VIDA QUOTIDIANA DAS MONJAS NO MOSTEIRO MEDIEVAL - CAP I EXPLUSÃO DOS MONGES DE LORVÃO, ACUSAÇÃO, DEFESA, PRONÚNCIA

>> terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Nos primeiros anos do século XIII a gente de Coimbra teve ocasião de seguir um caso apaixonante na sua vizinhança: o processo que levaria à transformação do antiquíssimo mosteiro de monges negros de Lorvão - fundado por homens para homens - em mosteiro cisterciense de mulheres. Era o 'negócio de monasterio de Lorbano', como o designavam entre si os bispos que seriam chamados a interceder no caso, e que não foram poucos: o bispo de Santiago de Compostela, o de Zamora, o de Lamego, e, evidentemente, o de Coimbra.

Nunca ficou completamente esclarecido o que verdadeiramente esteve por detrás do 'negócio', mas foi assunto que fez correr muita tinta. Não era indiferente que uma das mais antigas instituições religiosas da região conimbricense sofresse uma transformação tão radical. A questão era de tão magno interesse e apaixonava tanto a gente daquelas paragens, que todos os passos do processo eram tornados públicos em Coimbra. Cartas, bulas e outros documentos que dissessem respeito ao caso de Lorvão eram proclamados na Sé de Coimbra, lidos do alto do púlpito para informação dos interessados.


           À partida os dados do caso eram estes: de um lado achava-se o antigo mosteiro de Lorvão, de monges, que se designavam por 'fratres de Laurbano' .Eram então regidos pelo abade Julião. Do lado oposto encontravam-se o bispo de Coimbra, Pedro Soeiro, o rei D. Sancho I, e a filha mais velha deste, D. Teresa, rainha de Leão, separada de seu marido. Em jogo estavam o governo e a futura posse do mosteiro e dos seus imensos bens, as terras que sucessivas gerações de fiéis tinham legado aos monges, e que os seus abades tinham aumentado com judiciosas aquisições: as igrejas de que os abades eram padroeiros, onde apresentavam o pároco e das quais recebiam a dízima, os coutos onde tinham jurisdição, as vilas, os casais, as salinas, as pescarias, os moinhos. E, evidentemente, a gente que ‘pertencia’ a algumas das terras. Quer por má administração, quer em resultado dos desastrosos anos agrícolas que tinham abalado os primeiros anos do século XIII, o mosteiro estava então sofrendo uma crise económica grave.
            
          Residia nesse tempo em Coimbra a rainha D. Teresa, filha mais velha de D. Sancho I. Ou melhor, D. Teresa vivia junto de seu pai, este deslocava-se pelo reino, demorando-se contudo mais em Coimbra, pelo que D.Teresa residiria igualmente mais tempo nessa cidade do que em qualquer outro local do reino. Casada muito nova com Afonso IX, rei de Leão, o seu casamento fora anulado. Por consanguinidade, dizia-se. Mas mais provavelmente por conveniência de um ou de outro dos conjugues. Uma separação amigável, segundo tudo indica. A rainha regressara a Portugal, trazendo consigo uma das suas filhas, ficando as outras com o pai.
            
           Foi sobre estes dados que dois cronistas monásticos do século XVII, frei Leão de São Tomás e frei António Brandão, iriam reconstituir a história de como o mosteiro foi retirado aos monges negros e confiado à rainha D.Teresa.

          No século XVII, quando frei Leão e frei António escreveram as suas obras, não se descobrira ainda a necessidade de basear afirmações históricas em documentos originais e comprovadamente fidedignos. Ainda se podia dar largas à fantasia em obras de história, e os citados autores foram pródigos nesse campo.
            
