De livros esquecidos, mal lembrados ou ignorado

>> segunda-feira, 24 de agosto de 2009



Parece-me que o título que escolhi para esta série de posts está errado, ou antes, pouco claro. Sou um pouco Maria Recta Pronúncia e o título, tal como está, e que escolhi com convicção, agora incomoda-me. Acho que lhe devia ter acrescentado, “e que não o merecem ser”, ou “e que em minha opinião não o merecem ser”, ou “que “espantosamente o estão”. Porque não faltam livros que foram de grande sucesso, e até considerados clássicos, que estão esquecidos e que não espanta que o estejam. E depois, quem sou eu, para dizer que o livro ‘tal’ está esquecido, quem sabe se não há uma enormidade de leitores, que se lembram muito bem do que eu considero esquecido?
A reflexão nasceu quando pensei pôr nesta lista o “Tempo e o Vento” de Erico Veríssimo. Parecia-me que a apaixonante história dos Cambará – sobretudo no seu primeiro volume - estava muito esquecida. Mas depois pensei, provavelmente não está, sei lá se está. Lá por a mim me parecer que não se fala de tão grande livro como se devia falar, é provavelmente por ignorância minha. Provavelmente o livro até é muito lembrado.
Escolhi então para terminar esta série de posts, um livrinho, que, esse sim, estou razoavelmente certa que é, ou mal lembrado, ou mesmo desconhecido. Trata-se de uma tradução. Mas tradução tão perfeita, que parece o original. Falo dos SONETOS PORTUGUESES de Elizabeth Barrett Browning traduzidos por Manuel Corrêa de Barros. A primeira edição foi do autor e continha unicamente a versão portuguesa dos poemas; uma posterior edição da Relógio de Água contêm os poemas originais e as suas traduções.
Sobre os problemas que enfrentou, escreve Manuel Corrêa de Barros na sua introdução:
“………Tudo isto me impediu de ser literal na tradução - o que alias, nunca se consegue em absoluto quando tradução em verso - . Mas procurei reproduzir fielmente o sentido do original, respeitando as suas subtilezas, e, para melhor cingir a forma ao sentido, esforcei-me por manter o tom, a cadência, a feição própria de cada soneto, mesmo, onde isso me pareceu indispensável, à custa de uma maior liberdade na aplicação das regras do soneto português. Procurei também, conservar as particularidades do original, quanto à pontuação, emprego de maiúsculas etc”
Creio que basta o exemplo de dois poemas (o primeiro e o quadragésimo terceiro de quarenta e quatro) para mostrar como Manuel Corrêa de Barros conseguiu magistralmente a sua difícil tarefa.


I
I thought once how Theocritus had sung
Of the sweet years, the deer and wished for years
Who each one in a gracious hand appears
To have a gift for mortals old or young.

And as I mused it in his antique tongue,
I saw in gradual vision through my tears,
The sweet, sad years, the melancholy years,
Those of my own life, who by turns had flung

A shadow across me. Straightway I was ware,
So weeping, how a mystich shape did move
Behind me, and drew me backward by the hair

And a voice said in mastery while I strove:
“Guess now who holds thee?” “Death” I said. But there
The silver answer rang:” Not Death, but Love”.

e a tradução

I
O Amor

Pensei um dia, nos anos ditosos
Que o poeta Teocrito cantava, cada
Um dos quais, à vez, acrescentava,
Á vida humana dons mais generosos,

E, na sua língua antiga, aos dolorosos
Anos da minha vida os comparava.
Doces, mas tristes anos que me lembrava
Com lágrimas nos olhos saudosos.

Chorando assim, senti que se movia
Por trás de mim. alguém que me prendia
Os cabelos, e em tom dominador

Perguntava:”Adivinha quem eu sou?”
“A morte”, respondi. E a voz tornou
Num riso claro: “A morte, não. o Amor!”


