Que Ilhas desertas?

>> segunda-feira, 6 de julho de 2009



No último número da revista ‘Lire’ encontrei a resposta do autor Antoine Bello à pergunta dos livros que levaria para uma ilha deserta. Julguei que já passara, que já não se punha a questão. Pelos vistos porém a moda continua,
“Prisioneiro numa ilha deserta, passamos a ser o único sujeito, e o nosso próprio terreno de experimentação. Eu levaria portanto livros capazes de empurrar os muros do meu espírito” , respondeu o questionado. Ele lá saberá o que quer dizer.
Naturalmente é uma ilha idílica que este e outros questionados vêem diante de si quando se lhes coloca a pergunta. Uma ligeira brisa vinda de um mar azul, e eles, nos intervalos de algumas pequenas ocupações, à sombra das palmeiras, lendo as obras escolhidas. Só que na realidade a coisa não era bem assim. Houve homens perdidos em ilhas desertas, e alguns regressaram, e contaram como fora. Homem abandonado em ilha deserta associa-se imediatamente a Robinson Crusoe, herói do livro de Daniel Defoe, cujas aventuras apaixonaram gerações de leitores grandes e pequenos. Salvando-se do naufrágio do navio em que seguia, Robinson vai dar a uma ilha na qual consegue sobreviver graças à sua força de vontade e à sua capacidade de aproveitar aquilo que vai encontrando na ilha para se alimentar e vestir.
Não era uma figura totalmente inventada, o autor baseara-se em Alexander Selkirk, um marinheiro escossês, exposto na ilha de Juan Fernandes depois de uma discussão com o capitão do seu navio, que viveu nessa ilha durante quatro anos. Sendo recolhido então por outro navio inglês que ali passou, as suas experiências foram publicadas depois do regresso a Inglaterra, causaram natural sensação e resultaram na obra de Daniel Defoe. Que por sua vez inspirou o ‘Robinson de uma Família Suíça’, de Johann David Wyss e xom iato, o nome de Robinson passou a significar homem perdido em ilha deserta.
Mas não foram ingleses e menos suíços os primeiros Robinsons. Portugueses e espanhóis é que foram os percursores na matéria. Como não podia deixar de ser. Na Europa tudo quanto era ilha estava povoado e bem povoado, só quando portugueses e espanhóis começaram a percorrer novos mares, houve de novo ilhas desertas para homens experimentar que tal era aquilo de nelas sobreviver.
Gaspar Correia narra nas suas ‘Lendas da Índia’ o caso de um tal Fernão Lopes, que viveu isolado na ilha de Santa Helena. Esse Fernão Lopes, com alguns outros, fora preso em Goa por volta de 1512, acusado de ter servido os Turcos. Ele e os companheiros sofreram terríveis torturas, mais de metade morreu, e aos que ficaram disseram que fossem para onde quisessem. O tal Fernão Lopes meteu-se numa nau que estava de retorno, dizendo que queria voltar para Portugal. Só que no caminho mudou de ideias. Quando a nau aportou na ilha de Santa Helena, Fernão Lopes desapareceu.
Foram à sua procura,. mas não o acharam. Deixaram-lhe alguns mantimentos, biscoitos, bocados de carne seca, “sal e fogo, e roupas velhas que cada um lhe deu e também um papel em que lhe diziam que se mostrasse a outra nau que ali passasse. O foragido protegeu o fogo que lhe tinham feito, encontrou pedras que fizessem faísca que guardou e com os quatro dedos da mão esquerda e a continha da direita”, que lhe tinham ficado, conseguiu escavar e aumentar um pouco uma cova que descobrira sob uma lapa na encosta duma ribeira. Trancou-lhe a entrada com tojos e ali passou a dormir. “Achou ervas tenras, que eram gostosas de comer” e que ele cozia com sal em duas panelas que também lhe tinham deixado.