         Frei Leão de São Tomas, autor da ‘Beneditina Lusitana’, escreve sobre o caso: que a rainha D. Teresa decidira vestir o hábito branco das monjas cistercienses após a anulação do seu casamento, e que escolhera o mosteiro de Lorvão para nele passar o resto da vida como religiosa. Ainda segundo esse autor, o rei seu pai, acompanhado do bispo de Coimbra e do abade de Alcobaça, teria ido a Lorvão nas vésperas de Natal de l200, fazendo então entrega do mosteiro a sua filha e a outras senhoras que a queriam acompanhar na vida religiosa.1 A verdade é outra. O último documento do último abade de Lorvão é datado de 1205, pelo que é fantasiosa a data da entrega do mosteiro em l200. Assim como é fantasioso o quadro da Infanta entrando no mosteiro acompanhada de outras senhoras vocacionadas para a vida religiosa.
            
        O cisterciense frei António Brandão vê as coisas de outra forma ainda. Esse autor afirma que a rainha D.Teresa, tendo regressado ao Reino depois de separada de seu marido, pretendera fazer vida religiosa, e que o Rei seu pai fora do parecer que o mosteiro de Lorvão, situado perto de Coimbra, ‘em sítio recatado e acomodado à contemplação’, e cujos monges estavam em declínio espiritual, estava indicado para recolher a Infanta. E que, assim sendo, ‘convinha tirar-se do mosteiro aos monges e acomodar nele esta princesa, para que, instituindo ali monjas da nossa ordem, se desse princípio a nova religião de maior obediência qual guardavam então os cistercienses’. Na sua parcialidade para com a Ordem de Cister, frei António deve ter deduzido o que se passou em Lorvão, não a partir de documentos contemporâneos - e alguns decerto terá lido - mas a partir daquilo que, em parte, se viria a dar. Isto é: como a filha de D. Sancho viria a instalar a Ordem de Cister em Lorvão, o cisterciense frei António Brandão concluiu que o Rei instalara a sua filha em Lorvão justamente com o propósito de favorecer os cistercienses. Ora essa suposição não tem fundamento, até por ser sabido, que D. Sancho, ao contrário de seu pai, não favoreceu particularmente os cistercienses. Não tem também fundamento a outra afirmação do cronista, segundo a qual a princesa quisera ter Lorvão para fazer ali vida religiosa. A tomada de hábito por D. Teresa é mais que duvidosa. Se alguma vez o fez, foi no fim da vida, e, quanto a ter vivido em Lorvão, ela só lá residia - como adiante se verá - periodicamente, e por períodos relativamente curtos. Não foi pois com o propósito de ali residir ou de ali professar, que D. Teresa a tomaria conta do mosteiro. As razões foram outras, e o caso bem mais complicado. Uma transformação como a que se deu em Lorvão não era na época um acontecimento vulgar. Muitos mosteiros desapareciam, em geral por razões de ordem económica, por não terem bens suficientes para se manterem. Alguns desses mosteiros tinham-se convertido em simples igrejas, e assim se conservavam e se conservariam, enquanto outros desapareceram por completo, havendo notícia da sua existência por um ou outro documento.
            
         Houve ainda numerosos casos de mosteiros que aderiram a uma nova ordem religiosa para solucionar problemas vocacionais. Foi o que se deu com muitos dos pequenos conventos beneditinos portugueses, que, nos séculos XII e XIII, adoptaram a ordem de Cister, então no seu apogeu, abandonando a de São Bento, que caíra numa estagnadora mediocridade. São exemplos São Cristóvão de Lafões, que, a partir de ll69 é cisterciense, Santa Maria de Salzedas, também beneditino, que se torna cisterciense no fim do século XII, São Pedro de Águias, que ainda era beneditino em ll70 e surge como cisterciense em 1205.3 Nesses mosteiros houve mudança de observância. Em Lorvão deu-se mais do que isso. A par de mudança de observância, deu-se a transformação de um mosteiro de homens em mosteiro de mulheres, e isso é que era extraordinário.
            