XLIII
How do I love thee? Let me count the ways.
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the Ends of Being and ideal Grace

I love thee to the level of every day’s
Most quiet need, by sun and candlelight,
I love thee freely, as men strive for Right;
I love thee purely, as men turn from Praise

I love thee with the passion put to use
In my old griefs, and with my childhood’s faith
I love the with a love I seemed to lose

With my lost Saints. --I love thee with the breath,
Smiles, tears, of all my life!—and, if God choose,
I shall but love thee better after death.

e a tradução
XLIII
Como gosto de ti

Como gosto de ti? Deixa contar
Os modos. Com a altura, a extensão
E a largueza da alma, quando vão
seus desejos o Bem a procurar.

Amo-te simplesmente, como o ar
Que respiras. Ao sol, na escuridão,
Com a audácia de um livre coração;
Co´o o pudor que a lisonja faz calar.

Amo-te co´o desejo, com a ânsia
Que na dor tive, com a fé da infância;
Com esse amor que sempre cri perder

Perdendo os meus. Amo-te sempre: andando,
Chorando, rindo, lendo, respirando,
E hei-de amar-te melhor quando morrer.

2 comentários:

daniel.abrunheiro@gmail.com 24 de agosto de 2009 às 15:23  

Olá, T., bom dia. Ando a esboçar uma leitura determinada, de que faz parte isto: II Parte


Souto, Casa, 5 e 6 de Dezembro de 2008,
28 de Março de 2009



Parece que também houve ingleses rendidos a Camões.
Byron conhecia-o, admirava-o e oferecia-o.
Wordsworth citou-o de dignidade a par de Dante, Petrarca e Tasso, quando, defendendo de críticos o soneto como forma poética, invocou Shakespeare, Spenser e Milton.
A poeta Elizabeth Barrett-Browning terá tido em Camões nada menos do que um modelo. Isso se aprende (é uma passagem curiosa) na referência que Agostinho de Campos faz a comunicações feitas circa 1918 por um sócio da Academia das Ciências de Lisboa, o “polígrafo general” Fernandes Costa. Este sócio institui que Elizabeth

“num volume de versos, publicado em 1844, menos de dois anos antes do seu casamento, inseria uma admirável e lindíssima poesia, que intitulou: Catarina to Camões: dying in his absence abroad, and referring to the põem in which he recorded the sweetness of her eyes”.

A citação seguinte é mais longa porque Agostinho de Campos recolhe uma pérola da exegese do conferencista Fernandes Costa. Esta pérola:

“Isto diz Fernandes Costa depois de haver mostrado que aos quarenta e quatro sonetos amorosos de Isabel Browning, intitulados Sonnets from the Portuguese, foi pela poetisa dado êste nome, porque êles se inspiravam no seu amor ao poeta Roberto Browning, com quem mais casou; e ela, por delicadeza compreensível a todos que bem conheçam qual era a sensibilidade dos dois, simulou que os havia trasladado de uma literatura estranha, a portuguesa.”

Neste ponto, que encerra a página XVI da Introdução, Campos cede caneta e tinta ao polígrafo académico da Academia das Ciências de Lisboa:

“É para nós, portanto, mais do que intuitivo (conclui Fernandes Costa); chega quási a ser uma opinião fundamentada, que o conhecimento que Elizabeth Browning possuía de Camões, como poeta lírico e como sonetista amoroso, não foi estranho à sua deliberação de encobrir, com um véu de delicada reserva feminina, as cruas e exaltadas declarações amantes dos seus sonetos, atribuindo supostamente estes a uma literatura, já pelos outros enriquecida.”

Theresa Castello Branco 25 de agosto de 2009 às 16:26  

Que houve ingleses apreciadores de Camões não duvido, o que ignorava é que havia quem associasse os ‘Sonnets from the Portuguese’ a uma influência camoniana. Não tenho capacidade para me pronunciar sobre isso, mas sempre estive convencida que houve inspiração portuguesa, sim, mas através das cartas de Mariana Alacaforado. Estas foram traduzidas para inglês, numa tradução supervisionada por Dryden, e Elisabeth B. Browning decerto as leu. ‘Letters from a Portuguese Nun’. O que são os ‘Sonnets from the Portuguese’ se não uma declaração de amor como a da freira portuguesa?
Espero um dia ler esse seu estudo impresso. Theresa

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