Livros tambem se pomovem II

>> segunda-feira, 19 de janeiro de 2009



21. A Apresentação

A apresentação de livros por um apresentador é uma das mais recentes formas de divulgação da obra literária.
Quando ainda não se apresentavam livros apresentavam-se, por exemplo, as meninas de primeira sociedade ao soberano. Era um dia muito especial, a menina vestia traje que arruinava o orçamento da família para aquele ano, era conduzida ao Paço real, fazia uma vénia bem estudada aos soberanos: era-lhes ‘apresentada’. A monarquia acabou, houve outras apresentações. De artistas nos espectáculos de circo, por exemplo.. No Coliseu dos Recreios havia um senhor François e sua filha, mademoiselle François, que apresentavam os artistas. O palhaço rico, a malabrista, o ginasta entravam em cena, Monsieur François, vestido de casaca, indicava-os ao público com um gesto gracioso, às senhoras artistas pegava na mão, dizia-lhes o nome, umas palavra amáveis de apresentação, o senhor François era “apresentador” de artistas. Hoje apresentam-se livros, há os respectivos apresentadores. Dos quais o mais relevante é o professor Dr. Marcelo Rebelo de Sousa.
A razão pela qual o Professor precede, ou por vezes termina, as interessantíssimas análises políticas que faz aos domingos com uma apresentação de livros totalmente desporvida de interesse, é um mistério. E mistério também, a que critério obedece a escolha dessas obras. È pouco provável que o Professor percorra as livrarias para fazer a sua escolha, são decerto as editoras que lhe mandam as suas ultimas publicações, e será de entre estas que o Professor escolhe aquelas que irá “apresentar”. Que faz de forma simples. Pega, um por um, nos livros empilhados a seu lada, mostra-os ao público, diz de cada qual o título e o nome do autor, e acrescenta umas palavras elucidativas. Amáveis, em geral, e por vezes até entusiásticas. O professor “apresenta” livros.
Em tempos havia um programa no 2º canal em que Carlos Pinto Coelho entrevistava escritores e falava em seus livros. Por vezes também apresentava alguma obra de outro autor.
Eu tive a honra de ver livros meus apresentados pelos dois apresentadores.
A primeira vez foi em 2000. Em carta para a minha filha de 11 de Junho desse ano encontro a menção desse facto insólito: um livro meu, “Os Painéis.... Investigação? ou Adivinhação?” fora apresentado no programa de Carlos Pinto Coelho. “Já falámos várias vezes, escrevi eu então, para nos congratularmos de já lhes terem instalado telefone e para pasmarmos as duas pelo facto do meu livro ter aparecido no ACONTECE como Livro do Dia. Eu fiquei tão estupefacta que nem ouvi bem o que o Carlos Pinto Coelho disse.”
Os meus livros sobre os Painéis eram – e provavelmente ainda são - boicotados no Museu de Arte Antiga, onde a sua venda era proibida, e fiquei naturalmente grata a Carlos Pinto Coelho pela corajosa apresentação.
Seis anos após esse memorável acontecimento vi outro livro meu ser apresentado.
Um domingo de Fevereiro de 2006, nove e trinta da tarde, o professor Marcelo Rebelo de Sousa acaba de apresentar os livros da semana. O telefone toca em minha casa. Não me espanta. O Professor apresentou o meu livro no seu programa. Leu: “Na Rota da Pimenta”, acrescentou “ah, é de D.Manuel”, o telefone fatalmente iria tocar. Duas sobrinhas leitoras telefonaram, uma prima telefonou, de Itália falou-me a minha filha, um amigo participara-lhe de cá, que a mãe dela havia sido mencionada pelo Professor. Esperavam encontrar do outro lado uma tia, prima e mãe orgulhosa, toparam com uma autora pouco entusiasmada. “Falta de humildade, mãe” disse a minha filha. “Não sou futebolista, respondi, humildade é coisa do futebol”. O escritor nunca é humilde, mesmo que finja ser.
Fiquei a meditar sobre o papel dos média, e em particular da televisão, em matéria de livros. Pensei nos cinco anos que levara para contar quinze anos fundamentais dos descobrimentos portugueses, pensei na pesquisa séria das fontes, no esforço em redigir de forma a poder interessar mesmo o leitor menos culto. Será falta de humildade não me ter entusiasmado ao ver o meu livro ser mostrado, - apresentado – e ouvir uma voz, por sinal até de pouco entusiasmo, dizer: “ah é de D. Manuel”? É isso que conta, ser mencionada na televisão? Pergunta parva. É isso que conta. Na televisão fora apresentado um livro e ouvida esta frase “ah, é D.Manuel”, e o facto era tão importante que a autora da obra merecia ser felicitada e devia estar orgulhosa. Pelo que isso implicava quanto à qualidade do livro? Não, porque aquelas poucas palavras, ditas por quem as pronunciara, “promoviam” o livro, eram “comercialmente” importantes.
Comentei naturalmente o caso em carta para a minha filha.
13 de Fevereiro 2006, segunda-feira
“Ainda a apresentação do meu livro pelo Professor. Dá-me vontade de rir a repercussão familiar, mas não mudo de opinião. Foi decerto óptimo o livro ter sido mostrado, para que as pessoas saibam que existe. Até aí concordo que é óptimo, e estou muito grata ao professor. Mas deixe-me falar como autora. Uma escritora que escreveu um livro que é uma novidade no seu género, que sabe que há muitos anos não se publica um livro sobre os Descobrimentos, que sabe que o professor faz por vezes pequenas referencias aos livros que apresenta, essa autora - seja eu, ou fosse outra - não podia deixar de ficar desconsolada pela maneira como o livro foi tratado. Veio a seguir a um romance, e o comentário foi, “ah, este é história. È de D. Manuel. A Rota da Pimenta”. Assim escrito até talvez pareça óptimo, mas a mim a leitura pareceu-me tão desinteressada que me deixou gelada. Talvez eu tenha posto as minhas expectativas altas demais, mas foi o que sucedeu. Pobres autores, que querem sempre mais. No meu caso isso até nem se pode dizer, quando se trata dos meus romances, não tenho grandes aspirações, mas para este livro esperava de facto, ou nada, ou - caso se falasse dele - um pouco mais. .”
Terça-feira, 14 “Insistindo ao magno tema: o Professor sabe tudo de leis, de política, e de futebol, mas é menos sabedor em matéria de literatura, melhor, não tem à literatura o amor que tem ao futebol. É menos ‘profundo’ em literatura do que em futebol. ...... Se eu pudesse dar notas, dava ao Professor: ‘em futeboletura, dezanove, e em literatura, vá lá, catorze’