   O primeiro documento relevante para este caso é o curioso balanço feito por monges de Lorvão de tudo aquilo que ao longo dos anos lhes fora tirado e usurpado pelos bispos de Coimbra. O documento é anterior à saída dos monges em 1206, e forçosamente posterior à nomeação do bispo Pedro Soeiro, que se deu em 1193, porque já se menciona um abuso cometido por esse prelado. Foi coisa sem dúvida elaborada em plena crise, quando em Lorvão já se devia pressentir que haveria uma próxima intervenção do bispo de Coimbra nos assuntos do mosteiro. Os monges vão muito atrás no tempo, começam por enumerar tudo aquilo que tinha padecido com o bispo Gonçalo, o bispo a quem os condes D.Henrique e D. Teresa haviam entregado Lorvão depois de uma primeira crise que o mosteiro sofrera.





     ‘Nos fratres de Laurbani’ recordamos todo o mal que nos fez o bispo Gonçalo, assim escrevem os monges no início do seu documento.4 Em primeiro lugar, esse Bispo apreendera-lhes muitas das propriedades que eles tinham na vizinhança de Coimbra, a saber: Vila Barrosa, Alvalade, Recaisada (sic) com seus barros; a metade da pescaria do Mondego, e a vila de Alquilada com a sua igreja; na terra de Besteiros tirara-lhes Santa Comba com sua igreja, assim como S. João de Vila Pouca e S.João das Areias com suas vilas e suas igrejas; tirara-lhes ainda a metade de Oliveira de Currelos, a quarta parte de Papízios, e duas partes de Midões, e ainda Lourosa com suas igrejas.
           
      Os Bispos - escrevem os monges - validara a anexação dessas propriedades por meio de escrituras, e tudo isso apesar da garantia que eles tinham, de que os bispos de Coimbra não se lhes podiam atravessar, ‘transmeare’, e que, caso o fizessem, seriam excomungados como Judas traidor e lançados nas profundezas do inferno. Esse Bispo, escreviam de seguida os monges, destruíra a igreja de Santa Eulália e construíra ali outra igreja para si. Da igreja de Sabugosa, que era deles, o mesmo senhor retirara tudo, edificando uma igreja sua. Finalmente, ele, Bispo, ‘forçara’ os homens deles: aos da Pampilhosa mandara ir trabalhar para a Vacariça - que era dos bispos de Coimbra - e aos homens de Freixeda fizera ir para S.Martinho.
            
Os monges enumeravam em seguida os abusos cometidos por outros dois prelados de Coimbra, os bispos Bernardo e Miguel, e, por fim, referiam o que lhes havia feito o bispo que à data governava a diocese, ‘et iste episcopu Petro’. O bispo Pedro tinha, segundo os monges, excomungado um clérigo deles em S.Cucufato por ele não lhe querer dar jantar, ‘prandium’, coisa que o bispo não podia exigir, porque nunca tal se dera. ‘Et omnes episcopi deambulant per istum forum’. E todos os bispos deambulavam por estes caminhos, eram todos iguais, concluíam os monges negros.
            
Receariam eles, ao elaborar este memorando, que a história se repetisse? Receariam eles, que os seus problemas viessem de novo a ser resolvidos pelo bispo a seu favor e proveito e contra eles, monges de Lorvão? Ou teria o memorando sido elaborado com o propósito de provar a alguém, talvez ao seu próprio abade, que não se podia confiar em Pedro Soeiro? Talvez os monges pressentissem no abade um propósito de acomodação com o bispo, e pretendessem mostrar-lhe o perigo de confiar nele. Fosse como fosse, o documento mostra que no mosteiro reinava mal-estar e desconfiança.
      
       O citado memorando é o único documento mostrando a questão do mosteiro do ponto de vista dos seus monges. É possível que tenham existido outros documentos pertinentes, mas só este se conservou no arquivo de Lorvão. Seguem-se-lhes os documentos que dizem directamente respeito ao processo de alienação em l206.
            
Em um primeiro documento, lê-se queo bispo de Coimbra participava aos fiéis, que o abade Julião lhe fizera espontaneamente entrega do seu mosteiro, e que abade e monges se tinham retirado para o mosteiro de Pedroso. Tendo o mosteiro de Lorvão, em consequência dessa saída, ficado desamparado, ele instalara lá monjas da ordem de São Bento. De São Bento, note-se, não de Cister.
            