No ano seguinte passou de novo uma nau por lá. Os homens que desembarcaram viram os sinais de habitação, perceberam pelas coisas que lhe pertenciam que se tratava de homem branco. Não mexeram em nada, “antes lhe deixaram biscoito e queijos e coisas de comer e uma carta em que lhe diziam, que não se escondesse, que quando outra nau ali aportasse, que falasse, que ninguém lhe faria mal.”
Passado tempo o homem ganhou coragem e começou a aparecer à gente das naus e todos lhe davam qualquer coisas para plantar e semear “abóboras, romãs, palmeiras Ada (sic9, galinhas, porcos, cabras prenhes, que tudo se fez com muita criação e tudo se fez bravo no mato”.
Deste Robinson pode dizer-se que escolheu viver naquela ilha deserta, mas o mesmo não se pode dizer do segundo ‘Robinson’ de que há notícia. Foi um espanhol chamado Pedro Serrano, que em 1526 se salvou do naufrágio de um patacho espanhol, que navegava de Havana a Cartagena de Índias. Salvaram-se unicamente o capitão, o dito Pedro Serrano, e dois marinheiros, que a nado alcançaram uma ilhota, que se revelou ser um banco de areia sem vegetação e sem água.
Os sobreviventes alimentaram-se de pássaros e peixes, bebendo sangue das tartarugas que conseguiam matar e depois da água da chuva que recolhiam nas cascas das tartarugas. Um dos marinheiros morreu pouco depois de se salvar, mas alguns meses depois juntaram-se aos restantes dois sobreviventes mais dois de outro naufrágio. Estes tentaram em seguida procurar ajuda no pequeno bote, em que se tinham salvo, e nunca mais apareceram, ficando na ilha unicamente Serrano e um companheiro.
Como a ilha não tinha vegetação, os homens nem sequer puderam aproveitar alguma folha para se protegerem do sol, que lhes queimava a pele. Pouco a pouco cresceram-lhes os cabelos da cabeça e da barba, e foi essa a sua protecção. Conseguiram construir uma pequena torre à base de conchas e corais, e daí mandavam sinais de fumo queimando alguma coisa que dava à praia, mas só em em 1534, oito anos depois do seu naufrágio, foram vistos pela tripulação de um galeão e salvos.
Os espanhois afirmam que estudos recentes revelam que Daniel Defoe não se inspirou unicamente nas aventuras de Alexander Selkirk para o seu Robinson Crusoe, que se serviu também do relato de Pedro Serrano. É possível. Daquele que foi de facto o primeiro desses sobreviventes em ilha deserta ainda nada se sabia então. Só quando a Academia Real das Sciencias de Lisboa, entre 1858 e 63 publicou o manuscrito das ‘Lendas da Índia’ de Gaspar Correia, é que se pôde ler e saber da existência de Fernão Lopes e da sua isolada vida na ilha de Santa Helena.
O primeiríssimo Robinson da história moderna foi sem duvida um português. Mas não me consta que alguém tenha prestado muita atenção ao caso.
Daniel Defoe escreve que o seu Robinsom salvara uma Bíblia e mais um livro. Mas trata-se de ficção. Nos relatos de Fernão Lopes e de Pedro Serrano, dois especialistas em matéria de ilha deserta, não se fala em livros, ou da falta que porventura tivessem sentido deles. De muitos trabalhos e muitos sofrimentos, é que sim.

