Livros de viagem. Ao Amazonas no sec.XIX

>> segunda-feira, 18 de maio de 2009


Ao Amazonas no séc. XIX
Não sei quando e como nasce em nós, que gostamos de livros de viagem, o gosto por esse género de literatura. Não é coisa que se nos ensine na escola, nem mesmo em lições de geografia algum professor se lembrou de nos sugerir um livro de viagem. Os livros de aventura da nossa juventude é que nos abriram os longínquos horizontes. A história de Robinson Crusoe na sua ilha, os livros de Júlio Verne. de Rafael Sabatini. de R.L.Stevenson. E para as crianças que sabiam alemão, os livros de Karl May
O autor nunca saíra da sua nativa cidade de Dresden, mas tinha a habilidade de estudar tão bem as terras e os percursos, que mesmo os melhores geógrafos não encontravam por onde lhe pegar. Nós, jovens leitores, não pensávamos se aquilo estava mais ou menos certo, acompanhávamos com entusiasmo - muitas vezes com o atlas – os heróis dos livros através dos desertos da Arábia, dos desfiladeiros do Curdistão, das montanhas dos Balcãs. Passávamos o Atlântico, estávamos no Far West, conhecíamos as suas pradarias. Íamos ao rio de la Plata.
Talvez que seja nesses livros de aventura da juventude que assenta a futura leitura de livros de viagens. Mas passa muito tempo antes de lá se chegar. Porque depois deles se entra no mundo encantado do romance, e durante anos não se sairá dele.
Alguns nunca dele saem, outros descobrem um dia que ainda há outras formas de literatura e, entre elas, e porque não, a literatura de viagem.
O século XIX, que viu nascer aqueles nossos livros de aventura em países remotos, foi também o grande século da literatura de viagem. A Europa queria finalmente saber como eram as coisas em outros continentes, como era a sua flora, a sua fauna, como eram os costumes dos habitantes dessas terras desconhecidas, que línguas por lá se falavam, que literatura havia. Nasciam por toda a parte os Institutos Científicos, as Sociedades de Geografia, as Academias de Línguas Orientais, os Museus de História Natural. Algumas dessas instituições, generosamente financiadas, podiam pagar as viagens de estudo dos seus cientistas, e havia mecenas que, não podendo eles ir, mandavam outros para lhes contar como era aquilo por lá. Alguns viajantes iam pelos seus próprios meios, e, todos em geral com um fim em vista: de estudar a fauna, a flora, a natureza. E como para o viajante do século XIX tudo que via era novo, tudo lhe parecia digno de recordar, e de narrar, de explicar aos que tinham ficado em casa. Todos os anos se publicavam na Europa novos livros narrando as impressões de viajantes.
Há tempos comprei, através de dois diferentes catálogos, dois desses livros de viagem publicados no século XIX. Um, ‘The Naturalist on the Amazons’, de Henry Walter Bates*, o outro, ‘Narrative of Travels on the Amazon and Rio Negro’, de Alfred Wallace**. Só depois de os ter lido, e de me ter interessado pelos autores, de quem ignorava tudo antes de os ler, é que realizei que os dois livros se completavam.
Alfred Wallace era professor num colégio de Leicester. e ai encontrou Henry Walter Bates, um jovem e entusiástico entomologista (que é, segundo me informam, como se designa o zoologista que se dedica em particular ao estudo dos insectos). Os dois homens descobriram que partilhavam o mesmo gosto pela História Natural, que ambos tinham lido o mesmo género de livros, entre outros - lê-se em Wikipedia, henry Bates - “o anónimo Vestiges of the Natural History of Creation***, que fizera da evolução um assunto de debate diário entre a gente letrada”.
ambém tinham lido o livro de William H. Edwards sobre a sua expedição ao Amazonas, e foi essa leitura, segundo se lê em Wallace, que os fez pensar numa ida àquela região. Edwards escrevera que o acesso não era difícil, e quanto às despesas da viagem podiam cobri-las, achavam eles, coleccionando plantas e animais para os museus inglesas. O interesse pela história natural era geral em toda a Europa, e pagavam-se bons preços por exemplares desconhecidos de flora e fauna.
A coisa decidida, os amigos passaram um tempo em Londres onde procuraram ver tudo o que havia a ver de plantas e animais da Amazonia já coleccionados. Contactaram museus e colecionadores de quem obtiveram listas com os respectivos desejos de espécimes, e, em Abril de 1848, embarcaram em Liverpool chegando ao Pará a 26 de Maio. Bates tinha 23 e Wallace 25 anos.
Bates não dá as razões que o levaram àquela decisão, mas Alfred Wallace explica, na introdução ao seu livro, que aquilo que o levara a empreender aquela viagem fora “um intenso desejo de visitar um país tropical, de contemplar a luxuriante vida animal e vegetal que se dizia existir lá, e de ver com os meus próprios olhos todas aquelas maravilhas, das quais lera com tanto prazer nas narrativas de viajantes”. Haviam sido estes os motivos que o tinham levado “a partir para
“uma terra distante onde reina um verão eterno”