O que dizem outros
“De fácil compreensão, superficial, com aparência de profundidade, a televisão bate comercialmente todos os outros media. E mesmo o menos humilde dos autores sabe olhar ao lado comercial da questão. O fenómeno que em França foi Bernarda Pivot, deve-se à televisão. ...........”
O próprio Pivot explica-o em “Método de Pire”

Notas à margem
Domingo, dia 11 de Janeiro 2009
Entre as obras literárias apresentadas hoje pelo Prof. Marcelo Rebelo de Sousa estava um romance histórico que, tanto quanto sei, se passa em torno da batalha de Aljubarrota. A capa do livro é ilustrada com cena guerreira tirada de uma das tapeçarias, ditas de Pastorara (porque é lá que se guardam), que representam cenas das guerras de África no século XV. Aquelas tapeçarias, uma das grandes produções artísticas portuguesas no século XV, estão tão esquecidas (ou propositadamente ignoradas, como queiram ), que nem o autor do livro, nem o seu editor, nem o seu apresentador tiveram em conta a incongruidade de ilustrar a batalha de Aljubarrota, que se deu em 1385, com uma “vista” da tomada de Arzila, que se deu em 1471.

6 comentários:

Anónimo 19 de janeiro de 2009 às 11:24  

Tapeçarias de "Pastorara" ??

Theresa Castello Branco 19 de janeiro de 2009 às 11:51  

Anónimo, obrigada por me indicar a gralha. PASTRANA, não Pastorara. Ainda estou tão neófita em blogues, que não sei fazer emendas em texto já publicado, se é que se podem fazer. Theresa S. de CºBº

daniel.abrunheiro@gmail.com 20 de janeiro de 2009 às 06:30  

Com ou sem gralhas, é um texto muito lúcido. Tem toda a razão no que diz de "apresentações" que, de facto, mais "representações" (histriónicas) são do que outra coisa.
Continue, por favor. Aprendo muito aqui.

Theresa S. de Castello Branco 20 de janeiro de 2009 às 16:40  

Ainda bem que gostou do texto, Daniel. Repito, sou tão novata nisto que ainda ando a apalpar o terreno. Mais análise de temas literários, mais temas históricos? Penso que por enquanto falo para poucos leitores, mas escrevo como se fossem aos milhares, anciosos por me lerem. O que sei é que isto me está e divertir. Obrigada pelo comentário Theresa S. de CºBº

Anónimo 21 de janeiro de 2009 às 09:05  

Tem toda a razão no que diz. Não me parece que o prof. Marcelo possa ser levado a mal por fazer uma referência ao seu livro. Faz bem em agradecer-lhe.
Mas que isso seja motivo de entusiasmo, também concordo, é um absurdo. Infelizmente vivemos numa sociedade que faz 4 debates (?) ao mesmo tempo em outros tantos canais na TV durante duas horas consecutivas, mas que dispensa a livros sérios que representam trabalho de anos e anos, um micro segundo e uma palavrinha. Não que eu não goste de futebol, mas qualquer coisa está errada neste desiquilíbrio. E ainda querem que o escritor venha «humildemente» sentir-se contente pela breve referência?

theresa Schedel de Castello Branco 22 de janeiro de 2009 às 10:46  

A anónimo. O caso do meu livro foi só para ilustrar o problema maior, que é justamente a falta de discussão na TV de temas culturais - não só livros - de forma séria e isenta. Mas é verdade que um programa como o do professor Macelo não ganha nada com aquelas apresentações sem critério aparente. Obrigada pelo comentário . T. S. de CºBº

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