O bispo fazia notar que, mesmo que abade e monges não tivessem renunciado espontaneamente ao mosteiro, ele poderia ‘licitamente’ ter tomado conta do mesmo, considerando a vida dissoluta dos monges e a dilapidação que eles faziam dos bens monásticos: ‘eorum vitam dissolutam et dilipidationem rerum eusdem monasterii’.5
            
          Temos pois o mosteiro abandonado por seu abade e monges - de sua livre vontade, ou não - as chaves depositadas nas mãos do bispo de Coimbra e monjas da ordem de S. Bento instaladas por este em Lorvão. Neste documento não se menciona a rainha D. Teresa, mas a transferência para as mãos desta deve ter sucedido muito pouco depois. Há dois documentos que tratam especificamente da entrega do mosteiro à Rainha. Em um deles, uma carta dirigida de novo aos fiéis, o bispo de Coimbra participa que instalara monjas beneditinas em Lorvão, e que concedera o mosteiro à rainha D.Teresa, já que não lhe era possível tratar pessoalmente da sua recuperação.
            
       A par desta comunicação, há uma carta dirigida pelo bispo a D. Teresa. Nessa carta, ressalvam-se os interesses dos bispos de Coimbra: o Bispo espera que a Rainha saberá recuperar os bens mal alijados do mosteiro, e pôr também ordem nas propriedades sobre as quais a Sé de Coimbra tinha direitos. O Bispo declara-se convicto de que a Rainha se aconselhará em tudo com ele, e que agirá sempre sob a sua autoridade, ‘vos autem cum consilium et autoritate nostra mittetis ibi ordinem’.6
            
      Outro documento pertinente é a carta pela qual os bispos de Lisboa, do Porto e de Lamego confirmam canonicamente a entrega do mosteiro de Lorvão a D.Teresa. Com essa confirmação - que subsequentemente não provaria tão válida como os bispos garantiam que era - confirmava-se, no ano de l206, a transferência do mosteiro de Lorvão para a filha de D.Sancho I.
      
       Não há nesta ocasião menção da ordem de Cister, sendo a Rainha instituída como padroeira dum mosteiro onde residiam monjas beneditinas. Em nenhum dos citados documentos se encontra referência a D. Sancho I. Pelo que, em princípio, seria lícito concluir, que o rei não tivera parte actuante em todo este processo. Uma atitude neutra de D. Sancho em tão magno assunto não parece provável, e há um documento que prova a sua participação. Trata-se do depoimento de alguns monges de Lorvão, no qual, respondendo a uma pergunta do bispo do Porto, declaram não terem sido violentados nem por D.Sancho nem por sua filha para os obrigar a saír do mosteiro. É uma prova - se bem que indirecta - que a opinião pública ligava as pessoas de D.Teresa e de seu pai ao caso de Lorvão, e que suspeitavam de ambos. D.Sancho influi muito provavelmente na saída dos monges. O que ele, à partida, talvez ignorasse, era que D.Teresa projectava filiar o mosteiro à ordem de Cister. É sabido que D.Sancho considerava exagerados os bens acumulados pelas ordens religiosas e pretendia diminuí-las. Não fazia sentido, espoliar os monges negros, que espalhavam os bens monásticos em vendas a particulares, indo ao encontro dos desejos seus, para em seguida os substituir por monjas da poderosa ordem de Cister. Que se encontrava em franca ascendência, gozando da devoção e da generosidade dos fiéis. E que se pretendia independente de todos os poderes laicos, tanto de reis, como de bispos, só reconhecendo a autoridade papal. O mais provável é que D.Sancho I ignorasse originalmente o propósito ‘cisterciense’ de D. Teresa, que ele, igual a outros pais daquele e de outros tempos, não conhecesse todos os pensamentos da filha. Quanto ao bispo de Coimbra, sabia que D.Teresa estava, tal como suas irmãs, sinceramente empenhada em obras de religião, podia pois esperar que ela, não só lhe ficaria grata, como se aconselharia com ele no que dissesse respeito à administração do mosteiro, do qual a fizera padroeira. Também o Bispo devia ignorar o propósito de futura afiliação daquele grande mosteiro a Cister.
            