Uma vez chegados a esse paraíso de verão eterno, os amigos instalaram-se numa pequena casa térrea fora da cidade, compram tachos e panelas e outros utensílios de cozinha, mesa, bancos e redes para servirem de cama, e começam de imediato a coleccionar. O que era fácil, os primeiros espécimens - lagartixas e formigas - tinham-nos na própria casa, a floresta nascia à sua porta, era só olhar com atenção e apanhar ou colher, e quando a gente da vizinhança soube daquele estranho gosto, trazia constantemente novo material.
O que mais havia nos arredores eram lagartos e formigas: “Lagartos há-os por toda a parte, alguns são cor de cobre, outros têm costas do mais brilhante e sedoso azul e verde, outros estão marcados com delicadas sombras e linhas castanhas e amarelas”, escreve Wallace. E formigas de todos os tamanhos por todos os lados, “a flor que se colhe, o fruto que se apanha estão cobertos delas”. Pelos caminhos encontravam-se umas formigas gigantescas, de perto de três centímetros “passeando gravemente só ou em par”. Mas o que maior impressão lhe causara, escreve Wallace, fora o seu primeiro contacto com o macaco. Uma espécie pequena, muito engraçada e aliás muito boa de comer.
Bates também comenta a abundância de lagartos e formigas, mas pasma sobretudo com o número e variedade de borboletas. “Dar-lhes-ei uma ideia dessa diversidade, se disser, que aqui, no perímetro de uma hora a pé, se contam 700 variedades de borboletas, enquanto em Inglaterra, nesse mesmo espaço se contam 66, e em toda a Europa, só 321”
Os dois companheiros fizeram uma primeira excursão ao rio Tocantins até aos rápidos de Arroyos, regressaram a Pará, e, ao fim de um ano, decidiram coleccionar cada um por seu lado. Wallace viajou pelo rio Negro e chegou à boca do Amazonas: “Dois dias depois estávamos no próprio Amazonas. e foi com um misto de admiração e de respeito que contemplámos a corrente daquele enorme e famoso rio”.
Quanto a Bates, percorreu de novo o rio Tocantins, e aventurou-se até ao Amazonas Superior, à região conhecida pelos Solimões, ou Maranhão, onde ficaria durante quatro anos e meio: “uma magnífica terra selvagem, onde o homem civilizado ate agora practicamente não pôs o pé.” Bates ignorava a existência de um livro intitulado ‘História dos animais do arvores e do Maranhão’, do padre frei Cristovam de Lisboa, mas isso é outra história.
Cada um por seu lado, os dois naturalistas iam coleccionando e conservando os seus espécimes e fazendo as suas observações sobre o que viam. Não tinham as facilidades de transporte que hoje se lhes ofereceriam, serviam-se dos transportes dos habitantes, viviam com eles a vida do rio.
Wallace interessa-se muito pelos costumes dos nativos, a sua língua, os seus artefactos, e faz constantes observações sobre a curiosa facilidade de adaptação dos animais. “Em todas as obras de História Natural encontramos detalhas da maravilhosa adaptação dos animais à comida, aos hábitos e aos locais onde se encontram. Mas o naturalista começa a olhar um pouco para além disto, e a ver que têm de haver algum princípio regulando a infinita variedade da vida animal”.
Bates concentra-se na sua especialidade, mas não deixa de fazer também ele as suas observações sobre a vida indígena e da gente com que tem contacto: os indianos, os portugueses - originalmente na sua maioria gente da classe baixa, que se misturara facilmente com os indianos - os escravos negros. Fala dos canoeiros do rio e dos cantos com que quebravam a monotonia da viagem:
“A lua está saindo
mãe, mãe
A lua está saindo
mãe, mãe
As sete estrelas estão chorando
mãe, mãe
por s’acharem desamparadas
mãe, mãe”
cantavam. “Há naquelas melodias uma selvajaria e uma tristeza, escreve ele, que harmonizam bem com as circunstâncias das suas vidas, e que em parte decerto nasceram delas: os escuros canais do rio com os seus ecos, a infinidade daquela sombria floresta, a solenidade das noites”.
“…o coro dos gritos dos animais do fim da tarde começou, tendo os macacos como principais actuantes. O seu grito arrepiante, extraterrestre, faz acrescer a sensação de solidão que nos envolve ao anoitecer….”

