente fora para quem vivera os acontecimentos, isso nunca será possível. Mas isto já entra na questão de como escrever História, e estas minhas amostras de escrita histórica não tem nada a ver com isso, serviram só para exemplificar o uso de fontes documentais.

O que dizem os outros
“A Revolução francesa não se contenta com mudar o sistema político, administrativo e judicial francês, suprime também, juntamente com as ordens sociais, os lares da vida científica: academias, sociedades, ordens religiosas, vende os seus bens, destroi-lhes os monumentos, apodera-se das suas bibliotecas e das suas colecções, dispersa e destrói os seus arquivos. No seio da própria Convenção homens como o abbé Grégoire insurgem-se contra esse vandalismo. Numa certa elite intelectual, que sob o Consulado e o Império estará no poder, manifesta-se o sentimento que é preciso preservar o património que aquilo representa”.* (m/tradução)
Em 1821, já no reino de Luís XVIII, é então criada a “École des Chartes”.
*LÉcole des Chartes de la Monarquie a la Republique, une histoire intelectuelle et politique (1621-1921) Bruno Delmas
em http.//www.archiviodistato.firenze.it/atti/aes/delmas.pdf

Observações à margem
Ficaram-me boas recordações de bibliotecas e arquivos que frequentei nas minhas pesquisas. E nem todas de ordem histórica. Assim, por exemplo, quando fiz uma consulta de documentos diplomáticos franceses no Arquivo dos Negócios Estrangeiros, no Quai d'Orsay, trabalhava lá, ao mesmo tempo que eu, um jovem padre italiano, que era a encarnação da beleza masculina. Considerei-o na altura o homem mais bonito que jamais vira.
No gabinete de manuscritos do Museu Britânico fui severamente repreendida por usar uma Bic. Lera à entrada, que era proibido usar o ‘ballpoint pen’, julguei que era uma caneta especialíssima, perigosa, não pensei que se tratava da Bic. Deram –me um lápis, e no dia seguinte levei a caneta de tinta permanente, que essa se podia usar. Curioso.
Na Torre do Tombo anotei entusiasmada a cota de um maço de documentos soltos do mosteiro de Lorvão, onde encontrara uma quantidade daqueles papeis recortados, que se usavam para proteger os grandes selos de lacra. Eram verdadeiras obras de arte de recorte, mereciam futura revelação. Perdi a cota.
Da Bibliothèque Nationale em Paris recordo a pesquisa que lá me levou, e a dúvida, se teria a sorte de encontrar a obrinha, que sabia existir, mas da qual ignorava o título, sobre os costumes e a etiqueta da corte de Borgonha, redigida nos meados do século XV pela filha de D. Isabel de Sousa, uma senhora portuguesa, que vivera na corte ao serviço da Duquesa, infanta D.Isabel de Portugal. Uma fonte importante para apoiar os argumentos que apresentava em livro que estava escrevendo. Pesquisa bem sucedida, felizmente, com a ajuda de duas bibliotecárias,

3 comentários:

luiza 20 de abril de 2009 às 23:39  

Depois de ler "As fontes" consegui, por fim, perceber como é que o meu Pai se deve ter sentido incompreendido durante toda a sua não muito longa vida. Dos treze filhos que Deus Nosso Senhor lhe deu, onze acharam sempre que os arquivos eram uma "seca" e as quantidades intermináveis de papéis "importantíssimos" em que ninguém podia tocar nem sequer "olhar para eles", eram uma "papelada horrorosa" que só chamava pó e ratos.
Mas ... e os passeios a sítios lindos que acabavam invariavelmente nos arquivos encafuados de qualquer terreola deliciosa? E os sábados de sol que decidia "trocar-nos" por maravilhosas horas na Torre do Tombo?
E voltava tão feliz de todos esses programas que nós não conseguiamos perceber ...
O que eu gostaria de o poder ver ainda a beber nessas "fontes" dessa "água" que o deliciava!
E no meio de tudo isso habituei-me sempre a ouvir o nome da Theresa Schedel pronunciado cheio de admiração.
Obrigada,
Luiza de Abreu Peixoto

Theresa S. de Castello Branco 21 de abril de 2009 às 10:16  

Que bom ter comentário de uma filha do José Luis Abreu Peixoto, A simpatia era mutua, e fico contente de ter conseguido transmitir o interesse das “fontes”. Espero que continue a comentar o meu blog, e eu ter de vez em quando a opinião de uma mulher. Um abraço Theresa

landing page design 16 de março de 2011 às 09:10  

Thanks for this informative post ,

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