ou Escritor de história?

>> segunda-feira, 5 de outubro de 2009




Devido a um problema de vista, é provável que tenha muito em breve de fechar este blogue. Com muita pena, aliás. Enquanto não o faço. vou encurtar os artigos, o que de resto já me fora aconselhado. Como até agora não escrevi sobre temas de história lembrei-me de o fazer nos próximos spots, e tocar, ao de leve como o assunto requer, no delicado problema da interpretação dos Painéis de São Vicente de Fora.
Mas antes de mais acho que devo definir o que sou em relação à escrita de história.
Há em Portugal um extraordinário número de “historiadores”. Praticamente todos os jornais apresentam artigos assinados por articulistas que se definem por “(historiador)”. Mas quando se procuram pelas suas obras, elas não se encontram, ou, quando existem, não são em geral aquilo que eu considero obra de “historiador”.
Consultei uma sobrinha que está a tirar o curso de história e fiquei a saber que ela, quando terminar o seu curso, está formada em história, e é portanto “historiadora”.
Ora se a minha sobrinha será historiadora sem ter escrito uma obra de História, o que são então aqueles senhores meus conhecidos pelas grandes obras de historiografia que deixaram? O que eram então na Alemanha Mommson, Ranke, em França Taine, Michelet, Herculano, em Portugal? Lembrei-me que em alemão se designam a estes autores por “Geschichtsschreiber”, ou seja, por “escritor de história”. A coisa assim era mais clara.
Tendo o historiador, o formado em história, escrito uma ou mais obras sobre problemas de história, então, além de ser formado em história e a poder ensinar, era um “escritor de história”.
Historiadores formados em história são uma espécie recente. A ciência e o seu ensino datam de meados do século XIX. Até ali os documentos originais nem eram consultados. Quando se constatou que, sem a sua leitura, não havia compreensão de “história”, percebeu-se que havia que ler os documentos Ainda não havia cadeiras de paleografia, e os primeiros escritores de história tiveram de se ensinar a si próprios a paleografia e a correcta interpretação dos documentos originais. Foram autodidactas em matéria de história.
Voltando ao meu caso. Não sendo formada em história, não sou historiadora. Mas, tendo-me ensinado a mim própria, escrevi obras de história Talvez possa dizer que sou uma escritora de historia à moda do século XIX.
O escritor de história que se auto-ensina corre determinados riscos. Já não falando no despreso a que é otado pelos “historiadores”, o que é natural e de esperar. Os riscos importantes ocorrem na sua forma, por ventura pouco profissional, de encarar a escrita da história.
Não sei se nas faculdades ensinam o futuro historiador a evitar, por exemplo, o “antiquarismo”. O escritor não formado pode facilmente cair nele.
No seu livro “The Practice of History “ o professor G.R.Elton escreve que o antiquarismo se distingue pela devoção ao detalhe, pelo o amor a este. O antiquarista quer saber, mas não quer perceber. Pouco o preocupa o que está aprendendo com aquilo que acabou de saber”.
O antiquarismo tem por vezes a sua utilidade, escreve Elton, mas em geral prejudica a escrita da história. “É uma doença que afecta mesmo os historiadores formados e pode atacar com maior virulência ao não profissional.”
Eu ignorava que a expressão existia quando pela primeira vez escrevi história. Creio que consegui escapar à doença pela avassaladora quantidade de dados curiosos que se me foram revelando quando comecei a organizar o antigo arquivo da minha família materna. Eram curiosidades a mais para serem realçadas. Quando comecei a escrever historia tinha aprendido sem mestre a evitar o antiquarismo.
Daquela leitura de documentos e nos cinco anos que levei a escrever o meu primeiro livro, a biografia de um homem da Restauração, fui aprendendo muto mais. Foram cinco anos de aprendizagem. Aprendi a medir o relativo valor dos documentos para a obra em questão. A não me entusiasmar por um dado descoberto sem ter medido o seu verdadeiro alcance. Aprendi a medir as evidências antes de me precipitar em conclusões. Constatei a dificuldade da isenção na avaliação dos feitos e dos homens, e logo jurei a mim mesma que nunca me empenharia em escrita de história na qual a isenção não me fosse possível.
Daquela primeira obra passei a outra, esta sobre a vida nos mosteiros femininos portugueses na Idade Média (livro que ainda está por publicar) e que me levou à leitura de inúmeros outros documentos. Ia-me tornando um pouco especialista na matéria. E foi assim, fazendo a pedido, uma pesquisa documental, que esbarrei com um dado que me fez penetrar ali onde jurara nunca entrar, na zelosa e superiormente protegida questão de umas tábuas pintadas que um dia haviam sido encontradas nas arrecadações do mosteiro de São Vicente de Fora. O que se seguiu fica para depois. Se a vista o permitir.

2 comentários:

daniel.abrunheiro@gmail.com 7 de outubro de 2009 às 17:50  

Que a vista melhore, T. E que este sítio permaneça.

Anónimo 8 de outubro de 2009 às 09:54  

Obrigada, Daniel. Já me estou adaptando ao problema da vista. É incómodo, lêmos e escrevemos de forma menos linear, , mas uma vez que nos habituamos, a coisa vai. E o blogue também irá. Talvez com aimda maior número de gralhas, que segundo aponta a minha filha, não são são poucas. Mais uma vez obrigada. Theresa

Sobre este blogue

Libri.librorum pretende ser um blogue de leitura e de escrita, de leitores e escritores. Um blogue de temas literários, não de crítica literaria. De uma leitora e escritora

Lorem Ipsum

  © Blogger template Digi-digi by Ourblogtemplates.com 2008

Back to TOP