     D. Teresa foi portanto instalada em Lorvão como padroeira de um mosteiro de monjas beneditinas. Mosteiro que devia administrar o melhor que pudesse e soubesse. Convicta da validade do seu patronato, D.Teresa empenhou-se de imediato na reaquirisição de bens alienados. A nova padroeira teria então à volta de vinte-e-seis anos.
            
     Porém, os monges destituídos não se tinham conformado com a sua sorte. Era verdade, como afirmava o bispo de Coimbra, que o abade Julião lhe entregara voluntaria-se espontaneamente o seu mosteiro, mas em breve se veio a arrepender de o ter feito. Muito pouco tempo depois da saída do mosteiro, ele, abade Julião, e os seus monges tinham iniciado diligências junto do Papa contra a entrega do seu mosteiro. E já na Páscoa de l206 existia uma comissão papal - composta do bispo de Zamora, do deão do cabido dessa Sé, e do abade do mosteiro galego de Moreirolas - para examinar a causa de Lorvão. A comissão convocou abade e monges a comparecer perante ela. O que estes propositadamente, afirmavam os inquiridores, iam protelando. Quando finalmente se apresentaram, recusaram ouvir a sentença papal que a comissão lhes apresentou. Bem aconselhados por homem de leis, os monjes, - que ainda se intitulavam monges de Lorvão, ‘que se dicent de Lorbano’- alegavam que os seus conselheiros, seus ‘provatores’, os tinham aconselhado a não quebrar o selo de rescrito papal, visto o mandato da comissão já ter terminado, e o documento não ter portanto validade. O bispo de Zamora era da opinião que se devia pura e simplesmente confirmar a posse do mosteiro à rainha D. Teresa, e manter lá as monjas recém-instaladas. Escrevia nesse sentido ao Papa, acrescentando porém, que nem todos os inquiridores pensavam como ele: o deão da sua Sé, por exemplo, não se queria pronunciar sobre o caso.
            
    Passam alguns anos, as duas partes mexem os seus cordelinhos, e, em Julho de 1211, há sentença apostólica e instruções sobre a forma de a executar. A execução era confiada ao arcebispo de Compostela, que seria coadjuvado pelo bispo de Lamego.
            
   A sentença admitia a restituição do mosteiro aos monges, mas em condições duma subtileza diabólica. A restituição fazer-se-ia, explicava o arcebispo de Compostela ao bispo de Lamego, não para ‘cómodo’ dos monges e em seu favor, mas sim em ‘desfavor’ dos poderes laicos e para dar satisfação aos homens das Ordens: ‘restitutionem non fit in favorem vel commodum monachorum, sito in odium potentie laicalis, et ut viris ordini satisfacit’. 7
            
Em conclusão: 