O que dizem outros
“Existem relativamente poucas situações de sobrevivência. A ilha pode ter mais ou menos vegetação. O mar pode ser mais calmo ou mais agitado. o clima moderado ou rigoroso, mas isto são só variantes. Estes dramas só podem ter lugar em uns tantos teatros. O que há no entanto é um infinito número de actores para assumir os papeis. O que varia por isso - e isso consideravelmente – é a interpretação individual do papel pelo actor, é a extraordinária diversidade da resposta humano a circunstâncuas extremas” Edward E. Leslie ‘Desperate Journey’s, Abandoned Souls’

4 comentários:

JPC 7 de julho de 2009 às 02:57  

Este é daqueles casos que não devem ser entendidos literalmente. A metáfora da ilha deserta é um mero pretexto, a ilha é uma abstracção que dispensa concretizações. Os questionados nem sequer precisam de visualizar ilha nenhuma porque neste contexto seria um exercício inútil. A "realidade" é dispensável. Basta a ideia de ilha: de um território isolado.

Mas não há dúvida que a Theresa fez muito bem em ignorar deveres. Saiu uma reflexão muito interessante e didáctica.

Mas desde já lhe lanço um desafio: Imagine que fosse um dia exilada para uma ilha deserta no meio do atlântico e pudesse levar apenas três livros. Quais seriam? Quais são os seus livros imprescindíveis?

Theresa Castello Branco 7 de julho de 2009 às 11:05  

Não é fácil desassociar ‘ilha deserta’, de ilha idílica, porque a imaginação tem sempre uma parte importante na reflexão. Três livros “imprescindíveis” em absoluto, isso, para um verdadeiro leitor, acho impossível. Mas escolher três livros para ter comigo em caso de ser obrigada a viver em local isolado por um tempo mesmo ilimitado, isso já acho possível de dizer. Como mulher, e portanto não só de espírito imaginativo como prático, teria o cuidado de levar livros que contivessem muita coisa em um só. Escolheria:
1º Uma antologia de poesia. Leio em cinco línguas, e gostaria de levar uma antologia de versos em cada uma delas, mas podendo levar só três livros, levaria a antologia de poesia alemã.
2º As Vidas de Plutarco. Porque teria ali matéria infinita.
3º Como preciso de poder rir, e porque lá por aquelas desconhecidas bandas as ocasiões de rir talvez me possam faltar, acho melhor precaver-me. Levaria um livro chamado “Mapp and Lucia“ de E.F. Benson. As rivalidades, habilidades e pretensões daquelas duas mulheres no seu pequeno mundo divertem-me sempre de novo, e tenho a certeza que me continuariam a divertir, mesmo longe do nosso mundo onde as deliciosas ocasiões de riso felizmente não faltam.

daniel.abrunheiro@gmail.com 8 de julho de 2009 às 10:43  

Bom dia, Theresa. Agora que vejo por aqui o meu querido amigo JPC também, não posso furtar-me a tocar também a tecla dele: ficção científica, há-a - e da melhor literatura que já li. Esqueça a "ciência", por favor. Ray Bradbury é um gigante da literatura do nosso tempo. Melhor: aqui há coisa de duas décadas, mais ou menos, lembrou-se ele de escrever em "policiês" uma obra-prima incontornável: "A Morte é um Acto Solitário". Disse o JPC também o R. Heinlein. Disse muito bem.

Anónimo 8 de julho de 2009 às 22:06  

O robot da Amazon que me recomenda livros, e me trata como quem andou comigo na escola, vai ficar totalmente desorientado se constata que estou a enveredar para inusuais rumos literários. Como já o disse a JPC e agora a Daniel Abrunheira, vou tentar. Para ver se afinal gosto do que não gostava. É que, de Júlio Verne, só li aquilo que não era de futurologia. JBC escreve que livros desse género “não têm certamente menor nobreza do que livros com visões do passado e do presente”. Tenho a certeza disso, e se há alguém que admite todos os estilos e géneros da criação literária, sou eu. Mas há para cada um de nós estilos e géneros que nos dizem mais, e há, como eu já uma vez escrevi, certo género de livros que são muito mais para leitores do que para leitoras. Os dois, JPC e Daniel A., conseguiram contudo aguçar a minha curiosidade. E depois. Tive duas experiências - uma delas com um manuscrito antigo - que ainda hoje me fazem pensar no não explicável. PS. Também é inexplicável que não consiga punlicar com o meu nome, só me aceitam como anónimo. Mas acreditem, sou mesmo eu. Theresa

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