Wallace demorou-se três anos na Amazónia, Bates onze. Finalmente, com a saúde abalada e cansado da falta de contacto com gente com quem pudesse trocar impressões, decidiu o regresso a Inglaterra. Recordou o que a gente do Pará dizia da sua terra “Quem vai para o Pará para”, e sentiu que também ele estivera prestes a sucumbir, mas o desejo de ver de novo os seus pais e, sobretudo, de gozar de novo os prazeres do convívio intelectual, decidiram-no. Lembrado do que sucedera a Wallace, que perdera tudo que coleccionara quando o seu navio se incendiou durante a viagem para Inglaterra, Bates despachou as suas colecções em três diferentes navios. Tudo chegou a salvo. “Quando ele, passados onze anos, regressou a Inglaterra em 1869, trazia - ou tinha já mandado - mais de 14,000 espécimens (sobretudo de insectos) dos quais 8,000 eram cientificamente desconhecidos.”(Wikipeda)

O que, para um leitor dos nossos dias, faz a diferença entre o relato de um viajante do século XIX sobre a sua viagem e estadia na Amazónia e, digamos, um artigo sobre o mesmo tema num National Geographic Magazine, é que, já não falando na diferença de estilo, o artigo de hoje nos dá só mais uma visão de coisa que já conhecemos. Conhecemos o Amazonas por dentro e por fora e até por baixo em fotografias subaquáticas. Mas ao lermos as impressões do viajante do século XIX, passamos a ver aquilo pelos olhos de alguém para quem tudo era novo, e tudo para nós é novo também.

Observações à margem
Wikipedia.Henry Walter Bates
Deu o primeiro relato científico de mímica entre animals.
Como outros cientistas ingleses daquele tempo, Bates não teve uma educação formal em ciência, foi um auto didacta. Deixou a escola com doze anos para trabalhar, e enquanto trabalhava, ensinou-se a si próprio pela leitura. Nos tempos livres colecionava insectos.

Observações à margem
Reflectindo sobre os seus cinco anos de exploração, Darwin escreveu: “Aconselharia eu outros a fazer tão arriscadas jornada? Sim, mas só se tivessem um particular interesse – zoologia ou geologia - de outra forma o prazer é abafado pelos sofrimentos, pelas pequenas irritações que assumem proporções gigantescas – a falta de espaço, de privacidade, de descanço – a sensação de constante pressa, a privação de pequenos luxos, de confortos da civilização, e, pior que tudo, o constante enjôo. E os viajantes não devem ter unicamente interesses de diletante. Têm de usar a colheita das suas observações, têm de tirar dela algum fruto conclui.****
* Dent & Sons, London and New Yotk
** Fac símile da 1ª edição
*** Wikipedia Vestiges of the Natural History of Creation era uma importante controversica teoria de História Natural publicado anonimamente em 1844 defendendo uma evolução a natural ou evolucionada
****Adrian Desmond & James Mooore DARWIN

4 comentários:

daniel.abrunheiro@gmail.com 18 de maio de 2009 às 09:06  

Viajo por estes dias, Thereza, por "Espinosa - Vida e Obra", de Steven Nadler (Europa-América). Ando, por assim dizer, admirado. Que excelente viajante foi este ex-judeu de ascendência portuguesa.

Theresa Castello Branco 18 de maio de 2009 às 16:56  

Obrigada pela sugestão. A literatura de viagem é um gosto adquirido, e pouco comum entre os meus conhecimentos. E não sei bem a que regras obedece o gosto por ela, se é que as tem. Assim, por exemplo, não me venham com viagens ao Polo Norte. E não me venham com descrições muito poeticas. Li para um dos próximos posts o Egypto de Eça de Queiroz, que o filho teve a infeliz ideia de publicar. È por excelência o que entendo por livro de viagem que não se consegue ler. E. sendo de quem é, é pena. Theresa

Anónimo 19 de maio de 2009 às 13:52  

Tia Teresa, finalmente consigo escrever, gostei imenso deste seu artigo, eu nunca li livros de viajens, mas agora fiquei com vontade de ler, será a minha próxima leitura, um beijo Sofia CB

Theresa Castello Branco 19 de maio de 2009 às 19:07  

Olá Sofia. Ainda bem que conseguiu chegar até aqui. Eu nunca "recomendo" livros, mas se um artigo meu transmitiu a vontade de ler um livro de viagem, acho que não fiz mal. É, como digo ao Daniel Abunheira, um gosto adquirido. Não me espanto, se gostar da experiência, e não me espanto se não gostar. Depois me dirá, se continuar a comentar comigo, como espero. Um beijo tia Theresa

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