Arrumaçao ideal nao ha

>> segunda-feira, 5 de janeiro de 2009


19. Arrumação ideal não há
A arrumação dos livros é um problema. Há, é verdade, no processo da arrumação, coisas indiscutíveis, como seja a de pôr os livros grandes nas estantes de baixo. Sendo uma delas dedicada aos livros muito grandes, aos in folio, livros de arte, de estampas, de mapas, incómodos hóspedes, que requerem altura adequada. Por cima as prateleiras para os livros de tamanho médio e em seguida outras para livros um pouco mais pequenos e até algum muito pequeno. Que não são muitos, no meu caso. Aprecio pouco os exemplares minúsculos da arte tipográfica. Portanto, livros grandes em baixo, médios no meio e pequenos em cima. Se temos estantes altas de muitas prateleiras, sucede que livros se percam nas alturas, que fiquem anos sem serem consultados, lidos ou relidos, porque os arrumámos onde só com escadote chegamos. Não é que não tenhamos essa ferramenta, mas em geral o escadote tem os degraus cobertos de livros que ali estão para serem arrumados. Com um escadote a servir de estante dificilmente se chega ao topo.
Há evidentemente que dar uma ordenação específica aos livros, ordenar por autores, ou por género, ou pela matéria tratada. História, aqui. Por época ou por países? Junto dela as memórias, as biografias. E ao lado? Talvez os livros sobre como escrever história. E, livros sobre livros. E a filosofia? Os filósofos têm de estar à parte, isso ninguém discute, e os políticos e os historiadores também. O problema, escreve H. von der Meden, à volta com o mesmo problema, é quando Heidegger fala de Nietzsche, ou outros filósofos discorrem sobre política. Onde pô-los? “. E os poetas? Separados por nacionalidade? E se além de poetas são dramaturgos? É o caso de Goethe e de Schiller. Estão na secção de dramaturgia. Tenho-os em colecções completas, edições antigas e bonitas, mas de tamanho médio. Não no topo da estante, mas bastante no alto, mesmo assim. Demasiado alto. O que me incomoda, porque gosto de pegar neles, quase lhes peço desculpa por estarem tão alto. Então porque não os descer, não os pôr mais à mão? Porque se os descer, vão ocupar a prateleira de livros mais altos, que não cabem naquela que eles deixaram. Arranjo ideal não existe.
Bem, e a ficção? Separada por nacionalidades, já se vê. E entre si? Por ordem alfabética dos nomes dos autores? Pela data em que foram escritos? E os livros de criança cuidadosamente conservados?
E livros em duas filas? Se as prateleiras forem fundas e permitirem duas filas, a coisa é fatal, mais tarde ou mais cedo há livros relegados para a fila de trás. Não gostamos, mas tem de ser. Paciência. Nasce a questão se devemos pôr os mais altos atrás e os mais pequenos à frente. Logicamente, assim devia ser. Mas se os gordos e altos em nossa opinião são melhores do que os baixotes? Impossível recuá-los, os baixotes que se arranjem.
Um dia a coisa parece estar feita. Até que outra ideia nos venha, outro argumento nos queira convencer que a arrumação dos poetas ao pé dos dramaturgos está errada, e errada também a destes juntos dos filósofos. A dúvida virá, porque arrumação ideal não existe. E depois, os livros novos que se vão comprando obrigam a mudanças épicas, a experiências complicadas e cansativas. Às vezes decidimos aligeirar as prateleiras, tirando delas livros que em nossa opinião não merecem ser guardados, ou guardados ali. Sucede que nesses arranjos apareçam livros de que já não nos lembrávamos.
E os novos interesses que surgem, e que exigem leituras adequadas. Jardim, pequena quinta, pedem livros da especialidade. Onde encaixá-los? E os livros que ainda não foram lidos? “Não há biblioteca que não contenha uma secção indefinida de livros que não foram lidos, de livros que ainda não foram lidos, e de livros que nunca serão lidos”, lembra Abel Barros Baptista em ‘A Infelicidade pela Bibliografia’**. É verdade.
*Von de Mehden, Heilwig
** Barros Baptista, Abel ‘A Infelicidade pela Bibliografia’