      o abade e os monges seriam restituídos ao seu mosteiro na sua totalidade, e isso pela mesma razão por que antes se procedera à sua destituição, ou seja, para impedir que se dilapidassem os bens monásticos. Porém, visto estar provado que os monges tinham sido expulsos por dissiparem esses bens, havia que providenciar a que no futuro não o pudessem fazer. Para isso proceder-se-ia da seguinte forma: primeiro seriam removidas do mosteiro, com toda a decência, as monjas que lá se achavam. Os monges seriam então restituídos ‘ad plenum’. Uma vez introduzidos no mosteiro, o Abade e os seus monges seriam reinstalados em sua posições e dignidades. E isso tanto no coro, como no cabido, como no claustro, como em todas as oficinas do mosteiro. Também se lhes faria entrega de todos os ornamentos da igreja e de todos os instrumentos de administração, tanto na cozinha, como no celeiro, como nas outras dependências. Juntamente, porém, seriam instalados no mosteiro alguns guardiões diligentes e fieis - ‘custodis aliquis diligentis et fidelis’ - que teriam à sua guarda tudo o que fosse restituído. Tanto o prior - o segundo homem depois do abade - como todos os outros oficiais poderiam, caso assim quisessem, regressar à administração, por nada do mundo se lhes confiaria qualquer decisão. Se os monges pretendessem administrar o mosteiro - e sempre, tanto Abade como monges, por via dos ministros guardiães - podiam fazê-lo, guardando, tanto na conduta como no traje, os preceitos da Ordem beneditina: O Abade mandaria nos monges, estes obedecer-lhe-iam e respeitá-lo-iam e, tanto os ministros como os guardiões, honrariam o Abade como seu abade. Todavia, caso o Abade quisesse conceder a alguém alguma coisa do mosteiro, ninguém o poderia aceitar, a não ser que o recebesse da mão dos referidos guardiões. As ovelhas, os bois, e todo o gado do campo, e todos os homens das granjas seriam restituídos ao mosteiro, mas tudo seria devidamente conservado. Do vinho que se produzisse e das outras espécies fornecer-se-ia à casa aquilo que fosse considerado necessário para sustento de abade e monges. Por fim ainda se estipulava, que, no caso dos monges se conservarem no mosteiro naquelas condições, eles teriam de acarretar com o débito deste, ou seja, com os gastos entretanto incorridos na manutenção do mosteiro. Também caberia então aos monges pagar as despesas que tinham tido com as suas deslocações a Zamora e outros locais.
      
            Havia evidentemente que ponderar a hipótese dos monges não aceitarem a restituição. Suposição mais que provável com o mosteiro transformado numa virtual prisão, e abade e oficiais superiores sem qualquer poder de decisão. O arcebispo estava tão convencido da não-aceitação, que no final da carta ao bispo de Lamego já lhe dava as necessárias instruções para o caso de assim suceder. Recomendava que se preparassem cuidadosamente os destinos dos monges, para não suceder serem enviados para mosteiros que não os pudessem ou quisessem receber. Quando fossem definitivamente conhecidas as casas que os seus destinos, elaborar-se-iam os respectivos itinerários, para que cada monge soubesse o caminho que devia seguir.

Caso os monges decidissem de facto sair do mosteiro, as monjas beneditinas que aí se encontravam, poderiam ficar no mosteiro. No entanto, a rainha D. Teresa poderia, se assim o preferisse, instalar lá monjas de outra ordem.

A sentença alcançava magistralmente todos os seus objectivos. Fazia-se a restituição do mosteiro aos monges, dando-se razão a estes e desrazão à Rainha. Satisfaziam-se portanto os homens das Ordens. A restituição era porém proposta em condições tais, que não era, nem a favor, nem para cómodo dos monges – ‘non sit in favorem vel commodum monachorum’ - já que estes eram praticamente obrigados a desistirem dela. Por último, visto os legítimos direitos dos monges serem de facto reconhecidos, a Rainha era obrigada a pagar as despesas por eles incorridas na defesa dos seus direitos, o que representava uma bofetada a D. Teresa, e que era, como se pretendia, ‘in odium potentia laicalis’.
            
          Em posse destas instruções, o bispo de Lamego reuniu as partes litigantes na Sé de Coimbra, e logo após essa reunião, que se realizou no dia 6 de Julho de 1211, o Bispo partiu para Lorvão. De lá enviou aos fieis da diocese de Coimbra uma detalhada comunicação de tudo aquilo que se passara na Sé e, subsequentemente, no mosteiro de Lorvão. Os fiéis ficariam a saber, escreveria ele, que as partes em litígio tinham ouvido a sentença apostólica, e que, após muitas altercações, se chegara finalmente a um acordo. Primeiro, a Rainha tinha pago a abade e monges 500 auros para as despesas por eles contraídas em Coimbra, Zamora, Roma, Santiago e outros locais. Depois disso, ele, Bispo, quisera restituir os monges ‘ad plenum’, como lhe fora ordenado. Mas abade e monges tinham declarado espontânea e unanimemente, ‘una ora una voce’, em presença de muita gente ali reunida, que desistiam da restituição.
             
