3º O Leitor 20 de Outubro 2008

>> segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Criatura quase tão estranha como o escritor, é o leitor. Sempre houve, há, e haverá em relação à leitura de livros dois tipos de entes humanos, o indivíduo que lê e o indivíduo que não lê, o leitor e o não-leitor. E note-se que, por não-leitor, não se entende o analfabeto, que esse é um ente humano que não sabe ler, o que se entende por não-leitor é o indivíduo que aprendeu a ler, que sabe ler, que usa da leitura com naturalidade no seu dia a dia, para quem a leitura é um acto normal como o comer e o beber, mas não um prazer especial. O não-leitor sabe ler, mas não sabe o que isso significa de ler por prazer, de saborear a leitura.
Ignora o que seja, nunca reflectiu sobre o que seja essa estranha coisa composta de muitas palavras, relatando, dizendo, comentando, analisando, aquela coisa estranhíssima, peculiar, extraordinária,, misteriosa, maravilhosa que designamos por livro. E sem a qual o leitor não sabe viver.
Creio que todos nós, leitores, nos interrogamos porque razão tantos entes humanos iguais a nós em tudo, são diferentes nessa pequena particularidade: não gostam de ler. Não lhes faz falta não ler. Nós, leitores, pasmamos, custa-nos a acreditar, mas temos que nos render à evidência: há pessoas, que muito simplesmente, gostam pouco, muito pouco ou absolutamente nada de livros.
Creio que certos indivíduos possuem um factor genético que os faz leitores, e que esse factor falta aos não-leitores. É possível que esse gene venha um dia a ser descoberto, e que se possa curar a doença que – para nós, leitores – é a não-leitura. Mas, amigos leitores, já pensaram no que sucederia se esse gene se descobrisse, se uma cura maravilhosa transformasse todos os não-leitores em leitores? O nosso mundo transformar-se-ia com certeza, mas não para melhor. Porque todos têm um lugar no nosso mundo, os leitores e os não leitores. Os escritores e os não escritores. Uns precisam dos outros.

Observações à margem
Lê vários livros ao mesmo tempo?
Perguntaram-me um dia se eu lia mais que um livro ao mesmo tempo, e eu respondi que sim, que assim era. Fui sincera, e não pensei estar a afirmar coisa extraordinária, até que recentemente calhou ler no blogue de JPCoutinho uma conversa havida há anos entre ele e Miguel Esteves Cardoso em que se levantara a questão, se as pessoas mentiam quando afirmavam ler mais que um livro ao mesmo tempo. Os dois não tinham duvida: quem o afirmava, mentia. Ora, como JPC e MEC me pareceram absolutamente convictos do que afirmavam e eu estou igualmente convicta que não minto quando digo que leio mais que um livro ao mesmo tempo, perguntei-me como era que isso se explicava, e cheguei à conclusão que eles e eu temos razão. A explicação está na diferença de idades. Isto de se ler ou não mais que um livro ao mesmo tempo é pura e simplesmente uma questão de idade. Durante grande parte da sua vida o leitor, mesmo o mais entusiástico, lê um livro de cada vez. Na criança não se espera outra coisa, e não há leitor mais apaixonado que a criança que descobre a leitura. É o tempo de ler até altas horas, à luz de lâmpada de bolso se necessário. Com o andar dos anos os livros são outros, mas o leitor continua a ler um livro de cada vez. Nem pode ser de outra maneira. Há todo um mundo por descobrir. Toda a literatura do passado e toda aquela que todos os anos sai dos impressores. Lê-se um livro atrás do outro, aprofunda-se um autor atrás do outro. Dostoyewski, Tolstoi, Mann, Huxley, Fontane, Storm, Proust, Eça, Zola, Balzac, Jorge Amado, Veríssimo, Hemingway, Steinbeck, tantos outros. Quase só ficção, note-se. Até que um dia, o leitor, provavelmente conservando o romance como base da sua leitura, se deixa tentar por livros de outro género. Já viveu os entusiasmos das descobertas, tem uma relação mais tranquila, menos apaixonada pelas grandes obras da literatura de entretenimento e as novidades literárias já o interessam pouco. Pega em outros livros, em livros de viagem, talvez numa biografia, talvez em livros de história. Que lhe sugerem novos temas para aprofundar, novos livros para ler. Já não é o leitor de um livro só.

4 comentários:

Miguel Esteves Cardoso 20 de outubro de 2008 às 22:27  

Tem toda a razão (e graça) a Theresa Castello Branco! Pois também eu, entretanto, já atingi a juventude de conseguir ler mais de um livro ao mesmo tempo. E mais: já desconfio de quem lê apenas um de cada vez. O meu amigo João Pereira Coutinho, já não sendo nenhum "spring chicken", também já vai para lá caminhando. Há prazeres novos de acicatar, confrontar e cruzar livros em vias de serem lidos. Obrigado, Theresa Castello Branco, por esta feliz clarividência!

Theresa Castello Branco 21 de outubro de 2008 às 12:14  

Com que então o Miguel também já lá entrou? Welcome to the Club! Os cruzamentos dão por vezes curiosas saladas, mas é mais um prazer. Gostei muito que fosse do Miguel Esteves Cardoso o primeiro comentário sério nesta minha aventura na blogoesfera. Obrigada Theresa M. S de Castello Branco

Anónimo 24 de outubro de 2008 às 19:01  

Boa tarde Tia!!!

Hoje é um dia especial, e não queria deixar passá-lo sem desejar-lhe os meus sinceros parabens.

Um grande beijo da sua sobrinha

Ana Castello Branco

NSNA 29 de outubro de 2008 às 19:31  

Gosto muito de ler e tenho um prazer imenso ao fazê-lo. Parece que ainda não tenho "idade" para ler dois livros ao mesmo tempo, mas foi coisa que sempre fiz. Um livro pode ajudar a ler outro e cada livro tem o seu ritmo de leitura próprio.

Adoro o seu blog tia Theresa. Serei uma leitora assídua. Obrigada, Isabel Arouca

Sobre este blogue

Libri.librorum pretende ser um blogue de leitura e de escrita, de leitores e escritores. Um blogue de temas literários, não de crítica literaria. De uma leitora e escritora

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