O que dizem outros
Bernard Pivot
Os livros são implacáveis invasores. Sem alarido, com infinita paciência, e cada vez em maior número, tornam-se donos dos locais. Não tardam em transbordar das bibliotecas onde são suposto residir. Tal como as multidões de caracóis nos romances de Patrícia Highsmith, escaladam as paredes até aos tetos, instalam-se sobre mesas e aparadores, fixam-se nos cantos, penetram nos armários, nas cómodas e nas arcas, e quando ficam no chão proliferam sobre os tapetes ou os ladrilhos em pilhas instáveis e arrogantes.*
Bernard Pivot Le métier de lire (tradº de pg. 220)
Anne Fadiman
Quando Anne Fadiman e o marido resolveram juntar as suas duas bibliotecas:
“Após cinco anos de casamento e um filho, Jorge e eu decidimos que estávamos prontos a passar ao mais alto nível da intimidade, que é a fusão de duas bibliotecas. Não tínhamos a certeza se seria possível encontrar um ponto de encontro entre o sistema jardim à inglesa dele e o meu sistema tipo jardim à francesa. De início o meu argumento convenceu, a saber que ele encontraria facilmente os seus livros, se eles estivessem arranjados como os meus, mas que eu nunca encontraria os meus, se estivessem arranjados como os dele. Resolvemos ordená-los por temas: história, psicologia, natureza, viagens etc. A literatura seria dividida por países. Jorge achava o sistema excessivamente minucioso, mas concordava que era superior àquele de que nos tinham falado uns amigos. Que tinham alugado por uns meses a sua casa a um decorador de interiores, e quando regressaram descobriram que toda a biblioteca tinha sido arranjada por cores e tamanho dos livros...............O nosso plano básico estava portanto estabelecido. As complicações começaram quando eu pretendi ordenar a literatura inglesa por ordem cronológica e a literatura americana por ordem alfabética de autor”.*
Seguiu-se acesa discussão, e Jorge conta que foi uma das raras vezes em que pensou seriamente em divorciar. Arrumação ideal não há.
*Fadiman, Ana Ex-Libris

Das cartas à minha filha
5 de Setembro 2005, segunda-feira
“Como já lhe disse, estou a fazer limpeza de livros, mas não os elimino sem dar uma ultima vista de olhos. Entre os Steinbecks reencontrei agora o “Travels with Charlie”, uma viagem através da América com o cão, Charlie. Tirei-o de junto das obras dele e pu-lo junto da literatura de “viagens pela minha terra”. È um género sereno, um pouco contemplativo, que vou cultivar mais.
Não sei como é que as pessoas que têm livros os conservam sempre na mesma ordem, eu tenho todos os anos ideias geniais para arranjos novos. É verdade que não toco no arranjo inicial, é nos detalhes que faço pequenas inovações com mexidas cautelosas, que têm a grande vantagem de me fazer reler livros que não lia há anos ou que ainda não li. Também disso há na maioria das prateleiras de quem tem muitos livros”.

27 de Outubro 2005, quinta-feira
“de permeio com os meus trabalhos literários, tenho estado a dar uma daquelas voltas aos meus livros que, quando não confundem, têm por vezes resultados inesperados. Desta vez parece-me que a coisa não está a sair mal, e já produziu pelo menos um efeito positivo, o reaparecimento de alguns livros desaparecidos. Um livro que reapareceu foi o Tortilla Flat de Steinbeck. Lembra-se que o procurámos? E que eu me espantava de não o ter? Pois cá está, e vou relê-lo. Tenho ideia que é um dos - raros - livros de Steinbeck que não “data”. Pergunta: como é que se diz de livro que está ultrapassado? Que o livro ”data”, parece-me tradução do francês. Não que a palavra não exista em português, mas parece-me que define mal essa coisa, sempre pessoal, que é a impressão que certo livro, que um dia lemos com gosto, até com entusiasmo, está para nós “ultrapassado”.

2 comentários:

AlquimistaDaDor 5 de janeiro de 2009 às 15:07  

é um desespero. já estive na arrumação temática, mudei para autores e agora mudei para países.

de cada mudança um ror de trabalho com km sala a sala e estante a estante.

estou agora numa fase intermédia de desespero. a coisa tem uma base geográfica e tende para os autores novamente.

acho que há uma vida própria na bicharada que tende a agrupar-se a seu bel prazer.

Theresa Castello Branco 5 de janeiro de 2009 às 23:02  

Eu não sei sair da arrumação temática, parece-me que é a mais lógica, e, em princípio, é essa que sigo. Mas daqui onde estou sentada vejo, praticamente ao lado da ficção (de alguma da ficção, porque tenho outra em outro sítio), uma secção de oito prateleiras, das quais cada qual tem livros de um tema, que não cabem nos grandes temas, mas estão mal ali onde estão. Incomoda-me aquilo, estão mal arrumados ali aqueles livros, mas não sei dar-lhes outro local de habitação. Ainda se a bicharada se agrupasse a seu bel prazer, e se agrupasse bem, mas não…. E que fazer dos livros com encadernações de pele? Eu separa-os severamente dos livros de encadernações modernas mas lá ficam temas separados. Um desespero. Que só ataca amadores de livros.

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