        Em consequência disso, ele, bispo de Lamego, fora a Lorvão - onde de presente se encontrava - e, com todo o decoro, removera do mosteiro as monjas beneditinas, que ali se encontravam. Pagara as dívidas e fizera os necessários arranjos para se poder instalar no mosteiro uma comunidade de cerca de quarenta monjas cistercienses. Uma vez isso feito, reconduzira ao mosteiro as monjas beneditinas, instituindo-as agora, com permissão do Santo Padre, segundo os preceitos da Ordem de Cister. 8
            
            As primeiras monjas de Lorvão foram portanto aquelas mesmas religiosas que o bispo de Coimbra lá instalara em 1206. Que então eram beneditinas e que, em 1211, mudaram de observância, passando a ser cistercienses. Sem dúvida a gosto e pedido da rainha D.Teresa.
            
            Com estes documentos fica relativamente bem comprovada a forma como se deu a transferência de poderes em Lorvão. Há no entanto aspectos da questão, que os documentos não abordam, e não explicam. Não explicam, sobretudo, como fora possível que um importantíssimo mosteiro de homens fosse confiado a mulheres. A resposta está na novíssima posição alcançada pelas mulheres face à vida religiosa. ‘Vida religiosa’ entendida no sentido que então se lhe dava, de serviço de Deus ‘em religião’ , ou seja, dentro de uma Ordem.
      A partir de meados do século XII e prolongando-se pelo século XIII, dera-se em toda a Europa uma verdadeira explosão de fervor ‘religios’ nas mulheres. Fervor tão expressivo, que se pode falar de movimento religioso feminino. Caracterizava-se por aspiração religiosa ‘regrada’, ou seja dentro de uma Ordem, juntamente com um pronunciado desejo de independência face ao domínio masculino nesse campo. O movimento abrangeu mulheres de todas as condições e impôs-se às autoridades civis e clericais, que, a gosto ou contragosto, papa, bispos e reis, se viram forçados a ter em conta as mulheres ‘em religião’. As enérgicas filhas de D.Sancho I, D.Teresa, que tomaria conta de Lorvão, D.Sancha, que acarinhou as ‘mulheres santas’ de Alenquer e fundou as Celas de Coimbra, e D.Mafalda, que restaurou Arouca, foram em Portugal as legítimas representantes do ‘feminismo religioso’ do século XIII.
            
         Ao ser posta a questão de sanear Lorvão, aquilo que anos atrás seria inconcebível, instalar lá mulheres em vez de homens, foi considerado normal e aceitável. Havendo uma mulher de grande posição - o que era importante - interessada em administrar o grande mosteiro, não era de estranhar que o padroado lhe fosse confiado. Também não podia ter espantado que a Rainha tivesse filiado o mosteiro à Ordem de Cister. D.Teresa era uma mulher esclarecida, pragmática, moderna. Cister estava na moda. Era a mosteiros de Cister que afluíam as dádivas dos fiéis, neles que professavam as filhas das grandes famílias. Sob o padroado de D.Teresa,o mosteiro de Santa Maria de Lorvão só podia ser o que foi, um mosteiro de monjas cistercienses. 

                                     (continua)




1 Fortunato de Almeida HISTÓRIA DA IGREJA EM PORTUGAL-I-128
2 BRANDÃO, frei António CRÓNICA  DE  D. SANCHO Iº
3 COCHERIL, Recherches sur l'Ordre de Citeaux, 1960
4 T.T. COL. ESP. LORVÃO-10-36
5 T.T. Col. Esp. Lorvão-10-30
6 T-T. Col. Esp. Lorvão -10-36
7 T.T. Col. Esp. Lorvão -10-26
8 T.T. Col. Esp. Lorvão -10-26

2 comentários:

maria 3 de dezembro de 2015 às 17:10  

Tia Teresa, que optima ideia ir publicando o seu livro no blog.
um grande beijinho Lili

Luiza Peixoto 4 de dezembro de 2015 às 09:56  

Tia Teresa gostei imenso do que li, e espero com ansiedade os episódios que aí vêm. Beijo grande Luiza

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